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Arquivo de 2012

Ganso e Pato – chance para ‘aves raras’

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Alexandre Pato e Paulo Henrique Ganso não têm em comum apenas o apelido oriundo do reino das aves. Ambos, jovens, são abençoados pelo talento e atormentados por insistentes lesões. E é nessa briga de foice entre bênção e tormento que os rivais Corinthians e São Paulo resolveram enfiar a cabeça. As cifras milionárias têm um intervalo considerável – o Tricolor desembolsou 24 milhões de reais por Ganso ao passo que a quase certa contratação de Pato pelo Alvinegro sairá por volta de 40 milões –, porém simbolizam crença semelhante. Representam a fé no craque. A asposta de que a esperança na virtuose vencerá o medo do imponderável. Os sinais emitidos pela musculatura de um e pelo joelho de outro não foram páreo na disputa com a qualidade já demonstrada.

De Pato para Ganso é expressão popular que sugere gradação, evolução, mas no futebol ela não se aplica. Os atletas se equivalem em expectativas, na promessa de futuro que “vendem”. O atacante, guardado a sete chaves nas categorias de base do Internacional, foi vendido ainda adolescente para o Milan como diamante. O meia paraense surgiu no Santos como uma espécie de Zidane tropical, um cérebro para os acéfalos meios de campo contemporâneos. Os corpos têm sido crueis com os rapazes, mas é muito cedo para se falar em obituário futebolístico. A dupla ainda pode alçar voos grandiosos. E é nessa direção que os clubes paulistanos atiram robustas fichas.

Essas muitas semelhanças, porém, não disfarçam uma importante diferença entre os dois. Diferença esta alimentada pelos fatos. A trajetória de Ganso tem sido tumultuada, enquanto que a de Pato, afora fofocas típicas do mundo de celebridades que vivemos, como o desquite com uma atriz global e namoro com a filha do todo-poderoso presidente do Milan, Silvio Berlusconi (a quem interessam essas miudezas?), corre tranquila. E esse aspecto é o único que recomenda mais cautela com um na comparação com o outro. Impossível ignorar como tem sido acidentada a carreira do ex-santista. Sua saída do clube que o revelou deu-se da pior forma possível, com um festival de disse-que-disses e posturas discutíveis. Como confiar que terá serenidade no São Paulo e não irá, daqui um tempo, começar a forçar sua saída para o exterior? Não se trata de condenar o jogador como um Prometeu acorrentado eternamente numa rocha a ter o figado devorado por uma águia (leitor ornitólogo, ajude-me: águias comem gansos?). Mas o ônus de provar que o acontecido na Vila Belmiro foi incidental será dele, não dos críticos.

A temporada 2013 será uma espécie de batismo de fogo para os garotos. Envergando as camisas de dois importantes clubes brasileiros, estarão sob os olhos da nação no ano que antecede a Copa do Mundo em solo pátrio. Desempenhos convincentes aliados à alforria das lesões poderão reintegrá-los à Seleção Brasileira e diluir as desconfianças. Que esse caminho se pavimente para os dois. Assim, ganharão Corinthians, São Paulo e, especialmente, Felipão, novo velho técnico do Brasil, que terá gama de opções para montar seu time.

Trio de ferro
Com Ganso, Neymar e Pato no Brasil o futebol local tem muito a ganhar. Vivemos carentes de atrações para nossos torcedores, que veem os talentos migrarem rapidamente para o exterior. Cofres mais cheios e fatores menos nobres, como as tais lesões, ajudam a explicar o fenômeno. Se ele terá solidez, o futuro dirá. Desfrutemos!

Novo x velho
Felipão inicia sua segunda passagem pela Seleção Brasileira pressionado pela proximidade do Mundial no país e a fazer algo que não é muito sua praia: trabalhar com uma equipe renovada. Esse será o enigma a ser desvendado em 2013. Conseguirá o treinador reciclar seus conceitos além da ideia-clichê de “fechar o grupo”? Caso Pato e Ganso revigorem-se e juntem-se a um punhado de novas e talentosas figuras como Lucas, Neymar e Oscar, saberá o treinador gaúcho dar uma feição vitoriosa e agradável para o time? São perguntas com um quê de ceticismo. Inicialmente soa delírio acreditar em tal alquimia. Mas como o futebol vive se reinventando, não custa pagar para ver.

Glória feita da falangeta de Cássio

domingo, 16 de dezembro de 2012

Fosse eu da equipe de marketing do Corinthians e providenciaria imediatamente réplicas da falangeta de Cássio. Sim, a falangeta, essa última senhorita de cada um dos dedos das mãos, o ossículo terminal das garras humanas, que abriga a unha e complementa a anatomia do polegar até o mindinho. Abrigada em um pequeno cubo de plástico, o fragmento anatômico do goleiro seria reverenciado como uma camisa de Basílio de 77, a chuteira tamanho intantil de Marcelinho Carioca ou o quadro do saudoso Doutor Sócrates com o braço erguido. Com esse naco anatômico o falso desengonçado guarda-metas foi o herói de dupla internacional conquista. Contra o Vasco, nas quartas de final da Libertadores, foi ela que impediu o gol de Diego Souza e deu sobrevida ao alvinegro. No lance mais demorado do futebol recente, em que o meia rival correu jardas no deserto, com o mundo à sua disposição, foi a pequena estrutura, esticada na rápida reação do goleiro, que impediu mais um ano de piadas.

