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Arquivo da Categoria ‘Copa do Mundo’

O Maraca e a casa da minha avó

domingo, 28 de abril de 2013

Minha avó tinha o hábito de, de tempos em tempos, mudar a disposição de todos os móveis da sala. A estante da TV mudava de parede, o sofá também, a mesa de centro virava mesa de canto, o vaso de cerâmica saia de um lugar da sala e ia para outro. Ainda criança, todas as vezes que eu era surpreendido com uma mudança dessas tinha a impressão de que estava entrando em outra casa. Até me acostumar.

Esta sensação que havia me deixado ainda na infância voltou a me encontrar ontem assim que vi pela primeira vez o Maracanã por dentro após a reforma. O endereço é o mesmo, não há dúvida. Mas tudo é diferente: cadeiras em toda parte, enorme área vip, cobertura diferente, telões aqui e ali. Cadê a geral? Está coberta por cadeiras. Para que lado é a entrada do Bellini? E a da Uerj?

Eu só conheci o Maracanã depois de adulto. Portanto, não dá para dizer que ele tenha me acompanhado durante toda a vida. Mas vi, e bem, o estádio que existia ali antes desta reforma que engoliu até agora quase R$ 1 bilhão. E ele não tem nada a ver com este “reinaugurado” ontem com os operários que trabalharam na obra na arquibancada. E também com pompa, área vip, comidinhas, bicões, novos ricos, influentes e, registre-se, muitos funcionários, educados e prestativos.

O novo Maracanã tem aquele jeitão de estádio europeu, com muito conforto. E vamos combinar que todo mundo gosta de conforto. Neste aspecto, ponto para ele. Mas quem tem alguma ligação afetiva com o estádio não consegue enxergar ali o mesmo local que fez parte de sua vida. O torcedor que um dia chorou pelo seu time, se ontem se sentasse exatamente no mesmo lugar, não conseguiria conectar passado e presente.

A experiência de se ver uma partida no novo Maracanã a partir de agora tem de ser muito interessante, diferente, agradável e inédita. Porque a emoção que o velho Maracanã deu a seus torcedores ficou na história e nunca mais será revivida.

A casa da minha avó nem existe mais. Se outra for constrúida no mesmo endereço não vai trazer a minha infância de volta. Que o conforto, modernidade e o luxo do novo Maracanã traga aos futuros torcedores histórias inesquecíveis.

O Superbowl e o complexo de vira-latas

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Beyoncé tinha acabado de sair do palco e o público, no mundo todo, ainda estava espantado com o espetáculo. Os jogadores voltavam ao campo quando… acabou a luz no Super Dome em Nova Orleans. Um mico colossal no evento esportivo mais valioso, profissional e midiático do planeta.

O que se viu depois disso nas redes sociais foi tão espantoso quanto: um prazer quase carnal de ver o evento global escancarar uma falha tão grandiosa. Uma sensação de alívio, uma licença, quase um passe livre para qualquer tipo problema nos eventos que vamos sediar aqui em 2014 e 2016.

Não surpreende que a turma que trabalha na organização da Copa e da Olimpíada use este discurso criminoso para limpar sua própria barra: “Falhas acontecem até no Syuperbowl!”, vão dizer. O que surpreende são as pessoas que pagam por isso (o contribuinte em geral) adotarem a mesma conversa até com um certo orgulho.

Orgulho deveria ser mostrar na Copa e Olimpíada que o Brasil pode fazer bem feito. E não apenas se satisfazer de antemão com o fato de que os outros não fizeram.

Genial, Nelson Rodrigues batizou de “Complexo de Vira-Latas” a maneira como os brasileiros se colocam em posição de inferioridade sobre tudo o que vem de fora. Talvez nem ele um dia desconfiasse que uma nova modalidade deste complexo viria a surgir: a de enxergar micos tipo o do Superbowl como uma forma de aproximar o primeiro mundo do Brasil.

O país da Copa e o país da danceteria Kiss

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Desde o dia em que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa de 2014 e olimpíada de 2016, o discurso de políticos e cartolas é um só: “Vamos mostrar ao mundo que podemos organizar eventos grandiosos como estes”.

E a partir disso gastamos o dinheiro que for necessário para mostrar lá fora do que somos capazes.

