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Arquivo de abril de 2011

A lógica do cada um por si

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Na cabeça dos dirigentes, a lógica é a mesma da questão dos direitos de transmissão: a rivalidade que existe dentro de campo passa para fora dele. Assim, Corinthians x Palmeiras vão decidir uma vaga na final do Paulista no Pacaembu para cerca de 30 mil pessoas.

Poderia ser no Morumbi para o dobro de público. Mais renda, mais dinheiro para todos (até para o São Paulo, que alugaria o estádio) e mais gente podendo assistir à partida ao vivo.

A fim de não quebrar um pacto de alguns anos entre Palmeiras e Corinthians de não mandarem mais clássicos no Morumbi, a diretoria alviverde preferiu contrariar seu técnico Felipão e parte de seus jogadores, que saíram de campo domingo falando que o Pacaembu é a casa corintiana.

Para amenizar, os cartolas destinaram 5% apenas de público para o rival alvinegro. O Palmeiras abriu mão de um desejo de jogadores e técnico por um acerto de bastidores.

Capitaneado por Andrés Sanchez, o pacto nada mais é do que uma forma de retaliar o São Paulo, inimigo público número 1 do Corinthians. O Palmeiras, ainda nos tempos de Belluzzo, entrou nessa. Na última segunda-feira, a atual diretoria alviverde apenas deu sequência a ele.

Pode ser muito prazeroso para o torcedor corintiano bater no peito e dizer que não joga no Morumbi, como gosta de dizer Andrés Sanchez. É o chamado “jogar pra galera”.

Mas é evidente que um estádio para mais gente é melhor para o torcedor e gera mais renda. Mas na lógica torcedora da cartolagem isso não interessa. O melhor é tentar prejudicar o rival por trás do palco.

A decisão do local da semifinal do Paulista segue à risca o modo de operação padrão da cartolagem dos clubes brasileiros, que não entende o futebol como um negócio, mas como uma coisa de torcedor.

Ou, em outras palavras, não entende que o Corinthians perde força se não existir o Palmeiras ou o São Paulo. Ou que o Flamengo perde força sem o Vasco ou Fluminense, para ficar em alguns exemplos.

Para os dirigentes, a vontade de golear o maior rival na final da Libertadores é da mesma intensidade de vê-lo fraco financeiramente e com poucas condições de competir.

Pouco importa o negócio e também o que pode ser melhor para o torcedor. E no final das contas, negócio e torcedor são as coisas que importam.

Esta forma de ver o futebol apareceu também na questão da disputa pelos direitos de transmissão. Cada um resolveu negociar separadamente achando que ganhariam mais do que o rival.

E todos deveráo ganhar menos do que poderiam se sentassem à mesa em bloco.

A rivalidade é a alma do esporte e do futebol. Mas o profissionalismo é o que sustenta a estrutura. O profissionalismo que falta aos drigentes.

Preconceito tolerado

terça-feira, 5 de abril de 2011

Semana passada o Brasil inteiro se revoltou com uma banana atirada no gramado do Emirates Stadium durante o amistoso entre Brasil x Escócia.

A linha do discurso foi o de que ocorreu um ato preconceituoso altamente condenável.

Do lado brasileiro, o esforço para transformar os europeus em geral em um povo racista. (Há tantos racistas lá como há aqui, garanto).

Do lado britânico, o esforço inverso. Até que acharam um adolescente alemão que teria sido o responsável por atirar a fruta no campo.

Depois de chiadeira de um lado e explicações meio capengas de outro o caso acabou encerrado. Mas antes disso repercutiu fortemente. Brasileiros se sentiram atingidos com aquele ato.

No entanto, outro tipo de ato discriminatório ainda causa pouca indignação por aqui.

Principalmente porque normalmente palcos esportivos (campos de futebol sobretudo) são lugares em que o desrespeito com o próximo é muito mais tolerado e porque ainda há muito machismo envolvido.

Tudo em nome da paixão que o esporte provoca e, claro, graças à total omissão do poder público. Trata-se do preconceito por orientação sexual.

O último ato foi sofrido por Michael, meio de rede da equipe Vôlei Futuro, que disputa a Superliga.

Na sexta-feira, ele foi duramente discriminado durante a partida de seu time contra o Sada/Cruzeiro em Contagem. Chamado de “bicha” o jogo todo até por senhoras e crianças, deu entrevista ao LANCE! contando o que sentiu.

Ontem, Michael admitiu publicamente ser homossexual.

Não é menos preconceituoso discriminar um homossexual do que discriminar um negro. Mas tem gente que acha. Assim, o preconceito por orientação sexual é amplamente tolerado.

Em sua passagem pelo São Paulo, o volante Richarlyson foi humilhado por torcedores rivais e até por parte da própria torcida, que não gritava seu nome no estádio. Em determinada ocasião ele foi ameaçado fisicamente.

Tudo porque havia colocado um aplique no cabelo durante as férias.

O atual jogador do Atlético Mineiro nunca admitiu ser homossexual, o que não diminuiu o tipo de humilhação sofrida.

Pouco importa se a pessoa atingida não se importa com o ataque. Ocorre é o que acontece.

A única diferença entre o preconceito racial e o por orientação sexual é que o primeiro é explícito e literal. Quando se chama um negro de macaco é por uma relação maldosa com a cor de sua pele.

Um homossexual pode não ter uma característica aparente. Por isso é que agressores se sentem à vontade. Afinal quando se xinga um árbitro de bicha não é preconceito, apenas uma “brincadeira de estádio.”

Agora, chamar Paulo Cesar de Oliveira de “preto” é preconceito. A verdade é que as duas coisas são inaceitáveis na mesma medida. Mas têm pesos distintos porque autoridades do esporte e até o público trata dois casos idênticos com gravidade muito diferentes.