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Tricampeão inquestionável

por Neto em 14.mai.2012 às 15:29h

Texto meu publicado na revista-pôster do LANCE! do tricampeonato santista, que está nas bancas

Na campanha do tricampeonato o Santos começou manso, ludibriou os adversários, para dar o bote nas horas certas. Nas rodadas iniciais, o Peixe foi a campo com time reserva, poupando as “feras do Muricy”, que vinham desgastadas pela disputa do Mundial de Clubes, no fim de 2011. E mesmo no meio do caminho a estratégia foi repetida, quando havia jogos da Libertadores se avizinhando e algum conforto na tabela. Foi uma trajetória calculada, mas com generosas gotas artísticas. Claro, uma equipe com Arouca, Ganso, Neymar e cia. jamais caminha burocrática, sempre abre a porta do seu ateliê para os apreciadores do futebol refinado.

Assim, algumas goleadas ainda na primeira fase iluminaram a estrada. Contra a Ponte, meia dúzia de gols com sublime atuação de Neymar, que já tinha alvoroçado os entusiastas do seu futebol em virada contra o Botafogo (virada achocolatada: 4 a 1). Catanduvense e Guaratinguetá levaram inapeláveis cinco e até os reservas tiveram seu dia de show contra a Linense. Nos clássicos, o Alvinegro perdeu quando “podia”, como nos casos contra o Palmeiras e o São Paulo. O time do Morumbi que o diga! Triunfou na maçante primeira fase e foi superado na semifinal pelo terceiro ano seguido, em freguesia que abrilhanta a conquista.

A vitória por 1 a 0 sobre o arquirrival Corinthians é a cereja no bolo, não poderia faltar. Aconteceu na reabertura da Vila Belmiro e, mesmo econômica, teve sua valia. Mas o mérito mesmo do Santos foi novamente a sua letalidade nas decisões. Mais uma vez foi gigante nos mata-matas e não deu brecha para os adversários. Mogi Mirim, São Paulo e Guarani foram as vítimas da vez. O tricampeonato santista tem múltiplos símbolos para um clube que por si só já é icônico. Após mais de 40 anos uma equipe obteve tal série de títulos no Paulistão. De quebra, abre a perspectiva do ineditismo
histórico ano que vem: ser o primeiro tetra nos tempos do profissionalismo.

Por fim, e talvez esse seja o recheio principal, viu o atacante Neymar acomodar-se no panteão que tem deuses do porte de Pelé, Coutinho, Pepe, Giovanni, Robinho entre outros. Foi na campanha estadual que o garoto (sim, embora tricampeão ele ainda é um garoto!!!) tornou-se o maior artilheiro alvinegro após a chamada era Pelé. A hegemonia deixa os santistas com orgulho dilatado. O tricampeonato representa o resgate da mística que andava perdida. Há dez anos títulos voltaram a ser uma constante em Urbano Caldeira, mas faltava uma expressiva série para a memória gloriosa voltar a ter carne e osso.

Onde vai parar o Santos de Neymar?

por Neto em 13.mai.2012 às 19:15h

Onde vai parar o Santos de Neymar? A pergunta, rimada, é a bola da vez, pois da vez é esse Peixe conduzido pelo molecote de 20 anos. Molecote gigante, que em três anos, sem escapar ainda da adolescência existencial, já é um marmanjo colecionador de incredulidades. Isso, coce os olhos, intrépido leitor. É preciso arregalá-los para crer. Mais de 40 anos sem um tricampeão foram desdenhados por um menino de futebol soberbo, com a alma entrelaçada à bola. Três títulos estaduais em série e uma fome incontrolável em decisões. Já avisei, coce os olhos, atente=se aos dados e suspire: ele está entre nós! Nos únicos quatro jogos que dão sentido ao estadual, no quarteto de mata-matas, o camisa 11 foi um demolidor. Balançou as redes em TODOS OS JOGOS. Fez OITO gols, sendo QUATRO nas finais contra o Bugre. Na semifinal contra o São Paulo, fez os três da equipe. Contra o Mogi, foi mais singelo, unzinho, quiçá em respeito ao modesto mas valente adversário.

