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Neymar é um driblador; o driblador é um simulador

por Neto em 15.set.2011 às 18:13h

Neymar poderia trabalhar no circo com o mesmo sucesso que o faz no futebol. Sua habilidade em reter a bola, saracotear com ela, fintar quem está na sua frente, passá-la entre as pernas nervosas de zagueiros ou por cima de precipitada gente é digna de um artista de picadeiro. Difícil não rir com as fintas que aplica em punhados de brucutus e em outros nem tão brucutus assim. É divertido, nos dá pão, nos dá circo. Pois o artista, bem sabemos desde as primeiras civilizações, é um fingidor, tal qual o poeta psicografado por Fernando Pessoa. E os grandes jogadores são, bem sabemos, artistas que fazem pinturas (“para emplacar em que pinacoteca, nega? Pintura mais fundamental que um chute a gol, rasgando o chão e custurando a linha” – Chico Buarque).

O drible é uma burla. O drible é por si só uma simulação. Garrincha fingia que ia para um lado e partia para o outro, indicando falsa rota para quem dele se aproximava tentando tomar-lhe a bola. Ou seja, fazia o adversário de pateta, escondia-lhe a verdade. Corro o risco de, nestas mal traçadas linhas, ser tachado de apologista da simulação, mas não, este texto não é um elogio da enganação, é ão somente um reconhecimento da alma circense do driblador e, assim, absolver esse seu espírito transgressor da ética dos campos. Ao tratar a bola como íntima, tentando carregá-la em movimentos improváveis e dela não pretender se livrar, o driblador nato é como o trapezista que, após firulas e mais firulas no ar, cai com manobras, como se mantivesse os movimentos elásticos mesmo depois de encerrada a cena. Os artistas são infantis, caem de maduro mesmo, seguindo o linguajar das crianças. O mesmo acontece com quem faz do drible um ofício. Ao perder a bola, ele vai ao terreno, sofre junto a ele, pois não pode viver sem sua companheira de diversão.

Ceni, mito dentro e fora de campo, diz que Neymar simula 50% das faltas. O goleiro do São Paulo provavelmente tem razão. De cada duas faltas marcadas sobre o artista Neymar, metade não aconteceram, foram fruto do desempenho acrobático do jogador (que toma muita porrada também, é bom que se diga!). Mas é uma simulação artística, automática, malandra, que está na alma do rapaz. Não é possivel ser driblador respeitando normas e ordens sociais estritamente. Eis a natureza real e pouco citada do drible. Não por acaso driblar virou verbo corrente para atos socialmente condenáveis. O sujeito dribla o fisco e não paga seus impostos. Ou então dribla a fila para ter vantagem. Tudo bem que podemos também driblar as adversidades, os problemas, as dores da vida. No campo, dribla-se para fazer um gol. Claro, nuances separam os atos positivos e negativos, mas quem tem o drible no sangue fatalmente é um dissimulado, que quer ter a bola só para si e não admite perdê-la.

Neymar aprenderá com o tempo (e já está aprendendo) que simular faltas não é um bom caminho no senso do jogo. Aprenderá a fazer suas artes apenas com a bola nos pés, pois esta é a simulação admirada, que faz as massas vibrarem. Para isso, terá que censurar seu ímpeto travesso de voar para trás quando toma uma trombada ou mergulhar no gramado após uma perna não tocá-lo. Terá que esquecer a vontade de, após uma ginga gostosa, esparramar-se como os palhaços que divertem crianças em picadeiros. Neymar terá que corromper sua alma de circo e fazer apenas o papel que o jogo concede. Ser um driblador maroto. Mas, convenhamos, o driblador é, acima de tudo, um fingidor em essência.

52 comentários para “Neymar é um driblador; o driblador é um simulador”

  1. Lucas P9 disse:

    Messi não precisa fingir nada pra ser o grande craque que é. Uma coisa é simular algumas vezes, outra coisa é isso ser uma característica marcante em todo santo jogo.

    Neymar, pra mim, só está jogando menos que Messi atualmente no futebol mundial… mas tem muita simulação ali que transcende o simular unicamente por característica, e sim por hábito.

  2. Gerson disse:

    Ceny e Neymar tem razão no que falaram, porém Ceni foi sincero. Perguntem ao Chicão, Marcão, e demais defensores do Brasileirão. Todos concordam com Ceni, mas como alguns tem o sentimento Anti-Ceni, nem todos vão falar mas no íntimo concordam.

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