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O futuro incerto de um jogador

por Alessandro Abate em 17.jan.2015 às 16:50h

Provavelmente você não sabe quem é Dalmo Gaspar, poucos amantes do futebol se lembram, mas ele foi um dos símbolos do bicampeonato mundial do Santos, autor do gol na vitória decisiva por 1 a 0 sobre o Milan, em 1963. Hoje ele sofre com o mal de Alzheimer. Mas o desesperador no caso do santista é a luta da família para conseguir pagar o tratamento, que gira em torno de R$ 3.000 por mês. A comovente história foi revelada pelo jornalista Rafael Valente, em belíssima matéria na “Folha de S. Paulo”.

A dificuldade financeira da família é tão grave, que sua filha Ana Paula Gaspar colocou à venda a medalha do título por R$ 15 mil reais. Alguns ex-jogadores do Peixe, como o ex-goleiro Lalá, também tentam ajudar, conforme revelou a reportagem.

Li a história poucos minutos de conversar com companheiros de redação do LANCE! sobre o êxodo de jogadores brasileiros para o futebol Chinês. Sabemos que a adaptação não é fácil, mas aguentar firme por um tempo lá recebendo um altíssimo salário por ser crucial para o resto da vida de um profissional do futebol, cuja carreira é curta e incerta.

Os grandes craques do passado não tiveram a oportunidade de ganhar quantias exorbitantes de dinheiro, como jogadores medianos já conseguem ganhar nos dias de hoje. E isso é triste porque cansamos de ver profissionais, que não são tão profissionais, ostentando mais a vida luxuosa do que o talento dentro de campo.

Garanto que uma noitada de muitos jogadores em atividade pagaria um mês de cuidados necessários para confortar Dalmo na luta contra sua terrível doença. E não estou dizendo que a pessoa não tem o direito de gastar seu dinheiro na farra. É apenas um alerta àqueles que não pensam no futuro.

Ao contrário do que muitos torcedores pensam, eu acho que jogador de futebol não pode dar sua vida pelo clube, precisa ser profissional e buscar o melhor para si. Afinal, quem vai estar ao seu lado para o resto da vida?

Futebol moderno à moda antiga

por Alessandro Abate em 12.jan.2015 às 14:13h

Em bate papo com meu amigo Fábio Ferreira, editor do “Jornal A Cidade” de Votuporanga, me chamou a atenção um relato sobre a comoção dos habitantes da cidade contra a demolição do Estádio Municipal Plínio Marin, que vai dar lugar a um grande empreendimento imobiliário em troca da construção de uma moderna arena com capacidade para 16 mil pessoas e um complexo poliesportivo.

Mesmo sabendo que essa é a única alternativa para muitos clubes do interior sobreviverem em meio à crise financeira que atravessam (e como podem reclamar em ao receberem como recompensa uma casa novinha?), grande parte dos torcedores sempre vai pender contra colocar abaixo as arquibancadas de concreto, que enterram muitas memórias em seus “alçapões”. Também abalado com a modernização, Fábio temia um desinteresse dos apaixonados torcedores do Votuporanguense pelo futebol. Afinal, a tradição de passar o amor por um clube de futebol de pai para filho inclui fazer com que as lendas, personagens, episódios históricos e situações inusitadas atravessem gerações. E uma mudança fria de lar pode deixar muitos capítulos perdidos nessa dolorida transição.

Isso não se encaixa apenas aos pequenos times do Brasil. Mesmo admirando o imponente Allianz Parque, a moderna arena do Palmeiras que está entre as melhores do mundo, ouvi muita gente reclamando que torcer lá perdeu um pouco do “charme”. É muito mais um belo passeio do que uma partida de futebol.

Este é um dos itens daquela velha discussão entre o saudosismo e o “futebol moderno”, que eu tento evitar mas às vezes é inevitável. Para nós, a época que vivemos foi a melhor, nossos pais preferem a deles e nossos filhos poderão achar o amanhã muito mais legal.

