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Arquivo de julho de 2011

Clubes deveriam formar cidadãos

terça-feira, 26 de julho de 2011

Uma voadora precisa no pescoço de um jogador da base do Vasco provocou reação uníssona em redes sociais, TVs, rádios, etc: punição severa para Gustavo, goleiro do Sport, responsável pelo ato covarde.

A puniçao veio: em vinte minutos a direção do clube de Pernambuco divulgou nota demitindo sumariamente o dublê de assassino. Pronto, a justiça foi feita!

Este espaço não pretende defender o indefensável ato muito menos seu autor, no mínimo um irresponsável. Mas diante de tal barbaridade, algo origatoriamente tem de entrar em discussão: o que os clubes estão fazendo em suas divisões de base?

Vivemos em um país com gravíssimas deficiências de educação, ainda que o país tenha crescido muito nos últimos anos. E educação é questão elementar para o sucesso de uma nação.

Em um cenário como este, clubes não deveriam apenas formar jogadores de futebol, mas ajudar na formação educacional destes moleques, cada vez mais preocupados com o tamanho do moicano e a conta bancária e menos com valores de cidadania.

Gustavo pode ter tido uma educação primorosa em casa e aprendido valores dos mais altos no Sport ou em outros clubes por onde passou.

Aí, estaremos diante de um caso de curto-circuito mental, que provocou seu ato selvagem.

Por outro lado, ele pode nunca ter sido orientado sobre regras da vida em sociedade e chegado ao jogo contra o Vasco acreditando que qualquer um que não seja Sport é inimigo. Deu no que deu.

Em nosso futebol, desde as primeiras categorias, ganhar passou a ter mais importância do que se desenvolver, brincar, se divertir (quando isso é o que crianças devem fazer). Cada vez mais cedo jovens atletas carregam o peso de garantir o sustento não só seu, como da família.

Há alguns anos os clubes usaram o argumento de sua função social (entre outros) para ter a Timemania, loteria que renegociou dívidas milionárias com o governo. Então, que eles ajudem não só na formação de jogadores, mas de cidadãos.

Olhos verdes na mulher feia

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Uma psicóloga esportiva de um grande clube do Brasil contou a seguinte história: um jogador da base do time, que tinha salário de R$ 1.500 no máximo, subiu para o profissional e, no pra-zo de um ano, passou a ter vencimentos de R$ 120 mil.

Sua primeira compra foi um carro. No valor de R$ 120 mil. Assim, sem planejar o mês seguinte, quanto mais o futuro a médio prazo.

A história acima explica como dinheiro pode tirar pessoas de seu juízo normal. E não é necessário ser jogador de futebol para sofrer isso.

Pense você, caro leitor, ter seus rendimentos aumentados em 8.000% no prazo de um único ano?

Essas loucuras podem acontecer também com instituições. E a conversa aqui é por conta do aumento considerável do poder aquisitivo dos clubes brasileiros. Sim, os clubes brasileiros estão mudando de patamar.

Dinheiro é bom, ninguém é louco de dizer o contrário. E, em situação normal, ele é solução e não problema. Mas pode virar problema se não souber como utilizá-lo. Ou pode se tornar inócuo se as condições gerais do ambiente não acompanharem o ritmo de fartura.

É razoável gastar uma bolada assustadora até para o milionário futebol inglês em apenas um jogador, no caso do Tevez?

Ou o mesmo dinheiro poderia ser utilizado para melhorar a estrutura da base ou contratar outros jogadores menos midiáticos, mas que dariam uma homogeneidade maior ao elenco?

Dinheiro abundante, como mostra o exemplo lá de cima, pode nos fazer enxergar apenas no curto prazo.

Há outro ponto que não se resolve com dinheiro: a estrutura das instituições. A bolada recebida por nossos clubes pode não ser nem sentida, se o futebol aqui dentro não evoluir.

Estádios melhores, leis contra a violência e corrupção sendo cumpridas, calendário mais organizado são exemplos do que não temos e do que o dinheiro dos clubes não resolverá.

Ter muito dinheiro em um futebol com a estrutura caindo aos pedaços é como olhos verdes lindos em uma mulher feia. Ou dente de ouro
na boca cheia de cáries.

