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A história de um outro 7 a 5 memorável

por Emmanuel do Valle em 31.out.2012 às 15:24h

Em uma partida única, mata-mata, o time da casa abre grande vantagem, cede o empate, a virada, reage, mas não consegue evitar a derrota num jogo com DOZE gols (isso mesmo, uma dúzia). Estamos falando do fantástico Reading x Arsenal da última terça-feira pela Copa da Liga Inglesa, certo? Errado: a descrição acima é de Suíça x Áustria, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1954. Que também terminou num incrível 7 a 5.

O zagueiro austríaco Ernst Happel dá combate ao atacante suíço.

Os países vizinhos se enfrentaram no “Clássico dos Alpes” disputado no estádio de La Pontaise, da  cidade suíça de Lausanne, em 26 de junho de 1954. Na primeira fase, os helvéticos haviam eliminado nada menos que a Itália de Giampiero Boniperti no Grupo D,  e vencendo por duas vezes: 2 a 1 na primeira rodada e depois 4 a 1 no jogo desempate. Mas os austríacos tinham mais time, no qual se destacavam o centromédio (ou volante, nos dias de hoje) Ernst Ocwirk e o centroavante Erich Probst, além do zagueiro e futuro treinador de sucesso Ernst Happel – que hoje dá nome ao principal estádio de Viena.

Animados pela boa campanha e embalados pela torcida local, os suíços foram logo abrindo vantagem: Ballaman fez 1 a 0 aos 16 minutos. Hügi ampliou um minuto depois e fez o terceiro aos 23. Os austríacos não se abalaram e, a partir dos 25, com um gol a cada minuto, chegaram à igualdade: Wagner, Körner e de novo Wagner. Aos 32, o capitão Ocwirk virou o placar. E dois minutos depois, Körner voltou a balançar as redes, fazendo o quinto dos visitantes.

Diante de uma virada inapelável, a Suíça poderia reagir? Não só pôde, como fez: Ballaman botou os donos da casa de novo no jogo ao marcar o quarto aos 39 minutos. Antes do intervalo, porém, foi a vez dos vizinhos jogarem fora uma chance de ampliar, quando Körner perdeu um pênalti – sim, ainda teve isso! – chutando para fora, aos 42 minutos.

O atacante Wagner (9) controla a bola, observado pelos suíços Ballaman (16) e Vonlanthen (22).

Depois de um primeiro tempo com nove gols (5 a 4 para a Áustria, não perca a conta) e um pênalti perdido, o que poderíamos esperar da etapa final? Mais gols! Theodor Wagner marcou seu terceiro na partida – o sexto dos austríacos – logo aos sete minutos. Os suíços correram atrás e de novo descontaram: foi a vez de Sepp Hügi fazer seu terceiro, aos 15. E a decisão na vaga das semifinais caminhou mais uma vez para momentos de indefinição e dramaticidade.

Que só acabaram aos 32, quando o goleador Probst – que ainda não tinha marcado no jogo – furou a defesa adversária pela sétima vez e deu números finais ao placar. Sem pernas, os donos da casa não puderam ensaiar mais uma reação – fazia um calor incomum na cidade naquele dia, ainda mais para o padrão do verão europeu. Mas já tinham entrado para a História das Copas ao participarem da partida com o maior número de gols na competição em todos os tempos.

O curioso é que os suíços já eram conhecidos na época pela alcunha de ‘Ferrolho’, pelo seu estilo de jogo e a solidez de seu sistema defensivo, implantado por seu técnico Karl Rappan (ironicamente, um austríaco). E, no entanto, seu goleiro Parlier foi buscar a bola no fundo de suas redes em sete ocasiões.

FICHA TÉCNICA

SUÍÇA 5 X 7 ÁUSTRIA

Copa do Mundo – quartas de final – sábado, 26 de junho de 1954
Local: Estádio La Pontaise (Lausanne-SUI)
Árbitro: Charles Faultless (ESC), auxiliado por Manuel Asensi (ESP) e Emil Schmetzer (ALE)

Gols: Ballaman aos 16 (1-0), Hügi aos 17 (2-0) e 23 (3-0), Wagner aos 25 (3-1), Alfred Körner aos 26 (3-2), Wagner aos 27 (3-3), Ocwirk aos 32 (3-4), Alfred Körner aos 34 (3-5) e Ballaman aos 41 (4-5) do primeiro tempo; Wagner aos 7 (4-6), Hügi aos 15 (5-6) e Probst aos 32 (5-7) do segundo tempo.

Suíça: Parlier; Neury e Eggimann; Bocquet, Kernen e Casali; Antenen, Vonlanthen, Hügi, Ballaman e Fatton. Técnico: Karl Rappan.

Áustria: Schmied; Hannapi e Happel; Barschandt, Ocwirk e Koller; Robert Körner, Stojaspal, Probst, Wagner e Alfred Körner. Técnico: Walter Nausch.

Fluminense x Botafogo – Seis confrontos marcantes do ‘Clássico Vovô’ em Brasileiros

por Emmanuel do Valle em 06.out.2012 às 3:25h

 

O meia Bráulio, do Botafogo, disputa a jogada com o ponta Gilson, do Fluminense, no clássico pelo Brasileiro dse 1977.

 

Duelo já com mais de um século de história para contar, o “Clássico Vovô”, entre Fluminense e Botafogo, terá mais um episódio pelo Campeonato Brasileiro neste sábado, e com ares de tira-teima. Desde 1971, foram 39 jogos, com vantagem apertada para os alvinegros (12 vitórias contra 11 dos tricolores, além de 16 empates). Se incluirmos os quatro confrontos pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, também reconhecido como torneio nacional, o Flu chega à igualdade: venceu mais dois duelos, contra apenas um triunfo do time de General Severiano, e um empate.

Nestes 45 anos, o confronto em competições nacionais já teve boas histórias para contar – decisões nos pênaltis e nos tribunais, inauguração de estádio, partidas que valeram a vida para um e a morte para outro, gols de ex-ídolos do adversário. O Memória da Bola relembra aqui seis desses momentos marcantes.

* * * * *

Fluminense 0 x 1 Botafogo (1969)

Empatados no Grupo B do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, Flu e Bota fizeram jogo crucial em 23 de novembro daquele ano. Para os tricolores, era a última partida da primeira fase. Já os alvinegros enfrentariam ainda o Santos no Pacaembu, em jogo adiado. E para ambos, era vencer ou vencer para chegar ao quadrangular decisivo. E o Botafogo venceu com gol de Roberto Miranda, matando as chances da equipe das Laranjeiras. Quatro dias depois, o time da Estrela Solitária segurou o 0 a 0 com o Peixe e selou a classificação à fase final.

Fluminense 0 x 1 Botafogo (1977)

Pela segunda fase do Brasileiro daquele ano, os dois rivais se encontraram no Grupo J, ao lado do Botafogo-SP, do Operário-MS e do CSA. E no clássico, deu Alvinegro com gol de um ex-tricolor, o ponta Gil, aproveitando falha do ex-botafoguense Marinho Chagas a quatro minutos do fim. O resultado deixou o Flu bem perto da eliminação no torneio – o que se consumaria quatro dias depois, num empate em 0 a 0 com o time de Ribeirão Preto (SP) em pleno Maracanã. Mesmo contando com estrelas do porte de Rivelino, Doval e Edinho, além do próprio Marinho Chagas, o time das Laranjeiras terminaria o campeonato numa vexatória 26ª colocação.

Botafogo 1 x 1 Fluminense (1988)

O jogo que abriu o Brasileiro daquele ano em 3 de setembro demorou mais de um mês para terminar de fato. Explica-se: o regulamento previa a decisão nos pênaltis em caso de empate, mas as duas equipes se recusaram a cobrá-los. Tiveram de voltar ao Maracanã, com portões abertos, no dia 5 de outubro (data da promulgação da atual Constituição Federal), só para bater as penalidades. O Flu levou a melhor (e o ponto extra) graças ao goleiro Ricardo Pinto, que defendeu os chutes do zagueiro Mauro Galvão e do lateral Renato, outro ex-tricolor. O zagueiro Alexandre Cruz converteu a cobrança decisiva para o Flu, vencendo seu irmão Ricardo Cruz no gol do Botafogo.

Em 1988, Ricardo Pinto defende o chute de Renato e dá o ponto extra ao Fluminense.

Fluminense 1 x 0 Botafogo (1991)

O tumultuado clássico disputado em 1º de maio no acanhado estádio das Laranjeiras foi crucial para a classificação do Tricolor para as semifinais naquele ano. O jogo durou apenas 45 minutos e não teve gols. Mas nas arquibancadas o clima foi quente. Torcedores dos dois clubes trocaram provocações e, no intervalo, os alvinegros derrubaram o alambrado. Houve invasão generalizada do campo, o que obrigou o árbitro José Roberto Wright a encerrar a partida alegando falta de condições. No dia 14 daquele mês, o Tribunal Especial da CBF declarou o Flu vencedor por 1 a 0, e os dois pontos ajudaram o clube a ultrapassar o Corinthians na tabela e avançar para a fase seguinte.

Fluminense 3 x 2 Botafogo (2005)

Disputado em Volta Redonda, o clássico do returno do Brasileirão de 2005 foi emocionante. O Tricolor esteve por duas vezes atrás no placar – Reinaldo fez 1 a 0 para o Bota, Gabriel Santos empatou, e o mesmo Reinaldo marcou o segundo gol alvinegro -, teve o meia Radamés expulso mas, com garra, chegou à virada perto do fim do jogo com gols do lateral Gabriel, cobrando pênalti, e de Tuta, em posição duvidosa.

Dodô comemora o primeiro de seus dois gols no jogo de abertura do Engenhão, em 2007.