Na campanha do Paulistão Neymar foi aquele sujeito que sabe-se divino com a pelota sob controle. Demorou para estrear, afinal quem é joia não pode banalizar-se. Quando entrou em campo não demorou a deixar claro: eu tenho a força! Virou um jogo duro contra o Botinha, em Ribeirão, com três gols. Ali foi como uma mensagem: não pensem que desdenho o Paulistão após dois títulos! Na primeira fase arrastada e enfadonha, o atacante foi o néctar a destoar da miséria. Seus constantes brilhos, em dribles, passes e gols, foram um oasis no deserto. Mas os precavidos já deviam saber: o melhor esta por vir quando chegar o momento fatal. Aí as estripulias do rapaz deram realmente as caras e ele começou a sentar-se no panteão. Deu um chega para lá sem cerimônia em dois jogadores históricos do Peixe – Juary e Chulapa – e transformou-se no maior artilheiro alvinegro após a mítica era Pelé. Acho que os olhos estão avermelhando de tanto você coçar e você deve achar que o escriba está delirando, mas não: é real! Em pouco mais de três anos como atleta profissional Neymar insinua-se nas alturas. Cinco títulos com a camisa santista, artilharias diversas, prêmio de gol mais bonito do mundo ano passado. O próprio céu acha ser pouco para ele.

Neymar tem contrato com o Santos até 2014 e isso tremelica as espinhas de torcerores rivais. Até lá há mais dois Paulistas, dois Brasileiros, três Libertadores (na atual o caminho parece estar se desenhando), duas Copas do Brasil… A pergunta deve ser reeditada: Onde vai o Santos de Neymar? Por que não bastou o Santos de Pelé? São os deuses da bola repetitivos? A história se reproduz sem farsas? Com quantos craques históricos se faz um Santos? E os raios caem na Vila múltiplas vezes?

Com o jeitinho brasileiro não há quem possa

por Neto em 02.mai.2012 às 13:44h

O tal jeitinho brasileiro não toma jeito. É tema recorrente também nos gramados. Neles, aliás, encontra terreno fértil, com sua dupla faceta: na malandragem oportunista e incivilizada, na qual os fins justificam os meios, mas também na finta ludibriante, nosso chassi mais celebrado e legítimo. Por isso urge separarmos o joio do trigo na hora de tratar do assunto. A velha mania de querer levar vantagem em tudo, rabiscada na Lei de Gerson (foi à toa que um jogador a cimentou em propaganda?) não deve ser confundida com a malícia do menino com a bola, nosso timbre mais alto, nossa excelência.

Vamos aos fatos! O jeitinho maligno, empobrecedor, se manifesta nesses gandulas amestrados, que repõem rapidamente a bola quando o time da casa ataca – e até participam de jogadas ensaidas, como vimos no Beira-Rio no último domingo – e “valorizam a posse de bola”, retardando sua devolução, quando é a vez do adversário. Não há aqui diferenças de essência entre essa prática e aquela do sujeito que fura fila ou suborna o agente de trânsito. São pragas que devastam a cidadania.

Mas há o jeitinho benigno, ativo nas pernas dos nossos boleiros bailarinos desde a aurora do jogo. Nas ameaças de corpo de Garrincha, que levavam o marcador à embriaguez, expressava-se a picardia. O movimento enganoso do corpo, a bola que raspa de um lado e para do outro, é uma maneira lúdica, legal, de furar-se a fila. Ela não infringe leis, ela dita a vitória da técnica sobre a muralha. Neymar faz isso jogo a jogo. Rivais, furiosos, descem-lhe pancadas, como a censurar a vantagem levada pelo talento, como vimos no Morumbi, também no domingo. De jeito a jeito, o primeiro deve ser abolido para sermos gente grande. Já o segundo nos manterá grandes aos olhos do mundo.

