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A conta chegou para Ronaldinho Gaúcho

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Por mais que a passagem de Ronaldo pelo Corinthians seja na eternidade lembrada pelos títulos que conquistou (Paulistinha e Copa do Brasil) e pela visibilidade e pelo dinheiro que levou para o clube, nem ele ficou livre de cobranças da Fiel, é bom lembrar.

Quando o time foi melancolicamente eliminado pelo Tolima na Libertadores, o Fenômeno foi duramente cobrado. Dias depois, anunciou sua aposentadoria.

Se Ronaldo, com todo o brilho e estrela que tem, foi vítima de cobranças sérias, nenhum jogador em atividade pode estar livre delas. Como Ronaldinho Gaúcho não está.

A paciência da torcida do Flamengo com o ex-melhor jogador do mundo acabou domingo depois da atuação apagadíssima no clássico contra o Botafogo, a segunda seguida neste Brasileiro.

O discurso da torcida, então, mudou. Se antes as escapadelas pela madrugada não diziam respeito a ninguém, agora a reclamação da arquibancada é quase uníssona: menos balada, mais futebol.

O moral do ex-melhor jogador do mundo adquirido desde sua chegada foi pulverizado com a eliminação na Copa do Brasil e o começo titubeante de Brasileiro.

Além disso, a questão financeira, começa a incomodar. Se do ponto de vista da habilidade Ronaldinho pode ser comparado a Ronaldo, do ponto de vista do marketing, nem tanto.

Ronaldo sabe ser marqueteiro. Em quase todas as suas entrevistas solta uma frase marcante. Ronaldinho é quase o inverso disso.

Tirando o “Flamengo é Flamengo” dito na sua apresentação, ele nunca mais falou uma frase marcante, sempre dá entrevistas com a cabeça baixa e coloca todas as decisões da sua vida nas mãos de seu irmão e empresário Assis.

Diante deste quadro dentro e fora de campo, o Fla tem dificuldade para fechar um patrocínio de camisa.

Nos momentos em que foi colocado à prova, Ronaldo de alguma forma deu alguma resposta dentro de campo. Quando não conseguiu em campo, muitas vezes utilizou seu poder marqueteiro inigualável.

Este poder, Ronaldinho não tem. Resta a ele voltar a jogar futebol.

Quem será o próximo?

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Não há dúvidas de que Pelé é o personagem que mais combina com a Seleção Brasileira. Sua história se confunde com a história da mais poderosa das seleções nacionais do mundo. Ninguém vestiu a camisa amarela de maneira mais natural e à vontade do que ele. Repare o que aconteceu depois que Pelé tirou de vez a amarelinha do corpo, em 1971: passaram-se muitos anos até o Brasil ser novamente campeão do mundo. Não só isso. Demorou muito tempo até que um jogador combinasse tanto com a Seleção. E Ronaldo combina. Antes que qualquer apressado fale em comparação, Pelé é incomparável. Mas Ronaldo, que despediu-se ontem no Pacaembu, foi o jogador que mais se identificou com a Seleção desde quando o Rei parou. Muitos craques vestiram a camisa amarela, alguns que do ponto de vista do talento não devem ao Fenômeno: Zico, Sócrates, Careca, Reinaldo e outros mais. Pesa contra estes o fato de não terem conquistado uma Copa.  Particularmente Zico, um dos melhores jogadores da história, é mais um ídolo do Flamengo do que da Seleção.A Antes de Ronaldo e depois de Pelé, Romário surgiu como o sujeito a ter a cara da Seleção. Como tem mesmo, com uma Copa do Mundo de 94 carregada nas costas. Porém, pode ser ousadia dizer, mas Ronaldo é mais símbolo da amarela do que o Baixinho. Pelos títulos conquistados, mas também por sua incrível história de superações.  É como a comparação entre Nelson Piquet e Ayrton Senna, ambos geniais. Romário está mais para Piquet, Ronaldo está mais para Senna no coração dos brasileiros. Dentro de campo, Ronaldo já deixou um vácuo na Seleção que até agora não foi preenchido, o da vaga de centroavante. Adriano, Luís Fabiano e outros bem menos talento-sos usaram a 9, mas não o substituíram à altura. Após se despedir ontem, o Fenômeno abre outra lacuna: a de craque que confunde sua história com a da Seleção Brasileira. O time de Mano Menezes pode levantar a taça do mundo em casa em 2014. Neymar, Ganso e outros  jogadores poderão ser campeões. Mas qual deles envergará, além disso, o rótulo de jogador que combina e representa perfeitamente o Brasil?

Ronaldo deixa um buraco

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dias depois do título mundial de 94, uma reportagem de Tino Marcos, da TV Globo, apresentava duas figuras que, em tese, garantiriam futuro tranquilo para o ataque brasileiro nos anos seguintes.

A reportagem focava em dois jogadores da campanha de 94 que pouco ou nada apareceram em campo: Viola e… Ronaldo.

O primeiro entrou na prorrogação da final contra a Itália e deu uma incrível arrancada no ataque que quase resultou no gol do título. Dá para imaginar como a história seria contada de outra maneira se o gol tivesse acontecido? Mas não aconteceu e Viola é hoje na história o único tetracampeão ainda em atividade.