Gigante física e metaforicamente, Cássio fez outras defesas importantes desde sua estreia na Libertadores contra o equatoriano Emelec. Ali, em Guaiaquil, tomou de assalto a vaga do corintianíssimo Julio Cesar para não mais largar (com falange e falanginha juntando-se à falangeta nessa missão). Meio semestre depois, no jogo mais esperado, mais desejado, ele voltou a recorrer à nobre e minúscula estrutura corporal. Deu-se num chute do nigeriano Moses, do Chelsea, ainda no primeiro tempo. Um arremate cruzado, elegante, que tinha endereço certo. Mas havia uma falangeta no meio do caminho. No meio do caminho havia uma falangeta. Não é banhada à ouro, mas deveria. Cirúrgica, incisiva, objetiva, decisiva! Foi a defesa emblemática da finalíssima. Na esteira dela outras vieram porém incomparáveis no grau de dificuldade.

Cássio, enorme, inibe os rivais. Sua compleição e envergadura reduzem o gol a caixote. Mas, ironia das ironias, a ponta do osso revestido de músculo e pele, pequeno fragmento, foi sua arma letal. Clonar sua falangeta, ou mesmo reproduzi-la em camurça ou feltro, seria um presentão de Natal para os fieis, ou de aniversário, talvez. No fundo, o futebol é isso, um detalhe, uma falangeta. E ela que separa vitoriosos de derrotados. Herois e vilões. Choros de alegria e de tristeza. Cassio soube fazer uso dessa miudeza. E se falange era uma formação de combate na Grécia Antiga, a falangeta de Cassio foi um osso combativo, determinante, que colocou o Corinthians no topo do mundo.

Torneio da Come Bola termina autografado

domingo, 16 de dezembro de 2012

Espanta, embora antiga, a omissão da Conmebol. Vale o trocadilho com o nome dantesco: Come Bola. Pois assim tem sido. Nos torneios sul-americanos prevalece a picardia, a catimba, o jogo sujo e o esporte, razão de tudo e todos, é artigo de segunda ordem. O descompromisso da entidade que (des)cuida do futebol do segundo continente mais importante da bola com o “produto” que controla é estarrecedor. O resultado desse torpor, da inação frequente, só podia ser a mancha às vistas do globo. A decisão de importante torneio por ela organizado foi mutilada, teve um só tempo, com a violência sendo senhora.

Um desfecho à altura dessa turma que nada faz para punir o antijogo. Nos torneios da Come Bola cartão amarelo gera multa pecuniária. Os bolsos da cartolagem ficam parrudos e a disciplina vai para o beleléu. E assim vemos a pancadaria rolar solta e o aplauso constrangedor de parte da crítica que vê nisso o “valor mais alto que se alevanta”. Como se o épico camoniano devesse transfigurar-se no jogo dos gramados.

Nas duas partidas finais entre São Paulo e Tigre vimos sangue e batalha de nervos aos montes. Os dois lados perderam as estribeiras. Argentinos, inferiores tecnicamente, desceram o sarrafo como quiseram, com a complacência do árbitro. No Morumbi, o São Paulo fez um catimba mambembe, que não combina com sua história.

A taça não poderia ter sido entregue de afogadilho, sem uma apuração antes. A Come Bola, como é do seu feitio, lavou as mãos de novo. Pôncio Pilatos, do outro lado da janela existencial, deve ter se ruborizado. Não fosse o histórico de passividade da cartolagem continental, que vê jogos com escanteio batido com proteção policial e cala-se, e as cortinas não teriam baixado de maneira tão aviltante.

Derrota na Copa de 50: Maracanã vem abaixo em tragédia ‘pior’ que Canudos

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A perda da Copa do Mundo de 1950 deixou sequelas na alma brasileira. É verdade que o título de 58 daria uma espanada no Complexo de Vira-latas, definição de Nelson Rodrigues. Mas o próprio dramaturgo diria que a derrota para o Uruguai naquele dia 16 de julho de oito anos antes, em uma Maracanã que estalava de novo, seria uma “tragédia pior que a de Canudos”. O divertido exagero, típico de um dos nossos titãs da escrita, é um registro temporal dessas feridas. De lá para cá, cinco títulos mundiais foram conquistados pelo escrete canarinho, mas aquela data não se apagou jamais. Muita gente aposta na Copa de 2014, a primeira em solo tupiniquim desde então, como a redenção.

Aproveito a promximidade do Mundial então para trazer à baila essas cicatrizes. Se elas fecharão daqui dois anos, num Maracanã curiosamente remodelando, estalando de novo como em 50, não dá para prever. A Seleção está sendo renovada e há equipes tarimbadas, experientes, como Alemanha e Espanha, além de Messi, por supuesto. A questão é que ao menos até 13 de julho de 2014, quando dar-se a final, ouviremos aos borbotões falar-se do desastre de 62 anos atrás. A trajetória brasileira naquele Mundial, narram os livros e confirmam as testemunhas ilustres, foi inflando o ego nacional. A goleada por 6 a 1 sobre a Espanha, já no quadrangular final, era a certeza de que a taça Jules Rimet seria erguida por Augusto, o zagueiro do Vasco que capitaneava a equipe que vestia branco – uniforme seria extinto após o cataclisma. Contra os espanhois, a torcida brasileira, eufórica, cantou a marcha Touradas em Madri, de Alberto Ribeiro e João de Barro, o Braguinha, que fizera um sucesso estrondoso no Carnaval daquele ano. Até hoje, nos bailes mais tradicionais de momo ouvimos a famosa introdução: “Fui às touradas de Madri, pararatimbumbum… Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha.;..”. Abaixo um video precioso com o Trio Irakitan e Grande Otelo cantando a música:

Aquela euforia contagiou a imprensa brasileira e relatos preciosos dão conta de que isso serviu de motivação para os uruguaios na final. Segundo o ótimo livro “O jogo bruto das Copas do Mundo”, do jornalista Teixeira Heizer, Obdúlio Varela, o mítico capitão da celeste, passou a vista pelas inúmeras publicações e, ao detectar o clima de já ganhou estampado nelas, tomou uma medida raivosa. Segue a história, contada nas páginas 73 e 74:

“Ele assustou-se com as manchetes, todas falando das festas que aconteceriam após o jogo. Ficou imaginando que ignoravam ser o jogo disputado por 22 jogadores. Ignorava-se também o adversário. Só se falava em Brasil… Então, de repente, os olhos de Obdulio Varela orientaram-se no sentido de uma folha exposta em lugar privilegiado. Era O Mundo, um jornal de média circulação, dirigido por Geraldo Rocha. Em letras garrafais, a manchete gritava: Estes são os campeões do mundo. Era demais. Obdúlio franziu a testa, contraiu o rosto que já revelava sulcos denunciadores de seus quase 34 anos. Certificou-se do que via. Comprou então os 20 exemplares à venda naquela banca. Correu a outras, próximas, adquirindo 60. Voltou ao seu quarto. Encontrou-se com o esportista uruguaio Manoel Caballero. Tratava-se de figura muito querida no Rio de Janeiro. Operava como cônsul uruguaio. Caballero também trazia uma pilha de exemplares de O Mundo. Entregou-a a Obdúlio, agora como munição em dobro. O capitão da Celeste, pacientemente, recortou as páginas que mostravam a foto da equipe brasileira e que antecipava o Brasil como campeão. Era uma humilhação para a Celeste Olímpica. Juntou-as e espalhou-as pelos banheiros dos andares que serviam aos jogadores. Sem ser visto, foi ao quadro de avisos do salão de entrada do hotel e furtou um giz escolar. Escreveu nos lavatórios:
“Pisen e orinen en el diario”. Foi obedecido. Todos mijaram nos jornais.”

Na década de 50, a televisão começava ainda chegar ao Brasil, era algo seminal. Não havia transmissão dos jogos. A Copa foi acompanhada ou in loco, no estádio, ou pelas ondas da Rádio Nacional. Dizem que havia mais de 200 mil pessoas no Maracanã na fatídica decisão. E outras milhares estavam com os ouvidos colados nos aparelhos radiofônicos com suas antenas erguidas. Um deles era o garoto Chico Buarque de Hollanda, de apenas seis anos de idade e ainda distante de tornar-se um dos maiores compositores de nossa música, que teve uma percepção assustadora assim que Friaça abriu o placar. Na narração, Antonio Cordeiro afirmava que “quase veio abaixo o Maracanã”. Chico pensou que o gigante de concreto estava ruindo de fato, segundo testemunho seu em especial de anos atrás chamado “Futebol”.

No vídeo seguinte você ouve trechos do início entusiástico e fim melancólico da narração:

A virada uruguaia, com o célebre gol de Gighia, fez o goleiro Barbosa ser crucificado. Em uma entrevista, 44 anos depois daquela catástrofe, o jogador multicampeão carioca pelo Vasco desabafaria: “No Brasil, a pena máxima por um crime é de 30 anos. Eu pago há 44 anos por um crime que năo cometi”. E lembrar que ele terminaria a vida precisando de ajuda para não morrer de fome.. Não apenas ele lamentava o lance fatal, como muiots brasileiros que viveram a situação devem ter se torturado com a ideia de que a bola podia ter batido na trave, ido para fora ou nem chegado até lá. Um mero detalhe que mudaria nosso destino. O poder interferir na trajetória da bola, que seria a redenção, foi exercido magicamente em um curta-metragem baseado no livro “Anatomia de uma derrota”, do já falecido jornalista Paulo Perdigão. No filmete, dirigido por Jorge Furtado, Antonio Fagundes interpreta um homem que esteve no Maracanã entristecido pela derrota e consegue voltar no tempo para tentar consertar os caminhos da história. Ao lado do garoto que fora, busca retroagir, orientando Barbosa e buscando evitar que a bola letal estufe a rede brasileira. Uma utopia diante da amarga distopia. Um belo resumo do dano que aquela derrota, que Nelson Rodrigues pintou como mais grave que o morticínio do Arraial de Canudos e seus líder Antonio Conselheiro, rabiscou na alma nacional.

Abaixo a íntegra do curta-metragem:

Em aquecimento para o Mundial de 2014, ainda sobre o tema, recomendo a leitura de “Dossiê 50″, de Geneton Moraes Neto. Nele, o jornalista traz entrevista que fez com os 11 titulares do jogo contra o Uruguai e o técnico Flavio Costa. Nele, os depoimentos são pungentes. Um, marcante, é o de Friaça, autor do gol brasileiro, que a certa altura diz:

“Eu só tinha um pensamento : fiz o gol ! A única coisa que eu vi foi César de Alencar me abraçando. Caímos dentro da área.Passei uns trinta minutos fora de mim. Eu não acreditava: nós tínhamos craques como Zizinho,Ademir e Jair.Mas eu é que tinha feito o gol!”