Botafogo 2 x 1 Fluminense (2007)

No jogo que marcou a abertura do estádio do Engenhão, local da partida deste sábado, os donos da casa levaram a melhor. O Botafogo liderava disparado o Brasileiro daquele ano, mas saiu atrás no marcador: Alex Dias fez 1 a 0 Flu. No segundo tempo, entretanto, brilhou a estrela de Dodô, o ‘Artilheiro dos Gols Bonitos’, que comandou a virada alvinegra marcando duas vezes.

E para você, tricolor? E você, alvinegro? Qual é o seu Clássico Vovô marcante, inesquecível, dos Brasileirões?

Premier League: Revolução no futebol inglês completa 20 anos

por Emmanuel do Valle em 16.ago.2012 às 5:18h

Brian Deane, do Sheffield United, marcou o primeiro gol da História da Premier League inglesa.

Num 15 de agosto, há exatos 20 anos, foi dada a largada para aquele que viria se tornar hoje o campeonato nacional de futebol mais rentável do mundo. Naquele sábado era aberta a primeira rodada da Premier League inglesa, torneio que marcou a ruptura dos clubes da divisão de elite do país com a antiga Football League, que organizava a competição até então. Os próprios clubes passaram a promover a liga, celebrando vultosos contratos de patrocínio e publicidade – o primeiro deles com a rede de televisão BSkyB num valor astronômico para a época: 305 milhões de libras -, o que aumentou o dinheiro em caixa para a contratação de jogadores e a reforma de estádios.

A ideia central era atrair novamente o interesse pelo futebol no país, abalado pelas tragédias de Hillsborough e Bradford, nas quais centenas de torcedores morreram em parte devido à falta de estrutura dos estádios, e pela crescente evasão de jogadores do país rumo a outras ligas financeiramente mais compensadoras, como a italiana e a emergente japonesa.

Alan Shearer foi grande nome da primeira metade da temporada.

Um dos grandes beneficiários pelo dinheiro a rodo advindo das cotas de televisionamento foi, curiosamente, um clube pequeno, que havia acabado de subir da segunda divisão e voltava à elite após 26 anos: o Blackburn Rovers, que pagou cerca de 3,6 milhões de libras (recorde nacional) por Alan Shearer, atacante revelação do Southampton e da seleção inglesa sub-20. Mais curioso ainda foi ver, ao fim da primeira rodada, outro clube pequeno – que havia escapado do rebaixamento na última rodada da temporada anterior e nem investira tanto – ocupando a liderança: o Norwich, que foi a Londres e derrotou o poderoso Arsenal por 4 a 2 no velho estádio de Highbury (confira aqui os resultados da primeira rodada e de toda a temporada).

O Norwich de Mark Robins (centro) goleia o Arsenal em Highbury na abertura do campeonato.

Os Canários (apelido do Norwich, pelo uniforme em verde e amarelo) mantiveram a liderança até o começo de outubro, quando foram arrasados pelo Blackburn de Shearer por 7 a 1, fora de casa. Mas voltariam à ponta na segunda semana de novembro, em uma situação curiosa: líder com 30 pontos, mas com saldo de gols zerado.

O panorama do futebol inglês em termos clubísticos era bem diferente há 20 anos, antes da criação da Premier League. A partilha por igual das cotas de televisão entre todos os clubes das quatro divisões profissionais acabava por nivelar o torneio. Alem disso, apenas dois jogadores podiam ser relacionados para o banco de reservas. A maioria esmagadora dos elencos era formada por jogadores nascidos nas ilhas britânicas. Raros eram os vindos de fora, mesmo os da Europa continental, que eram contados como ‘estrangeiros’ (ainda não havia a Lei de Bosman).

Cantona trocou o Leeds pelo Manchester United de Alex Ferguson e se sagrou bicampeão inglês.

Mas foi um francês que acabaria por se consagrar como um dos destaques do campeonato: o atacante Eric Cantona, que trocou em novembro o atual campeão Leeds United pelo Manchester United e foi crucial na arrancada da boa equipe já treinada por Alex Ferguson para conquistar o campeonato. Os Red Devils largaram mal, sofreram o primeiro gol da nova liga (marcado por Brian Deane, do Sheffield United, numa derrota por 2 a 1), só ganharam seu primeiro jogo na quarta rodada, chegaram a ficar sete jogos sem vencer e ocupavam a décima posição na 15ª rodada, mas reagiram com uma campanha brilhante a partir dali e confirmaram o título que tirou o clube de um jejum de 26 anos na liga no dia 2 de maio, com a derrota do Aston Villa – seu perseguidor mais próximo – para o Oldham, em casa. Título sacramentado com uma vitória de 3 a 1 sobre o Blackburn no dia seguinte.

O time-base do United contava com o dinamarquês Peter Schmeichel no gol; Paul Parker e o irlandês Dennis Irwin nas laterais; Steve Bruce e Gary Pallister formavam a dupla de zaga; Paul Ince era o volante e capitão; mais à frente, jogava o escocês Brian McClair, ligando o meio ao ataque, e auxiliado nas pontas por Lee Sharpe (ou o russo Andrei Kanchelskis) na direita e pelo galês Ryan Giggs na esquerda. No ataque, Cantona tinha a companhia de outro galês: o experiente Mark Hughes. No banco, o meia e ex-capitão da seleção inglesa Bryan Robson, já em fim de carreira, era o reserva de luxo. Sem dúvida, uma equipe forte.

O irlandês Paul McGrath, craque do campeonato para os jogadores.

Ao Villa, restou o vice-campeonato, que valeu vaga na Copa da Uefa – só o primeiro colocado disputava a Liga dos Campeões -, e a honra de ter o veterano zagueiro Paul McGrath (ex-Manchester United) escolhido o melhor jogador da temporada entre seus colegas de todos os clubes (enquanto a imprensa escolheu outro veterano, o ponta Chris Waddle, do Sheffield Wednesday). Em terceiro, e com saldo de gols -4, ficou o Norwich, que também se garantiu na Copa da Uefa.

Sem Cantona, o Leeds definhou. Não teve forças para seguir na Liga dos Campeões, caiu também nas copas inglesas e terminou apenas na fraca 17ª posição, entre 22 clubes. O Blackburn também não resistiu à perda de seu principal atacante: Alan Shearer teve de operar o joelho no final de 1992 e ficou de fora do resto da temporada. Menos mal que os Rovers terminaram na quarta posição. Outra surpresa foi o Queens Park Rangers, quinto colocado, comandado pelos gols de Les Ferdinand, vice-artilheiro da competição, com 20 tentos.

O Arsenal, apontado como o principal favorito antes da bola rolar, terminou numa modesta décima colocação, e só se garantiu em uma competição europeia por ter vencido a Copa da Inglaterra. Os Gunners ficaram ladeados na classificação pelos hoje bilionários Manchester City e Chelsea (este, o único clube a trocar de técnico durante a temporada), que haviam subido juntos da segunda divisão em 1989 e fizeram campanhas apenas discretas na primeira Premier League, terminando em nono e 11ª lugar, respectivamente. O Liverpool, que dominara o futebol local na década anterior, também chegou surpreendentemente a flertar com a parte de baixo da tabela, mas terminou em sexto.

Teddy Sheringham, do Tottenham, o primeiro goleador da Premier League.

O Tottenham, que no começo da temporada perdeu Gary Lineker e Paul Gascoigne para o futebol japonês e italiano, respectivamente, pagou 2,1 milhões de libras por Teddy Sheringham, do Nottingham Forest, em agosto. Terminou apenas em oitavo lugar, mas com o artilheiro da competição – justamente o novo contratado, com 22 gols (um deles marcado enquanto ainda defendia o Forest). Com vários jogadores da seleção inglesa, o Sheffield Wednesday ficou na sétima posição, além de ter chegado às finais da Copa da Inglaterra e da Copa da Liga – em ambas, derrotado pelo Arsenal.

Sete anos depois de seu último título, o Everton fez campanha fraca. Em crise financeira, apesar de contar com jogadores como Peter Beardsley, Paul Rideout e Martin Keown, os Toffees só se distanciaram da zona de rebaixamento na segunda metade do campeonato e acabaram em 13º lugar. Sheffield United, Coventry, Ipswich, Leeds, Southampton e Oldham completaram o bloco que fez apenas figuração no torneio. E Crystal Palace (vice-campeão da FA Cup três anos antes), Middlesbrough (promovido naquela temporada) e Nottingham Forest acabaram rebaixados.

A queda do Forest representou um triste fim de uma era. Depois de 18 anos no comando da equipe, o técnico Brian Clough anunciou sua aposentadoria ao final da temporada. Depois de sair, pelas mãos do veterano e polêmico treinador, do fundo do poço da segundona para conquistar um título inglês, dois da Liga dos Campeões e outros dois da Copa da Liga inglesa, o clube de East Midlands voltava às divisões inferiores mesmo contando com jogadores do quilate de Stuart Pearce, Roy Keane e Nigel Clough (filho de Brian), e nunca mais se recuperaria do baque.

Os três últimos colocados da edição inaugural do torneio seriam substituídos na temporada seguinte pelos promovidos Newcastle, West Ham e Swindon Town, mas esta já é outra história.

No fim das contas, a fundação da Premier League entrou para a história como um dos primeiros movimentos do futebol em vias de se tornar um grande negócio. Para os críticos, as grandes somas de dinheiro que entraram serviram para criar um abismo irreparável entre os clubes ricos e os de menor orçamento graças a uma concorrência desleal, e a cristalizar a hegemonia de um grupo pequeno de times em termos de conquistas (vale lembrar que, nos 20 anos que se seguiram, apenas cinco clubes repartiram entre si os títulos da liga inglesa – e dois deles levantaram o troféu apenas uma vez). Para os defensores, porém, a nova entidade forçou os clubes a se organizarem administrativamente, a gerarem lucro e a investirem não só em novos jogadores, mas também em sua própria marca, que passou a ser exportada mundo afora no novo contexto da globalização.

O futebol da atualidade deve muito do que ele representa – de bom e de ruim – à criação da Premier League há 20 anos.

