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O torcedor do Brasileirão é, antes de tudo, um forte

por Neto em 22.mai.2013 às 20:56h

Os brasileiros que lidamos com o futebol, seja em arquibancadas, sofás de casa ou bares de esquina somos, acima de tudo, uns fortes. Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, se hoje vivos, não duvido que contassem em prosa nosso espírito bravio. Exemplo grande é com que resistência suportamos quatro meses de bola enfadonha, com estaduais balofos do Oipoque ao Chuí. Depois disso, enfim, entramos em nosso épico de fato: o Campeonato Brasileiro. Claro, o jogo não é feito só de elite, há o interior, onde clubes menores alimentam as paixões locais mas não têm espaço nas luzes da ribalta. Mas mesmo nesses lugares há alguma paixâo recôndita pelos times de massa que, finalmente, se enfrentam com frequência na nossa principal competição, que começa neste fim de semana.

Vamos agora para a 11ª edição do nosso Brasileiro de ponto corridos, fórmula que demoramos para adotar. Os saudosos dos mata-matas, cuja saudades tem razão de ser, poderão saciar-se (entre eles me incluo) com a Copa do Brasil correndo ao largo do Nacional. Assim, enfim, começaremos a ter um ano interessante, com jogos entre camisas pulsantes e plenas de história. É só olhar a tabela do campeonato e perceber. A cada rodada choques de glória. Como diz o clichê, de inegável realidade, é difícil ver um país com tantos times de larga paixão e voltagem em um mesmo certame. Soubéssemos nós fazer alarde, publicidade, do nosso produto e poderíamos espalhar em outdoors por essa pátria continental, em seus mais de seis mil municípios: Vai começar o Brasileirão vem aí Corinthians x Botafogo, Santos x Flamengo, Coritiba x Atlético-MG… Na segunda rodada, mais atrações, como Atlético-PR x Cruzeiro, São Paulo x Vasco, Atlético-MG x Grêmio. E assim vai. É o festival das tentações, das rivalidades. Mas nós, ainda tímido, tratamos nossa pátria pobrinha, como no poema Pátria Minha, que Vinícius escrevinhou no exílio.

Ainda não entendemos o enredo desse nosso samba. Parece que a ideia do gigante adormecido aplica-se mais até ao futebol, já que o país assiste nos últimos anos à sua guinada sócio-econômica que registra as palavras proféticas: não somos vocacionados para a mediocridade. Com tanto time grande, tanta potência, nosso Brasileirão merece ser afagado. Para se ter ideia do gigantismo e do espírito de competição do torneio, 14 dos 20 participantes deste ano já celebraram ao menos uma vez a conquista nacional. O Brasil é um país de clubes que despertam paixão em grande volume. Alguns são nacionais, com aficcionados em todos os rincões.

A Seleção Brasileira, antes tão amada, salve, salve (!!!), roubará atletas de prestígio em muitas rodadas. Somos ladrões de nós mesmos! Jogos serão adiados por motivos nada nobres e haverá certamente irracionalidade em trechos da tabela. Nosso Brasileirão ainda tem que comer em potinhos como um cão domesticado pela CBF. Teremos estádio lotado em jogos pontuais, mas nossa média ainda estará abaixo do nosso porte. Ainda haverá muita futrica de bastidores, muito jogo sujo, a arranhar a nossa estima.

Por isso, volto ao início. Os brasileiros que lidamos com o futebol, seja em arquibancadas, sofás de casa ou bares de esquina somos, acima de tudo, uns fortes. No dia em que nossa cartolagem preocupar-se menos com agrados e mais com os destinos de nosso jogo pentacampeão do mundo o principal beneficiado será o Brasileirão. Não queremos apenas ordem e progresso, como regurgita a linha da bandeira em tom positiva. Não queremos pão e circo para servir a vontades individuais. Queremos o espetáculo digno de nossa gente, que, miscigenada, tem o espírito do jogo carimbado em si. O Brasileirão começa reafirmando sua força e mais uma vez clamando: tratem-me bem.