Confiança de uns, relutância de outros

por Neto em 19.abr.2012 às 18:05h

Os resultados vêm em fileira e Tite não esconde que confia no taco do seu Corinthians. O time não encanta, mas triunfa. É um colecionador de vitórias por 1 a 0, obediente, quase servil aos ditames de seu treinador. A engrenagem funciona a contento e convence o técnico a um pequeno rasgo de soberba, um minuto de sinceridade hesitante, ao ser perguntado sobre que time teme enfrentar nas oitavas de final da Libertadores: “Tenho me colocado do outro lado. Eu não queria ter o Corinthians como adversário”.

Ao projetar-se na mente e carne (que é quem padece os medos) dos rivais, o comandante corintiano dá recado inequívoco: “Nós temos a força!” Não é da boca para fora, é de fora para dentro. O dia a dia de treinos, os resultados em série, as vozes que alertam para o bom desempenho da equipe partida a partida. O título brasileiro foi a pedra de toque nessa afirmação, manifestada em auto-confiança. Com o Corinthians de Tite pode não haver quem possa.

Comportamento oposto ao de Tite teve o presidente do Palmeiras, Arnaldo Tirone. Na reunião que definiu como será partilhada a renda dos jogos das quartas do Paulistão, foi o único cartola dos grandes times a optar pela divisão idêntica para vencedor e perdedor: 50% a 50%. Ou é um marxista de carteirinha – desconheço suas veleidades ideológicas e se O Capital é sua leitura de cabeceira – ou não confia na equipe. Para a arquibancada a leitura é seca: teme o pior!

Os fatos podem trazer mensagens importantes. É preciso estar atento, não descartar o que acontece. Um técnico esbanjando confiança e um presidente relutante. Um time em progressão, outro patinando na reta de chegada. Nas próximas semanas esses gestos e palavras podem reverberar em alegria de uns e tristeza de outros. Os sinais estão à mostra e já permitem algumas apostas seguras.

Santos, cem anos de um destino manifesto

por Neto em 11.abr.2012 às 17:55h

Ao longo desses cem primeiros anos de existência, o Santos foi sempre um tenaz herói da resistência no futebol brasileiro. Alojado em uma cidade de médio porte, subverteu a lógica metropolitana que domina a pelota nacional. Dos chamados grandes, é o único a situar-se fora de uma capital. E desse seu microcosmos abraçou o cosmos. Foi e segue sendo um expoente da máxima de Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”. E refez, e refez, e refez… E certamente refará eternamente, pois está provado ser essa sua vocação.

O Santos reúne fama e fortuna, a riqueza de uma nação alvinegra. Havia alguma magia escondida naquele dia 14 de abril de 1912. Magia que exerceria sua força com o passar dos anos. Não à toa um dos primeiros ídolos foi Feitiço. Menos à toa ainda um menino destinado a rei na Vila aportou e na Vila reinou, auxiliado por gente da categoria de Pepe, Coutinho, Dorval, Pagão e Carlos Alberto Torres. E depois, três gerações de meninos cultivados no fértil solo santista a manter o mito altivo, com Pita, Juary, Diego, Robinho, Ganso e Neymar na linha de frente.

Os santistas são ciosos de sua história. Quem não seria diante de obra tão olímpica? Ao palmilhar os cantos do Memorial das Conquistas, eles sentem o orgulho de quem fez pelo futebol brasileiro mais do que deveria e suspeitaria. E, de quebra, têm a presunção da prática do futebol-arte. Com ele estão habituados, sem ele não sabem viver.

Os doídos 18 anos de jejum de títulos importantes apenas serviram para reafinar o timbre santista. Quando tentou escapar de suas origens, buscando fora de suas entranhas as respostas, tombou. Enfim, quando voltou a olhar para seu próprio ventre, reencontrou a tal magia. Coincindência ou não, a chama reacendeu exatamente na década que precedeu o centenário. É o destino manifesto alvinegro!