Futebol olímpico: Quando chegamos bem perto do ouro – Parte 2

por Emmanuel do Valle em 22.jul.2012 às 4:28h

A medalha de prata em Los Angeles ’84 – história do post anterior – surpreendeu os próprios brasileiros e forçou os dirigentes a abrirem os olhos: se com um time formado de última hora, com jogadores com pouca ou nenhuma experiência de seleção, e sem a colaboração da maioria dos grandes clubes foi possível chegar à final, por que não dedicar um mínimo de planejamento ao time olímpico para chegar a Seul não como azarão, mas com chances reais de ouro? Foi assim que formamos talvez a nossa melhor seleção olímpica de todos os tempos.

A Seleção Brasileira da decisão do ouro em Seul - em pé: André Cruz, Taffarel, Andrade, Aloísio, Luis Carlos Winck e Jorginho; agachados: Bebeto, Milton, Careca, Neto e Romário.

Seul 1988: A prata do timaço

 Depois da eliminação na Copa de 86, no México, e da saída definitiva de Telê Santana, a CBF anunciou Carlos Alberto Silva para o comando da Seleção. Mineiro como Telê, o novo treinador havia feito boa campanha com o Cruzeiro no Brasileiro daquele ano, resgatando o time celeste da má fase permanente em que esteve na primeira metade da década. E agora tinha a missão de renovar a Seleção, depois da aposentadoria da geração de Falcão, Sócrates, Júnior e Zico. Assim, a formação da seleção olímpica veio naturalmente, ‘casando’ com os critérios do COI e da Fifa de então.

O começo foi complicado: no Pré-Olímpico de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em abril e maio de 1987, o Brasil só avançou à fase final em segundo lugar no grupo, eliminando Uruguai e Paraguai no saldo de gols após um tríplice empate. No quadrangular decisivo, que apontaria as duas seleções que iriam a Seul, o time de Carlos Alberto Silva estreou perdendo para a Argentina. Depois, contra a Colômbia, saiu perdendo, mas virou e venceu por 2 a 1. Na última rodada, bateu a Bolívia pelo mesmo placar e se classificou – em primeiro lugar, graças aos tropeços dos ‘hermanos’.

Em meados de 1988, o treinador já tinha o time quase definido, após várias experiências. Trazia revelações da Copa União do ano anterior – como o goleiro Taffarel e o zagueiro Aloísio (Inter), o meia Milton (Coritiba) e o meia-atacante Careca (Cruzeiro) -; jogadores um pouco mais rodados e em alta naquele momento (alguns já com experiência de Seleção) – como o zagueiro Ricardo Gomes (Fluminense), o lateral Jorginho e o meia-atacante Bebeto (ambos Flamengo), o meia Neto (Guarani) e os pontas Valdo (Grêmio) e João Paulo (Guarani) -; e alguns já quase veteranos, como o volante Andrade (Flamengo), o meia Geovani (Vasco), o atacante Edmar (Corinthians) e dois remanescentes de Los Angeles: o lateral-direito Luis Carlos Winck (Inter), e o volante Ademir (agora no Cruzeiro). E havia Romário, aos 22 anos, infernizando adversários, fosse com a camisa do Vasco ou com a amarelinha. Um timaço.

Como preparação, o time disputou o Torneio Bicentenário da Independência da Austrália, contra a seleção da casa, a eterna rival Argentina e a Arábia Saudita, e sagrou-se campeão ao derrotar os australianos na decisão por 2 a 0. Depois, passou pela Europa, onde empatou com a Noruega em Oslo (1 a 1), com a Suécia em Estocolmo (1 a 1) e bateu a Áustria em Viena (2 a 0, com um gol antológico de Andrade). E em setembro, a caminho de Seul, ainda deu tempo de passar novamente por Los Angeles e levantar a extra-oficial Copa das Nações, vencendo a seleção olímpica argentina, nos pênaltis, e o América do México por 3 a 0 (três de Romário) na decisão.

Romário enfrenta os nigerianos na estreia.

Mesmo assim, havia problemas pelo caminho: o lateral-esquerdo Nelsinho, do São Paulo, fraturou o dedão do pé direito e teve de ser cortado às vésperas da estreia. Para seu lugar, veio Mazinho, do Vasco. Andrade, que acabara de trocar o Flamengo pela Roma, só pôde se apresentar dois dias antes do primeiro jogo, e mesmo assim, lesionado. Mas quando o Benfica venceu uma queda de braço com a CBF e anunciou que não liberaria seus recém-contratados Ricardo Gomes e Valdo, não houve o que fazer a não ser lamentar as baixas.

O capitão Geovani "levanta" Romário após o Baixinho marcar contra a Austrália.

No dia 18 de setembro, enfim, a estreia contra a Nigéria, do atacante Rashidi Yekini. Em jogo duro no primeiro tempo, a goleada brasileira por 4 a 0 só começou a se desenhar aos 14 minutos da etapa final, com Edmar. Depois, Romário marcou duas vezes, e Bebeto completou nos últimos minutos. No dia 20, teríamos de novo a Austrália pela frente: vitória fácil por 3 a 0, três do Baixinho. Três que poderiam ter sido quatro: o atacante converteu um pênalti sofrido por ele mesmo, mas o árbitro mandou voltar a cobrança por invasão. E, desta vez, o goleiro australiano defendeu.

O último adversário da primeira fase seria a Iugoslávia, que reunia vários jogadores que disputariam a Copa da Itália, dali a dois anos. Entre eles, os meias Srecko Katanec e Dragan Stojkovic e o atacante Davor Suker. Mas o Brasil era favorito, credenciado pela boa campanha, e abriu 1 a 0 com o lateral-esquerdo improvisado André Cruz, em uma bomba na cobrança de falta que acertou a trave antes de entrar, aos 25 minutos da primeira etapa. No segundo tempo, Bebeto aproveitou rebote do goleiro após chute de Romário e ampliou, antes de Sabanadzovic descontar. Três jogos, três vitórias, nove gols marcados, só um sofrido. Um belo cartel para apresentar ao adversário das quartas: a Argentina.

Com Andrade começando pela primeira vez nos Jogos como titular, o meio-campo ficou mais compacto. Outra alteração foi a volta de Jorginho, recuperado de problema físico, à lateral esquerda, com André Cruz formando a zaga com Aloísio. Na frente, Bebeto também ganhou a vaga, tendo Romário como parceiro. Mas a vitória brasileira de 1 a 0 não viria através de nenhum dos dois. O meia e capitão Geovani pegou o arqueiro argentino Islas de surpresa com um chute da intermediária, aos 31 minutos do segundo tempo, e marcou o único gol do jogo.

Nas semifinais, uma batalha épica contra o grande time da Alemanha Ocidental, de Thomas Hassler e Jurgen Klinsmann. Os brasileiros saíram atrás: Wuttke levantou cobrança de falta na área, a defesa falhou na linha de impedimento, e o líbero Fach apareceu sozinho para cabecear para o fundo das redes. Mas também de cabeça veio o empate do Brasil: Careca recebeu na ponta direita, foi à linha de fundo e cruzou para Romário marcar. Dois minutos depois, no entanto, por muito pouco não veio também a eliminação: Geovani cometeu pênalti bobo em Klinsmann e, para piorar, recebeu o cartão amarelo que o deixaria de fora da final, caso a Seleção avançasse. Mas Taffarel brilhou pela primeira vez na partida ao defender a cobrança de Funkel.

Taffarel defende a cobrança do alemão Funkel, no tempo normal da semifinal.

Um a um no tempo normal e prorrogação, veio a decisão nos pênaltis. E como contra o Canadá, em 1984, o goleiro brasileiro virou herói. Pegou a primeira cobrança, de Janssen. João Paulo fez 1 a 0 Brasil. Klinsmann acertou a trave. Luis Carlos Winck ampliou. Kleppinger descontou para os alemães. Romário converteu o terceiro penal brasileiro. Fach diminuiu de novo para a Alemanha. André Cruz teve o seu defendido por Kamps. Quando já se temia o empate dos europeus, veio a quinta cobrança alemã, com Wuttke. E Taffarel pegou. O Brasil estava, pela segunda vez consecutiva, na final do ouro olímpico.

Bebeto encara os soviéticos na decisão.

Na final, o adversário era, ironicamente, uma seleção de um país comunista, a URSS. Que não esteve em Los Angeles – juntamente com seus países-satélites do mundo socialista – ao revidar o boicote sofrido dos países do bloco capitalista aos Jogos de Moscou, em 1980. Mesmo desta vez competindo em igualdade de condições com as outras seleções (o que não acontecia pelo regulamento olímpico antigo que bania profissionais), os soviéticos tinham uma equipe forte o suficiente para chegar à final com méritos, derrotando pelo caminho Argentina e Itália.

Sem Ademir e Geovani, suspensos, o Brasil entrou com Milton ao lado de Andrade e Neto como armador. E foi o substituto do capitão brasileiro que iniciou a jogada do gol brasileiro: o meia do Guarani bateu escanteio fechado, venenoso, para o cabeceio de Romário, livre na pequena área: 1 a 0 aos 29 minutos da primeira etapa. Mas o time vermelho empatou quando Dobrovolski converteu pênalti duvidoso, aos 17 do segundo tempo. Enfrentaríamos outra prorrogação.

Romário terminou como artilheiro do torneio, com sete gols marcados em seis jogos.

Logo aos cinco minutos do tempo extra, os soviéticos tiveram o atacante Tartatchouk expulso. Mas o Brasil não soube aproveitar a vantagem de ter um jogador a mais. O time adversário se fechou e passou a explorar os contra-ataques. E aos 14 minutos, saiu o gol da virada. Após um tiro de meta, o meio-campo brasileiro não cortou, e Savitchev ganhou fácil na corrida de André Cruz, antes de tocar por cobertura na saída de Taffarel. O Brasil tentou o empate nos últimos 15 minutos, mas também teve um jogador expulso (o atacante Edmar, que havia entrado no lugar de Neto), e teve de lamentar a prata – ao contrário de se contentar com ela, como em 1984. Em Seul, tivemos tudo para levar o ouro.