Friaça ficou 30 minutos fora de si. Os brasileiros estão há mais de seis décadas sem entender aquela tarde de 16 de julho de 1950.

Nacionalismos da antiga Iugoslávia ainda refletem no futebol atual

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A antiga Iuguslávia era um caldeirão étnico até seu desmembramento, fruto de sucessivas guerras fratricidas, nos anos 90. O tema sempre me interessou à beça pelo fato de uma região tão pequena reunir culturas tão díspares. Lembro-me que na época da faculdade de jornalismo um livro ocupou minha cabeceira durante muito tempo: Choque de civilizações. Nele, um cientista político chamado Samuel Huntington expunha sua tese de que as afinidades culturais e religiosas seriam o fundamento do mundo pós-Guerra Fria, com as ideologias colocadas de lado após a “derrota do comunismo”. A ideia, que antes havia sido defendida pelo estudioso na Foreign Affaires, era uma resposta a outro americano, Francis Fukuyama, que falava no fim da história. Enfim, não vou me estender muito no debate, apenas o cito para reforçar o quanto a temática me interessa há bastante tempo.

O choque étnico da ex-Iuguslávia, que gerou as seis repúblicas que hoje conhecemos na área dos balcãs, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro, Eslovênia e Macedônia, e as duas províncias autônomas, Kosovo e Vojvodina, foi um resultado do fim do regime do marechal croata Tito, que conseguiu manter a unidade após a Segunda Guerra Mundial sob o signo da ideologia comunista. sempre teve seus reflexos no futebol. O esporte é um canal para o ódio herdado do período. Nesta semana, a ESPN exibiu um capítulo da ótima série “The Real Football Factories” que trata justamente das rivalidades na região. Em especial entre clubes croatas, entre clubes sérvios e de um lado contra o outro. As dores e rancores dos tempos de guerra permanecem. Em dos trechos mais chocantes do documentário, um membro da torcida do Partizan conta o estupro que um colega cometeu em um torcedor croata após fazê-lo beijar os restos mortais de um torcedor sérvio morto tempos antes.

A violência nua que vimos anos atrás em confrontos entre Partizan e Estrela Vermelha, as duas forças de Belgrado, são ilustradas por cenas de rivais sendo chutados impiedosamente na cabeça mesmo deitados no gramado, entregues à sorte alheia. E lembram relatos que ouvimos dos anos dos conflitos entre as repúblicas. A série me fez lembrar de vários filmes e livros que vi e li sobre o barril de pólvora balcânico. São muito comuns relatos de antigos amigos, que eram de países diferentes, que transmutaram-se em inimigos por força da divisão. Um deles, dirigido por Emir Kusturica, bósnio de Sarajevo que talvez seja o mais famoso cineasta daquelas plagas – uma dica: é o diretor do excepcional “Maradona por Kusturica”, um documentário originalíssimo sobre o Pibe de Oro que volta e meia passa na TV a cabo -, faz metáforas que colocam os povos balcânicos como um bando de animais. O filme, intitulado “Underground, mentiras de guerra”, é recheado de humor negro ao retratar a Iuguslávia desde a Segunda Guerra Mundial até o esfacelamento do fim do século XX. É um longa que soa exagerado pela musicalidade e ações dos personagens, mas tem um espírito crítica danado. Abaixo você pode assistir a um trecho do filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes:

O outro filme é “Terra de ninguém”, uma produção de múltiplos países, entre eles Bósnia e Eslovênia, que levou o Oscar de filme estrangeiro de 2002. Nele, dois soldados, um sérvio e outro bósnio, se veem encurralados e, em meio ao ódio recíproco e a desconfiança mútua, são obrigados a conviver, pois estão entricheirados. A história retrata a imbecilidade de uma guerra e a incompetência das forças externas para lidar com a situação de povos vizinhos que vivem às turras.

A carnificina foi uma marca do período de batalhas na área. Recentemente vimos a condenação de Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra de Radovan Karadzik, alcunhado simplesmente de “açougueiro dos balcãs”. Daí se pode ter uma dimensão da sanguinolência. Um outro filme, cujo nome não me lembro agora, começa mostrando amigos de países eslavos distintos jogando basquete e, tempos depois, se matando, quando a guerra eclodio. A complexidade é grande e o esporte não passou em branco.

Conexão esportiva

No ano passado, uma partida entre Itália e Sérvia, em Gênova, pelas Eliminatórias da Eurocopa teve que ser interrompida após confusão com torcedores sérvios. Descobriu-se depois que a ação foi provocada por nacionalistas que costumam agir em jogos locais e que têm raizes com os confrontos que marcaram a antiga Iugoslávia. O episódio remeteu ao livro “Como o futebol explica o mundo”, do jornalista Franklin Foer. Há nele um capítulo dedicado exclusivamente à ação desses fanáticos na península balcânica. Ele conta a história de um jogo entre os croatas separatistas reunidos na torcida do Dínamo Zagreb (capital da Croácia) e do Estrela Vermelha, da Sérvia. Para que um massacre não ocorresse, a polícia local retirou grupos de sérvios de helicóptero. Há no livro entrevistas que revelam as vísceras do embate com membros das torcidas. E cita o terrorista Arkan, que também é mencionado pelos seguidores extremistas do Estrela Vermelha no documentário exibido pela ESPN, que recrutava os mais violentos para atuar como paramilitares na Guerra da Iugoslávia dos anos 90.