Prece aos santistas de boa vontade: não condenem o filho pródigo Neymar

por Neto em 21.mai.2013 às 21:21h

Neymar tem o raro privilégio da cobiça dos maiores. Que jogador hoje no mundo pode ver os dentes afiados e os olhares sequiosos do trio Barcelona, Bayern de Munique e Real Madrid? Com 21 anos, ele é cortejado pelos gigantes do Velho Continente e tratado no Brasil como sumidade. Sua cabeça deve ficar a mil com isso. Esses volteios devem ser irrespiráveis com trocentos contratos de patrocínio, faz propaganda aqui, participa até de novela ali, pega helicóptero, avião, só falta nave espacial para testar a gravidade da lua e imitar Neil Armstrong. Até esquecer isso me tira o fôlego.. E o dele ainda tem que sobrar para driblar adversários, fazer gols e obter títulos. É uma voragem!

Ao segurar Neymar estes anos todos, o Santos prestou um baita serviço ao nosso futebol. Não sei se criou modelo, dado o sacrifício que ele impõe. Mas mostrou que não precisamos nos prostrar sempre com facilidade e achar que jogadores de ponta e novos não podem nos dar a alegria de atuar uns bons anos de sua aurora por aqui. Mas bem sabemos também que isso não será eterno, que o destino é natural na realidade posta. Neymar não teria que abdicar de dinheiro, já que a engenharia que o clube montou permitiria os ganhos vultosos e europeus para ele. Mas precisaria abrir mão de algo talvez mais impensável: jogar onde estão os tops mundiais. No futuro não sabemos como a lusitana girará. Mas hoje é difícil imaginar um cara com esse perfil, com esse talento, não experimentando suas jogadas nas terras antigas lá de cima. Admitir isso não é servilismo, é até um ato de compaixão com o talento.

Quando Neymar sair, depois da Copa das Confederações ou só depois da Copa do Mundo, os santistas não devem se prender ao que o clube irá faturar de imediato, na polpa da mão. Deverão ter a sapiência de comemorar o que conquistaram nestes anos de exposição de marca, de prestígio, de torcida, de títulos.. Não tem sido pouca coisa. Tem sido combustível nobre a manter o Santos no seu patamar histórico. Deu sequência à linha de monstros sagrados, como Pelé, Pepe e sua turma nos anos 60, a primeira geração de Meninos da Vila, Robinho mais recentemente e por aí vai. Se acabar agora, valeu muito a pena. A alma do santista não é pequena a ponto de não enxergar que foi tudo lindo. Se durar mais um ano, será proveitoso, mas também logo acabará.

O craque dos múltiplos estilos capilares é também o craque dos golaços, a ponto de ter conquistado prêmio da Fifa de gol mais bonito do ano retrasado. Aquele em que enfileirou os flamenguistas. É o craque que devolveu ao santista o orgulho da passarela internacional. A Libertadores voltou a rutilar em Urbano Caldeira após quase 50 anos. Equiparou-se a Pelé em alguns itens. Deu muito. O Santos devolveu-lhe com açúcar e com afeto, algo que ele nitidamente reconhece. O amor é recíproco. Que não se permitam interpretações passionais a maldosas a macular isso. Para que quando sair Neymar possa planejar uma volta futura, seja para encerrar a carreira, seja para seguir espalhando o glorioso nome alvinegro pelas terras mundanas. Esta é uma despedida que pode ser pontual ou antecipada. Mais do que isso! É uma prece para os santistas de boa vontade.

Danilo e Paulinho, os silêncios decisivos do Timão

por Neto em 20.mai.2013 às 23:06h

No Corinthians ganha-tudo destes anos que correm dois caras merecem menção especial. Danilo e Paulinho são casos sérios, meus amigos. Aplausos para estes sujeitos. Decidem muito, propagam pouco. São os come-quietos da bola em uma era em que a imagem é a mãe de todos. Repito, sem precisar de megafone: eles decidem. São pragas para os adversários. São bálsamo para os fieis corintianos. São a pedra de toque desse time que vem enfileirando títulos. A iminente saída do volante deveria fazer os apaixonados cantarem: “O que será da minha vida sem o seu amor?”. O meia, que parece corcunda e lento, é a precisão dos gramados. Se for jogo decisivo chama o cara e esquece os problemas. É garantia de solução. E ele nem parece ter a presunção disso tudo, com jeito caipira, na fala mansa que quase dorme.

Assusta como estão sempre resolvendo paradas. Dão respostas nos jogos prenhes de interrogação. Tá difícil, mas existem eles. Pato tem a fama, eles têm a manha. Não há equações que os compliquem, reparem. O volante surge, de repente, como atacante. Troca de pele, larga o meio e situa-se na área. O meia dá as costas para tela, protege a bola e, quando a bola sobra, propõe a ela curvas muito específicas. São esfinges: anula-me ou te devoro! E, no final, são os adversários devorados. Quantas decisões têm nos seus pés? Eles decidem, já disse, para irritação dos goleiros.

