publicidade


Legado não é feito de concreto

por Alessandro Abate em 22.mar.2015 às 23:53h

Sempre ouvi que a Olimpíada de Barcelona, realizada em 1992, foi o melhor case para mostrar como os jogos podem deixar um legado positivo. Porém, caminhando pelas ruas e conversando com a pessoas da cidade, que estou de passagem para cobrir o clássico entre Barça e Real Madrid, é possível compreender que a mudança foi muito mais profunda do que apenas construção de estádios e praças esportivas. E o melhor, essa transformação não ocorreu apenas após o evento, mas ainda está acontecendo como uma constante evolução que engloba, além da política esportiva, uma melhora significativa na qualidade de vida.

Logo que desci do aeroporto, o motorista Jayme foi o primeiro que fez questão de me contar com orgulho como a cidade soube aproveitar as melhorias realizadas pelos Jogos Olímpicos e se tornou em um dos grandes pontos turísticos do mundo, mas ressaltou a importância de manter o legado. Acho que o primeiro ponto a ser ressaltado aqui é o respeito das pessoas pelos turistas. Os espanhóis não são tão calorosos quanto os brasileiros, mas são extremamente profissionais, respeitosos e corretos. Dentro desse quesito, a segurança é fundamental. Você caminha tranquilamente por ruas e metrôs com tranquilidade. Programas oficiais de turismo, como os ônibus de dois andarem que andam pelos pontos turísticos, trabalham bem a estimulação do setor, aliados aos investimentos em transportes, coletas de lixo, mudanças na coleta de esgoto, entre outros itens que continuaram a ser trabalhados pela capital da Catalunha depois de 1992.

Na parte de infraestrutura, as instalações construídas no Montijuïc e a Vila Olímpica, bairro em uma área que antes era praticamente inutilizada, iniciaram uma reorganização das zonas imobiliárias muito importante. Fui visitar o Parque Olímpico e fiquei encantado, um enorme calçadão para a prática de esportes, ou apenas uma agradável caminhada, com vista para o mar é muito utilizado pela população, incentivando também o comércio local. A orla da praia não existia, e agora é um dos principais pontos para turismo.

Já na parte esportiva, a Espanha decolou em muitas modalidades a partir daí. As 13 medalhas de ouro conquistadas em sua Olimpíada tiveram um reflexo muito importante, a implantação de políticas esportivas que transformou o país em potência esportiva, inclusive no futebol.

Seria bom se o Rio de Janeiro pudesse aprender um pouquinho com Barcelona. Chega de achar que nossos recursos naturais já são o suficente para fazer do Brasil um país abençoado por Deus. Nada é mais bonito que a cidadania exercida com dignidade.

O repórter viajou a convite da Gillette

Heroínas que lutam por igualdade

por Alessandro Abate em 08.mar.2015 às 19:11h

No dia internacional da mulher tive o prazer de acompanhar minha namorada, Marcela Rocha, em uma livraria para comprar alguns livros que vão servir de bibliografia para seu trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. O tema é o empoderamento das mulheres nas redes sociais, enaltecendo movimentos que tentam libertá-las de algumas culturas machistas e à superexposição a que são submetidas, principalmente na internet.

Conversamos bastante sobre o assunto, e como sou um gestor de uma redação de jornalismo esportivo relatei a dificuldade que as mulheres encontram em minha área, com assédio constante, preconceito e desvalorização em muitos casos, tanto por parte dos companheiros de imprensa quanto dos entrevistados. Por acaso, quando chegamos em casa começamos a assistir um documentário da ESPN Films perfeito para o dia: “Let Them Wear Towels”, da série “Nine for IX”.

A série “Nine for IX” é composta por filmes em formatos de documentários dirigidos por mulheres sobre personagens femininos no esporte. O nome da série é inspirado na legislação dos EUA conhecida como “Title IX”, que obrigava as universidades a darem o mesmo número de bolsas atléticas para mulheres e homens, permitindo que muitas mulheres tivessem acesso à universidade e aos programas esportivos.