Ou quase tudo: na véspera da final estourou uma crise entre cartolas e jogadores envolvendo a premiação por chegar à decisão. O vice-presidente da CBF, Nabi Abi Chedid, acusou os atletas de “mercenários”. E estes, liderados por Romário, rebateram afirmando que estavam dispostos a jogar até sem receber nada, somente pela medalha, mas que os dirigentes haviam feito uma proposta, a qual não tinham cumprido.

De todo modo, a Seleção Olímpica de 1988 acabou servindo de vitrine para que vários de seus jogadores trocassem o futebol brasileiro pelo europeu. Ainda durante a preparação para os Jogos, Ricardo Gomes e Valdo trocaram, respectivamente, o Fluminense e o Grêmio, pelo Benfica; o mesmo aconteceu até com veteranos, como o volante Andrade (que trocou o Flamengo pela Roma) e o atacante Edmar (foi do Corinthians para o Pescara italiano). Depois do torneio, Romário foi negociado pelo Vasco com o PSV holandês; o zagueiro Aloísio deixaria o Internacional para jogar no Barcelona; e o meia Milton foi vendido pelo Coritiba ao Como, da Itália.

A Seleção que enfrentou a Iugoslávia na primeira fase - em pé: André Cruz, Taffarel, Luis Carlos Winck, Batista, Aloísio e Ademir; agachados: Milton, Edmar, Careca, Geovani e Romário.

Depois de Los Angeles e Seul, o Brasil nunca mais voltaria a disputar uma final olímpica no futebol masculino. A maior decepção foi a não classificação para os Jogos de Barcelona, em 1992, e de Atenas, em 2004, quando desperdiçamos duas gerações com talentos aos montes. Fomos obrigados a engolir um bronze em Atlanta ’96 e em Pequim 2008. E caímos nas quartas de final em Sydney 2000. Será que em Londres a história terá um final diferente?

 

A CAMPANHA:
Primeira fase:
Brasil 4 x 0 Nigéria
Brasil 3 x 0 Austrália
Brasil 2 x 1 Iugoslávia
Quartas de final:
Brasil 1 x 0 Argentina
Semifinal:
Brasil 1 x 1 Alemanha Ocidental
Final:
Brasil 1 x 2 URSS

O ELENCO:

Goleiros:
Taffarel (22 anos, Internacional, 6 jogos)
Zé Carlos (26 anos, Flamengo, não jogou)

Laterais:
Luis Carlos Winck (25 anos, Internacional, 6 jogos)
Jorginho (24 anos, Flamengo, 4 jogos)
Mazinho (22 anos, Vasco, não jogou)

Zagueiros:
Aloísio (25 anos, Internacional, 6 jogos)
André Cruz (19 anos, Ponte Preta, 6 jogos)
Batista (27 anos, Atlético-MG, 2 jogos)

Meias:
Ademir (28 anos, Cruzeiro, 5 jogos)
Andrade (31 anos, Flamengo, 3+1 jogos)
Milton (26 anos, Coritiba, 5+1 jogos)
Geovani (24 anos, Vasco, 5 jogos)
Neto (22 anos, Guarani, 1+1 jogos)

Atacantes:
Careca (19 anos, Cruzeiro, 5+1 jogos)
Bebeto (24 anos, Flamengo, 3+3 jogos)
Edmar (28 anos, Corinthians, 3+1 jogos)
Romário (22 anos, Vasco, 6 jogos)
João Paulo (24 anos, Guarani, 0+3 jogos)

Técnico: Carlos Alberto Silva

Futebol olímpico: Quando chegamos bem perto do ouro – parte 1

por Emmanuel do Valle em 20.jul.2012 às 3:35h

A Seleção Brasileira de Neymar, Oscar, Lucas e outras estrelas começará nesta quinta-feira, contra o Egito, em Cardiff (País de Gales), mais uma vez a caminhada por uma conquista inédita do futebol brasileiro: a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, título que falta na interminável lista de triunfos canarinhos. O Memória da Bola contará neste e no próximo post as histórias bem distintas das duas vezes em que o Brasil chegou bem perto do lugar mais alto do pódio, ao disputar – e perder – as finais em Los Angeles ’84 e Seul ’88.

A Seleção Olímpica em Los Angeles - em pé: Pinga, Gilmar Rinaldi, Mauro Galvão, Ademir, Ronaldo e André Luis; agachados: Tonho, Dunga, Kita, Gilmar 'Popoca' e Silvinho.

Los Angeles 1984: a prata do improviso

Disputado anteriormente apenas por amadores (ou falsos amadores, no caso dos países socialistas), o torneio de futebol teve suas regras de participação alteradas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Em vez de não admitir profissionais, o COI e a Fifa decidiram permitir a convocação deles, sem limite de idade, desde que não tivessem disputado partidas de Copa do Mundo. O problema é que a CBF até a última hora não sabia quem poderia levar. No “impasse”, mandou um time misturando jovens e veteranos ao Pré-Olímpico de Guayaquil (Equador), em janeiro e fevereiro. E este time se classificou sem sustos.

Quando julho chegou, tudo havia mudado. Até mesmo o técnico foi trocado do torneio classificatório para os Jogos: saiu o ex-auxiliar do Flamengo Cléber Camerino e entrou Jair Picerni, que havia levado o Santo André à terceira fase do recém-encerrado Campeonato Brasileiro daquele ano (ou entre os 16 melhores do país). Quando enfim a CBF foi informada que valeriam mesmo as novas regras, convidou o campeão Fluminense (sem nenhum jogador com participação prévia em Copas), para representar a Seleção em Los Angeles. O Tricolor declinou o convite, preferindo excursionar pela Europa. A honraria foi então oferecida ao Internacional (campeão do Torneio Heleno Nunes), que aceitou.

Sele-Inter: os colorados posam com suas medalhas trazidas de Los Angeles - em pé: Luis Carlos Winck, Gilmar, Pinga, Ademir, Mauro Galvão e André Luis; agachados: Paulo Santos, Dunga, Kita, Milton Cruz e Silvinho.

O time gaúcho vivia um período de busca de afirmação. Era então tricampeão estadual, mas vinha de sucessivas participações pífias nos Nacionais. Pior: assistira ao rival Grêmio levantar a Libertadores e o Mundial no ano anterior, e chegar novamente na final da competição sul-americana em 1984. O Torneio Heleno Nunes não foi dos títulos mais prestigiosos, é verdade: fora disputado pelos clubes grandes e médios que caíram antes da terceira fase do Brasileiro – o que, naquele 1984, incluiu, além do Colorado, São Paulo, Palmeiras, Botafogo, Atlético-MG, Cruzeiro, Bahia e Santa Cruz (e Guarani e Sport, eliminados na Segundona). Todos em má (ou péssima) fase técnica. Mas era um caneco, e conquistado com sobras pelo Inter.

Com praticamente todo o elenco bastante jovem, e quase todo feito em casa, o Inter de pronto aceitou o convite da CBF e não teve problemas em deixar o Gauchão de lado para ceder 11 jogadores (um time inteiro!) à Seleção. Escalado, o time só de colorados ficava assim: Gilmar Rinaldi; Luis Carlos Winck, Pinga, Mauro Galvão e André Luis; Ademir, Dunga e Milton Cruz; Paulo Santos, Kita e Silvinho. Apenas cinco outros clubes cederam atletas: do Corinthians, veio o lateral-direito Ronaldo. Do Flamengo, veio o meia Gilmar Popoca. Do Santos, veio o zagueiro Davi. A Ponte Preta mandou dois: o goleiro reserva Luis Henrique e o centroavante Chicão. E havia o curioso caso do meia Tonho, que defendia o Aimoré (RS), emprestado pelo Grêmio – mas que havia sido revelado pelo Inter. Dos 17 convocados, apenas dois (Dunga e Davi) haviam jogado o Pré-Olímpico.

Milton Cruz comemora contra a Arábia Saudita, na estreia.

No escuro, sem conhecer os adversários, num tempo onde a difusão mundial da internet era algo bem distante, o Brasil até que passou tranquilo pela primeira fase: na estreia, venceu a Arábia Saudita – com a ajuda do “informante” Zagallo – por 3 a 1 (gols de Gilmar Popoca, Silvinho e Dunga). Depois, bateu uma forte Alemanha Ocidental (que contava com os futuros campeões mundiais em 1990 Guido Buchwald, Andreas Brehme e Frank Mill) graças a uma cobrança de falta perfeita, no ângulo, do camisa 10 Gilmar Popoca - de longe, o jogador mais técnico do time. Por último, vitória por 2 a 0 (gols de Dunga e Kita) contra o Marrocos do treinador brasileiro José Faria, que comandaria a mesma equipe dois anos depois na Copa do México.

Nas quartas, o Brasil enfrentaria outra seleção que estaria no México em 86: o Canadá. Se na Copa, os canadenses decepcionariam e terminariam em último, sem marcar um gol sequer, em Los Angeles a história foi outra. Foi um sufoco. O adversário saiu na frente com Mitchell, e os comandados de Jair Picerni empataram 15 minutos depois com Gilmar Popoca. Sem mais gols na prorrogação, a decisão foi para os pênaltis. E o outro Gilmar, o Rinaldi, virou herói ao defender os chutes do próprio Mitchell e de Bridge. O lateral colorado André Luis converteu a quarta cobrança e colocou o Brasil nas semifinais.