Com a modernização, existe uma cobrança para que os jogos se tornem cada vez mais espetáculos de entretenimento, cheios de marketing e experiências de consumo. As arquibancadas dos estádios então se elitizaram, transformando-se em plateias de teatro, com um público que tende a ser mais exigente e menos caloroso.

Em ótima matéria na ESPN, o jornalista João Castelo Branco mostrou a nova atmosfera em uma moderna arena na Inglaterra, e que o modelo não é unânime entre os torcedores.

O esporte sente que vivemos tempos difíceis de desespero em encontrar formas de capitalizar os negócios para sobreviver no competitivo mercado, mas essa evolução pode enfraquecer a alma do futebol e suas tradições.

Porém, essa possibilidade não é uma verdade absoluta, talvez seja o caminho para o início de uma reciclagem que culmine no fortalecimento de ligas e clubes, principalmente no Brasil, onde a situação é caótica. O que quero enfatizar é a necessidade de encontrar um meio termo. Não podemos achar que o esporte número 1 por aqui só vai sobreviver se ficar estacionado na “idade da pedra” e temos que ser cautelosos para não “robotizar” o futebol moderno visando faturamento. O difícil é achar esse equilíbrio.

A onda do Medina também vai passar?

por Alessandro Abate em 26.dez.2014 às 13:58h

Lembro quando um garoto chamado Gustavo Kuerten despontou nas quadras de saibro em 1997 e surpreendeu o Brasil ao conquistar o título de Roland-Garros, um torneio do Grand Slam do tênis. O feito popularizou demais o esporte, que virou febre entre a garotada e atraiu a atenção da mídia. Guga conquistaria a competição mais duas vezes – Em 2000 terminou o ano na primeira posição do ranking mundial ao conquistar o seleto torneio Finais da ATP, se consolidando como um dos esportistas mais importantes da história desse país. Mas e o tênis hoje? Não se desenvolveu como deveria e caiu em esquecimento quando o desempenho de Kuerten caiu.

Hoje surfamos na onda de Gabriel Medina, que fez com que um grande número de brasileiros assistissem a uma competição profissional de surfe pela primeira vez na vida. Rapidamente o esporte virou o preferido de muitos.
Porém, a audiência nacional vai se sustentar até quando?

Os dirigentes esportivos brasileiros se perpetuam nos cargos e vivem reclamando da falta de incentivo financeiro no país para o cenário fora do futebol – convenhamos que nem mesmo o nosso esporte número 1 tem conseguido arrecadar muito nos dias de hoje. Mas quando têm a oportunidade de atrair a atenção do público preferem secar até a última gota, ao invés de aproveitar a fartura para construir um planejamento sólido de fortalecimento da modalidade a médio e longo prazo.

Ouço muita gente dizer que o brasileiro gosta de ganhar, por isso só torce para quem está no topo, não importa como o campeão chegou lá – e assim sempre surge o clichê da superação com as adversidades na carreira ao nunca ter recebido incentivo . Mas acho mesmo que o brasileiro quer torcer para uma modalidade que possa ser um exemplo profissional, com um trabalho sério que cuide da sucessão dos nossos ídolos potencializando a formação de talentos.

Não são os patrocinadores de Medina que têm a responsabilidade de cuidar do futuro do surfe. Isso é tarefa para os nossos dirigentes, que precisam se profissionalizar de vez.

Ponte Preta: clubes de futebol precisam de glórias

por Alessandro Abate em 10.nov.2014 às 13:40h

Sergio Carnielli, presidente de honra da Ponte Preta, deu uma entrevista polêmica em Campinas dias antes do jogo que garantiu ao clube o acesso à Série A do Brasileirão, conquistado após a vitória por 2 a 0 sobre o Bragantino no último sábado. O homem forte da Macaca acha que foi um erro o time ter ido longe na Sul-Americana do ano passado, perdendo na final para o Lanús (ARG), mas mas acabar rebaixado no Campeonato Brasileiro.

Segundo Carnielli, se não fosse o aporte financeiro feito por ele mesmo, que é um empresário bem sucedido do interior paulista, a Ponte poderia estar brigando para não cair para a Série C, já que não tinha condições financeiras de montar um elenco forte para a competição.