O problema é que esquecemos que além do Brasil-exportação temos o nosso Brasil do dia-a-dia. Das mazelas, do jeitinho, da impunidade, das muitas leis e da nenhuma eficácia… o Brasil escancarado na tragédia de Santa Maria.

A sexta, quinta (sei lá), economia do planeta pretende mostrar que consegue fazer uma Copa, dois anos depois uma olimpíada. Mas não consegue esconder que é incapaz de fazer uma casa noturna cheia de jovens ter um sistema de emergência eficiente. Nem consegue impedir que um local funcione sem alvará.

Emblemático que mais de 200 jovens morram queimados ou asfixiados faltando 500 dias para a Copa do Mundo. Revela a presença de dois países em um só: o que vai mostrar ao planeta que está pronto para entrar no grupo dos mais ricos e, ao mesmo tempo o outro que só consegue chorar pelos seus jovens mortos. O primeiro Brasil vai satisfazer o mundo lá fora. Só nós brasileiros sabemos a dor de viver no segundo Brasil.

O absurdo da torcida única no novo Mineirão

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A inauguração já foi estranha: sem jogo, com camisas de clubes proibidas na torcida, mas com show do Jota Quest. Agora, a primeira partida de futebol no Mineirão reformado para a Copa terá torcida única. Será dia 3 de fevereiro no clássico Cruzeiro x Atlético-MG pelo Campeonato Mineiro. Só cruzeirenses no estádio. Lamentável.

Se alguma coisa justifica a dinheirama que está sendo gasta nos estádios da Copa do Mundo é que teremos estádios modernos depois de 2014. Estádios novos, torcedores tratados como consumidores e voltando às arquibancadas, formando um círculo virtuoso. Uma nova era no futebol brasileiro começará! Começaria, porque a corrente será quebrada já na primeira oportunidade de se mostrar um novo modo de pensar e gerir o negócio.

A justificativa da torcida do Cruzeiro é a de que o Atlético-MG, quando mandar seus jogos no Independência, também terá torcida única. Assim, contragolpeou na mesma moeda.

Uma situação dessas vai além da rivalidade entre os clubes. É assunto para a Federação Mineira de Futebol e a CBF intervirem. E cobrarem do Estado segurança para os torcedores. Está em jogo uma mudança nos hábitos do torcedor brasileiro.

Famosos por embates violentos entre as torcidas de Atlético-MG e Cruzeiro, Minas perde uma chance enorme de acenar para o país que os novos estádios trarão de fato a paz. Quando se proibe duas torcidas de conviverem, é sinal de que a casca está bonita, mas a estrutura segue podre por dentro.

Felipão pode trazer a Copa. Mas não vai trazer nosso futebol

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Felipão volta ao comando da Seleção Brasileira. Vai ganhar a Copa? Não faço a menor ideia, mas eu sei exatamente qual será o nosso discurso assim que acabar o mundial de 2014. Será o seguinte: “Agora, temos que resgatar a essência do nosso futebol”.

É assim desde 1994, quando a Seleção de Parreira encerrou um longo jejum de títulos, sem mostrar um futebol bonito que emplogasse de fato. Este, deu as caras pela última vez em 1982, nos tempos de Telê Santana.

O comando do futebol brasileiro se especializou neste discurso de jogo bonito. E se especializou em não dar a menor chance para que isso aconteça. Guardiola? quase fecharam as fronteiras do país para que ele não entrasse aqui. E se fosse necessário, os técnicos brasileiros empunhariam um fuzil e se pintariam de soldado camuflado para impedir esta invasão estrangeira ao país pentacampeão do mundo.

Há menos de dois anos da Copa, o negócio é trazer o caneco de qualquer maneira para não passar novamente o vexame de ver os outros fazerem festa em nosso quintal. Modo de jogar, essência do nosso futebol, nada disso entra em discussão nesta hora. Isso vira assunto para depois que a Copa acabar, vira assunto para um outro momento, pra amanhã, pra depois. Como sempre desde 1994.

Felipão pode trazer a copa. Viva! Só não vai trazer o nosso futebol.

Era o Iraque, mas…

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sim, era o Iraque. Mesmo com a inspiração de um Zico, mas era só o Iraque. Então, não dá muito para avaliar a FORÇA da Seleção. Mas dá pra avaliar CONCEITOS que estão sendo testados. E estes, são interessantes.