“Let Them Wear Towels” retrata o ambiente machista da cobertura jornalística esportiva e as dificuldades que jornalistas mulheres tiveram para serem aceitas, quebrando barreiras. O título significa algo parecido com “Vamos deixá-los usando toalhas”, em virtude da discussão sobre a proibição de deixá-las entrar nos vestiários para entrevistar atletas, que desfilavam nus perante os repórteres após os jogos.

Vi a história de algumas das pioneiras na luta que permanece até hoje. Mulheres que querem ser reconhecidas pelo talento, competência e profissionalismo, apenas isso. E mesmo tendo conquistado muitos direitos, elas ainda estão longe de ter o respeito e reconhecimento que merecem. Portanto, aos que não acreditam no simbolismo do dia 8 de março, deixo aqui o meu desprezo.

Para mulheres que entram em campo de cabeça erguida deixo o meu recado: Nunca deixem o machismo acabar com os seus sonhos.

Memórias de uma Copa no Brasil

por Alessandro Abate em 26.fev.2015 às 15:20h
Recentemente, a euforia nos bloquinhos de Carnaval na Vila Madalena até me fez lembrar a Copa do Mundo disputada no Brasil, com as ruas tomadas em uma grande festa para celebrar a Copa das Copas, mesmo que a derrota por 7 a 1 para a Alemanha tenha murchado um pouco o sentimento! Para quem gostaria de matar um pouco da saudade – não do Brasil de Felipão dentro de campo na semifinal – recomendo o bate papo entre os amigos Francisco Bicudo e André Hernan neste sábado (28/2), às 14h, na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista (número 509), em São Paulo.

O encontro celebra o lançamento do livro “Memórias de uma Copa”, escrito por Francisco Bicudo, com crônicas feitas inicialmente para a internet, mas perfeitas na tentativa de resgatar a narrativa de boas histórias, no formato “old school” carregadas de sentimentos, que se propõem a bater papo com o leitor.

Serão dois olhares distintos sobre o Mundial, o torcedor e o repórter. O André participou da cobertura pelo Sportv, viajou acompanhando as seleções e vai revelar um pouco dessas experiências. No livro, entra o olhar de torcedor, com humor e um a certo viés de contexto político. São falas, portanto, pautadas pela emoção e até mesmo pelas alterações de humor. Nada de especialistas.

Vale a pena conferir!

O que fazer para prestigiar o Muller?

por Alessandro Abate em 25.fev.2015 às 23:07h

Muller foi um craque com a bola nos pés, mas um perna de pau fora dos campos. Nunca me comovi com sua história e recentemente, depois de ler a entrevista que deu para o repórter Gabriel Carneiro deste LANCE!, tive mais uma prova de que não é uma pessoa que mereça tal consideração.

Em 2011, o ex-jogador revelou que havia perdido tudo o que ganhou na carreira e viveu momentos dramáticos na vida, tendo inclusive que morar na casa do ex-companheiro Pavão, colega de seus tempos de São Paulo. Muller admitiu que gastou tudo o que ganhou com mulheres e luxos desnecessários.

Mas este não é apenas mais um caso de jogador de futebol que ficou pobre. Mesmo após a carreira de atleta, teve oportunidades como treinador, dirigente, comentarista de TV e de rádio… foi até pastor! Nunca se destacou ao menos como razoável nessas profissões.

Na semana passada, ao LANCE!, Muller revelou uma mágoa do período em que trabalhou como comentarista esportivo e disse que se sentia desvalorizado no Sportv, onde comentava jogos, e pediu para sair 15 dias antes do fim de seu contrato.

Alguém gostava dele comentando? Eu sempre preferi deixar a televisão sem som quando estava escalado, principalmente depois que ouvi um de seus comentários clássicos: “O jogador cabeceou com a cabeça”.