Nos times de sucesso coletivo sempre há os corações individuais. Essa dupla inscreve-se no quesito. É o tatibitati desse Corinthians. Muita gente, intrigada com a facilidade que alguns têm de acessar a Seleção, não entendem como Danilo é esquecido sempre nas listas brasileiras. Tem razão estes. Tanta gente amorfa já vestiu a amarelinha. Um cara que tanto decide, que conclui destemido, que toma o jogo para si sem alarde, não merecia os tais testes? Paulinho, nesse assunto, não permite injustiças. É figura carimbada nas convocações. Há algum juizo nessa estrada, pois…

Paulinho está na infância da carreira. Danilo já caminha no trecho final. Eis uma diferença a se assinalar. O primeiro encorpa-se para um futuro europeu e na Seleção. O segundo acumula títulos e silêncios. Ambos fazem jus à deferência das arquibancadas alvinegras. Deram muito ao clube de multidão.

Aqui é labor, seu Adenor! O trabalho de Tite desfaz Muricy

por Neto em 19.mai.2013 às 18:57h

‘Aqui é trabalho, meu filho!’. Eis o bordão atrelado a Muricy (para o bem e o mal das gozações)! Mas trabalho mesmo, sem deméritos dos títulos pretéritos do atual técnico santista, é o de Tite. Multicampeão no Corinthians com padrão, razão e doses motivacionais. O treinador cuja entonação e gesticulação em entrevistas lembra esses pastores midiáticos a arrebanhar fieis, com olhar cheio de fogo, subiu a escada, independente da desordem: Paulista, Brasileiro, continental e mundial. E tudo isso com uma equipe que funciona, fruto de suor de concepção e atitude. Mesmo que o time da safra 2013, com elenco superior, não seja tão confiável quanto a do ano passado, o fato é que no geral é um belo trabalho. De Hércules e de Apolo. Talvez pudéssemos adaptar o bordão para o Titês: Aqui é labor, seu Adenor!

Em entrevista exclusiva ao LANCE!, publicada neste domingo de decisão, Muricy disse que ganha títulos difíceis. Mas difíceis foram mesmo os desafios de Tite nesses anos. A começar por uma eliminação vexatória para o até então desconhecido Tolima, da Colômbia, na fase prévia da Libertadores. Se quando chegou ao clube já veio questionado pelos anos de ostracismo, o técnico viu o monstro aumentar após essa eliminação que despertou o saco de risadas dos rivais. Ele resistiu, com a elogiável e rara bênção da direção corintiana, e no ano seguinte conquistou a taça mais sonhada por 11 entre dez corintianos. Esvaziou a fonte de piadas dos anticorintianos e encerrou o trauma dos torcedores. Meses depois, fisgou o Mundial no Japão e fez o bando de loucos se embriagar do outro lado do mundo. Os troféus domésticos também tiveram suas dificuldades, em especial este estadual em que a equipe decidiu sempre na casa inimiga na fase eliminatória – Ponte Preta, São Paulo e Santos.

O mais importante na comparação, neste mundo da bola em que os treinadores tiveram sua importância de certa forma inflada, é que taticamente Tite mostrou mais trabalho que Muricy, meus filhos! O Santos chegou à sua quinta final consecutiva de Paulistão sabe-se lá como, graças à perícia de pegador de pênaltis do goleiro Rafael, uma tabela acessível e camisa, muita camisa. Um time esparramado em campo, dependendo excessivamente do brilho de Neymar e das boladas paradas – fetiche de seu treinador desde épocas distantes. No ano passado, o Corinthians de Tite era uma equipe cirúrgica, uma naja a dar o bote na hora certa. Um time, como alguns que vez por outra aparecem no futebol, que vencia na conta do chá , apertado, mas que dava a quem assiste a certeza, a botar água no chope da caixa de surpresas do futebol, que a vitória seria alvinegra. O gol de Romarinho na Bombonera na final da Libertadores e o de Guerrero na decisão do Mundial, contra o Chelsea, são exemplares ricos dessa cepa.

