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Arquivo de outubro de 2010

Pênalti virou protagonista

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Depois de Neymar ter desperdiçado o chute contra o Grêmio Prudente e de a dupla Conca/Washington disputar para ver quem cobraria contra o Atlético-PR, os pênaltis voltaram a dominar o noticiário pós-rodada do fim de semana.

A mais fatal das marcações do futebol tem aumentado a cada dia sua importância.

Tanto que é impressionante o esforço que jogadores fazem para conseguir a marcação de um pênalti para seu time. Às vezes, maior até do que a de se fazer um gol.

O escritor canadense Adam Gopnik diss: “O método mais comum de conseguir um pênalti (…) é entrar na área com a bola, ser soprado e imediatamente desmaiar (…) com braços e pernas estendidos, enquanto você rola de agonia e suplica por morfina. Seus colegas franzem o cenho pela perda trágica de uma vida tão jovem. O árbitro cai nessa com mais frequência do que se imagina. Depois do jogo, a discussão sobre se ele se jogou ou foi empurrado dura horas.”

Gopnik assistiu à Copa de 98 pela TV e escreveu para a revista “New Yorker”, como conta o livro “Soccernomics” (Simon Kuper e Stefan Szymanski).

Porém, depois de conseguir um pênalti, alguns jogadores têm se esforçado para fazer o mais complicado (e menos recomendável) nas cobranças.

Montillo inventou uma cavadinha e ajudou na derrota de seu time para o rival Atético-MG.

Neymar perdeu sua décima cobrança em 16 tentativas, um número alto. Depois da proibição da paradinha, pênaltis têm sido uma dificuldade para o garoto da Vila Belmiro.

Rivellino, cracaço do futebol brasileiro, era mas honesto com ele e com os outros: admitia não saber bater pênaltis e, simplesmente… não batia.

Diferentemente de Edmundo, que passou a carreira perdendo cobranças e nunca desistiu.

Debaixo de uma pressão enorme pelo jejum de gols a favor e pelo gol contra feito, Washington queria cobrar o pênalti contra o Furacão. Conca evitou o pior: uma falha do Coração Valente e a irritação maior ainda da torcida (que já anda com quase ne-nhuma paciência com o atacante).

A pergunta que se faz: o que Washington ganharia se cobrasse o pênalti? Se fizesse, não teria feito mais do que a obrigação. Se perdesse, seria condenado.

O futebol, por ser um esporte de pontuação muito baixa, faz com que uma penalidade tenha uma importância enorme e possa muitas vezes decidir uma partida.

A frase de que o pênalti, de tão importante que é, deveria ser batido pelo presidente do clube está tão viva como sempre. E os personagens do futebol se esforçam para deixar esta marcação cada vez mais como protagonista dos jogos.

Visão de 30a rodada

domingo, 17 de outubro de 2010

Esta é a minha “Visão da Rodada”, que será publicada nesta segunda-feira,  18 de outubro, na edição escrita do LANCE!. Dê o seu pitaco.

Em Campinas, Ronaldo teve dois impedimentos mal marcados e o Corinthians não saiu de um 0 a 0 com o Guarani. Em Porto Alegre, Wellington Paulista teve um impedimento mal marcado quando o seu Cruzeiro empatava em 1 a 1 com o Grêmio. Resultado final, 2 a 1 para o Tricolor, de virada.

Foram três erros de arbitragem, todos em jogos que envolviam candidatos ao título. E a briga segue acirrada pelo Brasileiro e pela Libertadores. Também porque Santos e Fluminense, que entraram em campo às 18h, não souberam aproveitar as chances dadas por quem já tinha jogado e perdido pontos. E também porque o São Paulo entrou de vez na briga pela no G3 (ou G4) com a vitória épica sobre o Peixe no último minuto de jogo.

Flu e Santos entraram em campo animados para os clássicos regionais, diante do que havia acontecido nos jogos das 16h. O Tricolor com a possibilidade de reassumir a liderança e o Peixe com a chance de encurtar a distância para o primeiro colocado e entrar de vez na briga pelo título.

Os jogos foram muito movimentados, principalmente o do Morumbi. Com 20 minutos de jogo, cinco gols, 3 a 2 para o São Paulo. No final, 4 a 3 Tricolor.