No último fim de semana, a ESPN exibiu o clássico de Belgrado entre Partizan e Estrela Vermelha e pode-se notar o clima de rivalidade que cerca o jogo com as inflamadas torcidas nas arquibancadas. Foi pacífico, sim, mas percebe-se que os nervos estão sempre à flor da pele. Mais que um jogo, é um atrito entre posições que remetem às origens étnicas e pensamentos radicais. A última Copa do Mundo que teve a Iugoslávia unificada foi a de 90. O esporte foi acompanhando a desintegração. Em 98 a Croácia despontou como surpresa e foi terceira colocada do Mundial da França, com Davor Suker como artilheiro. Depois a Sérvia também esteve em uma edição e a Eslovênia em duas. Bósnia e Montenegro têm feito boas campanhas em eliminatórias recentes e fatalmente aparecerão em breve.

Quem quiser saber mais sobre as batalhas que assolaram a região também pode ler o livro “A batalha de Sarajevo”, do jornalista Leão Serva, que trabalhou no LANCE!. Nele, Leão conta sua experiência como correspondente de guerra na região com detalhes do conflito e histórias impressionantes.

Minha tristeza pela queda do Palmeiras da vó Tereza e do tio Balu

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Eu quase me tornei palmeirense. Foi por um triz. A predominância verde na família, com o sangue italiano dos meus bisavós napolitanos, foi uma pressão natural. As gesticulações, a cozinha da minha avó Panariello, a tarantela na boca da minha tia, com o funiculi funicula do dialeto em som presente, tudo conspirava. O “catzo” nas broncas da minha mãe ou o “cáspita” quando não entendi algo eram despojo da origem. Conta minha mãe até hoje a história do bolo de periquito jogado fora pelo meu bisavô, em ato de fúria pelo desempenho do seu “Parmera”, da sua amada colônia, fugida da pátria-mãe durante a guerra. O Verdão perdeu um campeonato, não sei precisar qual, nem minha mãe, e o bolo feito para a festa, com o desenho do então principal símbolo do Palestra, foi parar num canal de Santos. Virou doce na boca de pardais. Não me tornei palmeirense por um fio. O entorno conclamava, mas a influência do meu avô paterno, que tem o mesmo nome que eu e me contava as histórias do Santos, vivera os tempos de Pelé e era um companheiro de estádio ao lado do meu pai, foi o fiel da balança. No caminho ainda quase virei a casaca diante da penúria santista. Porém, parece que o coração do torcedor tem filamentos de teima. Não tem jeito, é além das conquistas. E ele já estava tingido com o branco da paz e o negro da nobreza, nas distinções da fundação do clube.

Essa ameaça constante fez eu ter um carinho pelo clube da Turiassu. Um carinho natural. Meu querido tio Caetano, que um dia, quando garoto, me emprestou fita com gols de Copa do Mundo para eu copiar, era palmeirense de quatro costados. E chegou a jogar futebol no Jabaquara, lá da minha terra. Nunca me esqueço dele me sacaneando, em um campeonato dos anos 90, quando o Porco reinava: “quem é o lí-ai-der?”, em uma novilingua que ele adorava criar. Meus primos de segundo grau, entre eles meu afilhado Bruno, herdaram o amor pelo Verdão. Fui o apóstata. O Santos falou mais alto no meu peito. E ao Palmeiras resguardei no coração um carinho real. O mesmo que tenho por todas essas pessoas, além dos grandes amigos adeptos da academia. A adoração pela Itália, pelo idioma que se fala na península, também me deixaram com um pezinho de afeto por lá. Claro, time do coração é time do coração, temos em verdade um só. Mas sinceridade intelectual é importante no mais das vezes. Não escapamos a admirações. E eu sempre admirei o Palmeiras e os palmeirenses. Como sempre admirei os italianos, sua gastronomia, música, cultura, história…

Ao ver a capa de hoje do LANCE! senti um pouco da dor palmeirense. Não uma dor demagógica, mas espontânea, essencial, psicanalítica. A dor da família, imersa no sangue napolitano. Não vi no rebaixamento do Palmeiras a queda satisfatória de um rival. Vi como um tombo na minha alma infantil, que ficou lá atrás, nos domingos de família. É como se um pedaço meu se sublevasse e dissesse: “Não esqueça teus ancestrais, catzo!”. Até me deu vontade de correr para uma cantina do velho Bixiga e ouvir o acórdeon chorar Santa Lucia lontana. Ou colocar para tocar “Vá pensiero, sull’ali dorate”, do Nabuco, do Verdi, convocado a nação italiana unificada. Talvez o Sole Mio, real hino da bota, entoado por Pavarotti. Juntou tudo e me fez buscar o cordão ummbilical, que deve ter uns traços de pigmentação verde. Eu, herege alvinegro, deixei o DNA de lado mas não posso me furtar à solidariedade com os meus.

Espero sinceramente que o Palmeiras volte para o seu real lugar!

Este texto é também uma homenagem póstuma à minha querida avó Tereza, que assistia jogos de futebol ao meu lado, e a meu tio Caetano, seu filho, que era leitor do LANCE! Saudades eternas!

