Corinthians x Santos: a ousadia pede carona

Corinthians x Santos: a ousadia pede carona



sampaoli x carille

Exatas três semanas depois de travarem um instigante duelo em Itaquera, Corinthians e Santos se reencontrarão no mesmo estádio e pela mesma competição no próximo domingo. No jogo da primeira fase do Paulistão, o Corinthians conseguiu reprimir o festejado bom futebol do rival dificultando a sua saída de bola na etapa inicial. Fábio Carille explicou após o empate por 0 a 0 que havia detectado debilidades do Santos em desenvolver seu jogo contra quem se dispôs a sufocar seu estilo na raiz, enquadrando as repetidas trocas de passe entre os zagueiros, o primeiro meio-campista e o goleiro Vanderlei, pouco íntimo do jogo com os pés. Armou-se para explorar essa suposta fragilidade, impedindo a concatenação do jogo santista.

De fato, nos primeiros 45 minutos o Santos padeceu diante do abafa do oponente, postura estratégica beneficiada também pelo clima do estádio lotado apenas com corintianos, um fator de atmosfera que é por vezes negligenciado nas análises futebolísticas. Os santistas cometeram muitos erros ao sair jogando e passaram maus bocados, ficando no lucro ao irem para o vestiário com a partida empatada. Na segunda parte, as entradas de Rodrygo e Cueva somadas à natural perda de fôlego do Corinthians para sustentar a proposta inicial, mudaram o panorama do clássico. Curiosamente, foi o Santos que ficou perto de abrir o marcador em uma falha corintiana ao tentar trocar passes na defesa, com Cássio presenteando Cueva e este errando conclusão relativamente fácil.

Carille notabilizou-se no seu trabalho anterior pelo Corinthians por montar defesa bem compacta, com as tais linhas organizadas e disciplinadas, sem dar quase brechas aos adversários. Foi bicampeão paulista e campeão brasileiro com essa inabalável premissa. Passou invicto o primeiro turno do BR de 17, algo inédito nos pontos corridos até então. Na volta ao clube, tem tentado ser mais versátil, ampliar seu repertório com mais volume ofensivo. É verdade que nem sempre o faz, como no Dérbi contra o Palmeiras, quando regressou nos princípios.

Sampaoli, por sua vez, é signatário desde sempre do futebol que busca o gol sem cessar. O caminhar infrene do técnico de um lado para outro lado na lateral do campo é a batuta do processo. Ganhou fama com a seleção chilena atuando dessa forma. Antes do jogo da primeira fase, o técnico do Corinthians foi questionado sobre o estilo santista e declarou que não era novidade para quem acompanhava a carreira do argentino. Em campo, buscou estrangular esse estilo, foi camaleônico. O antigo Carille, fincado na solidez defensiva, cedeu terreno às inquietudes do novo Carille.

A primeira partida de Sampaoli no comando do Santos também foi contra o Corinthians, na Arena, em 13 de janeiro. Na ocasião, causou impacto o fato de o time da Baixada ter demonstrado um bom padrão de jogo mesmo com pouquíssimo tempo de trabalho, algo incomum no Brasil. A ponto de a equipe ter ficado mais tempo com a bola que os anfitriões. É razoável supor que esse primeiro confronto tenha influenciado nas escolhas de Carille para o reencontro, em que pese ter sido um amistoso de pré-temporada. O Santos atual caracteriza-se por não rifar jogadas, não renunciar a trabalhá-la desde o campo de defesa. Essa é uma mecânica fundamental da prédica futebolística de Sampaoli, técnico que reza na cartilha de Guardiola: jogar sempre com a bola. Algo que levou goleiro Vanderlei, ídolo do Santos, a ter de conviver com a sombra de Everson, virtuoso com os pés, e tentar aprimorar-se no quesito.

Toda equipe que atua assim se expõe. Não há ousadia sem risco. Foi graças a ela que a Ferroviária quase eliminou o Corinthians. Jogadores alvinegros justificaram a classificação suada exatamente pela capacidade do adversário de ficar com a bola, não importando o contexto da partida. E também é graças à ousadia que os dois duelos entre Corinthians e Santos nas semifinais prometem entregar muita ação. À ousadia de Sampaoli de não abdicar da sua crença de que vencer é mais viável quando se procura o gol. E à ousadia de Carille de não se acomodar em conceitos e buscar ser mais que um técnico de sistemas defensivos.



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