O próximo adversário era a Itália. O jogo era encarado como vingança, já que era inevitável lembrar a fatídica derrota no estádio Sarriá, no Mundial da Espanha, dois anos antes. Na Azzurra, treinada pelo campeão do mundo Enzo Bearzot, figuravam os novos astros do “calcio”, como os zagueiros Franco Baresi e Pietro Vierchowod, o meia Daniele Massaro, o ponta Pietro Fanna e o atacante Aldo Serena, entre outros.

No estádio de Stanford – o mesmo onde o Brasil disputaria parte da Copa dos Estados Unidos, dali a dez anos – Gilmar Popoca abriu o placar no começo da segunda etapa. Mas Fanna empatou para a Itália pouco depois, e a decisão seria na prorrogação. E a Seleção até que nem demorou a ficar à frente de novo: o lateral Ronaldo fez o gol da vitória em chute cruzado logo aos cinco minutos do tempo extra. Difícil mesmo foi segurar o resultado até o fim. Mas passamos.

Nem mesmo a garra de Dunga adiantou contra os franceses. Ficamos com a prata.

Se a semifinal valeu como revanche, a decisão do ouro serviu de prenúncio. Do outro lado estava a seleção francesa, que eliminara a Iugoslávia também na prorrogação. Os ‘Bleus’ não tinham estrelas. Do grupo que esteve em Los Angeles, apenas quatro jogadores iriam ao México (o goleiro Rust, os zagueiros Ayache e Bibard e o atacante Xuereb – todos reservas no Mundial). Mas o técnico era o mesmo Henri Michel, que comandaria Platini e cia na eliminação brasileira nas quartas de final da Copa de 86.

O futebol francês vivia um grande momento em 1984, coroado com o título da Eurocopa em junho e gravado em ouro na Califórnia naquele 11 de agosto. Com gols de Brisson e Xuereb, marcados aos cinco e aos dez da etapa final, a seleção azul pôs um fim ao sonho do esforçado time de Jair Picerni. Ficou a lição. Será que a aprenderíamos quatro anos depois em Seul? Isso é assunto para o próximo capítulo…

Kita, Ademir e Silvinho abraçam Gilmar Popoca: artilheiro, camisa 10 e craque daquela Seleção.

A CAMPANHA:
primeira fase:
Brasil 3 x 1 Arábia Saudita
Brasil 1 x 0 Alemanha Ocidental
Brasil 2 x 0 Marrocos
quartas de final:
Brasil 1 x 1 Canadá (4 x 2 nos pênaltis)
semifinal:
Brasil 2 x 1 Itália (tempo normal: 1 x 1)
final:
Brasil 0 x 2 França

 

Time base:
Gilmar Rinaldi (goleiro – Internacional – 25 anos – 6 jogos)
Ronaldo (lateral-direito – Corinthians – 22 anos – 6 jogos, 1 gol)
Pinga (zagueiro – Internacional – 19 anos – 5 jogos)
Mauro Galvão (zagueiro – Internacional – 22 anos – 6 jogos)
André Luis (lateral-esquerdo – Internacional – 24 anos – 5 jogos)
Ademir (volante – Internacional – 24 anos – 6 jogos)
Dunga (volante - Internacional – 20 anos – 6 jogos, 2 gols)
Gilmar ‘Popoca’ (meia – Flamengo – 20 anos – 6 jogos, 4 gols)
Tonho (meia – Aimoré (RS) – 26 anos – 6 jogos)
Chicão (centroavante – Ponte Preta – 21 anos – 4+2 jogos)
Silvinho (ponta-esquerda – Internacional – 25 anos – 6 jogos, 1 gol)

Completaram o elenco:
Luis Henrique (goleiro – Ponte Preta – 24 anos – não jogou)
Luis Carlos Winck (lateral-direito – Internacional – 21 anos – 1 jogo)
Davi (zagueiro – Santos – 20 anos – 1+1 jogos)
Milton Cruz (meia-atacante – Internacional – 26 anos – 0+3 jogos)
Paulo Santos (ponta-direita – Internacional – 24 anos – 0+1 jogo)
Kita (centroavante – Internacional – 26 anos – 2+2 jogos, 1 gol)

Técnico: Jair Picerni.

As melhores ‘largadas’ da História do Brasileirão

por Emmanuel do Valle em 19.jun.2012 às 18:12h

Depois de quatro vitórias nos quatro primeiros jogos do Brasileiro, o Vasco tropeçou. O empate diante do Palmeiras neste domingo não tirou o clube da Colina  da liderança do torneio, mas impediu que igualasse sua maior sequência de vitórias em um início da competição. O recorde cruz-maltino é de cinco triunfos seguidos a partir da primeira rodada do Brasileiro de 1988, quando o time enfileirou vitórias sobre Flamengo, Goiás, Portuguesa, Atlético-PR e Palmeiras.

Reinaldo, 14 gols nos oito primeiros jogos do Galo em 77.

O melhor início vascaíno, porém, não é o recorde da competição. Outras cinco equipes tiveram desempenho ainda melhor num começo de Brasileirão. A série mais expressiva é a do Atlético-MG, que venceu suas oito primeiras partidas no Brasileiro de 1977, batendo inclusive os rivais Cruzeiro e América-MG, num time que contava com Reinaldo em estado de graça: o goleador marcou nada menos que 14 gols nestes oito jogos – cinco deles na goleada de 6 a 2 sobre o Fast (AM). O Alvinegro só parou na última rodada da primeira fase, ao empatar em 1 a 1 com o Uberaba, fora de casa – com mais um gol do Rei, é claro.

Dirigido por Barbatana, ex-técnico das categorias de base do clube, e por isso repleto de pratas da casa (além de Reinaldo, havia Cerezo, Paulo Isidoro, Marcelo, Marinho, Ângelo e João Leite, entre outros) o Galo entraria para a História naquela competição por outro motivo: perdeu a decisão nos pênaltis para o São Paulo e não levou o título, mas terminou a competição sem ser derrotado.

Três outros times ficaram a uma vitória de igualar a marca atleticana. O Internacional em 1978, o Bahia em 1986 e o Corinthians em 1999.

Falcão comandou o Inter na boa série de vitórias de 1978.

Logo no ano seguinte ao feito do Galo, surgiu um candidato a desbancá-lo: o Colorado de Falcão, Caçapava, Jair e Valdomiro. Bicampeão em 1975 e 76, o Inter havia feito campanha decepcionante em 77, terminando na vergonhosa 25ª posição. Não haveria jeito melhor de apagar a má impressão do que uma grande campanha no próximo Brasileirão, que começaria semanas depois do anterior. E foram sete vitórias enfileiradas, todas contra equipes do Sul do país. O oitavo jogo seria o clássico diante do Grêmio.

Jogando no Beira Rio, o Inter abriu o placar com o lateral Lúcio e terminou o primeiro tempo em vantagem. Na etapa final, André Catimba empatou para o Tricolor, mas Falcão pôs o Colorado outra vez na frente. Até que nos últimos minutos Ladinho e Éder viraram o placar e decretaram a vitória gremista e o fim da série de triunfos do rival. Naquele ano, o Internacional cairia nas semifinais, diante do Palmeiras.

Cláudio Adão, o goleador do Bahia em 1986.

Oito anos depois foi a vez de um tricolor – mas não o gaúcho – se aproximar da façanha. O Bahia, comandado em campo pela criatividade de Bobô e os gols de Cláudio Adão, e no banco pelo veterano “Titio” Orlando Fantoni. O time da Boa Terra disparou em um grupo complicado na primeira fase daquela competição, venceu o Vasco em São Januário e o Santos na Fonte Nova pelo caminho, até ser parado pelo bom time do Guarani com um empate no Brinco de Ouro.

Naquele torneio, o Bahia chegou a ficar 17 jogos invicto, e só foi eliminado nas quartas de final diante do mesmo Bugre de Evair, Ricardo Rocha, Marco Antônio Boiadeiro, Tite e João Paulo, entre outros.

O elenco do Corinthians campeão em 1999.

Nenhum dos três recordistas citados até agora, no entanto, conquistou o Brasileiro. Não foi o caso do Corinthians, que venceu as sete primeiras partidas em sua campanha para o título de 1999. O time do Parque São Jorge, campeão também no ano anterior, igualou a marca de Inter e Bahia ao vencer o clássico diante do São Paulo por 1 a 0, gol de Ricardinho, na sétima rodada.

A chance de igualar o recorde do Galo veio em dia e local especiais para o Timão: Pacaembu, 1º de setembro, dia em que o clube completava 89 anos de fundação.  O adversário era o Flamengo, até então irregular na competição. Quando Luizão abriu o placar logo aos cinco minutos, veio a impressão de que a marca viria, e até com goleada. Mas a sorte corintiana começou a mudar quando Clemer defendeu um pênalti cobrado pelo centroavante. E ainda no primeiro tempo, Romário deixaria por duas vezes sua marca de artilheiro para virar o jogo e estragar a festa alvinegra.

Zico encara o São Paulo de Oscar no primeiro jogo da série rubro-negra de 1982.

Além de quebrar a série corintiana, o Flamengo teve, 17 anos antes, sua própria grande sequência de vitórias a partir da estreia no Brasileirão. Logo de saída, um jogo memorável contra o São Paulo no Maracanã – o primeiro após a conquista do Mundial de Tóquio -, vencido de virada por 3 a 2. Logo depois, no Arruda, o time de Zico bateu o Náutico por 4 a 3, depois de estar em desvantagem por 3 a 1.

O mesmo Timbu seria o adversário do Rubro-Negro depois de este enfileirar seis vitórias seguidas. Mas a sétima, surpreendentemente, não viria. Em pleno Maracanã, empate em 1 a 1. Nunes abriu o marcador no fim para o Fla, mas o ponta Lupercínio deixou tudo igual dois minutos depois. Porém, não houve o que lamentar: assim como o Timão de 1999, o Fla também levaria o caneco em 1982.