Vício, companheiro inseparável do jogador-problema

por Neto em 09.abr.2012 às 18:41h

Uma vez jogador-problema, sempre jogador-problema. Essa é a máxima que o tempo cisma em reafirmar. Quantas vezes não foram abertas inúteis janelas para a recuperação de Adriano? Quantas vezes elas não se fecharam nas ventanias de seus deslizes? O vício, meus amigos, seja ele de que natureza for, tem uma força de Hércules. Assim como a ingratidão no poema de Augusto dos Anjos, ele é uma pantera, companheira inseparável dessa gente. Seja o vício no álcool, nos fornidos rabos de saia que perseguem os jogadores em formato de marias chuteiras, ma jogatina ou na rebeldia pura, que não aceita críticas ou divididas de adversários. Ando pessimista com os temperamentais, embora nutra por eles deliciosa admiração por sabê-los vitais para a graça do jogo.

Vá às salas de cinema e você pode ver fragmentos de um ícone desse transbordamento de inconsequências. Trata-se de Heleno, em interpretação figadal de Rodrigo Santoro. O craque botafoguense dos anos 40 afundou-se de tal forma nos próprios vícios, de noites orgiásticas regadas a drinques, e ego superinflado que terminou sifilítico em um sanatório da cidade de Barbacena. O rapaz que queria acender um cigarro como o astro de cinema americano Jonh Wayne morreu aos 39 anos com fumo na mão e as glórias empacotadas. Uma vida intensa com uma morte melancólica!

Sempre há um novo capítulo de erupção para esse vulcões dos gramados. Quando a maré promete acalmar-se de seus ventres novas lavas quentes jorram. No domingo, o italiano Mario Balotelli mostrou ser candidato a um Heleno piorado. Uma expulsão tola que afundou o Manchester City, clube que é sobejamente tolerante com os excessos desse filho de imigrantes ganeses. Com marra a cada gol marcado e uma disposição rara para azucrinar a paz, o atacante não parece nem um pouco a fim de mudar o comportamento. Ótimo para os debates, péssimo para o time e torcida, aflita por um título nacional.

Esses jogadores-problema são sofredores, pois vítimas de seu sangue fervente e guloso. Mas conquistam carinhos eternos porque invarivalmente são craques, figuras às quais não podemos ser indiferentes. Em meio aos desperdícios tiveram auges capturados pela história. Foi o caso de Edmundo, que mesmo chutando uma câmera de TV aqui e vivendo turbulências pessoais ali, foi magistral com a bola no pés. Foi Animal, na alcunha dada por Osmar Santos, em sua qualidade técnica e na selvageria individual.

Jogadores-problema são ciosos de sua própria perfeição. Sabem-se melhores que os outros e não conseguem, por isso, construir bolsões de humildade. Não toleram os pernas de pau. Heleno, no registro bibliográfico e agora fílmico, espezinhava os mal dotados. Seus companheiros brucutus eram alvo de sua ira. Não conseguia, como um Pelé ou Messi, conviver com as diferenças, mantendo a crista lustrada sem precisar deslustrar a alheia.

Adriano está em uma escala à parte, pois não se desentende com os seus e nem com os outros. Seu problema é a falta de disciplina esportiva. Os atrasos em treinos e a dificuldade para entrar em forma, subprodutos de uma vida desregrada, uma vida não atlética. As expectativas em seu renascimento sempre desaparecem com o noticiário negativo.

Outro dia o francês Eric Cantona, que foi ídolo no Manchester United e era um desses símbolos pops do extravio comportamental, disse que agora, na meia idade, está tranquilo graças aos braços de uma mulher. Aqui está uma esperança, o amor. O coração contente talvezz possa ser uma panaceia pra turma do funil. Embora também possa depois ser um veneno, como foi com Elano. O fim de seu relacionamento com atriz global é apontado como estaca no peito do seu bom futebol. De qualquer forma, Cantona deu alguma receita para Adriano, Balotelli e outros jogadores-problema que ainda buscam sobrevida: um colo salutar de mulher.