Há também um trabalho de motivação, muito exaltado aqui e acolá. Jogadores que entendem a filosofia, que compram a ideia de que não há titulares e reservas, embora haja. Um grupo envolvido, uma engenharia desenvolvida e aperfeiçoada. O que faltou no atual Santos. Dizer que Muricy não é vencedor no Santos seria uma cegueira monumental, pois são quatro títulos, entre eles um da cobiçada Libertadores. A comparação, então, tem os feitos como trampolim para algo a mais. Neste ano, o time da Baixada anda aos trancos e barrancos e seu jogo não é compreendido. O Corinthians, por mais que tenha caído de produção, segue com um jogo, um estilo, uma movimentação treinada. Não me levem a mal, mas o trabalho de fato, na comparação, é o de Tite.

Messi tira ouro do nariz e o futebol-arte vigora na Europa

por Neto em 10.abr.2013 às 18:08h

messi
Messi decidiu para o Barcelona (FOTO: Lluis Gene/AFP)

Assim que o argentino Javier Pastore fez o gol e emudeceu o Camp Nou, a câmera, antes mesmo da reprodução do replay da jogada, focalizou um compatriota seu amarrando as chuteiras. Tratava-se do tetra vencedor do prêmio de melhor do mundo da Fifa, Lionel Messi. “Agora, acabou a brincadeira!”, pensei. Não que o PSG seja uma galinha morta, muito pelo contrário. Time que tem Zlatan Ibrahimovic, por mais que muitos com ele cismem, não é café pequeno. E os investimentos milionários de um xeque árabe deixaram o time da encantadora Paris fornido de potência. Mas é que as atenções desde o início do jogo estavam votadas para a presença de Messi no banco. Mas é que (2) Messi levita sobre os mortais.

Recuperando-se de lesão, o melhor jogador contemporâneo, um dos melhores da história e postulante a melhor de todos os tempos – há que se comer muita poeira pelo caminho – Messi estava ali, à espreita, para, como um Chapolin sem folclores mostrar sua rica astúcia. “E agora, quem poderá nos defender?”. Ele, claro! Bastou um passe, desses preciosos, lapidares, para a normalidade recolocar-se. Numa jogada em que participou com um toque já fez a diferença. Como vem fazendo ano após ano.

Craque é o que faz a diferença.O jogo coletivo do Barcelona é exaltado e vistoso. Mas o craque é o centro, o umbigo das coisas. Nesta quarta-feira mais uma vez isso foi exposto. O jogo teve nuances, uma delas poderia fazer o destino ser outro. Como aconteceu anteriormente nas eliminações do Barça para a Inter de Milão, em 2010, e Chelsea, no ano passado. É do jogo contrariar prognósticos, lógicas e minicertezas. Mas enquanto o inesperado se produz o esperado, quando de pés geniais, vem em profusão.

As semifinais da Liga dos Campeões terão dois times alemães e dois espanhois. Alemanha e Espanha que têm as duas melhores seleções do mundo, embora não tenham Messi. Barcelona e Real Madri que possuem a base dessas seleções – e bom complemento advém dos dois outros semifinalistas, Borrussia e Barcelona. Países que mantêm parte substancial dos seus pés-de-obra em casa. Bayern e Barcelona que refundaram o jogo do toque de bola. Um, o Barça, mais possessivo e, de certa forma, cadenciado. O outro, lá de Munique, mais veloz, às vezes mais incisivo – não à toa fez 4 a 0 no agregado contra uma Juventus encardida.

Nesta semana não tivemos surpresas. Triunfou o artista da bola. Triunfaram as escolas que no momento sabem fazer do futebol uma arte. Depreende-se daí que a mágica vem derrotando o pragmatismo nestes tempos? Relativo, afinal ano passado o Chelsea, com um jogo mais vigoroso que fantasioso, foi o campeão. Mostra mais que o jogo artístico pode muito bem ter êxito. Hoje e sempre. Melhor para os olhos, para o hedonismo, o prazer supremo que a arte pode oferecer. Longa é a arte, breve é a vida. A ideia de Hipócrates, nascida na Grécia antiga que cultuava a beleza, deve vigorar. Para nossa felicidade. Nas semifinais, tiraremos, à Drummond, ouro no nariz.