Embora levemos em consideração aqui os Campeonatos Brasileiros a partir de 1971, é necessário abrir um parêntese: há de se acrescentar que, em 1968, ainda nos tempos do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Corinthians conseguiu seis vitórias em suas seis primeiras partidas na competição. Naquela ocasião, o Timão derrotou o Náutico no Recife por 1 a 0, gol de Paulo Borges, e depois bateu São Paulo (2 a 1), Portuguesa (3 a 1), Bahia (1 a 0), Botafogo (3 a 0) e Atlético-MG (2 a 1), jogando sempre em São Paulo, antes de cair diante do Santos por 2 a 1 no sétimo jogo. Mas o bom começo não foi suficiente para garantir ao time do Parque São Jorge uma vaga no quadrangular final da competição.

 

CONFIRA AS MAIORES SEQUÊNCIAS DE VITÓRIAS:

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ATLÉTICO-MG – 1977

16/10 – Atlético-MG 4 x 1 Remo
23/10 – Atlético-MG 3 x 0 Santos
26/10 – Botafogo-SP 0 x 1 Atlético-MG
30/10 – Nacional-AM 2 x 4 Atlético-MG
02/11 – Paysandu 1 x 3 Atlético-MG
06/11 – Atlético-MG 1 x 0 Cruzeiro
09/11 – Atlético-MG 6 x 2 Fast
13/11 – Atlético-MG 3 x 1 América-MG

20/11 – Uberaba 1 x 1 Atlético-MG
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INTERNACIONAL – 1978

26/03 – Grêmio Maringá 0 x 1 Internacional
29/03 – Colorado 0 x 2 Internacional
02/04 – Internacional 3 x 1 Joinville
09/04 – Internacional 4 x 1 Juventude
12/04 – Internacional 2 x 0 Chapecoense
16/04 – Internacional 3 x 0 Atlético-PR
19/04 – Brasil-RS 0 x 2 Internacional

23/04 – Internacional 2 x 3 Grêmio
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BAHIA – 1986

31/08 – Bahia 4 x 0 Rio Branco-ES
04/09 – Vasco 0 x 1 Bahia
07/09 – Piauí 1 x 3 Bahia
10/09 – Tuna Luso 0 x 3 Bahia
14/09 – Bahia 3 x 0 Santos
17/09 – Bahia 2 x 1 Operário-MT
21/09 – Bahia 1 x 0 Náutico

24/09 – Guarani 1 x 1 Bahia
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CORINTHIANS – 1999

25/07 – Gama 2 x 4 Corinthians
01/08 – Corinthians 4 x 1 Botafogo-SP
04/08 – Guarani 0 x 2 Corinthians
18/08 – Corinthians 5 x 1 Vitória
21/08 – Botafogo 2 x 4 Corinthians
25/08 – Juventude 1 x 3 Corinthians
29/08 – Corinthians 1 x 0 São Paulo

01/09 – Corinthians 1 x 2 Flamengo
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FLAMENGO – 1982

20/01 – Flamengo 3 x 2 São Paulo
24/01 – Náutico 3 x 4 Flamengo
28/01 – Flamengo 5 x 0 Treze
31/01 – Flamengo 3 x 0 Ferroviário-CE
07/02 – Treze 1 x 3 Flamengo
10/02 – Ferroviário-CE 1 x 2 Flamengo

13/02 – Flamengo 1 x 1 Náutico
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America-RJ: há 30 anos, campeão dos campeões

por Emmanuel do Valle em 12.jun.2012 às 16:16h

 

O time campeão. Em pé: Gasperim, Duílio, Everaldo, Zedílson, Chiquinho e Pires; Agachados: Serginho, Gilberto, Moreno, Elói e Gilson Gênio.

Há 30 anos, o tradicional e simpático America do Rio de Janeiro conquistava um dos títulos mais importantes e expressivos de sua História, e que também marcou o início de seu último grande período entre as principais forças do futebol brasileiro, em meados dos anos 80. A Taça (ou Torneio) dos Campeões, organizada pela CBF, foi conquistada de forma invicta no dia 12 de junho de 1982, após dez jogos, quatro vitórias – incluindo os 2 a 1 sobre o Guarani na decisão – e seis empates.

O INÍCIO

Depois de um melancólico 1981, no qual o melhor momento da equipe veio com um vice-campeonato da Taça Guanabara (muito mais pelos tropeços dos outros grandes do que por resultados próprios consistentes), o clube rubro adentrou o ano seguinte cheio de novidades. Apesar de começar a temporada disputando a Taça de Prata (como era chamada a segundona do Brasileiro na época), o clube presidido pelo recém-empossado Lúcio Lacombe decidiu investir pesado. O objetivo era claro: conquistar uma das vagas de acesso à Taça de Ouro durante a competição, como era previsto no regulamento, e partir para alçar voos maiores.

O TIME SE REFORÇA PARA O CAMPEONATO BRASILEIRO

Alguns dos reforços que chegaram em janeiro de 82. Em pé: Duílio, Chiquinho, Gilberto e Chico Santos; Agachados: Elói, Gilson Gênio e Aírton.

Foram gastos mais de 100 milhões de cruzeiros – uma fortuna para a época, e mais do que gastou a maioria dos clubes da primeira divisão – na contratação de jogadores. Na primeira leva, chegaram do futebol paulista os laterais Chiquinho (Guarani) e Aírton (São Paulo), o zagueiro Duílio (Portuguesa), o volante Pires (do Palmeiras, que veio em definitivo depois de já ter defendido o America por empréstimo em 81) e o meia Elói (Santos). Do rival Fluminense veio o meia Gilberto, um dos destaques na campanha tricolor do título carioca de 1980. Por último, veio o ponta-esquerda Gilson “Gênio”, ex-Flu, mas que estava no Bahia, e veio trocado por três jogadores.

Para comandar o time, outro nome ligado ao futebol paulista: o ex-volante palmeirense Dudu, que fez dupla com Ademir da Guia na Academia do Palestra nos anos 60. Além dos reforços, o treinador (tio de Dorival Júnior) completou a equipe com remanescentes do ano anterior – o goleiro Ernâni, o zagueiro Heraldo, o meia João Luis e o ponta Serginho, entre outros) -, além de uma promessa de apenas 20 anos puxada dos juvenis: o meia-atacante Moreno.

Com esse elenco, o America obteve sem maiores dificuldades o acesso para a Taça de Ouro, competição na qual entrou na segunda fase, num grupo razoavelmente tranquilo: completavam a chave o Vasco, já velho conhecido do Estadual; o bom time do Operário-MS, bem armado e sempre regular;  e o Internacional de Santa Maria (RS), forte em casa, mas bastante frágil fora de seus domínios. Os dois primeiros se classificavam para as oitavas de final… mas o time do Andaraí repetiu sua sina de morrer na praia. Na última rodada, recebeu, precisando apenas do empate, os sul-matogrossenses em São Januário. E perdeu por 1 a 0, gol de Arturzinho.

A TAÇA DOS CAMPEÕES

Melhor sorte, no entanto, aguardava o America após o fim daquele Brasileirão. No período de recesso entre o fim da competição nacional e o início da Copa do Mundo da Espanha, a CBF – então presidida pelo torcedor e ex-mandatário do próprio America Giulite Coutinho –  organizou um torneio para manter os times em atividade. Reuniu 17 clubes que haviam conquistado algum torneio nacional ou interestadual de caráter oficial, mais o America, que entrou como convidado. Com a desistência do Flamengo, que acabara de levantar o Brasileiro e preferia excursionar pelo Nordeste, o Santa Cruz foi incluído.

Pensado como um torneio de curta duração, a Taça dividia os 18 clubes em quatro grupos, dois deles com cinco equipes e outros dois com quatro. No A, estavam Vasco, Botafogo, São Paulo, Santos e Guarani. No B, ficaram Fluminense, Corinthians, Palmeiras, Portuguesa e Santa Cruz. O America foi incluído no C, ao lado dos mineiros Atlético e Cruzeiro e do Grêmio. Enquanto o D era formado por Internacional, Bahia, Náutico e Fortaleza. Os times jogavam em turno e returno, e cada um dos períodos apontava um vencedor da chave. E os dois campeões se enfrentariam numa “decisão do grupo” (exceto no caso de um mesmo time levar turno e returno), antes da semifinal (em jogo único) e da finalíssima, em ida e volta.

A CAMPANHA DO AMERICA


O time rubro estreou no dia 24 de abril, empatando com o Cruzeiro em 1 a 1 no Mineirão. Depois de os mineiros abrirem o placar, Duílio converteu pênalti sofrido por Gilberto e igualou. O jogo seguinte seria no Maracanã, contra o Grêmio, e novamente o America saiu atrás: Renato Gaúcho cobrou escanteio na cabeça de Paulinho, e o tricolor gaúcho abriu o marcador. Mas na etapa final Duílio, novamente, empatou, após linda jogada de Elói. Em 9 de maio, o Mequinha voltou a Belo Horizonte para enfrentar o Galo de Nelinho e do técnico Carlos Alberto Silva, que jogava pelo empate para levar o primeiro turno. Os cariocas resistiram à pressão do alvinegro, até João Luis achar Elói livre no meio da defesa do Atlético para marcar o gol da vitória a seis minutos do fim.

Conquistado o primeiro turno, o America esteve bem perto de levar também o segundo: venceu o Cruzeiro por 1 a 0 em São Januário (gol de Serginho), segurou um 0 a 0 com o Grêmio vice-campeão brasileiro no Olímpico, e vencia o Atlético-MG no Maracanã por 1 a 0 até a metade da etapa final. Mas Duílio falhou feio, e Reinaldo aproveitou a bobeada para empatar. Com o resultado, Galo e Diabo terminaram iguais em pontos e saldo de gols – mas com vantagem de apenas um gol para os mineiros nos tentos marcados.