Analisando pelo lado racional ele está correto, mas o que seria o futebol sem o lado passional? O vice-campeonato da Sul-Americana foi uma das melhores coisas na memória do pontepretano. Projeção internacional, vitórias históricas – como nos confrontos com o Vélez Sarsfield (ARG) e São Paulo –  e o resgate do orgulho de torcer para o clube são motivos que podemos ressaltar.

A torcida voltou a se identificar com a Macaca e se reaproximou do Moisés Lucarelli. Esse engajamento também pode ser convertido em grana, é uma ferramenta de marketing com muitas oportunidades.

Tanto que mesmo com o início difícil na Série B deste ano, antes da chegada do treinador Guto Ferreira, a auto-estima pontepretana ainda estava aflorada com otimismo e se agigantou em uma incrível sequência de triunfos até o acesso.

Sergio Carnielli é o grande responsável por transformar um clube quebrado em uma potência do futebol paulista nos últimos anos. Porém, a Ponte merece mais do que entrar todos os anos com o objetivo de apenas não cair para a Série B, como ficou implícito no discurso do dirigente. Um time de futebol vive de glórias, conquistas e emoções. Mesmo que isso custe caro.

Missão cumprida, Peixe?

por Alessandro Abate em 05.nov.2014 às 23:44h

Achei exagerado no discurso de Robinho a exaltação à equipe do Santos após a eliminação na semifinal da Copa do Brasil para o Cruzeiro. O Peixe fez uma grande partida, mas a entrega deveria ser colocada como uma obrigação de qualquer equipe em uma partida decisiva, não uma fato extraordinário.

Sofrer o gol de misericórdia, antes do empate em 3 a 3 após falha grotesca de Edu Dracena e Bruno Uvini, quando dominava o jogo com a vantagem de 3 a 1 que garantiria a vaga, foi motivo para luto o velório no vestiário, e não festa com sensação de dever cumprido. O Alvinegro precisa de uma reformulação urgente na zaga faz tempo.

A torcida, que fez sua parte na Vila Belmiro, mostrou nas redes sociais que não engoliu o fato do Rei das Pedaladas ter sido substituído ao sentir uma lesão na coxa. A situação era cômoda, se o Santos segurasse o resultado ele sairia como herói, mas se houvesse reviravolta ele não poderia fazer mais nada. Tem santista de olho, Robinho!

Falta arte no futebol brasileiro!

por Alessandro Abate em 06.out.2014 às 16:35h

Na última sexta-feira estive no show Armin Only Intense a convite do Fusion Energy Drink, na Arena Anhembi. Uma megaprodução interativa do DJ holandês Armin Van Buuren, considerado um dos melhores da história da música eletrônica, com participações de cantores, acrobatas, bailarinos, efeitos especiais de iluminação e imagens em telões de tirar o fôlego. A grandeza do espetáculo e o seu gran finale me fizeram refletir mais tarde sobre o entretenimento nos dias atuais, incluindo o nosso futebol.

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(Armin Only Intense em São Paulo. Crédito: Gui Urban/Divulgação/Plus Talent)

Foi o meu Momento Aha! (Aha! Moment), termo que aprendi esse dias, designado para a solução de um problema por Insight, quando menos se espera. E um espetáculo musical pode estar relacionado com o esporte? Em nada e tudo ao mesmo tempo.

A questão a ser discutida é a modernização do entretenimento com a chegada de novas tecnologias e a mudança de comportamento dos fãs, incluindo novas formas de consumo. Muito se fala sobre o atraso do futebol brasileiro, dentro e fora de campo, talvez um dos aspectos fundamentais para a queda de público e audiência.

Com as construções de novas arenas para a Copa do Mundo no Brasil, nós achamos que era a hora do pontapé inicial para a tão esperada mudança. Mais conforto, mais entretenimento e mais ações, muitas cheias de inovações, dos patrocinadores para girar grana em todos os setores, copiando modelos de sucesso pelo mundo.