Amor e ódio: Ceni, um mito em atividade

por Neto em 06.abr.2013 às 20:36h

Rogério Ceni gera amores e ódios de forma raríssima. Isso dá a dimensão da grandeza do sujeito. O epiteto de Mito, cunhado pelos são-paulinos, encaixa-se à perfeição naquilo que tem de essencial: saiu da esfera dos normais, dos mortais, e entrou em seleto grupo que levita, acima, da naturalidade atual. Não acima do bem e do mal, pois assim ninguém está. Mas acima das visões banais, que cercam os jogadores comuns. O grosso dos não são-paulinos – isso não é fundado em estatísticas, apenas em percepção comportamental recorrente – torcem quase que fanaticamente para que erre, tome frangos, perca pênaltis, quebre a perna e o diabo a quatro. Isso tem nome: ódio. Ódio por Ceni simbolizar como nenhum outro jogador moderno um clube brasileiro. A costumeira comparação com Marcos, outro jogador, curiosamente goleiro, que defendeu apenas um time com sucesso nacional e internacional, esbarra na forma e no conteúdo. O palmeirense é querido, em geral, por alviverdes e rivais. O jeito simples, interiorano, boa praça, caiu na simpatia coletiva. Mesmo que tenha sido dos maiores da posição, campeão do mundo com a Seleção, a personalidade agrada às multidões. Ceni sempre reuniu em si o atleta e o torcedor, com ares de capitão, dono do pedaço, demarcando terreno, apontando os caminhos convictamente. Há quantos anos não se fala que um dia poderá presidir o clube? Há quanto tempo sua liderança é óbvia?

Muitos dos seus detratores veem sinais de arrogância no que parece muito mais um caráter firme, uma imponência de líder. Alguns fazem relativizações técnicas que soam absurdas. O vezo de ajoelhar-se virou chacota. E as inúmeras defesas de reflexo raro que fez nesses anos todos? A célebre espalmada “impossível”, como se o braço ganhasse um apêndice instantaneo, no chute do Gerrard, do Liverpool, na final do Mundial de 2005, é dos lances mais genais que recordo. Lembro-me de que quando apareceu no “Expressinho”, no início dos anos 90, me chamou a atenção a elasticidade e a rapidez de reação. Vieram unir-se a essa técnica notória as virtuosas cobranças de falta. Tornou-se especialista na bola parada e passou da marca de cem gols. Maior goleiro-artilheiro do mundo!

Ceni sofre nas derrotas. Está no semblante, no olhar, nas declarações. Ele vive, já quarentão, o São Paulo de palmo a palmo. O sarcasmo de torcedores rivais quando falha deixa à mostra o incômodo. Não queriam os santistas que Robinho jamais tivesse deixado o clube? Ou os corintianos que Ronaldo tivesse jogado desde sempre com a camisa alvinegra? Ceni dá essa solidez para a paixão. Ele é o cimento e o concreto dela. É um ídolo completo, de fato, não há senões. Nas últimas duas décadas São Paulo e Ceni confundiram-se. É como Totti na Roma ou Gerrard no Liverpool. Craques-torcedores. Rendem títulos, amores e memória, muita memória. Impõem o peso de longa trajetória. Pensando bem, a aversão rival é justificada. A inveja transborda no futebol como na vida. No íntimo, normalmente confessado apenas nos divãs, os oponentes admiram Ceni. É um ódio de fachado. Desejavam ter seu próprio Ceni e gritar isso aos quatro cantos. Nenhum clube brasileiro atualmente conta com uma figura dessa estatura em suas entranhas. Dificilmente terá nos próximos anos, tendo em vista o voraz mercado da bola, a líquida relação jogadores-clubes que impera e o tempo que se leva para levantar um prédio com tanto ouro. Devemos, nobremente, reverenciar quem, à luz do capital, ainda dá alma para a bola.

Vaia a craque também vale. Neymar recebe os apupos do amor

por Neto em 30.mar.2013 às 15:31h

Campeonato Paulista jogo Santos x Corinthians

Neymar, bem-vindo ao mundo das vaias! Ela é como o pop, é o próprio pop, não pouca ninguém. É, antes de tudo, uma expressão de carinho. O atacante santista, tratado como a salvação da pátria no Mundial de 2014, está acostumado às flores. Mas as flores, com o perdão da infâmia com os verbos de Augusto dos Anjos, são a véspera dos espinhos. Quem reina tem que saber que os súditos às vezes se rebelam. Mas se rebelam porque amam. Os apupos dos próprios adoradores, acostumados aos dribles, gols e títulos proporcionados pelo moleque do moicano, são resultado da expectativa de uma nova lua de mel. Da árvore frondosa do talento o que se espera são frutos constantes, cada vez mais brilhantes e maduros. Nem sempre é possível, nem sempre será e um dia, como é da vida, cessará. Aos 21 anos, com um caminhão de títulos e façanhas precoces com a camisa alvinegra, uma pequena má fase gera vaias. Amor com amor se paga. A torcida idolatra e quer exibições de gala. Quando não vem, a vaia dá seu recado: acorda! É assim que a arquibancada reage, psicologicamente a incentivar seu menino o fazendo sentir-se provocado.