Como consolo, restou a vantagem de decidir o grupo C em casa, outra vez diante do Atlético-MG. E foi uma decisão dramática: só aos 44 minutos do segundo tempo Elói marcou após bate-rebate na área e evitou a prorrogação. Nos outros grupos, os grandes também não se deram bem: no A, o Guarani eliminou o São Paulo em pleno Morumbi (como já havia feito meses antes nas quartas do Brasileiro); a Portuguesa passou com facilidade por um fraco Fluminense; e o Bahia derrubou o Internacional. Mas engana-se quem pensa que o caminho do America estaria mais tranquilo.

A ÉPICA SEMIFINAL CONTRA A PORTUGUESA

Coube ao time rubro encarar a Portuguesa em partida única no Pacaembu. Invicta no torneio, assim como o America, a Lusa foi logo para cima, mas quem marcou primeiro foi o time carioca, aos sete minutos: Serginho disputou a jogada pelo alto com Estevam, e o zagueirão acabou empurrando contra as próprias redes. O empate dos paulistas não tardaria, porém: aos 10, após cobrança de falta na ponta direita, Humberto desviou de cabeça para o gol.  Para piorar, aos 30 minutos da etapa inicial, o lateral-esquerdo Aírton seria expulso, deixando o America com dez.

Seguriam-se mais 80 minutos de tensão, sem gols, e que levariam ao tempo extra. Na prorrogação, a quatro minutos do fim, a Portuguesa voltaria a marcar: após troca de passes, Wilson Carrasco bateu forte da intermediária, a bola resvalou em Everaldo e rolou devagar até morrer mansa perto da trave direita. O America, traído pela sorte de novo? Desta vez, não mesmo. No último minuto, um escanteio para o Diabo. Serginho levantou a bola até o meio da área, onde ela encontrou a cabeça do grandalhão Zedílson, jovem zagueiro que entrara no intervalo do tempo normal, para atuar de improviso na lateral, no lugar do expulso Aírton. Vamos para os pênaltis!

Gilson Gênio disputa a jogada com Julio César, na decisão contra o Guarani no Maracanã.

A Portuguesa bateu primeiro e converteu com Alves. o America empatou com Duílio. Wilson Carrasco deixou a Lusa de novo na frente, mas Elói empatou outra vez. Na terceira cobrança paulista, o ponta Toquinho bateu e o goleiro Gasperim – contratado junto ao Internacional durante a competição para assumir a camisa 1 – saltou para defender. Foi a vez de os cariocas passarem à frente com o gol de Moreno. Caio ainda igualou, mas Serginho manteve a vantagem americana. E a classificação veio na quinta cobrança da Portuguesa, quando o lateral Odirlei acertou o travessão. O America era finalista!

NA DECISÃO, O BUGRE

O adversário seria o Guarani , que havia brilhado no último Brasileiro até cair nas semifinais diante do Flamengo de Zico. Se não contava com o goleador Careca, às voltas com uma lesão que o tirou da Copa da Espanha, o time campineiro teria em campo os experientes Jorge Mendonça e Lúcio, o volante Henrique (futuro Vasco) e o zagueirão Júlio César, que jogaria o Mundial de 86, no México. E foi outra promessa daquele time, o atacante Marcelo (que depois defenderia Vasco e Internacional), quem abriu o marcador do primeiro jogo da final, no Brinco de Ouro, aos 11 minutos da etapa final. Mas Elói empataria aos 26, para a alegria americana.

Na volta, no Maracanã, num sábado chuvoso, 12 de junho de 1982, foi o America quem saiu na frente: Moreno pegou a sobra de um bate-rebate na área e teve tempo de dominar e tocar no canto do goleiro Sidmar, logo aos 13 minutos. Mas aos 17 da etapa final, o Guarani empatou: o reserva Delém recebeu de Ernani Banana, após uma bola mal espanada pela defesa americana e bateu forte para vencer Gasperim. Outra prorrogação aguardava o torcedor do Diabo.

O capitão Elói ergue a Taça dos Campeões com a ajuda dos companheiros.

E até o gol da vitória do America teve ares dramáticos: aos nove minutos do segundo tempo, João Luis chutou, a bola espirrou em um zagueiro e caiu nos pés de Gilson Gênio. O ponta pegou de primeira, batendo rasteiro, mas com força, sem chances para Sidmar, que ainda tentou espalmar a bola. A pequena (11.329 pagantes), mas vibrante torcida americana comemorou como nunca.

Não houve tempo para reação do Guarani. O capitão Elói levantou a taça, e o America iniciava ali sua última grande fase, que duraria mais quatro ou cinco anos, com boas campanhas no Estadual (ganharia a Taça Rio, segundo turno do Carioca, naquele mesmo ano) e no Brasileiro, vitórias históricas sobre os principais clubes do país e até a conquista de título no exterior. Mas isso já é assunto para um próximo post no Memória da Bola.

FICHA DA FINAL

AMÉRICA 2 x 1 GUARANI

Maracanã (Rio de Janeiro) – sábado, 12 de junho de 1982
Público/Renda: 11.329 pagantes / Cr$ 5.099.600,00
Árbitro: Carlos Rosa Martins (RS)
Gols: Moreno, 13′/1ºT (1-0); Delém, 17′/2ºT (1-1); Gilson Gênio, 9′/2ºT da prorrogação.
Cartões amarelos: João Luis, Chiquinho, Gilson (America); Sóter, Ernani Banana, Odair (Guarani).
Cartão vermelho: Darci (Guarani), 10′/2ºT da prorrogação.

AMERICA: Gasperim; Chiquinho, Duílio, Everaldo e Zedílson (Sérgio Pinto); Pires, Gilberto e Elói (João Luís); Serginho, Moreno e Gilson Gênio. Técnico: Dudu.
GUARANI: Sidmar; Sóter, Darci, Odair e Almeida; Éderson, Júlio César (Henrique) e Jorge Mendonça; João Luís (Delém), Marcelo e Ernani Banana. Técnico: Zé Duarte.

Alecsandro ou Vivinho? Qual o gol mais bonito?

por Emmanuel do Valle em 28.mai.2012 às 18:08h

Um dos destaques da segunda rodada do Brasileirão no último fim de semana foi o golaço de bicicleta marcado por Alecsandro, que deu a vitória por 1 a 0 ao Vasco sobre a Portuguesa, no Canindé. Após o cruzamento de Fagner pela direita, o centroavante girou o corpo no ar e pegou de primeira, estufando as redes do goleiro Gledson, em lance de rara precisão.

A pintura de Alecsandro fez lembrar outra obra-prima de autoria de um atacante vascaíno, exatamente sobre o mesmo rival, há quase 24 anos. O jogo valeu pela terceira rodada do primeiro turno do Brasileiro de 1988. O Vasco, que tinha acabado de se sagrar bicampeão carioca, recebeu a Portuguesa, que vinha de bom começo na competição, em São Januário.

A Lusa começou aprontando, quando o meia Toninho (que jogaria no próprio Vasco nos anos 90) acertou um belo chute de fora da área. Mas logo no primeiro minuto da etapa final, os cruz-maltinos empatariam com um gol antológico: o ponta Vivinho recebeu cruzamento de Mazinho da esquerda e, de emendada, aplicou três chapéus no volante rubro-verde Capitão antes de bater de primeira, com o pé esquerdo, em chute cruzado e rasteiro para vencer o veterano goleiro Waldir Peres.

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O gol de empate foi o empurrão que o Vasco – melhor no primeiro tempo, mas esbarrando na combatividade da Lusa – precisou para chegar à vitória. O zagueiro Fernando, de cabeça, Sorato e William, cobrando falta, virariam o placar, com Toninho novamente descontando. “Aquele gol de Vivinho acabou com a gente”, reconheceu após o jogo o técnico da Portuguesa, Jair Picerni.

Para o ponta-direita, que andava insatisfeito com o pouco espaço na equipe e pensava em voltar para Uberlândia (MG), de onde tinha vindo, o gol valeu um renascimento, uma sobrevida em São Januário e uma placa no hall de entrada da sede do clube. Em 1990, Vivinho foi negociado com o Botafogo. E por ordem do então vice de futebol do clube, Eurico Miranda, a homenagem foi retirada.

E pra você, torcedor? Qual dos dois gols foi o mais bonito?

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FICHA TÉCNICA

VASCO 4 x 2 PORTUGUESA
Estádio de São Januário (Rio de Janeiro) – 11 de setembro de 1988
Campeonato Brasileiro – primeira fase, primeiro turno, terceira rodada, Grupo B
Árbitro: Carlos Rosa Martins (RS)
Público: 7.285 pagantes
Cartões Amarelos: Célio Silva, Leonardo (VAS); Márcio Araújo, Luciano (POR).
Gols: Toninho 19′/1ºT (0-1); Vivinho 1′ (1-1), Leonardo 19′ (2-1), Sorato 27′ (3-1), Toninho 29′ (3-2), William 41′/2ºT (4-2)

VASCO – Acácio; Paulo Roberto, Célio Silva, Fernando e Mazinho; Zé do Carmo, França (Ernâni), Bismarck e William; Vivinho e Roberto Dinamite (Sorato). Técnico: Zanata.
PORTUGUESA – Waldir Peres; Chiquinho, Márcio Araújo, Eduardo e Luciano; Capitão, Zenon (Bento) e Toninho; Jorginho, Kita e Wanks. Técnico: Jair Picerni.

Guarani x Botafogo e a batalha dos artilheiros

por Emmanuel do Valle em 04.abr.2012 às 19:07h

Adversários por uma vaga nas oitavas de final da Copa do Brasil, Guarani e Botafogo se enfrentam nesta quarta-feira pela partida de ida, no estádio Brinco de Ouro, em Campinas. Apesar de bugrinos e alvinegros já terem se enfrentado 24 vezes por competições oficiais, nenhuma destas partidas pode ser encarada como decisiva de alguma forma para ambas as equipes, como a desta noite. A maior disputa entre campineiros e cariocas aconteceu no Campeonato Brasileiro de 1994: o duelo de artilheiros entre Amoroso e Túlio.