O pior é que deixou o canal em 2009, mas a comoção pela revelação de sua situação financeira fez o Sportv recontratá-lo anos depois, ignorando a tortura aos telespectadores. Agora, disse que “estava vendo jornalista querer saber mais de futebol do que jogador, aí não dá”. Se sentiu desprestigiado. “Quem tem que comentar futebol é ex-jogador. Uma coisa é falar, outra é ter moral para falar”, completou.

Percebe-se porque está falido. Se é incapaz de perceber que estava lá por comoção, e não por competência, nada podemos fazer para ajudá-lo.

Coração de leão

por Alessandro Abate em 15.fev.2015 às 16:34h

O atacante Everton Costa não vai conseguir voltar a jogar futebol. Seu empresário, Jorge Machado, confirmou que o problema cardíaco sofrido pelo atleta durante a passagem pelo Vasco não poderá ser superado e sua carreira será interrompida aos 29 anos. Afastado do futebol desde abril de 2014 por um diagnóstico de arritmia cardíaca, o meia-atacante teve detectada a doença de Chagas, em 2013.

Se o jogador de futebol tem duas mortes, como dizem por aí, uma quando para de jogar e outra quando morre, imagino a dor de uma interrupção tão abrupta.

Everton Costa deve se dedicar a trabalhos administrativos em Porto Alegre no escritório do empresário, que desde os 15 anos do jogador cuida da sua carreira.  Essa preocupação de Jorge Machado é importante, afinal, o maior temor de um atleta em sua aposentadoria é não conseguir se dedicar a outra coisa e, principalmente, manter as contas em dia..

O contrato de Everton com o Coritiba vai até dezembro, depois disso terá mais um ano assegurado por um seguro. Depois, terá uma queda de mais de 4.000% do salário que ganha hoje.

Desde a morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, que teve uma parada cardiorrespiratória em pleno gramado do Morumbi no dia 27 de outubro de 2004, existe uma preocupação maior com jogadores que apresentam qualquer tipo de problema no coração. A maior dificuldade é convencê-los a parar, já que muitos  preferem perder as duas vidas de jogador em uma tacada só. Outros, como Washington, Renato Abreu, Fabrício Carvalho e William, tiveram direito a um final mais feliz porque conseguiram se recuperar e voltaram a entrar em campo. Mas a vida nunca é mesma quando essa fragilidade é exposta.

Fica aqui a minha torcida para que Everton Costa tenha um coração de leão, mais forte do que aquele que precisava para jogar futebol. Não é fácil passar por isso, mas ele ainda é um homem novo, com inúmeras oportunidades pela frente. Que seus gols fiquem na memória e que a memória dos torcedores fiquem com seus gols. Isso sim é capaz de afagar o coração.

E registro aqui a minha torcida também por Diego Sacoman, que conseguiu pegar o caminho de volta para o futebol depois do susto. Em setembro do ano passado, quando negociava sua transferência ao Atlético-PR o zagueiro teve diagnosticado um problema cardíaco que impossibilitou o acerto.

Após exames mais detalhados com uma equipe médica especializada, ficou comprovado que tudo não passava de uma virose que atingiu o órgão deixando algumas manchas. Após quatro meses de tratamento e repouso absoluto o atleta foi liberado para voltar a jogar futebol. Com sondagens de alguns clubes, o zagueiro decidiu acertar com o Santa Cruz para 2015. Que transforme a alegria de poder atuar em alegrias para os torcedores do Santa, nome sugestivo para quem precisava de um pequeno milagre.

Gobbi chuta o balde e sai bem na foto

por Alessandro Abate em 06.fev.2015 às 21:08h

Mesmo cheio de razão, foi patético o monólogo do presidente do Corinthians, Mário Gobbi, seguido de uma entrevista coletiva realizada ontem para falar sobre a situação do clássico que teria torcida única contra o Palmeiras, no próximo domingo, no Allianz Parque. Se o ex-mandatário do São Paulo Juvenal Juvêncio era considerado uma das figuras mais caricatas do futebol, o corintiano ontem conseguiu superá-lo no quesito atuação, com gritos e veias saltando no pescoço.