Erros de arbitragem afanam a inteligência

por Neto em 04.abr.2012 às 16:37h

O seu time perde um título por erro grotesco de arbitragem. Um impedimento mal marcado saca o gol que daria o título. Você substitui o desalento da chance desperdiçada pela raiva da circunstância. O vizinho, que ficou com a glória graças ao apito fúnebre, comemora, embora no fundo da consciência, se for sujeito decente, admita: “Era melhor ter vencido sem aquela ajudinha!”. Houvesse um auxílio tecnológico e a verdade triunfaria sobre o achismo. Que dano traria?

Segundo alguns conservadores de almanaque, o uso de ferramentas esclarecedoras, que dissolvam dúvidas sobre impedimentos, pênaltis e bolas passando da linha sepultaria a “graça” do futebol. Os botecos perderiam clientela ávida por cerveja com o esvair-se das polêmicas. Ora, isso é tolice! A medida poderia no máximo fazer sucumbir programas de TV que pautam o conteúdo por repetições infinitas de falhas dos árbitros. O esporte não precisa dessa ode à injustiça para ser popular. Os erros fazem é afanar nossa inteligência.

O que move a paixão pelo jogo não é o prejuizo que apitadores provocam, mas sim um sem-número de itens: o drible bem feito, o craque, o atacante goleador, a rivalidade, o ritual de ir ao estádio, os cânticos de torcidas, os personagens folclóricos… Basear a febre de bola no princípio do juízo equivocado de quem apita é ignorar o que cerca as disputas. Futebol americano e tênis recorrem a instrumentos eletrônicos para dirimir dúvidas e isso não diminui o interesse pelas modalidades. Ao contrário, ele só vem aumentando, conforme atestam a profusão de patrocínios e transmissões televisivas.

Curioso que os principais avessos à adoção da tecnologia sejam justamente cartolas mergulhados em denúncias de corrupção. A penumbra que cerca suas transações é a mesma que fecha as cortinas para o império da verdade no jogo.

Paixão sem bandeira, uniforme e graça

por Neto em 28.mar.2012 às 17:14h

O pai quer transmitir ao pequeno filho sua paixão clubística. Lá no berçario já havia o uniforme minúsculo como primeiro presente. O desejo ardente é de que aquele pingo de gente tome gosto aos poucos. Quando chegar o momento certo o levará ao estádio “com confetes e bandeiras”, como diz a marcha. Opa, bandeiras? Nananinanão, fazem as autoridades censoras com o dedo indicador. Nada disso, não pode! Estão proibidas no Morumbi, Pacaembu, Vila Belmiro e qualquer outra cancha paulista. Vai que algum exaltado pegue o mastro e pimba na cabeça alheia, não é mesmo? Esqueça as parafernálias!

Terá então o pai que levar o seu petiz sem adereço para tremular. Quando chegar a hora vai com a gloriosa camisa! Mas que hora é essa? Qual o momento adequado? Que não seja um clássico, pois eles são muito perigosos, cheios de rivalidade! Vai que passa um torcedor rival exaltado e dá-lhe uns safanões. E nesse caso, se tiver azar, a criança pode sentir pedras e paus roçando-lhe os ouvidos. Então fica assim: o pai quer alimentar a paixão no filho, mas sem bandeira, uniforme, sem nada…

Diacho, mas que paixão é essa?, poderá se perguntar o torcedor-mirim! Uma paixão cheia de cuidados, de precauções e vacinas. O pai poderá até concluir que o melhor é trabalhar a paixão via pay-per-view. Compra o pacotão do campeonato, pega bandeira, mete uniforme e vamos nós. Assim pode até clássico, vejam só vocês!!!

A violência de torcedores estabeleceu a cultura do medo. Expressar sua paixão nas ruas e estádios é ato de coragem suicida. Pais que querem infundir nos filhos sua preferência clubística enfrentam a barreira da hostilidade. É futebol ou guerra? O lazer passional que o esporte deve oferecer vem ficando para trás. Assim, as crianças acabarão mesmo ficando com videogame, computadores e televisão!