Do tempo em que se jogava botão…

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Assim que o futebol entrou de fato na minha vida, o jogo de botão veio a reboque. Eu jogava com amigos e sozinho também. Aliás, sozinho eu criava meus próprios campeonatos, Copas do Mundo, torneios dos mais diversos, com regulamentos que dariam inveja à CBF dos anos 70 e 80 de tão rocambolescos. Era um mundo que eu controlava e no qual a paixão que já nutria pelo esporte permitia dar asas à imaginação, podendo ser um pequeno cartola, um supercraque ou até um criador de novas equipes (um manager). Com o passar de uns cinco, seis anos, eu já colecionava mais de 100 times e, assim, podia construir milhares de situações. E na rua onde morava, eu organizava as competições e cada vez incluia mais gente, juntando a turma de vizinhos com o pessoal do colégio. Um colega costumava colar imagens dos seus super-heróis favoritos, como homem aranha, Batman e os X-Men nos seus botões de plástico, que comprava na banca de jornal. Cada um jogava com o que podia ou preferia, não havia amarras quanto a isso, era democrática a coisa. Um, mais metido a profissional, disputava com aqueles de galalite, e fazia mil rituais antes de mandar um petardo para o gol adversário após a frase “tá lá?” ou “vai pro gol?”. Alguns goleiros eram feitos de caixa de fósforo, com durex e um punhado de sedimentos dentro para dar peso e não cair com os choques. Lembro também que detonei as pecinhas de War, aquele jogo em que você podia ser um imperador superpoderosos e conquistar o mundo, utilizando como bola nos estrelões (lá em Santos, ao menos, era assim que chamávamos a mesa de botão). Só de vez em quando usava bolinha redonda mesmo, dessas de camurça ou feltro que acompanham as caixinhas. Vez por outra, improvisava os jogos na mesa da cozinha ou na da sala de estar da minha mãe, a maior de casa, que eu chamava de Maracanã. Chegava a dar personalidade para cada palco dos jogos, alimentando dessa forma a criação.

Hoje poucas crianças jogam botão. Os tempos são tecnológicos. O computador, com jogos online e infinitas opções de distração, roubaram a atenção da petizada. Dei para meu sobrinho menor uma caixa com alguns times, ele até se interessa, mas logo se cansa e corre pra tela, com mouse e teclado. Quando garoto, eu peguei os primórdios dos videogames, mas eles apenas eram mais uma opção, jamais empanavam o brilho do jogo de botão.

Voltando ao imaginário que cercava essa brincadeira que pode ser séria (há federações e campeonatos de botão, com gente que leva muito a sério a coisa), o compositor Chico Buarque contou no DVD O futebol, de uma coleção lançada na década passada sobre sua obra, que certa vez disputava uma partida contra o humorista Chico Anysio, falecido no início deste ano. O árbitro era o poeta e diplomata Vinícius de Moraes (que trio!). Chico Buarque cantava, em meio às jogadas, o hino do Polytheama, clube de sua fundação. E Vinicius então assobiava a música, para irritação de Chico Anysio. Veja no vídeo abaixo:

Curta-metragem

Apesar do saudosismo, da sensação de que o jogo ficou preso no passado, soube recentemente de um curta-metragem que trata justamente do jogo de botão e da febre que segue sendo, ainda, entre adultos. Citei mais acima que há federações e adeptos. Produzido por Felipe D’Andrea, o filme chamado “Vai pro gol” foi exibido na 9ª edição do Amazonas Film Festival (AFF), em Manaus, e aparecerá no 30º Milano International Ficts Feste 2012, entre cinco e nove de dezembro, em Milão, na Itália, e conta com depoimentos do publicitário Washington Olivetto e do cartunista Maurício de Souza. Olivetto, inclusive, cita a relação de Chico Buarque com o botão. A previsão é de que seja veiculado ainda este ano em um canal de TV. Não pude vê-lo ainda, mas o trailler que me mandaram é um aperitivo e tanto. Parece ter justamente esse tom nostálgico que cerca o jogo. Veja o trailler abaixo.

O futebol-arte e a rivalidade na música de Chico Buarque de Holanda

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Vou me apropriar de frase de Martinho da Vila antes de cantar “Valsinha” em um show comemorativo para dizer que “Chico Buarque de Holanda é um dos meus compositores prediletos”. E nos seus mais de 40 anos de carreira, que se estendem até hoje para nossa felicidade, o futebol teve presença marcante. Em várias entrevistas, em momentos distintos, Chico disse que quando jovem queria ser jogador de futebol (que bom para nós, fãs, que acabou enveredando pelo caminho da música). A nossa “única unanimidade nacional”, nas palavras de Nelson Rodrigues, tem como ídolo o ex-ponta direita Pagão, que fez fama com as camisas de Santos e São Paulo. Em um documentário que faz parte de uma série que chegou a ser veiculada pela TV Bandeirantes, Chico diz que quando jogava imitava os trejeitos do ex-jogador, como as mãos meio moles e os “dribles aéreos”.

Dono do Politheama, time cujo hino – ovbiamente composto por ele – diz cultivar “a fama de não perder”, Chico registrou inúmeras vezes a paixão pelo futebol em versos. Há menções sutis e grandiloquentes, como em Biscate, quando na frenética troca de farpas de um casal o homem ralha com a mulher: “Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”. Ou na recente “Sem você 2″ (uma continuação na belíssima canção de Vinícius), incluida na turnê deste ano, o poeta afirma que a ausência da amada o permite até “ver o futebol e ir ao museu, ou não!”. E ainda há “Com açúcar com afeto”, música feita declaradamente para Nara Leão, em que a mulher, desta vez, é quem resmunga à espera do marido: “No caminho da oficina há um bar em cada esquina pra você comemorar, sei lá o quê! Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto discutindo futebol”.

