Em 1969, começando a carreira de treinador pelo Fluminense do coração e da alma, Telê Santana soube que a direção do clube tradicionalíssimo exigia que os atletas do futebol não mais entrassem pelas célebres catracas reservadas aos sócios. Deveriam adentrar ao clube pelas portas dos fundos. Foi por onde saiu Telê, pulando o muro, para só voltar tempos depois.
Ele entendia que um clube como o Fluminense não poderia tratar daquele jeito os atletas que o representavam pelos campos e pelo mundo. Se os seus comandados não eram “dignos” de entrar pela frente, ele preferia sair pelos fundos.
Muricy não saiu pelos fundos. Mas, em termos, tomou atitude digna e corajosa semelhante a de um de seus exemplos no futebol, de quem foi auxiliar por mais de três anos, no início da vitoriosa carreira de treinador.
Sem as condições pedidas e sugeridas, pegou suas coisas e voltou para perto de casa, do lar, do filho adolescente, da sua vida simples. Porque o Fluminense não entregou aquilo que exigia. E nem era elenco, que o do Flu é muito bom. E nem era salário, que é dos maiores do país. Era um CT. Era um gramado da altura das Laranjeiras. Era a estrutura do campeão brasileiro de 2010. Do mais que centenário Fluminense. Com algumas coisas e situações mais antigas que o próprio clube.
Muricy pode até se acertar com o Santos. Tem casa no Guarujá, é uma cidade que gosta, perto da casa dele.
Mas não será agora.
E, mesmo se for, o que será um acerto para ele, não necessariamente para a turma de Ganso, Neymar e Elano, não se poderá dizer que ele armou tudo para ser mais feliz em São Paulo.
Porque Muricy é daqueles raros profissionais que não pensa só em grana e na estrutura prometida e não entregue.
É um cara de família. Que pensa nela. Que morre de saudade dela.
Mesmo adorando o Rio e o Fluminense, em muitas coisas parecido com o São Paulo de berço, não foi dado o que ele pedia. E o que futebol de alto nível exige.
Muricy tem moral para cobrar.
E o Fluminense que não foi trocado por ele por uma CBF que oferecia ainda menos não pôde dar. E nem pode dele exigir mais. Não só por aquilo que deixou de ser – treinador da Seleção Brasileira. Também por aquilo que o Fluminense deveria ser e ainda não é.
Ainda que se pudesse cobrar mais futebol do time em 2011. Ainda que mesmo assim havia como entender os problemas pela fase de Conca, pela lesão de Fred, pelas carências defensivas. Muricy estava devendo em 2011. Mas o Flu devia mais a ele.
Muricy não vinha sendo muito feliz nas Laranjeiras em todos os sentidos.
Mas é preciso entender e respeitar a escolha dele.
Ainda que desfalcando ainda mais um Fluminense tão debilitado, desfalcado e depauperado na Libertadores onde começara como um dos favoritos. Onde não sei mais onde vai acabar.
Talvez ele pudesse esperar mais tempo para dizer adeus, e não deixar o elenco entregue.
Mas, certamente, o Fluminense tem mais débitos que ele.
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