Ainda estamos engatinhando em tornar o esporte muito mais do que um jogo, porém, percebi que falta hoje por aqui algo primordial que deveria servir da base para tudo: o talento e o carisma! Foi isso que Armin Van Buuren me mostrou. Depois da apresentação mais inovadora e incrível que já vi, o DJ se despediu do gigantesco palco com os integrantes da megaprodução, depois de cinco horas de performance, e caminhou para uma simples mesa de som montada no meio da pista, com o público em volta. Foi então que ele mostrou ser diferente de tudo o que a tecnologia pode montar.

Esbanjando simpatia, Armin pegou seus discos de vinil – muita gente nem sabe mais o que é isso – e disse que precisava somente deles no início de carreira para entreter as pessoas. Então ele tocou por mais uma hora, apenas com discos de vinil, levando milhares de pessoas à loucura até o dia clarear. Como eu estava perto dele, conseguia ver o brilho em seus olhos, a paixão em interagir com a multidão, acenando como se estivesse entre velhos amigos. O Armin Only Intense foi o show mais impressionante que já vi, mas não seria nada sem o talento e o carisma daquele cara, capaz de prender seu público com ou sem os recursos tecnológicos.

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(Armin toca com discos de vinil no fim do show. Crédito: Gui Urban/Divulgação/Plus Talent)

 Um dia depois parei para assistir o Campeonato Brasileiro de futebol. Não temos mais craques carismáticos, não vemos paixão nos olhos dos jogadores e tudo o que temos é um futebol burocrático dentro de campo, com falta de profissionalismo fora dele. Debatemos constantemente a modernização do esporte e o modelo de negócio, mas ele nunca vai prosperar sem o talento, sem o amor dos seus protagonistas. De nada adiantam os estádios modernos, as cotas de TV com cifras astronômicas e os recursos tecnológicos se os atletas forem máquinas, não artistas.

A arte não poderá nunca ser substituída pela tecnologia, apenas auxiliada. A arte pode até ser lucrativa, mas terá êxito se o lucro não for a única finalidade do negócio. A arte só tem valor se o artista amar o que faz. E talvez por isso as grandes marcas estão reticentes em investir apenas na estampa da camisa de um clube de futebol.

O que eu vi na sexta-feira foi arte. Nas palavras de Armin Van Buuren: “A música salva a minha alma, a batida salva a minha vida e o DJ salva a minha noite”. Mas do jeito que as coisas andam, quem vai salvar o nosso futebol?

Resumo da rodada: Inter vai incomodar?

por Alessandro Abate em 29.set.2014 às 16:54h

Graças à irregularidade de Corinthians e São Paulo, a disputa por uma vaga no G4 está mais disputada do que nunca neste Brasileirão. E a luta contra o rebaixamento continua da mesma forma, acirrada e embolada. Já o Cruzeiro, que fazia uma campeonato à parte, pode ser ameaçado pelo Internacional em caso de vitória colorada na próxima rodada, em confronto direto disputado no Mineirão, em Belo Horizonte.

A vitória colorada neste domingo, por 4 a 2, sobre o Coritiba, deixa a equipe gaúcha a seis pontos da Raposa. Se triunfar contra o líder no próximo sábado, o Inter de Abel Braga poderá ficar apenas três pontos atrás.

E como entender a queda vertiginosa do São Paulo? A derrota por 3 a 1 para o Fluminense, no Morumbi, deixou a torcida são-paulina impaciente. A equipe brigava pelo título após um triunfo incontestável sobre o líder Cruzeiro, mas agora soma apenas um ponto dos últimos 12 disputados. Muricy Ramalho, que não estava no banco contra o Flu por problemas de saúde, pode repetir o fiasco de 2009, quando dirigia o Palmeiras na briga pelo título e nas rodadas finais ficou fora da Libertadores.

Mesmo na descendente, Muricy não é tão contestado por sua torcida como Mano Menezes no Corinthians. Diante do Atlético-PR, o Timão foi inoperante mais uma vez. Foi a primeira vez que o Alvinegro perdeu a 2 partida consecutiva no Brasileirão-2014, mas o excesso de empates e a falta de criatividade fazem o treinador ficar pressionado.

