Final da Copa do Brasil: E por falar em identidade…

Final da Copa do Brasil: E por falar em identidade…



Corinthians x Cruzeiro

FOTO: Rodrigo Gazzanel/RM Sports

A final da Copa do Brasil proporcionará, casualmente, a rara oportunidade de falarmos de identidade em um ambiente caótico. Ela anteporá o trabalho consolidado de um técnico contra outro que, embora embrionário, vem mergulhado em uma filosofia também consolidada. Por razões diferentes, Cruzeiro e Corinthians são exceções de permanência onde o reinado é o da instabilidade, o do futebol brasileiro. E, por fatores aleatórios, eles se cruzam. Mano Menezes comanda o time mineiro há mais de dois anos. É o mais longevo entre os treinadores da atual Série A. Foi sob seu comando, entre 2008 e 2010, que o Corinthians adquiriu o que se convencionou chamar de identidade de jogo. Em uma década, salvo por períodos curtos, o time teve consistência defensiva e enorme competitividade. Trata-se aqui de uma definição em linhas gerais, obviamente. Houve nuances e oscilações, como é natural. Tite, por exemplo, foi distinto entre a primeira e a segunda passagem nesse naco temporal. Ficou famosa a expressão “ano sabático” para o retiro que fez o técnico evoluir conceitos e adquirir novos conhecimentos. Só que os ditames principais não se perderam. Foi dessa forma que o gaúcho ganhou vulto em cenário nacional e assumiu a Seleção Brasileira. Algo que também acontecera com Mano, depois demitido da equipe nacional por razões mais politiqueiras que de mérito (alguma novidade?). O fato é que Mano, Tite e, depois, Carille formaram uma linha de ideias e aplicação do jogo razoavelmente afins. E o clube, mesmo perdendo jogadores com frequência e vivendo problemas financeiros originados pela conta a pagar de seu novo estádio, conquistou fartura de títulos nessa era, com destaque para três Brasileiros, uma Copa do Brasil, uma Libertadores e um Mundial.

Jair Ventura não tem nem um mês no comando corintiano. Um átimo perto da longa quilometragem de Mano no Cruzeiro. Mas beneficia-se da filosofia sedimentada pelos antecessores, entre os quais Mano, para pisar no chão com a força de quem é da casa. Suas ideias mais claras de jogo, aquelas que o colocaram na ribalta ano passado, no Botafogo, afinam-se com as que o atual técnico cruzeirense plantou no Corinthians. É esse o curioso entrelaçamento que encontraremos nas finais dos dias 10 e 17 de outubro. A existência de Identidades de jogo em um espaço que tem sido predominantemente vazio. Uma devido à estabilidade no cargo do treinador e outra decorrente da continuidade de princípios. É curioso que nos deparemos com esse painel na reta final de uma competição de mata-mata, mais dada ao imponderável por natureza.

Identidade também gera conflitos, seja pelo tédio, seja pela necessidade de se provar capaz de ir além. Depois do elogiado trabalho no Botafogo com poucos recursos, com time que era disciplinado e organizado para se defender e vencia partidas com contra-ataques econômicos e certeiros, foi para o Santos sinalizando o desejo de lutar contra o rótulo de defensivista. Estava em um clube bastante associado ao jogo envolvente – o que nem sempre foi verdadeiro. Ao tentar mostrar-se camaleônico, ou negar-se a depender de apenas um modelo de jogo, perdeu a mão. Agora, no terceiro alvinegro de sua trajetória, encontra atmosfera favorável a enxergar-se no espelho e sem desaprovação. A ponto de não ter receio ao apenas defender-se no jogo de ida das semifinais, contra o Flamengo, segurar o 0 a 0 e ouvir a Fiel cantar satisfeita no Maracanã. Um pragmatismo com o qual o corintiano habituou-se e tem ótima convivência.

O Cruzeiro de Mano é superior ao Corinthians nas individualidades e opções de banco. Embora tenha dos elencos mais vastos do Brasil, possui como trunfo a solidez para se defender que caracteriza a carreira do treinador. Na decisão, terá de lidar com uma provocação à sua identidade. Fará o primeiro jogo em casa e decidirá fora. Foi como visitante que a equipe construiu as classificações contra Santos e Palmeiras, na Copa do Brasil, e Flamengo, na Libertadores. Venceu os três longe da torcida e, no Mineirão perdeu dois, em um deles avançando somente nos pênaltis, e empatando outro.
Agora que as identidades se cruzam podemos detectar o que talvez seja a pobreza do jogo praticado no Brasil atualmente: quem constrói um modelo, o faz centrado na defesa.



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