Sinal fechado: a final da Copa América

Sinal fechado: a final da Copa América



Brasil x Peru

Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

No domingo, a Seleção Brasileira disputará a final da Copa América pela sexta vez em 24 anos – de 1995 para cá. Em quatro das dez edições ocorridas no período a equipe não foi finalista. Perdeu apenas uma das cinco decisões nesse recorte de tempo, justamente a que o inaugurou, em 95, quando caiu nos pênaltis diante dos anfitriões uruguaios. Ainda que seja apenas a terceira no ranking de títulos na história do torneio – os rivais Uruguai e Argentina vêm à frente -, a equipe verde-amarela tornou-se predominante no ambiente sul-americano nas últimas duas décadas. Some-se a isso o fato de ter ficado com o troféu em todas as oportunidades em que foi sede da competição (1919, 22, 49 e 89) e o status do adversário que terá no Maracanã, a seleção peruana, para se ter a dimensão do favoritismo brasileiro. Estatísticas e trajetórias não entram em campo, cada partida de futebol tem sua própria dinâmica e contextos, mas a carga histórica não pede licença nos olhares de crítica e público.

Tite chegou à Copa América pressionado e com olhos rutilando pelo título. Sabe que a conquista lhe dará um respiro (breve?) para trabalhar até a Copa do Mundo de 2022. São curiosos esses descaminhos. Assumiu no meio de um ciclo, sem poder planejar muito, resgatou a autoestima da equipe em meio às eliminatórias para o Mundial da Rússia, mas viu o prestigio sofrer abalos com a eliminação para a Bélgica. Quando pôde iniciar um novo período, se vê rapidamente emparedado. É como no Sinal Fechado, canção agônica de Paulinho da Viola: “Me perdoa e pressa, é a alma dos nossos negócios”, Cada vez mais o futebol bebe na fonte do “é para ontem”.

A equipe não sofreu nenhum gol nas cinco partidas da campanha. O sistema defensivo só foi realmente testado na semifinal diante da Argentina, com os rivais finalizando mais e a trave salvando a pele brasileira em duas ocasiões. Nas outras partidas, o enredo foi quase sempre parecido, com adversários fechados, dispostos a mendigar contra-ataques. Interessante ter sido justamente o Peru o único que se dispôs a sair para o jogo e acabou sendo goleado por 5 a 0 – uma falha bisonha do goleiro Gallese, herói da classificação para a final, facilitou a tarefa da Seleção. Nos jogos contra times trancafiados é que ficou exposto o problema maior do Brasil, a extrema dificuldade de furar esses bloqueios. A impressão foi sempre a de que o ataque engessado, com Coutinho armando e três atacantes, dois deles abertos, dificultou a tarefa. Faltou mais mobilidade para ludibriar as tais linhas defensivas. Nessas partidas, houve períodos de maior dinamismo, como no segundo tempo contra a Bolívia, após abrir o placar em cobrança de pênalti, e também na etapa final contra o Paraguai, especialmente depois que o zagueiro Balbuena foi expulso. Episódios que abriram o mar. Diante da Argentina, com mais espaço, Daniel Alves, Firmino e Gabriel Jesus construíram um triunfo expressivo, pelo simbolismo da partida e a redenção dos personagens-chave.

É difícil crer que o Peru vá iniciar o jogo no Maracanã com postura similar à que iniciou na Arena Corinthians. O contexto era muito diferente, Os peruanos estavam praticamente classificados e almejavam a primeira colocação do grupo. Agora, fazem uma inesperada final, algo que o país não experimentava desde 1975. É provável que repita o modelo bem sucedido aplicado contra o Uruguai, nas quartas. Se deu certo contra um adversário que era favorito, por que não repetir diante de uma equipe também mais forte e que sofreu quando exposta a esses fatores?

O Brasil entrará em campo sabedor de que a perda do título será catastrófica. Não só pela trajetória recente no torneio e a dimensão do rival, mas também pelo ressaibo da Copa de 2014. Evitar o pior cenário será mais simples se o time for mais inventido na hora de lidar com um rival encastelado.



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