Os urros impacientes fizeram Neynmar soltar um desabafo: “Ainda mais por tudo que a gente fez pelo clube…” No uso do plural personalizador está o erro vital. Embora dissesse não ligar para as vaias, acusou o golpe no queixume, na fala ressentida. A fidelidade do torcedor ao jogador acompanha o desempenho. Salvo meia dúzia de Dalai Lamas que olham o todo, as massas olham as partes. E sabedoras de que o talento está ali, presente em carne e osso, dele exigem sempre. Certa feita João Gilberto, com seu violão único, foi vaiado por um bando de “burgueses”, segundo Caetano Veloso. Tom Zé, companheiro de movimento Tropicalista, então compôs a bem-humorada “Vaia de bêbado não vale!”. Neymar, como artista da bola, não da canção, não teve a alternativa da expressão escrita, falada ou cantada. Mas pode responder com belas atuações. O seu troco artístico à bílis dos inquietos torcedores é o gol, a assistência, a vitória. E nisso ele tem um trunfo danado. Bastará uma boa exibição para os aplausos tomarem conta.

Essa relação dicotômica torcedor-ídolo é um clássico no futebol, é um juramento da vida. Quem ama também briga. Vide os casais. É uma tensão que, não exagerada, está no espírito da coisa. Não se vaia os ruins, os pernas-de-pau. Por esses, o desprezo é uma constante. De onde nada se espera, nada mesmo vem, reza a sabedoria popular. De certa forma, craque vaiado é craque legitimado. Os rivais vaiam para desconcentrar, em reconhecimento de que precisam tentar interferir para que o assombroso talento seja retido. Os seguidores vaiam pela não correspondência da expectativa. Quando Neymar foi aplaudido por rivais cruzeirenses, em jogo do ano passado, a interpretação de muita gente foi a do aplauso dissimulado, do protesto contra os seus. Ao reverenciar o ídolo adversário reduzia os jogadores da sua equipe ao status humilhante. Neymar, aplaudido por oponentes e vaiado por aficcionados vê, assim, que já está na tribo dos geniais. Dará sempre respostas em campo, sem precisar bater os pés e reclamar. A vaia é o aplauso reprimido, adiado para a rodada seguinte. O torcedor é um sentimental!

Vamos, Kevin, não chores, hoje tem jogo do San Jose!

por Neto em 22.fev.2013 às 14:08h

- Vamos, Kevin, não chores, hoje tem jogo do San Jose.

Talvez o pai do menino de 14 anos, que teve a vida estupidamente extirpada por um sinalizador na última quarta-feira, tenha dito ou pensado isso. A frase é uma paródia de lindíssimo poema Consolo na praia, de Drummond, autorreferente, quando ele fala das dores da vida e solta um sopro de alegria: ‘Vamos, Carlos, não chores. Hoje tem filme de Carlitos!”.

Talvez para Kevin seu personagem de Charles Chaplin fosse o clube do coração. Ir ao jogo de seu time estancava as lágrimas do viver. Quando menino, pra mim ir à Vila Belmiro ver o Santos era isso, uma alegria inefável. Era como se meu pai , ao anúnciar que iriamos ao estádio, me consolasse, fosse qualquer um o motivo do meu desconsolo. Possivelmente nem havia, pois tive uma infância próspera, ao contrário do que ocorre com parcela enorme da população boliviana, a mais discriminada dessa América do Sul, com suas veias abertas desde sempre, meu caro Galeano! Imigrantes bolivianos que são tratados em regime análogo à escravidão em fábricas de marcas no interior brasileiro e são mantidos com subempregos em Buenos Aires, olhados como subraça. Na torcida do Boca, são os indígenas, os torcedores do povo. E dentro do próprio país sempre tiveram a honra usurpada pela elite econômica branca e colonizadora. Agora tem um presidente que é a sua cara, que é de certa forma a cara dessa gente dos trópicos, é a cara do volante Paulinho, estampada no LANCE! no dia do jogo em sobreposição à do presidente Evo Morales, ele mesmo um descendente de indígenas.