O time que entrou em campo hoje com Kaká, Oscar, Neymar e Hulk, sem um centroavante fixo é diferente do futebol que a maioria pratica no Brasil. Valoriza o toque de bola e, tirando alguns poucos nomes que estão fora, é o que de melhor temos.

Os dois primeiros gols saíram graças à ótima movimentação do quarteto. Nas duas vezes, o falso centroavante do time (Neymar) saiu da área, buscou o jogo e serviu primeiro Oscar e depois Kaká.

Kaká, aliás, voltou bem à Seleção. Eu sei, era o Iraque e isso deve sempre ser lembrado. Mas como papel de líder de um time muito jovem, ele poderá funcionar.

Era o Iraque, era o Iraque, era o Iraque. Isso deve ser repetido como um mantra. Mas conceitualmente, a Seleção que jogou hoje é boa. A dúvida está no seguinte: o conceito terá força para enfrentar adversários mais difíceis? Só dá para saber de uma maneira: enfrentando adversários mais difíceis.

O melhor da Seleção na quarta-feira foi…

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pegando tudo o que aconteceu no dia 19 de setembro, a Seleção Brasileira teve ao menos uma boa notícia. Detalhe é que ela não apareceu em Goiânia na suada contra Argentina no tal “Clássico das Américas”. Mas algumas horas antes disso.

Foi o golaço de Oscar em sua estreia na Liga dos Campeões da Europa. Em um jogo enorme (Chelsea x Juventus, só isso), pelo campeonato de clubes mais importante do mundo, atuando com a camisa do atual dono do título.

Se a estrela de Ganso com a camisa amarela vai desaparecendo cada vez mais, a de Oscar vai brilhando. Se do time que jogou contra a Argentina Mano vai aproveitar poucos para a Copa do Mundo, na Europa desfilou o cara que deu mais um passo para ser uma certeza do time brasileiro.

Primeiro jogo, é claro. Como todo garoto, Oscar pode alternar grandes e discretos momentos. Assim como Lucas, Neymar e outros meninos do time. Mas se alguma coisa foi positiva na quarta-feira da Seleção Brasileira, ela foi Oscar, que nem em campo com a camisa da Seleção estava.

Vaia para a Seleção não envolveu paixão

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O futebol nanico apresentado pela Seleção contra a África do Sul justifica toda a vaia que se ouviu no Morumbi. Time sem variação de jogadas, lento, sem alternativas, burocrático.

A introdução acima é para não ser mal-interpretado a partir de agora, ao falar sobre as vaias.

A primeira questão é como classificar as pessoas que estiveram no Morumbi. Quando se fala “torcedor” existem vários tipos: o fanático pelo seu time, o fanático por futebol, o que asssite jogo só pela TV e só aparece quando o time ganha, o que não liga, mas torce na Copa… enfim.

Das mais de 50 mil pessoas presentes ao Morumbi, aposto que nem 10% é fanática pela Seleção. Ninguém ali saiu chorando de campo, o feriado de ninguém acabou por conta da apresentação ruim (ok, era só um amistoso). Mas assim que o juiz apitou pela última vez, acabou a ligação daquelas pessoas com a Seleção.

A grande maioria das pessoas que esteve no Morumbi “comprou” por, no mínimo R$ 80, uma diversão no feriado. Vaiou porque não foi tão divertido como ele exigia. O espetáculo foi chato, não teve goleada… nem a camisa amarela tradicional a Seleção usou. Aí, ele se manifestou vaiando. Vamos dizer que foi uma versão não-virtual do “xingar muito no Twitter”.

A tal aproximação da torcida com o povo, prometida por Ricardo Teixeira assim que a Copa de 2010 acabou, ficou só no discurso. Na era Mano, foram apenas QUATRO jogos em território nacional. A relação da torcida com a Seleção se deteriora ano a ano. Não há mais identificação nem orgulho de sermos os melhores (porque não somos mais). Assim, não há paixão que nasça, não há paixão que resista.

Tem gente que fala: “quer espetáculo vá ao teatro”. A maior parte do público do Morumbi pensou exatamente isso: exigiu ser recompensada pela fortuna que pagou. É justo. Mas a vaia não envolveu paixão, foi só um grito por um direito.

Ganhar ou encantar: o que o brasileiro quer do Brasil em 2014?