No Rio, os times não saíram do zero, mas perderam chances. No final da rodada, Cruzeiro e Santos foram os únicos times entre os primeiros colocados a não pontuar. Todos os outros fizeram pelo menos um ponto. Menos ruim para o Fluminense, que diminuiu para um a distância para a Raposa.

Mas a rodada foi positiva mesmo para quem vem atrás na tabela, mas crescendo na competição. Caso do Grêmio, que já começa a sonhar de verdade com uma vaga na Libertadores.

Após a vitória sobre o líder, a distância para o Corinthians, o primeiro time na zona da Libertadores hoje, caiu para quatro pontos. O Furacão também retornou à disputa com o 2 a 1 sobre o Goiás. E até o São Paulo, com a incrível vitória no final.

Hoje a Conmebol definirá se o Brasil vai ter mais uma vaga na Libertadores de 2011. Se o G4 voltar -o que parece improvável- do Palmeiras para cima todos apare-cem com chances.

Twitter: @etironi

A torcida da diretoria

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Muita gente vai dizer que os 50 sujeitos que foram ao CT do Corinthians intimidar o time não representa a torcida corintiana. Mas aos olhos da diretoria, os sujeitos que botaram os jogadores na parede são a torcida do Corinthians, sim.

Afinal, a estes sujeitos é dado tudo: ingressos nos jogos, lugares mais centrais nas arquibancadas do estádios e até, como se viu na tarde desta sexta-feira, direito de pressionar jogador cara-a-cara na véspera de um jogo importante, na reta final de um campeonato que estava no papo, mas que está escorrendo pelas mãos.

Foi linda a festa do Centenário do Corinthians no Anhangabaú em setembro. Foram bacanas as homenagens que se estenderam por mais de uma semana e comovente a paixão do torcedor. Do torcedor que sofre e fica feliz junto com o time, é bom deixar claro.

Mas a estes legítimos torcedores é dada pouca coisa, só o direito de torcer. O filé mignon é para poucos. É para quem a diretoria corintiana considera a verdadeira torcida corintiana. Ou seja, os sujeitos que têm direito de fazer o que quiser em nome do que eles chamam de “paixão pelo clube”.

A invasão de hoje não foi a última no Corinthians, como a de outros clubes não será. Continuaremos a assistir às mesmas manifestações enquanto os dirigentes comandarem times pensando que a torcida é formada só por um grupo de privilegiados.

Twitter: @etironi

Se eu quiser falar com Deus

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A primeira imagem que eu tenho é de um pé calçado em um sider sem meia saindo do banco do passageiro de um carro com vidros escuros. Depois vem a perna vestida em uma calça jeans clara e o tronco vestido em uma polo azul.

Debaixo do braço daquela pessoa atarracada, muito mais baixa do que eu, um envelope branco meio encardido e rasgado na ponta. Antes de deixar o carro partir de vez, um recado para o motorista.

– Pra mim você compra um cheeseburguer, uma batata e um suco de laranja. Pra você (o motorista), pede o que quiser.

Ele tira da carteira de couro marrom uma nota e entrega ao motorista, que arranca com o Toyota Corolla cinza.

– Isso é o Rio de Janeiro. Sair de Santa Teresa às três (15h) e chegar aqui agora (17h30 no Recreio)… – lamenta, com um sorriso conhecido.

O bom humor contrasta com os últimos dias tensos que passou. Faz uma piada qualquer que tem relação com o momento que vive… e cai na risada. Depois, comenta que um dos netos tem um chute de canhota poderoso.

Não dá para contar quantas flâmulas e troféus estão no caminho do carro até a sala dele. E dentro da sala não dá para contar quantas moções e homenagens estão emolduradas e penduradas na parede. A própria parede mal aparece atrás das homenagens.

Antes de a conversa começar de verdade, ele é orientado a se sentar em uma determinada cadeira entre as cinco que estão em volta da mesa oval. A escolhida não fica na ponta da mesa, como deveria ser para quem é o dono do pedaço. Mas ele não se importa. Senta na cadeira que lhe foi sugerida e começa a falar.

É interrompido, porque a câmera não estava ligada. Nenhuma reclamação. Fala tudo de novo com a mesma energia.
A conversa é olho no olho. As mãos batem na mesa e pontuam cada frase como se fosse uma faca cortando um bolo.

