O que é que o Brasileirão tem?

O que é que o Brasileirão tem?



Palmeiras

FOTO: Paulo Sergio/Agencia F8

No sábado, perfeito quase um terço do ano, começa a principal competição do calendário do futebol brasileiro. Prima-dona das disputas, deveria esparramar-se por quase toda a temporada, como acontece com as principais ligas europeias, mas fica ensanduichada em pouco mais de sete meses e com uma pausa de três semanas para a disputa da Copa América. É no campeonato nacional por pontos corridos que se têm a real percepção da qualidade, potencial, erros e acertos das equipes. Terminá-la entre os primeiros é, ou deveria ser, fonte da satisfação que longas e árduas caminhadas costumam provocar em seres humanos. É como um artista que termina um álbum musical, livro ou pintura que lhe tomaram muito tempo, exigindo forte disciplina, força mental, desafio e doses repetidas de inspiração.

Com a certeza de jogar 38 partidas, duas vezes contra cada rival, têm-se uma densidade de trabalho que nenhum outro torneio proporciona. Desde o planejamento de elenco até a capacidade dos técnicos de lidar com adversidades que vão de lesões, vaivéns do mercado, estratégias emocionais e táticas. Em termos econômicos, é possível que clubes planejem receitas e assegurem exposição às marcas com as quais têm contrato. Permite um círculo virtuoso ainda negligenciado no país pentacampeão.

Os torneios que correm paralelamente, em especial Copa do Brasil e a Libertadores, são cobiçados pelos principais clubes não sem motivo. Há o prestígio natural de uma conquista, caráter muito forte no caso da competição internacional, e a possibilidade de ser campeão em menos jogos – o tal “caminho curto”. Aqui, porém, reside um paradoxo expositivo da natureza suicida da mentalidade que viceja no Brasil. Nos mata-matas, a eliminação é sumária, não há fôlego para reação. Priorizá-los sem termos é correr o risco de uma dupla frustração imediata: a queda em um forçando a percepção de que no outro Inês é morta, ou agoniza. Nos pontos corridos, há a garantia de jogar até o fim, posicionar-se entre os melhores do país e terminar o ano com uma detecção realista do trabalho feito, condição para planejar o ano seguinte.

O glamour global imenso que envolve a Liga dos Campeões, tendo sua correspondência para os sul-americanos na Libertadores, talvez turve a noção de que as principais ligas europeias são bastante valorizadas. Tomemos o exemplo do que acontece no atual Campeonato Inglês. Liverpool e Manchester City travam duelo acirrado e de altíssimo nível pelo título. Passaram a temporada revezando-se na ponta jogando futebol de muita intensidade e busca obsessiva pelo gol. Os dois passarão dos 90 pontos, com aproveitamento superior a 80%. Os Reds estão nas semifinais da Liga dos Campeões e o adversário caiu nas quartas. O time dirigido por Guardiola conquistou a Copa da Liga e está na final da Copa da Inglaterra. Chegaram a esse patamar sem minimizar a relevância da longa disputa doméstica. O Liverpool nunca foi campeão na era da Premier League, inaugurada em 92-93, e o Manchester City tenta ser bicampeão pela primeira vez. A despeito dessas motivações contextuais, porém, há a razão condutora permanente dos grandes times: conquistar o título nacional, aquele que delimita a temporada do início ao fim.

O mal ajambrado calendário brasileiro, ainda sem contemplar o espaço adequado para a sua principal competição, conspira contra a natureza evolutiva dela. Como entra em cena em momento relativamente tardio do ano, com os clubes já tendo disputado dezenas de jogos somando torneios estaduais e sul-americanos, não tem o ar de frescor e retomada esportiva que em outros lugares. Times como Flamengo e Palmeiras, apontados entre os favoritos pelos altos investimentos que fazem, já foram questionados por seus torcedores devido ao futebol pragmático e oscilante demonstrado nesses quatro meses. Outros, como Cruzeiro e Grêmio, causam expectativa desmesurada pelo que já fizeram, um campeão estadual e de campanha irrepreensível na Libertadores. E há casos como os de Santos e Corinthians que têm técnicos inquietos e entram em campo com muitos calos provocados pelas mais de duas dezenas de partidas em que já atuaram.

Assim começa o Brasileirão, joia à espera de lapidação.



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