Carta dos brasileiros ao Fenômeno adormecido

por Neto em 21.mar.2012 às 14:33h

“Ronaldo, nós, brasileiros, esperamos mais de você, camarada! Esperamos que sua transpiração fenomenal, responsável por te fazer vencer a precoce morte anunciada nos gramados em 2002, goteje também nos bastidores. Agora que pendurou as chuteiras (incrível, já faz um ano, rapaz!), esperamos que largue mão dos salamaleques típicos da cartolagem, que por ora parecem te contaminar, e transforme seu carisma em ações efetivas para dar vida às porcas engrenagens do poder. Nossa pátria-mãe não está mais tão distraída com tenebrosas transações, como no eterno samba de Chico e Francis. Estamos vigilantes. Largue o oco blablablá da politicagem rasteira, não rima contigo!

No fundo, esperamos, crentes, que cale a boca dos críticos da sua atual opacidade e, como já fez em campo, mostre os dentes afiados para o que há de ruim nos meandros da nossa (des)organização. Você tem pilhas de crédito pelo bem que fez seguidos anos aos amantes do futebol. Caso mude de postura, será tratado com açúcar e com afeto. Basta que suas arrancadas, dribles e gols brilhem nos empoeirados gabinetes.

Nós temos coração mole, Fenômeno! E nossa alma ainda guarda traços de vira-latice. Transigimos quando um ídolo se derrete e depois, arrependido, volta à firmeza do bronze. Somos homens cordiais em nossas raízes brasileiras, né, sábio Sérgio? Preferimos achar que você foi enfeitiçado pela medusa que perambula nas salas das federações. Ela tem muitas caras (você mesmo lembrou que duas delas estavam no trono, esqueceu?).

Mais dia, menos dia, você irá despertar, Fenômeno. Sua catatonia há de ser temporária. Por isso, fizemos ouvidos moucos quando você lamentou a saída de Ricardo Teixeira. Foi um ato de sabotagem com sua própria consciência, só pode! Você irá acordar, temos fé cega em nosso craque!”

A despedida teatral de um rei acossado

por Neto em 14.mar.2012 às 16:50h

Enquanto assistia ao pronunciamento de José Maria Marin, na última segunda-feira, achei por alguns instantes que estava acompanhando uma esquete teatral. Do início ao fim, a civilização ideal narrada no livro Utopia pelo inglês Thomas Morus no século XVI era descrita. Não fosse a timidez, teria tocado a campainha do meu vizinho e pedido para ele me beliscar. Aquilo era demais para um estômago sensivel como o meu e queria ter certeza de que tratava-se de um mise-en-scène.

O rei depositava coroa e cetro em cima da cama e renunciava ao trono após 23 anos em meio a denúncias escabrosas. Saia de fininho, deixando uma carta de despedida que simulava peça de ficção. O missivista dizia ter sacrificado saúde e convívio familiar em prol do nosso futebol. Consta que nesse momento Chico Mendes, José Bonifácio de Andrada, Santos Dumont, Zumbi e outros ícones reviraram-se nas covas temendo perder espaço para tal herói! Em seguida, veio a emenda: ”Tive a honra de administrar o que o ser humano tem de mais humano: seus sonhos, seu sentimento…” Nessa hora engasguei com o café expresso.

O texto ganhava tom cada vez mais tragicômico a cada linha e eu não conseguia seguir meu desjejum. Ao falar da felicidade incontida de ver “nos rostos brasileiros a alegria da conquista de mais 100 títulos” eu me rendi. Nem o populista mais clássico gastaria papel com palavras tão distantes da realidade que a plebe conhece há tempos.

Não, eu não caguei de montão. Fiquei foi atônito. E dei alguma risada quando, já no fim, ele se dizia injustiçado. Lembrei das peças de Shakespeare, Porém, neste caso, o drama não era o do Rei Lear, traido pelas filhas, ou do monarca assassinado em Macbeth. O drama era dos brasileiros, que vemos nossa paixão maior ser manipulada pela cartolagem, que no ato final ainda tenta nos vender a vila de Utopia.