Em um único momento, ele pede para parar. Chegou a comida.

– Vocês me dão licença, mas é que eu não almocei. Estão servidos?

Ninguém está.

– Queria pedir para vocês pararem de filmar agora, porque eu vou comer.

É atendido.

Primeiro, ele ataca as batatas fritas, uma por uma, mas segue falando. Cada batata é uma pausa para mais frases e explicações. Depois, vem o cheeseburguer, intercalado por mais explicações. Em menos de dez minutos já acabou. O suco de laranja fica pela metade e ele pede que coloquem na geladeira.
Uma limpada no gergelim que caiu na polo azul escura e mais conversa.

Foram duas  horas de papo com alguém que não é comum, sabe que não é comum. Mas que foi e sempre é incapaz de deixar transparecer em gestos, atitudes ou tom de voz o quanto é diferente.

Deus para 35 milhões de brasileiros, ídolo para uma nação inteira, Zico é Zico também porque não precisa mostrar isso para ninguém.

Carpegiani no São Paulo: você decide

domingo, 3 de outubro de 2010

Não é tão simples analisar a escolha de Carpegiani para o cargo de técnico do São Paulo. A decisão envolve fatores complexos, que passam por aquilo que a diretoria, ou melhor, o presidente do São Paulo imagina para o futuro e passa por uma filosofia que o clube tem de política financeira austera. Que deu certo nos últimos anos.

Por tudo isso, em tópicos digo porque a contratação é boa e porque ela não é. O veredicto final só aparecerá depois que seu trabalho puder ser analisado. Mas enquanto isso, os leitores podem ajudar a decifrar o caso.

Por que Carpegiani é uma decisão acertada

- Porque seque a política financeira austera do clube de não gastar fortuna com salários de técnicos. Tem sentido: nem o mais competente técnico brasileiro vale a fábula que se paga a ele. Mano Menezes, Felipão, Muricy, Adilson Batista… todos são supervalorizados. O cargo de técnico é supervalorizado de modo geral no Brasil, aliás. O futebol ainda é ganho por bons jogadores em campo.

- Porque o momento do técnico é bom. Sua campanha no Atlético Paranaense é surpreendentemente boa. Melhor contratar um técnico que vive um momento bom do que um que tenha história, mas trabalhos recentes ruins, como Luxemburgo, por exemplo. Técnico também tem boas e más fases. Carpegiani vive uma boa fase.

- Porque quem conversa com Carpegiani diz que ele entende muito de futebol. É um treinador corajoso, não tem medo de ousar ou perder o emprego. Portanto, dificilmente vai contra o que pensa apenas por segurança.

Por que Carpegiani é uma decisão errada

- Porque Carpegiani teve dois momentos bons em sua extensa carreira como técnico. O Flamengo em 81 e a Seleção do Paraguai em 98. O primeiro era nada menos do que o time de Zico e cia… difícil imaginar como poderia dar errado. O segundo tinha uma defesa formada por Chilavert, Arce, Rivarola e Gamarra e, assim, ganhou fama na Copa do Mundo da França. Uma defesa dessa não ser vazada é o mínimo que se espera.

Dois momentos bons em uma carreira tão extensa é muito pouco. Ainda mais quando estes momentos estão distantes, o mais recente já tem 12 anos.

- Porque Carpegiani foi um dos primeiros técnicos a ser chamado de “Professor Pardal”. Tem fama de inventar, improvisar jogadores. No São Paulo, que há um ano improvisa nas duas laterais e em outras posições, o técnico terá um prato cheio para inventar. E são invenções que raramente dão certo.

- Porque Carpegiani usou pouco a base do Atlético Paranaense. Alguns jogadores que haviam subido da base no clube voltaram para ela quando ele chegou. E medalhões como Elder Granja e Guerron forma contratados.

Utilizar a base em 2011 é o sonho do presidente do São Paulo Juvenal Juvêncio. E pelo menos a passagem pelo Paraná não idica que isso acontecerá no Morumbi.

Provalmente os leitores deste blog terão mais informações para ajudar a decifrar a contratação de Carpegiani. Portanto, dê seu pitaco.

Twitter: @etironi