O Corinthians é o time do povo. Irônico que do time do povo tenha partido a antirrosa dos estádios, a rosa com cirrose que vitimou um garoto boliviano, para parodiar outro poeta, Vinicius de Moraes. Essa tristeza é que não tem fim. A tristeza dos seus pais, de perderem o filho, morte que leva corações a reboque, impotentes diante do fim.

- Vamos, Kevin, não chores. Hote tem jogo do San Jose!

Pois agora quem chora é a família inconsolável. Lágrimas infinitas. Os gritos de “assesinos! Assesinos!” que emanaram das arquibancadas para os joagdores do Corinthians devem ter calado fundo em alguns deles. Os olhos marejados de Tite na coletiva são o retrato de que os “sinos dobraram” por ele também. Como escreveu o poeta inglês Jonh Donne, a respeito das atrocidades da guerra, quando um morre morremos todos nós, porque nenhum ser humano é uma ilha. Qual o valor de uma vida? Meu caro Criolo: Existe amor nos estádios? Diante de um epísódio tão doloroso fica difícil acreditar. Se cada é uma estrela e uma se apaga assim, numa noite assim, á toa, por um gesto torpe, o que devemos pensar? Ao sair de casa para ver seu time, o jovem Kevin entrou no corredor da morte. Nem desconfiava que seu coração palpitava não pela emoção de curtir seu time, mas pela proximidade da guilhotina, que apaga todo o sentido. No fundo, são palavras e mais palavras ao vento, pois Kevin não existe mais. Kevin virou poeira. Poeira que o vento sopra e desfaz o velho dito inglês: “O futebol não é uma questão de vida ou morte. Está bem abaixo disso”.

Neymar da Silva, a Joia, precisa inspirar-se em Leônidas da Silva, o Diamante

por Neto em 16.fev.2013 às 18:19h

neymar - leonidasSão poucos, mas férteis, os anos da carreira de Neymar até agora. Não só férteis em títulos, mas em lindos gols, em obras-primas, ou capolavoros, como rascunha a bela lingua italiana. Ganhou ano retrasado um prêmio da Fifa batizado com nome de gênio, Ferenc Puskás, por golaço em jogo contra o Flamengo, e ano passado concorreu ao bi por jogada primorosa contra o Internacional. E houve mais outra dezena de tramas habilidosas, que uniram rapidez de raciocínio, velocidade, técnica apurada, cabeça erguida, visão anterior e tudo mais. Coleção para ‘emplacar em que pinacoteca, nêga?’, como pergunta a brasileiríssima canção ‘Futebol’, de Chico Buarque. Quem sabe um dia a orla de Santos não ganha uma Pinacoteca Neymar, como já há a Pinacoteca Benedito Calixto, em homenagem ao célebre pintor nascido na Baixada Santista. Neymar, como Calixto, capricha nas pinceladas. A diferença é que usa os pés em vez das mãos. Grandes jogadores são como clássicos pintores, músicos, prosadores… São criadores, artistas que extraem do viver o lúdico, o eterno. Longa é a arte, breve é a vida. O que os craques produzem em campo ficarão por anos a fio, sua fecundidade rende imagens para as outras gerações. Matisse, Portinari, Beethoven, Richard Wagner, Shakespeare, Flaubert, Machado de Assis, Drummond, Pelé, Zidane… À sua moda, todos formam o mesmo panteão. Mesmo que academicistas torçam o nariz e insistam em não ver arte no jogo de bola. Danem-se eles e suas ideias quadradas. Neymar certamente é candidato a, um dia, se assim o mestre Chico quiser, entrar em emenda no final da música: Para Didi, para Pelé, para Pagão, para Neymar e Canhoteiro. Por que não?

Sabedor de que a estética é sua irmã de fé, irmã camarada (valeu, Robertão!), o garoto artista da bola, que adentra agora na fase adulta, aos 21 anos, tem um sonho: fazer um gol de bicicleta. Gol que já foi marcado por inúmeros jogadores que não tem metade da sua categoria. Daí ser sinal de modéstia, ou então de inconformismo, o fato de nosso mais novo talento ter deslumbre pelo malabarismo em “duas rodas”. No treino deste sábado, o repórter do LANCE!Net Márcio Porto testemunhou uma bicicleta do camisa 11 que quase virou gol e ganhou aplausos dos companheiros. Ele está tentando, unindo a transpiração à inspiração, para chegar lá. Já executou o movimento de várias maneiras. Quem sabe não dá uma em estilo peculiar e a batiza, tal aqueles que os ginastas criam. Ele, como engenhoso jogador, mereceria ter uma jogada carimbada.