O garoto Márcio Amoroso dos Santos tinha então 20 anos recém-completados e curiosamente faria sua estreia no futebol profissional no Brasil naquele campeonato. Depois do início na base do Guarani, o atacante acabou emprestado ao Verdy Kawasaki, do Japão, onde se profissionalizou, antes de retornar ao clube campineiro.

O bom Guarani de 1994, semifinalista do Brasileiro. Amoroso é o terceiro agachado.

Depois de passar em branco em seus dois primeiros jogos, Amoroso debutou entre os artilheiros ao marcar na vitória por 2 a 0 sobre o Bahia, na Fonte Nova. E começou a fazer bonito contra o Santos, no Brinco de Ouro, na sexta rodada da primeira fase: goleada bugrina por 4 a 0, com dois gols seus. No jogo seguinte, contra o Remo, em Belém, mais dois. Nas difíceis vitórias sobre o Vasco em Campinas e o Cruzeiro no Mineirão, o garoto deixou mais um em cada, e terminou a fase com sete gols. Nada mau.

Do outro lado, Túlio Humberto Pereira da Costa, cinco anos mais velho que o rival, já havia experimentado o sucesso quando jovem no Goiás, a artilharia do Brasileirão de 1989 e uma passagem pela Seleção Brasileira. Mas também o limbo no esquecido futebol suíço, antes de aportar no Botafogo no início daquele 1994.


O então camisa 9 marcou logo na estreia do Fogão, num empate em 1 a 1 com o Vitória, em Caio Martins. E também se candidatou à artilharia da competição após uma vitória de 4 a 0, ao marcar três contra o ‘Expressinho’ do São Paulo, também em Niterói. O Maravilha anotaria outros cinco gols na primeira fase do Brasileiro: dois contra o Atlético no Mineirão (2 a 0), dois contra o Paysandu no Rio (5 a 2) e o do triunfo sobre a Portuguesa, em casa.

Na segunda fase, enfim, aconteceria o esperado encontro dos artilheiros. Mas enquanto não chegava o jogo entre Botafogo e Guarani – marcado para a quarta rodada do returno (esses regulamentos…), na tarde de 13 de novembro, em Caio Martins -, Amoroso e Túlio seguiam deixando bolas nas redes adversárias, e abrindo distância dos demais concorrentes, como Evair e Rivaldo, do Palmeiras; Ézio, do Fluminense; e o menino Reinaldo, do Atlético-MG.

Túlio comemora o que seria o seu 19º e último gol na competição, contra a Portuguesa em Caio Martins

Túlio não perdeu o faro de gol, e marcou logo na estreia da segunda fase, no empate em 1 a 1 diante do Bahia, em Caio Martins. Faria ainda outros dois no Paraná, um no Sport, um no Corinthians e dois no Fluminense, para chegar ao dia do confronto direto com 16.

Amoroso, por sua vez, só foi ‘despertar’ de novo na terceira rodada, ao fazer o gol da virada na vitória de 2 a 1 sobre o Corinthians. Mas deu início a uma série de seis partidas seguidas balançando as redes: além do Timão, foram vítimas o Fluminense, o Grêmio (duas vezes), o Paysandu, o Vasco e o Palmeiras. Passou em branco diante do Bahia, mas voltou à carga em grande estilo: um ‘hat-trick’ diante do Paraná. Tinha 17, um a mais que Túlio, às vésperas de visitar o Caio Martins.

Em 13 de novembro, os artilheiros se encontram em Caio Martins.

E no acerto de contas, quem brilhou foi o goleador alvinegro: Túlio marcou o gol de empate do Botafogo, aos 35 minutos da etapa final, depois que Luizão, parceiro de ataque de Amoroso, abriu o placar na primeira etapa. O Maravilha igualou a contagem e bradou: “Na minha casa, quem faz gol sou eu”.

Depois de se igualarem, os dois goleadores só marcariam mais duas vezes na competição: Túlio marcou dois nos 5 a 2 sobre a Portuguesa em Caio Martins, e o Botafogo caiu nas quartas de final do Brasileiro, diante do Atlético-MG. Já Amoroso balançaria as redes de Sport e São Paulo. Reencontraria o Tricolor também nas quartas de final, mas, em um verdadeiro anticlímax para um início de carreira tão promissor, sofreria grave lesão no joelho ainda na partida de ida, no Morumbi. Tentou jogar a volta, no Brinco de Ouro, mas teve de sair de campo depois de apenas 16 minutos.

O Guarani seguiu na competição, caindo só nas semifinais. Mas quis o destino que Túlio e Amoroso encerrassem suas participações no campeonato ao mesmo tempo. E o grande duelo dos goleadores terminou empatado em alto nível.

 

 

O dia em que o ‘time das setinhas’ derrubou um gigante

por Emmanuel do Valle em 28.mar.2012 às 3:54h

O Magdeburg campeão da Recopa Europeia de 1974, após vencer o Milan por 2 a 0 em Roterdã (Holanda).

Nesta semana, uma curiosa e criativa manifestação de torcedores alemães chamou a atenção na internet. Os fanáticos pelo Magdeburg, equipe que disputa a quarta divisão da Alemanha, resolveram dar uma forcinha aos jogadores para que achassem o caminho do gol – o time não marcava há cinco jogos e ocupava a última colocação na competição – e levaram setas ao estádio, para ajudar na “localização” da meta.

Mas acredite: houve um tempo em que o Magdeburg achava – e por conta própria! – o caminho das redes de gigantes do futebol europeu. Ou, mais ainda: o “time das setinhas” tem um título europeu!

A história começa em 1973, tempo do Muro de Berlim, quando a Alemanha era dividida em Ocidental e Oriental. Ano em que o Magdeburg, do lado leste, conquistou a Copa da Alemanha Oriental, feito que o credenciou a jogar a Recopa Europeia - torneio já extinto, mas importante na época, e que reunia os campeões das copas nacionais dos países do Velho Continente.

A estreia do time comandado por Heinz Krügel na Recopa da temporada 1973/74 foi diante do modesto NAC Breda, campeão da Copa da Holanda. E no primeiro jogo, fora de casa, as setinhas teriam sido de grande utilidade. Aliás, para ambas as equipes, já que a partida terminou sem gols. Mas no segundo, o Magdeburg venceu por 2 a 0 e seguiu na competição.

O Magdeburg alinhado antes da partida em casa contra o Sporting Lisboa, pela semifinal da Recopa.

O próximo adversário seria o Banik Ostrava (então da Tchecoslováquia, atualmente da República Tcheca), e novamente o ataque alemão-oriental não funcionou fora de casa. Pior: perderam o jogo por 2 a 0. Mas na volta, o rival do Leste Europeu foi despachado com um 3 a 0 redentor.

Batido o Banik, o oponente das quartas de final seria uma zebra: os búlgaros do Beroe Stara Zagora, vice-campeões da copa nacional, mas que vinham de eliminar o Athletic Bilbao de maneira surpreendente na fase anterior. Para completar, era a primeira vez que o Magdeburg decidiria a vaga longe de seus domínios. Por isso tratou de fazer o resultado na ida: venceu por 2 a 0 e empatou em 1 a 1 na Bulgária. Semifinais, estamos aí!

Só que o rival da vez seria um clube bem mais tradicional no cenário continental: o Sporting de Lisboa, que se sagraria campeão português naquela temporada. Um empate em 1 a 1 na partida de ida no estádio de Alvalade já foi um grande negócio para o Magdeburg (que chegou a abrir o placar). E a vitória por 2 a 1 no jogo de volta serviu para levar pela primeira vez um time ‘do lado de lá do Muro’ a uma final europeia.

De volta à Holanda, onde a campanha começou, estava o ‘time das setinhas’ em 8 de maio de 1974, data da decisão da Recopa no estádio De Kuip, em Roterdã. Diante de apenas cinco mil pessoas, e contra nada menos que o poderoso Milan, que vivia um período de entressafra depois do título da Liga dos Campeões de 1969, mas que ainda era capaz de alinhar jogadores do quilate do zagueiro alemão Schnellinger, do lateral Maldera, do volante Benetti e do ‘Bambino d’Oro’ Gianni Rivera.

Pelo lado do Magdeburg, o craque era o atacante Jürgen Sparwasser – que meses depois eternizaria seu nome na História do futebol, ao marcar o gol da épica vitória da Alemanha Oriental sobre a vizinha Ocidental, em Hamburgo, na Copa do Mundo daquele ano. Ao seu lado, despontavam dois bons jovens jogadores: o meia Jürgen Pommerenke, 21 anos, e o atacante Martin Hoffman, de apenas 19.

Sparwasser (à esquerda) e o capitão Zapf carregam a taça da Recopa.

E o parco público presenciou uma zebra histórica. O Magdeburg – que pouco mais de um mês antes havia garantido o título nacional -  não ligou para a banca dos rossoneri e venceu por 2 a 0, gols de Lanzi (contra) e do meia Wolfgang Seguin (outro da seleção da Copa de 74), um em cada etapa. Ao fim do jogo, o zagueiro e capitão Manfred Zapf ergueu a taça, que seria o único trofeu europeu conquistado por um clube do país.

Ao longo da década de 70, o Magdeburg despontaria como força no futebol alemão-oriental, conquistando a liga local em três ocasiões. Mas a partir dos anos 80, começou a decair. E a reunificação alemã acabaria por enterrar de vez o futebol do lado leste, que, recém-saído do regime comunista, não tinha como competir em igualdade com os primos ricos ocidentais, e ainda sofria com a própria falta de tradição da Alemanha Oriental nos esportes coletivos.

Foi assim que forças do futebol do antigo país, como o Dynamo Berlim, o Dynamo Dresden e o Carl-Zeiss Jena, acabaram por parar em divisões para lá de periféricas da Bundesliga. E perderam tanto que, como o Magdeburg, não acharam mais nem mesmo o caminho do gol.