Semana para berrar: ‘Foi épico!’

Semana para berrar: ‘Foi épico!’



Lucas

FOTO: AFP

Nenhum esporte é tão farto em epopeias como o futebol. É o gênero que mais se coaduna à natureza de um jogo em que o inesperado tem força desproporcional. Assim como na poesia dos feitos, parece até mentira de tão incrível. Na memória dos apaixonados, há sempre algumas relacionadas a situações únicas do time do coração, quando o torcedor vibra: “Foi épico!” Títulos e/ou vitórias conquistadas contra prognósticos dominantes, com um gol quando tudo parecia perdido, produzidas por personagem antes vistos como secundários, por meio de viradas improváveis, condições das mais adversas… Talvez seja esse o elemento-chave do magnetismo do jogo. É o substrato do maior dos clichês, o da caixinha de surpresas. Uma dessas ideias que cansam pelo uso, mas resistem pela verdade intrínseca.

Por alguma conspiração astral, ou mera firula do acaso, a semana produziu épicos em série para deleite dos amantes do esporte. Todos ocorridos com a estampa da virada. Nesses jogos, a narrativa é cruel com os presumidos vencedores. A fatura parecida liquidada, mas o fim foi trágico. Tragédia e épico sempre se imbricam. O Grêmio fez 3 a 0 no Fluminense com 22 minutos, pelo Campeonato Brasileiro. A pinta era de uma goleada história do Tricolor gaúcho sobre o carioca. No Twitter, a rede social do impulso que constrange as opiniões, era um festival de deboches a Fernando Diniz. Em pouco tempo, o técnico iria de besta a bestial, para usar a expressão cunhada por Otto Glória. O corajoso estilo de jogo do qual não abre mão foi fundamental para que o cataclismo se transformasse em catarse. Os 5 a 4 para o Fluminense deixaram perplexos analistas e torcedores na noite de domingo. O improvável aconteceu em partida de dois dos poucos times brasileiros atualmente que se preocupam mais em atacar que defender. Em outro chavão, este do fraseado moderno, são equipes que propõem o jogo, não são meramente reativas.

Mas os épicos maiores ficaram reservados para as semifinais da Liga dos Campeões, o mais badalado torneio de clubes do mundo. Antes de terça, já era possível vislumbrar com alto grau de embasamento que Barcelona e Ajax fariam a final que arrancaria sorrisos à memória do grande Johan Cruijff. O time holandês receberia o Tottenham tendo vencido por 1 a 0 na Inglaterra e com o estofo de ter eliminado Real Madrid e a Juventus, esta com Cristiano Ronaldo, nas etapas anteriores. Já o Barça, com mais uma atuação sobrenatural de Messi, e mesmo com o Liverpool em ótima jornada, havia feito 3 a 0 em casa. Os ingleses precisariam devolver o placar para forçar a prorrogação ou fazer quatro de diferença. Já era…

Pois sabendo que não era impossível, eles foram lá e fizeram…. A frase costuma ser atribuída a Jean Cocteau, múltiplo artista francês, e foi praticada pelos times do outro lado do Canal da Mancha. Liverpool e Tottenham conseguiram as façanhas que atordoaram estes dias de maio. Os heróis não constavam no script nem do mais original dos roteiristas. Sem os atacantes Firmino e Salah, parceiros de Mané no trio dos mais festejados, os Reds golearam o Barcelona com dois gols do belga Origi e dois do holandês Wijnaldum. Curiosamente, Origi já havia feito dias antes o gol contra o Newcastle que manteve o Liverpool vivo na disputa pelo título inglês com o Manchester City.

Em Amsterdã, o Ajax terminou o primeiro tempo vencendo por 2 a 0, ampliando a vantagem no confronto para três gols. O Tottenham, que havia passado três tempos sem marcar um único gol na disputa, precisaria fazer três em um só tempo. Seria ilógico, não fosse a força ilógica dos épicos. Não só o “milagre” se sucedeu, como todos os gols foram de Lucas. O brasileiro teve uma noite homérica, de Ulisses. Um épico forjado por herói indiscutível. Foi Lucas, ou Odisseu, que concluiu uma semana para reafirmar o gênero responsável por fazer do futebol uma paixão sem fronteiras. Haja épico!



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