Mas já que a obsessão de Neymar da Silva é um gol de bicicleta ele bem poderia acender umas velas para o pai da jogada, ao menos o pai oficial, com sobrenome idêntico ao seu: Leônidas da Silva! Craque brasileiro da primeira metade do século XX, Leônidas protagoniza célebre foto executando a plástica aérea, com as pernas roçando no céu e o tronco descaindo, é das mais conhecidas. Vestia a camisa do São Paulo em jogo contra o Juventus no Pacaembu no ano de 1948 e reinava como o maioral dos campos brasileiros (a imagem é reproduzida no topo deste post ao lado de uma de Neymar). Dizem até que se houvesse mídia como hoje estaria no primeiro time na galeria dos imortais da pelota (injustiça a comparação dos tempos entre outras coisas por essa escassez de imagens). Se Lêonidas foi um dos nosso primeiros fenômenos, um diamante – daí veio o chocolate Diamante Negro – e Neymar o nosso mais recente, apelidado de Joia, nada mais natural que o santista busque inspiração lá atrás. Joias de diamante brilham incessantes. Neymar parece ser, como Leônidas, de borracha. Sua elasticidade parece levá-lo para espaços diante de marcadores que são, ao natural, individuos duros, sem flexibilidade.

Acender velas pra Leônidas pode auxiliar Neymar. Os sopros do além, do espaço celestial onde residem os craques no plano imaterial, podem ser de grande valia. Lá reside o húngaro Puskas, cujo nome está grafado no troféu que o craque santista ganhou em 2011. E caso façam caretas dizendo que Leônidas não ganhou Copa do Mundo – ah, os idiotas da objetividade, tio Nelson – fatalmente foi porque no seu auge, nos anos 40, as duas guerras mundiais, cânceres da humanidade, impediram a alegria do futebol. E ainda assim, o atacante foi artilheiro do Mundial de 38 com oito gols e, contam, fez um descalço, após perder a chuteira, contra a Polônia. Naquele torneio o Brasil fez sua melhor exibição até então ficando em terceiro e Leônidas não atuou a semifinal contra a Itália por estar machucado. Como bem sabemos, a história sempre pode ser reescrita com os fatos que perderam direção por ausências.

O Verdão se despalmeiriza com ídolo de ‘Barros’

por Neto em 08.fev.2013 às 19:38h

Barcos virou ídolo de “Barros”. O Carnaval durou um ano e a fantasia de Pirata foi rasgada. O tal tamojunto, escrito assim, nos moldes contemporâneos de estupro da lingua, teve a consistência de um pudim envelhecido. Poderia até inspirar a marchinha: “Se o barcos não virar, olê olê olá, eu chego lá”. Não, o Palmeiras, claro, é maior que Barcos e vai chegar sempre lá, com ou sem embarcações. A questão aqui é outra. É o quanto esses amores futebolísticos são frágeis. O desconforto de Barcos por ter que jogar a Segunda Divisão era evidente. A confusa negociação para estender o contrato, ainda no final do ano passado, mostrava isso. Suas inquietações quanto à incerteza de ser convocado para a seleção argentina jogando a Série B também. Humano, demasiado humano, meu caro Nietzche!

O Palmeiras, enorme, se despalmeirizou nessa, agiu como pequeno, não como detentor da quarta maior torcida do país. A transação com o Grêmio mostrou o clube de joelhos para o desejo do jogador e de outro time. Por mais que esse fosse o desejo de Barcos, não tem cabimento, foi dantesco, fazer o acerto sem saber que jogadores aportarão no Alviverde. O gigante Palestra cedeu seu principal jogador quase às cegas, ainda que vá receber uma grana e livrar-se de dívida com a equatoriana LDU. A grandeza não pode ser diminuida assim, como se o pires na mão fosse a vocação palmeirense.

O palmeirense está esgotado dessa despalmeirização. A sequência de lambanças expõe o clube ao ridículo. Ainda mais quando os rivais prosperam – Corinthians é campeão do mundo, o Santos tem Neymar e traça título atrás de título e o São Paulo monta time forte. Ver ídolos se dissolverem é menos doloroso do que ver o clube se curvar. A instituição, óbvio, é precede as pessoas.