Seleção: o elenco é esse. A paixão diminui

domingo, 17 de julho de 2011

O gramado era ruim, o goleiro adversário jogou muito, o Brasil perdeu uma quantidade absurda de chances. Tudo é verdade. Mas isso não alivia em nada o vexame que passamos na Copa América, um dia depois de boa parte da torcida brasileira rir à toa com a eliminação argentina (não foi o meu caso).

Analisando friamente, em quatro jogos o Brasil jogou bem cerca de 30 minutos contra o fraquíssimo Equador. Criou chances, mas não conseguiu furar o bloqueio paraguaio. Volta pra casa de cabeça inchada e com as barbas se preparando para entrar no molho.

O período é de renovação, Mano Menezes teve ainda pouco tempo para trabalhar. Tudo isso pode ser levado em conta. Porém, o elenco é esse aí. Ou alguém consegue achar uma grande injustiça nesta convocação? Alguém que pudesse mudar nosso destino na terra dos hermanos?

Há tempo para evoluir. Não dá ainda para duvidar da capacidade desta geração, Neymar e Ganso principalmente.

Mas é necessário colocar este time para rodar, treinar, enfrentar adversários duros. E ver no que vai dar.

Muito se fala da falta de sintonia que a Seleção Brasileira tem com a torcida e como a paixão pela amarela vem diminuindo rapidamente ano após ano.

Só há um jeito deste fogo renascer: com um time que jogue bem e encante. Isso é diferente de ganhar.

A Seleção de Dunga ganhou tudo até a Copa de 2010 e nem por isso caiu nas graças do povo brasileiro.

A questão aqui é encantar. Se a Seleção de Mano tivesse feito uma primeira fase boa, jogado como jogou hoje e, num sopro de azar, fosse desclassificada, a derrota teria sido mais doída. Mas exatamente o sofrimento de perder jogando bem poderia ajudar trazer a Seleção para dentro de nossos corações novamente.

Do jeito que foi, o torcedor passa a borracha e vai cuidar da sua vida sem nem sequer discutir a eliminação.

No fim, ele só lembra mesmo que o Brasileirão terá seus princi-pais jogadores de volta agora que a Seleção se desmanchou. E acaba vendo vantagem nisso.

Papai Noel existe

terça-feira, 5 de julho de 2011

A maior decepção da minha infância foi quando descobri que Papai Noel não existia. (Se alguém que lê esta coluna acreditava nele, lamento… mas ele não existe).

Foi a primeira grande sensação de desesperança que lembro ter sentido. A primeira vez que senti de verdade que o mundo nem sempre é do jeito que se deseja e que a gente pode ser enganado pelas aparências.

Cesar Cielo pode ter sido vítima de negligência da farmácia, do azar, de alguma trapaça, do que quer que seja. Por enquanto ele foi só advertido pela CBDA (Confederação Brasileira de Desportes Aquáticos).

Seu caso está sendo avaliado pela Fina (Federação Internacional de Esportes Aquáticos) e pela Wada, a Agência Mundial Antidoping.

Até prova em contrário, ele é inocente e torço por isso.

O que não me impede de sentir uma ponta de desesperança com o esporte em geral.

Curioso como ele tem o poder de transformar homens barbados em crianças alegres com cada vitória conquistada. E como ele nos decepciona como crianças manhosas quando nos coloca dúvida sobre a honestidade que é praticado.

E o doping tem papel central nisso: é ele que nos tira a paixão e nos enche de desconfiança. E ainda cruelmente nos inclina a julgar todos os “dopados” de uma mesma maneira: como aquele que tira alguma vantagem de forma ilícita.

Mesmo que Cielo seja inocente nessa história e, de novo, eu torço muito para isso, sempre haverá alguém a dizer que ele é trapaceiro.

Só um atleta de alto rendimento sabe como é viver sob intensa pressão. Ele está no fio da navalha todo o tempo, com rígidos controles de alimentação, de ingestão de remédios, etc.

Além da pressão por resultados.

Nosso maior nome do esporte na atualidade pode não ser punido e seguir subjugando adversários e pulverizando recordes nas piscinas.

Que bom que seja assim!

Mas seu caso coloca de novo dúvida sobre a lisura das disputas esportivas. Como aquela que se tem quando ainda se crê em Papai Noel, mas já desconfia que ele não exista.