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Bandeira branca de Evra

por Mauro Beting em 13.fev.2012 às 14:22h

 

Com as duas mãos, o ótimo atacante uruguaio Luis Suárez começou a calar a África na Copa de 2010. Fez uma defesa no penúltimo lance de Gana x Uruguai que nem o mole goleiro Muslera conseguiria. Gyan desperdiçaria o pênalti que acabou silenciando de vez as vuvuzelas do Soccer City e de todo o continente eliminado a seguir, na disputa por pênaltis.

Com a mão direita, no sábado passado, o atacante do Liverpool conseguiu fazer o mundo berrar ainda mais contra ele, ao recusar o cumprimento protocolar antes do clássico contra o Manchester United. Suárez não deu a mão ao lateral francês Patrice Evra. No clássico do turno, em outubro, Evra acusara Suárez de tê-lo chamado de “negrito” por mais de dez vezes. Preconceito racial punido pela Premier League em mais de 100 mil reais e oito jogos de suspensão.

Evra que havia denunciado o companheiro e, até então, se manifestado com firmeza e elegância a respeito do assunto. Evra que, ao não ser cumprimentado no sábado, deixou de ter a mão no vácuo para segurar o braço de Suárez, que fez que não era com ele, mesmo assim. Evra que, no intervalo, tentou, digamos, conversar com o uruguaio. Evra que, no final do jogo, com vitória, celebrou como se tivesse ganho a Copa e o mundo tivesse enfim se livrado do preconceito de qualquer espécie. Um exagero, no mínimo, da parte dele. Mas um erro, se erro, mais compreensível que qualquer atitude de Suárez. Uruguaio que ainda se considera vítima de toda a situação. Embora, no dia seguinte, em nota oficial, tenha lamentado o incidente e pedido desculpas por não ter cumprimentando o desafeto manifesto.

Não sei se Suárez foi preconceituoso em relação a Evra no primeiro jogo. Acho que foi. Imagino que tenha sido. Mas não estava lá. Não ouvi. Não vi. Mas acho mais verossímil a versão do francês. Mas o não cumprimento no sábado, além de falta de inteligência, é ausência de civilidade, compreensão, profissionalismo, educação, respeito. Tudo que você quiser. E mais um tanto.

Na Copa de 2010, Suárez evitou o gol que eliminaria o Uruguai com um gesto de instinto e reflexo. Fez o que possivelmente Dalai Lama e Nelson Mandela também fariam naquele momento, situação e lugar. Não pode ser vilipendidado por aquilo. Até por ser punido na hora exata com a marcação do pênalti e a expulsão justa que o tirou da semifinal do Mundial. Pagou com a própria escalação por salvar os companheiros. E foi punido pela regra e pelos fatos. Foi mártir. Foi coisa do jogo.

O que não cabe ainda menos é repetir o ramerrão de que outras coisas de campo ficam no campo. Fazem parte do jogo. Algumas, até que sim. Questões internas e literalmente intestinas precisam ser digeridas na raiva e na relva. Mas o ataque ao preconceito racial precisa pular o alambrado, subir as arquibancadas, e ser transmitido ao mundo. Ainda mais com muitas manifestações recentes em vários cantos tacanhos. A tolerância não pode nem ser zero. Não tem nome o crime. Não tem número a estupidez do intolerante.

O preconceito de qualquer cor é algo que o prório Patrice sentiu na carne. Nascido no Senegal, filho de pai do Guiné, mãe de Cabo Verde. Desde os 12 meses morou na Europa com o pai diplomata. Voltou a Dacar, com 10 anos, para ser circuncidado. Só retornaria ao Senegal em 2011, já como atleta de seleção francesa. Por conta disso, foi hostilizado por torcedores senegaleses por não ter preferido atuar pela seleção de seu país natal, e ter preferido a França onde morou por quase toda a vida. Evra sentiu na pele a dor da discriminação na Europa por ser negro e, na África, por ter preferido ser “menos negro” ganhando a vida e os jogos em campos europeus.

Ele pode não ser santo. Mas não é réu. Nem o futebol pode misturar as bolas e passar o branquinho nos erros nos gramados. A bandeira branca que Evra levantou é causa para ser tremulada por todo o futebol.

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