O (des)ânimo com a Seleção Brasileira

O (des)ânimo com a Seleção Brasileira



Morumbi

Enquanto o locutor recitava os nomes dos titulares e reservas da Seleção Brasileira antes do jogo contra a Bolívia, na partida de abertura da Copa América, o público no Morumbi aplaudia uns timidamente e silenciava em relação a outros. Nenhuma manifestação era efusiva, de empolgação. Os nomes que geravam reação mais expressiva – e, ainda assim, sem alarde -, eram aqueles com algum vínculo com clubes brasileiros. Cássio, Fagner e Everton são os únicos do grupo que atuam no país, mas há atletas associados a times locais que os revelaram, como Gabriel Jesus, David Neres, Casemiro e Paquetá. O único elemento capaz de mobilizar o torcedor que pagou ingresso abusivo, escorchante, foi o clubístico. Na ausência de Neymar, a equipe de Tite ficou carente de figuras carismáticas, com apelo midiático e todas as consequências positivas e negativas que isso traz em um espaço que valoriza demais essas características.

Quem esteve no estádio ficou impactado com a temperatura morna da plateia. Abertura de um torneio relevante, em casa, e as arquibancadas pouco festivas, quase sempre contemplativas, como se fosse uma ópera, não um jogo de futebol. Havia um pequeno agrupamento que tentava puxar coros, mas o esforço era vão, não havia receptividade. Até mesmo a saturada “ola” se manifestava alquebrada, sem entusiasmo, coreografia sem viço. Esse ambiente artificial para um jogo de futebol revigorou um debate que está na ordem do dia há muitos dias, anos: a apatia da opinião pública nacional em relação à Seleção.

No caso do percebido no Morumbi, que não se reproduziu no jogo diante da Venezuela, segundo relatos de amigos jornalistas que estiveram na Fonte Nova, a impressão imediata era que a causa estava no perfil médio do torcedor que presente: bom poder aquistivo, espírito turístico e familiaridade superfícial com futebol. Era como se para o grosso dos que compareceram, ver a Seleção Brasileira fosse um programa chique, um símbolo de status, devidamente exibido em fotos e vídeos nas redes sociais. O único momento a romper de fato com o marasmo foram as vaias ao fim do primeiro tempo. Como se a ópera tivesse desagradado e a audiência quebrado o decoro.

Essas impressões da atmosfera de um jogo importante reforçam a tentativa de compreender o distanciamento emocional do torcedor com a Seleção. Se o estádio, por razões econômicas e motivacionais, abrigou quase 20 mil pessoas a menos que o esperado e a maior parte do público se comportou com indiferença, é inevitável pensar no que isso diz sobre o apelo atual do time.

A Seleção Brasileira parece cada vez menos brasileira no aspecto afetivo. Os principais jogadores deixam o país em tenra idade, forjando pouco ou quase nenhum lastro com os clubes e seus torcedores. Os que são convocados atuando no país desfalcam seus times em jogos importantes a fim de disputar amistosos mequetrefes ou torneios de base. Rodrygo transferiu-se do Santos para o Real Madrid sem fazer a planejada partida de despedida porque foi listado para uma competição da Seleção olímpica fora de Data Fifa. Mesmo preferindo defender o clube, a CBF não autorizou que o atacante fosse escalado. São aspectos que acabam afetando a alma do torcedor, ajudando a afrouxar a vontade de acompanhar a equipe nacional. Associados ao futebol abaixo da expectativa desde a Copa da Rússia e o acesso restrito das classes mais pobres aos estádios, temos um coquetel danoso.

Os jogadores e o técnico Tite têm deixado escapar frustração com essa realidade. A eles cabe o desempenho em campo, capaz de seduzir o povo, mas também podem atuarn fora dele para minimizar o problema tentando se aproximar mais dos torcedores. Já a CBF deveria zelar mais pelos clubes. Ao menos por pragmatismo, justamente para valorizar a sua galinha dos ovos de ouro, parando de minar a popularidade da Seleção ao prejudicar os clubes. É uma autosabotagem. Fará bastante se adequar o calendário e impedir que as Seleções, principal e de base, parem de fragilizar as equipes várias vezes no ano. E ser menos extorsiva nos preços de ingressos em amistosos e torneios, permitindo acesso aos jogos de torcedores de renda baixa em um país com sérios problemas socieconômicos.

Se no dia 7 de julho, Tite e seus comandados conquistarem a Copa América no Maracanã, é previsível que ocorra trégua da má vontade. A autoestima coletiva fala mais alto nesses momentos, ainda mais em se tratando de um país que vive de espasmos narcísicos, de acarinhamento no ego. Os problemas de fundo, porém, serão apenas anestesiados. É preciso mais.



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