Grêmio e Galo venceram de novo e embolaram a parte de cima da tabela, jogando o Corinthians para a sétima posição.

Na zona perigosa do descenso, onde a situação era mais dramática, destaque para a vitória do Bahia, por 2 a 1, sobre o Flamengo. O Tricolor do Aço embalou e respira sob o comando de Gilson Kleina, que está em situação mais cômoda que o seu ex-clube, o Palmeiras.

A rodada poderia ter sido boa para o Verdão, que estava vencendo o Figueirense e escapando da zaona da degola até os 30 minutos do segundo tempo, quando o time da casa fez três gols em cinco minutos e afundou a equipe de Dorival.

O circo rege a impunidade no Brasil

por Alessandro Abate em 15.set.2014 às 22:33h

O meia Petros, do Corinthians, teve a pena de suspensão de 180 dias reduzida pelo Pleno do STJD. Depois do efeito suspensivo, vai cumprir apenas três partidas por ter trombado com o árbitro Raphael Claus no clássico contra o Santos. A punição inicial pode até ter sido exagerada, mas ainda prefiro o erro por excesso do que por omissão. Pior quando se pune para depois voltar atrás, é completamente desmoralizante e causa um reflexo negativo na sociedade. No Brasil tudo vira permitido porque sempre tem jeitinho para tudo.

O esporte poderia – e deveria – ser um espelho para refletir uma luz no fim do túnel, mas é justamente o contrário por aqui. Já os EUA, a coisa é bem diferente. O milionário Donald Sterling, proprietário de Los Angeles Clippers, foi banido da NBA por comentários racistas à sua esposa. E esse é apenas um exemplo.

Recentemente, um vídeo de uma câmera de segurança no elevador flagrou Ray Rice agredindo sua esposa. O atleta foi imediatamente demitido pelo Baltimore Ravens e suspenso por tempo indeterminado pela NFL, mesmo sendo uma das maiores estrelas do futebol americano atualmente. Inicialmente, antes do vídeo se tornar público, Rice,que foi campeão em 2013 com os Ravens, havia sido suspenso por duas partidas da temporada 2014, gerando críticas a Roger Goodell, comissário que comanda a NFL. Ou seja, a pena foi reparada para que o exemplo ficasse mais claro para a sociedade. E nem os apelos de Janay Rice, a mulher agredida, mudaram a decisão.

Outro caso polêmico contra a impunidade aconteceu na Copa do Mundo de 2014, quando o atacante uruguaio Luiz Suárez foi suspenso por nove jogo por morder o zagueiro italiano Chiellini.

No futebol brasileiro, os julgamentos parecem um circo. Argumentos esdrúxulos e falta de bom senso imperam entre os personagens bizarros. As punições não seguem um padrão e são motivadas muitas vezes por interesses clubísticos.

O Supremo Tribunal de Justiça Desportiva existe para proteger o esporte. Mas quem nos protege dele?

#Somostodosidiotas

por Alessandro Abate em 31.ago.2014 às 16:55h

Racismo é coisa de ignorantes. E esse ato repudiante vai continuar se repetindo enquanto for combatido com ignorância também. Não é uma campanha midiática chamando todos de macacos que vai fazer a sociedade entender a profundidade desse problema e a dor que ela causa às vítimas de ofensas racistas, como sofreu Aranha na última quinta-feira, em Porto Alegre. Que os entusiastas das hashtags me desculpem, mas eu não sou um macaco, sou um ser-humano, exatamente igual ao goleiro Aranha, aos volantes Aroucas e Tinga, ao zagueiro Paulão, ao lateral Daniel Alves e, principalmente, a todas as pessoas comuns e anônimas que são discriminadas todos os dias pelo mundo, seja pela cor ou por outro motivo.

Temos sim o dever de repudiar atitudes racistas, mas não temos o direito de fazer um linchamento covarde quando um caso vem à tona, o que já virou praxe no ambiente hostil da internet. Lutar contra um crime não é cometer outro escondido atrás de uma nuvem de hipocrisia.

