Ednardo sabe um assunto que não pode comentar em casa. Um assunto que vira em briga certa com a mulher: o fim do Venturoso.
- Se dá algum problema e digo que vou parar com o time, ela fica com raiva de mim. Rapaz, logo mudo de ideia – conta Ednardo José Marques Costa, 50 anos.
Pudera, a história da família se mistura à história do Venturoso, o time de várzea em atividade mais antigo de Fortaleza, com 75 anos. Para Aspásia, a mulher de Ednardo, o Venturoso é um patrimônio familiar. Graças ao time, a casa está sempre cheia aos domingos. Graças ao time, as três filhas e os netos se reúnem todos fins de semana. Graças ao time, fez amigos que levará para toda a vida.

Com 75 anos, time é o mais velho da várzea de Fortaleza (Foto:Divulgação)
Ednardo é o presidente do time. Ele já foi jogador, técnico e diretor. Seguiu o mesmo caminho do pai, seu José, que tem 76 anos e também passou por todas as funções desde que chegou como jogador, aos 17. O Venturoso não tem patrocínio, não tem campo, não tem sede. Não ambiciona virar profissional, não tem pretensão de acumular títulos nem revelar talentos. O objetivo é reunir os amigos, jogar uma pelada todo domingo (em torneio ou amistoso) e depois ir para a “resenha”. A resenha é a cervejinha que rola após as partidas, geralmente acompanhada por uma feijoada, canja ou churrasco “quando aparece uma carne”. Tudo rola na casa de Ednardo. E Aspásia, claro, é a encarregada de cuidar dos comes e bebes.
- Acordo às 5h de domingo para deixar tudo pronto antes de ir para o jogo – conta Aspásia, que ainda lava uniformes sujos deixados pelos jogadores.

Venturoso une a família de Ednardo (Foto:Divulgação)
Os jogos são aos domingos, mas a programação começa religiosamente toda terça-feira, às 19h30. Uma reunião define onde será a partida, contra quem (se não tem torneio em andamento), e como o time irá se deslocar. E, principal, da onde virá o dinheiro para bancar o transporte do pessoal e a resenha. Geralmente o custo semanal fica entre R$ 320 e R$ 350. Uns R$ 150 vão para ônibus e o resto vai para comprar cerveja, comida e ajudar na gasolina para quem mora longe.
- A gente reúne R$ 30 aqui, R$ 10 ali. Cada um ajuda como pode. É difícil arrumar o dinheiro, mas sempre conseguimos – diz Fred Flexa, o Fredão, treinador que está envolvido há 30 anos com o time.
Com a fama conquistada na capital do Ceará, o Venturoso se dá ao luxo de cobrar R$ 100 por amistoso. O dinheiro ajuda no cachê das estrelas do time.
- Para os melhores jogadores a gente paga entre R$ 15 ou R$ 20 por partida, dependendo da qualidade técnica – fala Fred, sério, o que parece até piada para quem está acostumado com os números milionários do futebol.
Toda semana é assim, o Venturoso, que pelo dicionário significa “aquele que é feliz”, leva sua energia para algum canto da cidade.