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Para quem acha que o importante é ganhar, não importa como, este post vai provocar urticárias. E a discussão aqui é a Seleção Brasileira.

O que vale mais? Vencer a qualquer custo, ou jogar um bom futebol, mesmo que a vitória não venha? E aí, chegamos à situação de Mano Menezes. Seu time não engrena, os resultados não vêm. Já são dois fracassos importantes: a Copa América e a Olimpíada. Em amistosos, padecemos contra rivais mais fortes, ganhamos dos bem mais fracos e só.

Aí, chegamos à questão central: o que incomoda as pessoas? A falta de resultados do time de Mano ou de um futebol que nos agrade?

A se julgar pelos nomes ventilados como soluções para o problema da Seleção, o que queremos é ganhar, não importa como. Felipão e Muricy, vencedores sem dúvida, não darão ao Brasil um futebol à la Barcelona, vamos dizer. Eles podem nos dar o título em 2014. Se apenas isso importar, a discussão está encerrada: tchau, Mano, venha Muricy e seu muricibol das bolas paradas, defesa sólida, ligação direta defesa/ataque, chutões pra frente, vitórias magras, gols de bola aérea. Ou venha Felipão, da família, da briga, do sofrimento, da pegada, do jogo mascado, das muitas faltas por jogo, que vence no limite.

O time de Mano faz muito mais do que isso? Ao menos o técnico tenta implantar uma filosofia de mais toque e valorização da posse de bola, domínio das ações, imposição do jogo. Se não consegue fazer (e muitas e muitas vezes não consegue mesmo) é outra história. E, vamos admitir, quando pressionado, Mano valoriza mesmo é a vitória, venha como ela venha.

A substituição de Mano Menezes do comando da Seleção não deveria ser simplesmente a troca do técnico para salvar a Copa de 2014. A discussão deveria estar ligada ao tipo de futebol que queremos ver em nossa Seleção. Muricy e Felipão podem nos tazer o título no Brasil. Mas quando o árbitro apitar o fim da decisão, com vitória brasieira, estaremos felizes ou apenas aliviados?

Esta é discussão. E aí, o que você acha?

Perder o ouro no futebol é o de menos

sábado, 11 de agosto de 2012

O futebol sempre foi um torneio meio descolado de todo o restante do programa olímpico. Nos últimos anos, quando foi permitida a presença de qualquer jogador com menos de 23 anos e mais três com mais, a distância se acentuou. Nada contra Neymar e companhia, mas eles não têm muito a ver com os outros, que ficam hospedados na Vila Olímpica, que sofrem muito para conquistar uma medalha… enfim, essas histórias heróicas que vimos aos montes nos últimos dias.

Curiosamente, não tenho o mesmo sentimento com relação ao basquete dos Estados Unidos, que também leva seus astros milionários para os jogos. Provavelmente porque o futebol está mais perto do meu cotidiano do que o basquete. Mas admito que a situação é bem parecida.

Mas voltando ao futebol: do ponto de vista de conquista olímpica, o triunfo do futebol para mim não acrescenta muita coisa pelo dito acima. Ele é um torneio meio à parte. Além disso, a vitória não comprovaria o sucesso de uma política esportiva da modalidade, de organização, nada disso. Se vencesse, seria obra do talento natural de nossos jogadores. Assim, é mais fácil se emocionar com a vitória de Arthur Zanetti das argolas do que de um punhado de jogadores ricos, que praticam o esporte mais popular e de maior investimento do país. Repito: nada contra Neymar e companhia e o sucesso na carreira e financeiro de cada um deles.

O problema da derrota, para mim, é outro: quando a Seleção Brasileira não conquista o primeiro lugar em um torneio sem NENHUM grande time e quando sofre contra adversários como Honduras… o sinal de alerta se acende. Porque este time do Mano que perdeu neste sábado, com poucas mudanças, será o nosso time daqui a dois anos na Copa.

Sim, os jogadores estarão mais maduros, o time estará mais entrosado e muita coisa pode mudar. O problema é que a evolução vista até agora de nosso time, olímpico ou não, é muito tímida. Para complicar, há uma pergunta difícil de ser respondida. Se Mano sair, quem deve assumir? Pensamos um pouco e vemos que não temos NENHUM grande técnico no país. Temos alguns bons, verdade, mas não temos nem unanimidade nem maioria nas sugestões. Ou estou enganado?