Tite e o benefício das circunstâncias

Tite e o benefício das circunstâncias



Tite

FOTO: Laís Torres/CBF

Os feitos são tributários às circunstâncias. Daqui uma semana, a Seleção Brasileira iniciará nova e importante provação na “Era Tite” e pode ser que o técnico reafirme esse axioma no dia 7 de julho, no Maracanã. Uma conjectura, nada de prognóstico. Um conjunto de fatores torna o torneio fundamental para o técnico e o prestígio atual da equipe. Tite sente na pele o dissabor dos extremos do humor nacional – um clássico da relação de euforia e depressão do brasileiro com o escrete canarinho desde pelo menos a Copa de 50.

Assumiu o comando repleto de louros, aclamado, sob o signo da sempre suspeita unanimidade, e assim chegou à Copa do Mundo. O moral foi reforçado com a arrancada nas Eliminatórias, sequência de vitórias que catapultou o Brasil das últimas colocações, arriscando-se a uma inédita ausência em um Mundial, para a liderança e classificação folgada.
Bastou o insucesso na Copa para perder a aura construída pelos resultados com auxílio luxuoso da perigosa armadilha da predestinação – a Seleção Brasileira sempre flanou por território místico, da crença no destino manifesto, como se viu na convocação com tom de alistamento de Felipão e Parreira para a procissão do hexa em 2014.

Além dessa relação sem nuances que a opinião pública estabelece historicamente com a Seleção, sempre na iminência de mudar, há outros dois elementos que fazem subir a tensão. Um deles é o fato de a competição ser no Brasil. A memória recente do 7 a 1, o choque causado pela tragédia em casa, instalou-se no subconsciente nacional. Tite e boa parte dos jogadores não tomaram parte no enredo de 2014, mas o legado emocional está presente. De lá para cá, a equipe colecionou fiascos em duas edições de Copa América e acabou decepcionando no Mundial seguinte. O conjunto da obra do período provoca desconfiança, reduz a tolerância, é praxe para um país acostumado às glórias.

O terceiro ingrediente, na prática o mais relevante, é a perda do seu principal jogador. Com a lesão de Neymar, a Seleção fica de novo carente de um referencial técnico inegável, um astro, para usar termo mais de acordo com o espírito do tempo. Isso aconteceu justamente na semifinal do Mundial contra a Alemanha e na Copa América de 2015, ocasião em que foi expulso contra a Colômbia, ainda na primeira fase, e não atuou mais. Perguntado sobre a importância do atacante, antes da lesão e diante da turbulência pela acusação de estupro contra o jogador, Tite foi categórico ao classificá-lo de imprescindível. Na sequência, usou um sinônimo moderador talvez para se resguardar de uma situação que poderia se configurar: ‘não é insubstituível’. Quis o destino que o técnico tenha que prescindir e, por consequência, substituir Neymar.

Os feitos são tributários às circunstâncias. Filosofia sem comedimento é pensar que o fato possa acabar ajudando o treinador. Diante das polêmicas recentes extracampo envolvendo o atacante, Tite era a todo momento acossado pelas perguntas sobre convocação, corte e escalação do camisa 10. Ao mesmo tempo que se liberta dessa pressão, pode desbancar as críticas de “Neymardependência”. No íntimo, é possível que sinta essa leveza, embora não vá externá-la publicamente, por razões óbvias. No esporte, os fardos podem transformar-se em aliados. Diante das desconfianças geradas no pós-Copa do Mundo, a anima em baixa da Seleção pelas desditas dos últimos anos e a perda de Neymar, Tite não só ganhará automática sobrevida no cargo como desfrutará de prestígio ainda maior por devolver a equipe ao topo de uma competição importante, dentro de casa e desprovido do melhor jogador. É pouco?



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