Tem quem, como eu, que gosta do Brasil de Telê, em 1982, vencedor sem ter sido vitorioso. Tem quem prefere sempre, de qualquer modo, a vitória a qualquer modo, como o Brasil de Parreira, de 1994. São jeitos distintos de ver a vida e a bola. Quem está certo? Quem está errado?
Tem quem, como eu, que gosta de ver um jogo mais corrido e menos corroído, mais jogado com a bola, não se jogado dentro da área. Tem quem prefere a partida mais pegada, a faltinha no jogador que cai toda hora, e todo árbitro brasileiro cai na queda do canastrão.
Mas, no Brasil, quem não gosta do que se atira no campo é atirado aos leões. É o quinta-coluna. O vendilhão do templo. O safado. O ladrão. Quando, de fato, é apenas mais uma teoria. Uma filosofia, porém, que privilegia quem sabe jogar e não se atirar.
Tem quem, como eu, que adoraria falar da bela atuação do Cruzeiro na derrota para o Corinthians. Nas variações táticas de Cuca, do 4-2-2-2 que vira 4-3-1-2 e passa a 3-4-1-2. Da proposta mais retraída de Tite, que atrai o rival para tentar detoná-lo nos contragolpes, como bem fez contra o São Paulo, e não soube fazer contra o Cruzeiro.
Mas é dever falar da arbitragem. Diga-se, do melhor árbitro que pintou na área nos últimos anos. Mas que deu de marcar todos os pênaltis à moda da casa. Incluindo o que Montillo perdeu contra o Galo, quando nada fez Werley para cometê-lo; incluindo um que eu também não marcaria de Gil em Ronaldo, por mais que tenha marcado bobeira o cruzeirense ao trombar nas costas do Fenômeno, num lance que pode ser interpretado como tranco de ombro nas costas, logo, pênalti, por imprudência. Falta que eu não marcaria em área alguma. E a arbitragem, em regra que foge a ela, não marcaria na grande área do mandante. Lance duro de jogo. Daqueles que acontecem em todos os momentos. E não merecem perder o tempo de jogo para marcá-los.
Mas essa é apenas mais uma opinião em lance realmente polêmico. Discutível.
Indiscutível é apenas que não existe uma só interpretação para ele. Qualquer um que diga que “foi muito pênalti” ou que “não foi nada pênalti” estará exagerando. Como tudo é quase sempre exagerado envolvendo o Corinthians. O anticorintianismo é tão fanático quanto o corintianismo.
Não importa (por mais importante que seja) o beneficiado e o prejudicado nessa rodada. Até porque, para mim, não foi pênalti, nem escândalo. Não marcaria esse pênalti, mas entendo quem interprete como Sandro Ricci.
Só que entendo que, ao marcar faltas como essa, a arbitragem ajuda a disseminar a indústria dos pênaltis. Mudando a própria estratégia do jogo.
Foi o que fez Thiago Ribeiro, no primeiro tempo. Tinha tudo, como ótimo atacante que é, para tocar na saída de Júlio César e abrir o placar. Preferiu driblar o ótimo corintiano e deixar a perna para ser atingido pelo goleiro. Trocou um gol quase certo por um pênalti incerto, caindo na tese de que quase toda queda é pênalti no Brasil, quase todo esbarrão é falta, quase todo grito da torcida da casa é infração a favor do mandante. E, desta vez, para mim, no lance de Thiago Ribeiro, a arbitragem acertou. A mesma que, no fim do jogo, marcou falta quando Ronaldo foi atingido pro Gil. E, para mim, errou.
A regra é interpretativa. Toda ela é válida. Pelas fotos, o zagueiro abre os braços contra o corintiano. Como em toda foto, tudo é falta. Mas aí entra o árbitro para interpretar cada lance. E, no Brasil, infelizmente, em vez de se jogar a bola que se sabe, parece que preferimos nos jogar dentro da área. Cavarmos faltas e covas.
Por essas e por outras tantas que Thiago Ribeiro tentou cavar o pênalti. Pelo lance marcado a favor do Corinthians outros cairão na área (junto com o nosso nível) pedindo mais pênaltis.
Respeito os tantos que acham que foi pênalti. Mesmo sendo um desrespeito a um jogo de contato físico que deveria primar pela beleza de quem joga em pé. E ganha e perde do mesmo modo. Em pé.













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