O segundo… Bom, tudo o que você gostaria de saber sobre Ronaldo já leu na internet, em jornais, viu na TV e ouviu em rádios desde domingo. Ele encerrou a sua brilhante carreira segunda-feira.

Como tudo o que poderia ser dito sobre o Fenômeno já foi, o assunto aqui é o vácuo que ele deixa no futebol brasileiro.

Com o fim da carreira de Ronaldo, morreu o último representante de uma linhagem de atacantes que garantiu ao Brasil ter um craque, com C maiúsculo, em seis Copas do Mundo seguidas.

Vamos a eles: 86 (Careca), 90 (Careca), 94 (Romário), 98 (Ronaldo), 2002 (Ronaldo) e 2006 (Ronaldo, aqui já muito fora de forma, mas ainda Ronaldo).

Luís Fabiano, nosso camisa 9 de 2010, é um fabuloso atacante, mas em um nível abaixo de seus antecessores, sem dúvida.

Além de uma certa tristeza e da constatação de que o tempo é um inimigo invencível, a aposentadoria de Ronaldo também nos dá um certo frio na barriga, porque mergulha o futebol brasileiro (mais precisamente o ataque) em uma era de incertezas.

Até o momento não despontou nenhum novo centroavante para envergar a camisa 9 na Copa do Mundo do Brasil, daqui a três anos. Quer dizer, um camisa 9 do nível dos que vimos entre 86 e 2006.

A própria Seleção sub-20 que brilhou no Sul-Americano semana passada não apresentou ao mundo nenhum atacante de área especial.

Mano Menezes sabe disso e está procurando o seu centroavante. Já testou Hulk para a posição, por exemplo. Assim como Dunga descobriu Afonso Alves, descartado logo depois por razões óbvias: ele não era o novo Ronaldo, nem Luís Fabiano. Era muito menos, como o tempo se encarregou de mostrar.

Dias depois da final da Copa de 94, Tino Marcos apresentou dois jogadores. Um deles de fato garantiu tranquilidade para o ataque brasileiro nos anos seguintes, nos dando um título mundial e um vice-campeonato.

Diante desse momento de incerteza que a aposentadoria de Ronaldo desperta, tudo o que se deseja é que Tino Marcos apareça na TV novamente para mostrar candidatos à camisa 9 da Seleção. Quem sabe ele não acerta outra vez?

Craques apenas dentro de campo

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Esta é a minha coluna publicada nesta quarta-feira (29/09) no Diário LANCE!. Dê o seu pitaco sobre ela.

De tão raro, quando alguém ligado ao futebol se coloca claramente contra as mazelas do esporte a coisa ganha eco. Foi o que aconteceu com Luís Felipe Scolari, que usou o microfone para reclamar (e com toda a razão) dos gramados a que os jogadores têm sido submetidos neste Brasileirão.

São reclamações que fazem muito bem, principalmente quando saem da boca de alguém de peso como o técnico palmeirense. Talvez nenhum treinador brasileiro atualmente tenha tanta respeitabilidade. Declarações assim abrem os olhos de todos para a questão e o assunto passa a ser discutido.

Felipão está longe de ser um militante contra os problemas do futebol. Embora sempre tenha sido bem direto em suas entrevistas, raramente levantou este tipo de assunto em público.

O treinador não é exceção, mas regra. No Brasil, muito poucas estrelas utilizam sua importância para levantar temas assim.Em nosso país, a rebeldia está muito mais ligada à quebra de hierarquia, malandragem e à  indisciplina rasteira do que a questões mais de fundo.

Não à toa, nossos rebeldes são Romário, Edmundo, Renato Gaúcho e agora até Neymar.

As declarações fortes desta turma nunca têm profundidade. As frases famosas de Romário normalmente são algum tipo de brincadeira que faz sucesso porque viram notícia na mídia, para delírio da turma, que repete: “o futebol está muito chato, precisamos de mais gente assim.”

Por outro lado, você já viu alguma vez algum destes astros na liderança de alguma reinvindicação mais séria para a classe?

Ronaldo, o maior artilheiro das copas do mundo e atualmente o maior astro em atividade no futebol brasileiro nunca se meteu a falar sobre os problemas do nosso futebol.

Quer dizer, uma vez reclamou quando um repórter desastrado acertou um microfone na sua cara. Aí, ele comparou e disse que na Europa as coisas são mais organizadas.

Reclamar só quando é atingido é muito pouco para um ídolo do quilate de Ronaldo Fenômeno. Imagine a contribuição que ele poderia dar ao esporte se fosse mais engajado.

Os nossos jogadores estão atuando em campos que são verdadeiro moedores de joelhos e tornozelos, mas custou para alguém reclamar em voz alta disso.

E a letargia não é privilégio só de quem joga. No Flamengo, torcedores preferem ameaçar jogadores e comissão técnica na porta do vestiário em vez de estar ao lado deles e reclamar contra quem fecha o Maracanã e permite essa tortura.

O Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol nem sequer veio a público para reclamar dos nossos gramados até agora.

Como bem disse Felipão, estamos felizes por sediar a Copa de 2014, mas até lá viveremos este caos? Pena que a reclamação dele é uma exceção. Nossos astros deveriam ser mais craques também fora de campo.

Twitter: @etironi