Sempre que escrevo sobre protestos a respeito de assuntos envolvendo os grandes eventos, como os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, tem os que me aplaudem e os que, com ou sem retórica, me acusam de estar ao lado dos, digamos, governantes.
Isso é bom e, confesso, gosto desse conflito de opiniões. Sinal de que meu objetivo com o blog está sendo alcançado: informar da maneira mais clara possível e deixar que o leitor faça o seu julgamento.
Por isso, agora, vou publico um texto que saiu nas edições regionais do LANCE! nesta segunda-feira. Ele se refere aos protestos ocorridos em Brasília na sexta-feira e no sábado.
“Uma moeda, duas caras”
Eu estava lá e vi. E foi impressionante o abismo que separou as duas manifestações populares ocorridas em Brasília, na sexta-feira e no sábado, antes da abertura da Copa das Confederações.
Na sexta-feira, em uma ação extremamente bem articulada, em questão de minutos, 150 pneus já encharcados com querosene foram retirados de um caminhão frigorífico, amontoados no chão e foi só riscar o fósforo. Os policiais militares nem tiveram tempo de dar um respiro e uma densa fumaça preta já encobria o Estádio Mané Garrincha.
Agora, quanto tempo se levou para a ação ser montada? Cerca de 20 dias. E o que motivou o astuto plano, que mobilizou 300 pessoas? Moradias para os sem-tetos de Brasília, mais investimentos na saúde e o pedido de uma auditoria externa nos gastos do DF com a Copa.
Resultado da operação comandada pelo Movimento dos Sem-teto e o Comitê Popular da Copa: nenhum confronto com a PM e uma audiência com os governantes no Palácio Buriti.
No dia, seguinte, sábado, nova manifestação. Convocada na véspera, reuniu uma gama de grupos e organizações populares.
Os motivos da manifestação? Os mais diversos: contra o aumento das passagens de ônibus, contra o abuso e exploração sexual, mais educação, mais saúde, mais moradia, cancelar a concessão do Maracanã à iniciativa privada, abaixo a Fifa, os políticos e a mídia.
Dessa vez, ao invés de queimarem pneus, os responsáveis pela manifestação optaram por uma caminhada até o estádio. Para garantir que nenhum ato de vandalismo seria cometido, celebraram um acordo com a Polícia Militar, que os escoltaria em segurança.
Mas o movimento perdeu-se no meio do caminho. Os supostos líderes admitiram que não tinham mais controle sobre o grupo que, de 200 pessoas, pulou para cerca de mil.
E uma massa sem controle ante uma força treinada para manter o controle, só podia dar no que deu: cenas lamentáveis de confronto.
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