Nessa linha, Tom Jobim também citou o futebol como a velha colcha de retalhos que envolve uma relação amorosa. Isso acontece na belíssima “Falando de amor”. Eis o trecho: “quando passas tão bonita nessa rua banhada de sol. Minha alma segue aflita eu me esqueço até do futebol”. Reparem que em todos os casos citados, tanto nos buarqueanos como no de Tom (o maestro soberano de Chico), temos o futebol como a distração masculina a interferir na relação com namorada ou esposa. Hoje isso se perdeu um pouco com a maior presença feminina em estádios e na rotina da bola. As canções também são um registro do seu tempo.

Chico cita o Maracanã, templo sagrado do nosso futebol, na engajada “Pelas tabelas”, diretamente ligada ao movimento das Diretas Já, no início dos anos 80: “Minha cabeça rolando no Maracanã”. À parte essas e outras múltiplas referências ao ludopédio (na infância Chico denominou assim um jogo que criou e que significa “jogo com os pés”), duas obras do seu cancioneiro tem o futebol como tema principal e é delas que quero falar mais detidamente aqui. E tocam em temas bem distintos e que estão sempre na ordem do dia nos debates em botequins, entre amigos ou na mídia: o futebol-arte e a rivalidade clubística.

A primeira delas chama-se simplesmente “O futebol”, sem rodeios. Nela, explicita a visão artística que tem do jogo e me faz até lembrar do livro do crítico literário e música José Miguel Wisnick, “Veneno-remédio”, que lembra do cineasta Pier Paolo Pasolini falando que nós praticamos futebol poesia e o europeu o futebol prosa. Na letra, Chico faz paralelos com a pintura e a própria música: “para aplicar uma firula exata, que pintor? Para emplacar em que pinacoteca, nega? Pintura mais fundamental que um chute a gol. Com precisão de flecha e folha seca!”. Faz menções ao supracitado Pagão no fim ao musicar a tabela com outros gênios: “Para Didi, para Mané, para Pagão, para Pelé e Canhoteiro”. E é possível até entrever uma certa frustração por não ter sido jogador quando diz, logo no começo: “Para estufar esse filó como eu sonhei, só se eu fosse o rei!”. Abaixo, Chico canta O futebol durante a turnê do CD Carioca, em 2006:

A outra canção, bem mais antiga, pouco tempo depois do nascimento da sua primeira filha, Silvia Buarque, fruto do casamento com a atriz Marieta Severo, chama-se “Ilmo Sr. Ciro Monteiro ou receita para virar casaca de neném”. É baseada em fato real. O compositor Ciro Monteiro, torcedor flamenguista, enviou de presente para a primogênita do amigo uma camisa do Flamengo. Chico, por sua vez, fã do Fluminense, deu a resposta musicada. Primeiro exalta o companheiro com palavras gentis, agradece a camisa e logo adverte que “pano rubro-negro é presente de grego, não de bom irmão”. Com a proverbial capacidade lúdica de brincar com as palavras e inventar frases, Chico vai então desconstruindo a camisa do Flamengo até que ela se transforme em tricolor. Genial! E assim encerra a questão:

“Amei o teu conselho
Amei o teu vermelho
Que é de tanto ardor
Mas quis o verde
Que te quero verde
É bom pra quem vai ter
De ser bom sofredor
Pintei de branco o teu preto
Ficando completo
O jogo da cor
Virei-lhe o listrado do peito
E nasceu desse jeito
Uma outra tricolor”

Abaixo, reprodução da canção, constante do disco Chico Buarque nº4, lançado em 1970.

A mão de Barcos suscita infinitos dilemas éticos e morais

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O gol de Barcos foi com a mão e bem anulado, pois irregular. O juiz, ao que tudo indica, teve ajuda de recurso eletrônico, a transmissão televisiva do jogo, para anular a irregularidade. E isso é irregular. É irregular anular um gol irregular com recursos eletrônicos. A essência da coisa incomoda quem não quer levar vantagem em tudo, quem acha que a burla é um acinte aos anos de desenvolvimento moral e ético do ser humano. O pensamento puro, essencial, é que a verdade prevaleça. E no caso, prevaleceu. O tapa nem um pouco sutil de Barcos na bola foi invalidado e, assim, não tivemos um jogo de futebol decidido com jogada de voleibol. Mas o puritanismo, neste caso o legal, não necessariamente moral, nos obriga a concluir que se provada a utilização do recurso eletrônico e nada acontecer as regras estarão desmoralizadas. Aqui não vale esqrimir a lógica clássica brasileira de leis que pegam ou não, senão estaremos enterrando o debate.

Caso Internacional x Palmeiras façam um novo jogo estaremos dando dois recados claros, um atenderá a essa pureza de pensamento e outro a espancará. Provado o proibido uso das imagens estará dito que somos intransigentes com infrações à legislação esportiva. Por outro, mesmo que indiretamente, premiaremos a malandragem, a esperteza do gol de mão. No fim, ele terá compensado, já que o Palmeiras ganhará um jogo inteiro para buscar três pontos que podem salvá-lo de um doloroso rebaixamento. Óbvio que Barcos fez aquilo num átimo, ato talvez impensado, e que não foi tão premeditado assim. Nem teria como. Mas o fato é que temos diante de nós um dilema que mistura a moralidade na sua forma bruta e também na forma legal.

