Diniz e Sampaoli, os sátiros do padrão

Diniz e Sampaoli, os sátiros do padrão



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Com poucas semanas de temporada, devemos agradecer a esses senhores de nome Fernando Diniz, 44, e Jorge Sampaoli, 58. Sátiros do padrão vigente no país, deram uma bela animada no período que costuma ser enfadonho por aqui. E o curioso é o método heterodoxo que usam para gerar esse rebuliço todo: exigem, ora essa, que seus jogadores busquem ter a bola. não aceitem perdê-la, corram para recuperá-la, retê-la e insistam em buscar o gol. Obsessão estranha essa da dupla de querer jogar. Uma ousadia e tanto.

No país consagrado historicamente pelo futebol-arte, pela poesia, na clássica definição de Pasolini esquadrinhada no longo ensaio de José Miguel Wisnick, a Tábua de Esmeralda tornou-se defender a todo custo e buscar o gol esporadicamente, com cautela, em silêncio, quase que disfarçada e envergonhadamente. Sim, de vez em quando pintam exceções a adulterar a norma, como o surpreendente Grêmio de Renato Gaúcho, que, especialmente em 2017, derrubou clichês que envolvem o clube e a figura do técnico-ídolo praticando futebol de imposição técnica. Mas a regra, já faz tempo, é a preservação do emprego pela pedra, com toda a vênia a João Cabral de Melo Neto. E outra vênia a Pessoa: Defender é preciso, jogar não é preciso.

Sampaoli e Diniz são homens de coragem, temos de admitir. Acreditam em ideias ofensivas que corrompem o status quo do futebol doméstico. E fazem ouvidos moucos para os porta-vozes desse status, sempre alertas para dar umas pinicadas diante de reveses de Santos e Fluminense. Reiteram nas entrevistas suas crenças na forma de jogar, com a bola no pé e o gol na cabeça. E o fazem em clubes que, embora gigantes, têm hoje orçamentos bem mais enxutos que alguns de seus principais rivais.

Não é de hoje que se discute a qualidade do futebol praticado no Brasil. E já foi pior. Anos atrás, predominava a ligação direta, a aleatoriedade, com jogos paupérrimos. Agora, a tendência dominante é focar na solidez defensiva e considerar a construção como segunda instância. Diminuir espaços na defesa e basear-se em contra-ataques. Não que defender bem seja um demérito. Necessita competência, é um elemento relevante do jogo. Os dois últimos campeões brasileiros bateram recorde de invencibilidade e aproveitamento exibindo sistemas defensivos pujantes e sendo eficientes no ataque. A fórmula de sucesso do Corinthians de Carille, em 17, e do Palmeiras de Felipão, em 18, não é simples de executar. Mas é menos inventiva e atraente que a de treinadores que aspiram ter a iniciativa do jogo.

É possível defender-se com a bola e não apenas esperando o adversário, satisfazendo-se com ações ofensivas ocasionais. Foi essa mentalidade que consagrou o técnico mais importante do mundo na última década. As equipes de Guardiola são assim, defendem-se atacando. O mesmo faz o Liverpool de Jurgen Klopp, que trava disputa renhida pelo título inglês com o City. O que técnicos como Sampaoli e Diniz fazem é botar em xeque o uso do escudo do jogo cauteloso em nome da disparidade financeira do futebol brasileiro em relação à elite europeia. Em menor grau, eles experimentam essa discrepância internamente e não se rendem. Trará oxigênio para o ambiente local se obtiverem resultados expressivos com a filosofia que aplicam. Mas só de estarem incomodando os pragmáticos já merecem louvor.



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