Ao responder para os jornalistas na sequência,  ele até cantou  “Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu…”, em um dos pontos altos da entrevista, ou karaokê.

Gobbi jogou para a torcida, fez acusações graves contra o palmeirense Paulo Nobre e comprou briga com o rival, um problema para a próxima gestão, já que o mandato do dirigente termina hoje – aquele famoso chutou o “pau da barraca”. Mas saiu bonito na foto para a Fiel, já que a Federação Paulista de Futebol voltou atrás e anunciou o jogo com duas torcidas logo após o chilique sob os holofotes.

Recentemente, o presidente do Corinthians já havia mostrado o mesmo destempero no programa “Bola da vez”, da TV ESPN. Coisa de quem não aguenta mais o futebol e não precisa mais fazer política. E não é que Mário Gobbi fala coisas absurdas, ele tem razão em muitas coisas, mas a forma que tem feito tira a credibilidade da argumentação.

Já a nota oficial do Palmeiras sobre o caso foi sóbria, importante para não incendiar ainda mais o caso. O risco de ver o ódio das organizadas estar aflorado para domingo é grande.

A discussão de torcida única nos clássicos reflete despreparo do futebol. Todo mundo quer aparecer, e os jogadores aparecem cada vez menos. Dirigentes só peitam as federações por benefício próprio, e as federações, por sua vez, não mostram pulso firme para manter suas decisões quando são confrontadas.

O Dérbi de domingo foi o grande perdedor. O futebol foi ofuscado mais uma vez, e resta agora torcer para que a confusão tenha terminado neste triste capítulo.

————————-

Omissão

Começar a realizar clássicos com torcida única era bem mais fácil para os responsáveis pelo nosso futebol. Praxe em um país com um estado omisso. Porém, realizar o Dérbi no Allianz Parque com a presença de corintianos, voltando atrás da decisão depois de ameaça de W. O. do Timão, fica pior ainda agora.

————————-

Violência

Eu não conseguia parar de pensar na violência entre torcidas organizadas assistindo o filme “Jogos Vorazes”. Um campo para guerrear, com transmissão da TV, onde só os mais fortes sobrevivem é tudo o que muitos integrantes dessas facções queriam. Pelo menos eles estariam longe das ruas da cidade, onde pessoas inocentes também podem morrer.

A camarotização do futebol

por Alessandro Abate em 06.fev.2015 às 14:29h

A WTorre espera faturar alto com a venda de camarotes do Allianz Parque, principal foco da construtora na missão de capitalizar com a obra. Para se ter uma ideia, o estádio do Palmeiras tem 178 camarotes, enquanto a Arena Corinthians, também recém-inaugurada, possui 89. E a opção é meticulosamente alinhada com um fenômeno que ocorre no Brasil: a camarotização, ou gourmetização do espaço, que foi até tema da redação do vestibular da Universidade de São Paulo.

Clube e empresa seguem travando batalha pelo direito de venderem também as cadeiras cativas. Afinal, hoje a demanda por esses espaços exclusivos, e que tornam o torcedor mais VIP que os demais, é muito maior do que nos velhos estádios. E não estamos falando que isso acontece apenas pelo  conforto das novas arenas, mas muita gente quer pagar por exclusividade nos dias de hoje.

O alto preço dos ingressos e o crescimento desses serviços “gourmetizados“ já sugerem um elitização nas arquibancadas de futebol, que foi alvo de críticas por alguns torcedores nos últimos anos. Em partidas concorridíssimas, o torcedor comum que não pode pagar um plano de sócio-torcedor já fica fora da festa. Porém, estar dentro não é o suficiente para as selfies em redes sociais, faz sucesso mesmo aquele que consegue um convite para o camarote. Quem está no camarote não quer ser qualquer um, e espera curtir o dia rodeado de celebridades e personalidades importantes.