Há um outro problema ético nesse cenário todo e se refere à doutrina da sobrevivência acima de tudo. Tema antigo esse, desde os tempos da caverna e que resiste apesar das tantas décadas de presumida civilidade. Como mostrou matéria de Marcelo Damato nos veículos LANCE!, árbitros brasileiros têm armado esquemas para contarem com a ajuda eletrônica em lances capitais. Fazem isso porque sabem que em segundos a verdade está escancarada em lares e bares e que ele está, em pouco tempo, jogado aos leões. Então, assim, recorrem ao irregular, o que é sujo, para fazer o correto, o que é nobre. Sentem-se oprimidos os homens de preto, que no Brasil nem profissionalizados são, pela opinião público-boleira implacável e pelas severas penas da Comissão de Arbitragem. Sabem que falhas dessa ordem os deixará na geladeira, com menos dinheiro no bolso e carreira maculada. É a justiça a qualquer preço para salvaguarda pessoal. A emenda sai pior que o soneto ao momento em que o juiz é omisso na súmula e diz não ter havido nenhuma normalidade. O fato simples, exposto do Oiapoque ao Chuí, de que o jogo foi paralisado e um gol validado foi, após longo debate, invalidado, já é anormal. Ao pronunciar-se dessa forma, o árbitro Francisco Carlos Nascimento dá elementos robustos para desconfiarmos de tudo que ocorreu.

Essa salada de moralidades corrompidas só prova que o futebol é um terreno em que o oportunismo prevalece. Raramente vemos pontos de vista que fogem do “cada um defende o seu”. Isso dificulta o debate, o emburrece, e a prevalência das paixões nos impede de avançar. Daí gerar admiração declaração do ex-goleiro Marcos, que hoje ainda trabalha no Palmeiras, contrário à anulação do jogo: “Não precisamos que anule o jogo, afinal o gol foi de mão. Numa época de tanta luta para que a justiça seja feita no Brasil, nós (todos) do futebol brasileiro temos que dar exemplo”, disse o ex-camisa 1.

Recentemente o Superior Tribunal de Justiça anulou as provas da Operação Castelo de Areia, da Policia Federal, considerando as provas colhidas de forma ilegal. A operação mostrava ilegalidades, como lavagem de dinheiro, cometida por construtoras e políticos. Não vou me aventurar em méritos jurídicos, não é minha área, mas é incômodo saber que podemos ter verdades à mão que são ignoradas por conta de origem. Porém, pensar que os fins justificam os meios também não é um bom caminho para perseguirmos o real estado de direito. Comparar uma questão de estado com futebol soa herético, mas serve apenas para mostrar como esses dilemas éticos estão em balaios parecidos.

Tem mais samba entre 1 e 99% de chances no futebol

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Aviso que este não é um libelo contra os números, apenas uma visão além deles. Um olhar para a alma, não somente para a carcaça. Do contrário, iremos todos transformar o suor dos gramados em fraque e cartola sem graça. Seria estúpido tratar os números com desdém. Esses meninos inventados por civilizações antigas a quem muito devermos têm funções nobres. Eles permitem saber se a mulher que paqueramos está na vida adulta e se nossos times têm mais troféus que os rivais. Podemos com eles apostar engradados de cerveja com amigos, bastando que cada um aponte um placar. Quem acerta, bebe! Quem erra, paga! Ainda assim, vira e mexe o futebol faz caretas pras projeções, vestidas de porcentagens, insistindo em contrariá-las.

Toda rodada do Brasileirão lemos e ouvimos sobre as chances de título, Libertadores e rebaixamento dos clubes. Ah, fulano tem 65% de chances de cair, beltrano 32% e sicrano 3%. E aí, sicrano respira aliviado, beltrano preocupa-se, pero no mucho, e fulano rói as unhas. Até que sicrano cai junto com beltrano e fulano tira ouro do nariz (aqui, uma apropriação da bela figura de poema de Drummond. E então as projeções não resistiram ao mundo realmente irreal, teatral, sobrenatural do jogo de bola. Porque é isso, o futebol é metafísico, produz milagres com reuniões de santos a atuar sarcasticamente, na cara dos cartesianos de plantão. Claro, dirá o arguto leitor e a sapiente leitora, são projeções, não futurismos. Eureka! Só que o imponderável é tão protagonista no mundo da bola que os comentatistas, analistas e pítaquistas já estão escolados, ou deveriam, na ideia de que 98% nos relvados podem ser, depois, um rotundo nada.

Não quero, por favor, deixar o emprego dos matemáticos do ludopédio em perigo. São sujeitos que estimo. Mas adiro à herética função de exaltar as estripulias do jogo. O gol de Leonardo Silva quando o relógio agonizava fez nove pontos viraram seis na distância de Fluminense e Atlético-MG e 94% descerem quatro degraus. A frieza desses números pouco diz de quão quente foi o jogo no Independência. Na frente há a lógica precisa e atrás a ilógica do futebol. Essa ilógica permitiu que o mesmo Fluminense escapasse do rebaixamento em 2009 quando a matemática já afiava a guilhotina. E também viu o São Paulo levantar o troféu um ano antes quando, no início do segundo turno, os números censuravam qualquer pretensão tricolor.

Fico imaginando como seriam os torcedores se largassem a magia da bola pela exatidão dos números. Então consultaria as tábuas projetivas para decidir se iriam ver um jogo ou não. Dependendo das porcentagens comprariam ingressos. “Acima de 60% de chances, eu vou. Menos que isso, fico em casa”. E aí poderia perder um gol que faz tremer as porcentagens e um pênalti perdito que faz 50% virar 80%. Pois entre zero e 100% tudo é jogo e vida!