A torcedora gremista flagrada pelas imagens da ESPN na Arena do Grêmio supostamente gritando “macaco” – é claro para mim que ela falou, mas é assim que a justiça tem de funcionar, não somos juízes de direito para condenar – vai ser ouvida pelas autoridades, e para isso serve a lei. Se for constatado que ela cometeu um crime, tem de ser punida. Esse é o caminho, e precisa de rigidez para que o ato não volte a ser cometido por outras pessoas. Porém, que justiça é essa que, minutos depois das imagens serem veiculadas na TV, já divulgava os perfis de redes sociais da cidadã para o início de um linchamento covarde com pessoas que usam termos e ameaças tão violentos quanto o racismo? Será que esses “justiceiros” sabem o que é respeito e igualdade social ou só agem assim para mostrarem engajamento com causas nobres?

Muita gente faz isso porque tem o mesmo nível de ignorância de uma pessoa preconceituosa. Isso precisa mudar com projetos de conscientização, que está diretamente ligada à educação do país. Só que fiquei espantado a irresponsabilidade de alguns jornalistas experientes, que deveriam ser algumas das cabeças pensantes da sociedade, apontando a moça para o ódio irracional como um símbolo de vingança.

A casa da gaúcha, que fica na Zona Norte de Porto Alegre, foi apedrejada. Ela ainda não havia sido encontrada. Também pudera, pode acabar sendo agredida de forma mais covarde ainda na rua.

Dessa forma damos passos largos no caminho de uma sociedade sitiada, onde a justiça será feita pelas próprias mãos e as autoridades não passarão de um modelo falido. Olho por olho, dente por dente.

Prefiro acreditar ainda que fiz uma faculdade de jornalismo para compartilhar repertório cultural com meus leitores. Levar a informação de forma clara para que todos tenham a capacidade de se engajarem por um mundo melhor. Inflamar a massa contra A ou B não vai sanar os nossos principais problemas. A luta é dura, mas tem de ser travada com inteligência.

Não vamos vencer o racismo com posts e ameaças na internet, é preciso fornecer conteúdo para conscientizar a população

Reprodução do LANCE! de domingo, 31/8/2014

É possível mudar com Muricy no comando?

por Alessandro Abate em 03.ago.2014 às 16:59h

São Paulo voltou com tudo após parada para a Copa do Mundo. Pena que esse ritmo alucinante e evolução tática só duraram um tempo da partida contra o Bahia, vitória por 2 a 0. Depois disso, o time de Muricy Ramalho não conseguiu desenvolver em campo o que se espera, considerando a qualidade do plantel.

E algo me chama atenção nas entrevistas concedidas pelo treinador após os fracassos. Ou Muricy justifica o placar enaltecendo o futebol da equipe, nos passando a impressão de que ele não deve ter assistido o mesmo jogo, ou o comandante detona tudo, como se não fosse responsável pela incompetência dos jogadores.

A impaciência de Muricy Ramalho com atletas, dirigentes, torcedores e jornalistas, se agrava a cada rodada do Brasileirão. Parece um complô, uma grande teoria da conspiração contra o indefeso treinador, que sabe tudo – a vasta lista de títulos conquistados no currículo prova isso – e não precisa se reinventar.

Ao contratar Kaká, argumentei com meus colegas de redação que a chance do treinador se atrapalhar com tantas opções para as mesmas posições era grande.

Muricy não tentou adequar uma formação tática para utilizar o potencial máximo de suas estrelas, e não foi a primeira vez que sofreu com esse dilema em sua carreira. Para ele, quando o craque não se adequa ao sistema, o treinador está isento de culpa em um eventual fracasso.

O Tricolor Paulista não tem uma defesa forte, isso está claro. Por mais que os jogadores do setor tenham qualidades técnicas, pecam no posicionamento e na hora de decidir as jogadas – o que também é responsabilidade de quem comanda. Desta forma, a tática de decidir os jogos nos detalhes, que consagrou Muricy Ramalho, não funciona. É preciso então um time que sufoque, que use a qualidade de Kaká, Ganso, Pato, Kardec e Luis Fabiano para marcar mais gols do que leva. E será que isso vai acontecer com Muricy?