Em artigo no El País Brasil, Rosana Pinheiro-Machado, antropóloga e professora da Universidade de Oxford, explica que a aversão à mistura é o resultado de anos de desigualdade social no país, um desejo de se destacar em uma sociedade colonizada e segregada em sua história. “Apesar de ter a ideologia da mistura, na verdade sempre foi o pior dos apartheids”, diz Rosana. Para ela, a ascensão das camadas mais pobres nos últimos anos, invadindo alguns dos redutos dos ricos, potencializou a camarotização, e isso faz com que o racismo e a discriminação fiquem afloradas, mesmo que da forma mais sutil.

O futebol costumava ser uma das atmosferas mais democráticas do Brasil, um lugar onde cores e classes sociais se misturavam nas arquibancadas pela bandeira de seu clube, talvez a fórmula que tenha feito do esporte o símbolo de uma nação. Mas essa igualdade sempre foi utópica, e a vontade de segregar invadiu também as praças esportivas.

Bom para a WTorre, ou para qualquer outra empresa que pretende levar shows e eventos para lá, uma ferramenta que aumenta ainda mais o faturamento.

Os velhos problemas do São Paulo

por Alessandro Abate em 01.fev.2015 às 22:37h

Ano novo, vida nova! Mas antigos problemas persistem no São Paulo. Levando em consideração que é cedo para uma análise da equipe, que o Tricolor construiu uma vantagem diante do Penapolense para tirar o pé depois e outras justificativas plausíveis, o time de Muricy Ramalho segue com um setor defensivo preocupante.

O adversário ameaçou pouco, mas era nítido que a linha de zaga ficava exposta, com pouca proteção dos volantes e pouca marcação nas laterais do campo.

Denilson e Maicon não combateram muito e também não deram dinâmica na saída de bola. Em compensação, Michel Bastos mostrou que pode ser o substituto de Kaká na articulação de jogadas. Além de bons passes, chegou para finalizar da entrada da área e abrir o placar com um belo gol. Thiago Mendes, uma das principais contratações do São Paulo para a temporada, também fez boa partida e buscou bastante a bola.

Na frente, Alan Kardec e Luis Fabiano ainda não encontraram uma maneira de jogarem juntos. Ocuparam o mesmo espaço. No intervalo Muricy Ramalho sacou Kardec para a entrada de Cafu, recém-chegado da Ponte Preta: “Cafu vai entrar para jogar mais aberto, dar mais profundidade”, avisou o professor. Mudança cirúrgica ou apenas coincidência, Fabuloso marcou no primeiro minuto da segunda etapa, após passe de Michel Bastos, seu gol de número 200 com a camisa do Tricolor. Mas Cafu ficou apático na partida, assim como Pato, que entrou depois.

Carlinhos, outra cara nova, saiu contundido para a entrada de Reinaldo, que fez a jogada do terceiro gol. Ainda é pouco para um time que luta por títulos em 2015.

O futuro incerto de um jogador

por Alessandro Abate em 17.jan.2015 às 16:50h

Provavelmente você não sabe quem é Dalmo Gaspar, poucos amantes do futebol se lembram, mas ele foi um dos símbolos do bicampeonato mundial do Santos, autor do gol na vitória decisiva por 1 a 0 sobre o Milan, em 1963. Hoje ele sofre com o mal de Alzheimer. Mas o desesperador no caso do santista é a luta da família para conseguir pagar o tratamento, que gira em torno de R$ 3.000 por mês. A comovente história foi revelada pelo jornalista Rafael Valente, em belíssima matéria na “Folha de S. Paulo”.

A dificuldade financeira da família é tão grave, que sua filha Ana Paula Gaspar colocou à venda a medalha do título por R$ 15 mil reais. Alguns ex-jogadores do Peixe, como o ex-goleiro Lalá, também tentam ajudar, conforme revelou a reportagem.

Li a história poucos minutos de conversar com companheiros de redação do LANCE! sobre o êxodo de jogadores brasileiros para o futebol Chinês. Sabemos que a adaptação não é fácil, mas aguentar firme por um tempo lá recebendo um altíssimo salário por ser crucial para o resto da vida de um profissional do futebol, cuja carreira é curta e incerta.

Os grandes craques do passado não tiveram a oportunidade de ganhar quantias exorbitantes de dinheiro, como jogadores medianos já conseguem ganhar nos dias de hoje. E isso é triste porque cansamos de ver profissionais, que não são tão profissionais, ostentando mais a vida luxuosa do que o talento dentro de campo.

Garanto que uma noitada de muitos jogadores em atividade pagaria um mês de cuidados necessários para confortar Dalmo na luta contra sua terrível doença. E não estou dizendo que a pessoa não tem o direito de gastar seu dinheiro na farra. É apenas um alerta àqueles que não pensam no futuro.

Ao contrário do que muitos torcedores pensam, eu acho que jogador de futebol não pode dar sua vida pelo clube, precisa ser profissional e buscar o melhor para si. Afinal, quem vai estar ao seu lado para o resto da vida?

Futebol moderno à moda antiga

por Alessandro Abate em 12.jan.2015 às 14:13h

Em bate papo com meu amigo Fábio Ferreira, editor do “Jornal A Cidade” de Votuporanga, me chamou a atenção um relato sobre a comoção dos habitantes da cidade contra a demolição do Estádio Municipal Plínio Marin, que vai dar lugar a um grande empreendimento imobiliário em troca da construção de uma moderna arena com capacidade para 16 mil pessoas e um complexo poliesportivo.

Mesmo sabendo que essa é a única alternativa para muitos clubes do interior sobreviverem em meio à crise financeira que atravessam (e como podem reclamar em ao receberem como recompensa uma casa novinha?), grande parte dos torcedores sempre vai pender contra colocar abaixo as arquibancadas de concreto, que enterram muitas memórias em seus “alçapões”. Também abalado com a modernização, Fábio temia um desinteresse dos apaixonados torcedores do Votuporanguense pelo futebol. Afinal, a tradição de passar o amor por um clube de futebol de pai para filho inclui fazer com que as lendas, personagens, episódios históricos e situações inusitadas atravessem gerações. E uma mudança fria de lar pode deixar muitos capítulos perdidos nessa dolorida transição.

Isso não se encaixa apenas aos pequenos times do Brasil. Mesmo admirando o imponente Allianz Parque, a moderna arena do Palmeiras que está entre as melhores do mundo, ouvi muita gente reclamando que torcer lá perdeu um pouco do “charme”. É muito mais um belo passeio do que uma partida de futebol.

Este é um dos itens daquela velha discussão entre o saudosismo e o “futebol moderno”, que eu tento evitar mas às vezes é inevitável. Para nós, a época que vivemos foi a melhor, nossos pais preferem a deles e nossos filhos poderão achar o amanhã muito mais legal.

Com a modernização, existe uma cobrança para que os jogos se tornem cada vez mais espetáculos de entretenimento, cheios de marketing e experiências de consumo. As arquibancadas dos estádios então se elitizaram, transformando-se em plateias de teatro, com um público que tende a ser mais exigente e menos caloroso.

Em ótima matéria na ESPN, o jornalista João Castelo Branco mostrou a nova atmosfera em uma moderna arena na Inglaterra, e que o modelo não é unânime entre os torcedores.

O esporte sente que vivemos tempos difíceis de desespero em encontrar formas de capitalizar os negócios para sobreviver no competitivo mercado, mas essa evolução pode enfraquecer a alma do futebol e suas tradições.

Porém, essa possibilidade não é uma verdade absoluta, talvez seja o caminho para o início de uma reciclagem que culmine no fortalecimento de ligas e clubes, principalmente no Brasil, onde a situação é caótica. O que quero enfatizar é a necessidade de encontrar um meio termo. Não podemos achar que o esporte número 1 por aqui só vai sobreviver se ficar estacionado na “idade da pedra” e temos que ser cautelosos para não “robotizar” o futebol moderno visando faturamento. O difícil é achar esse equilíbrio.