publicidade


Linha atacante do Rafa

por Mauro Beting em 22.abr.2014 às 17:32h

Rafa é palmeirense. Logo, campeão.

Se não fosse alviverde como o pai e o avô materno, claro que também seria campeão. Quem torce, logo, ama, sabe do que estou falando. Triste são os alegres que apenas contam vitórias e cantam títulos. Felizes são os amargurados que sabem como é bom compartilhar a dor. Como faz bem curtir o fracasso.

Rafa lutou bravamente contra doença brava. Ganhou de goleada. Mesmo quando muitos acharam que seu time só perdia. Só caía. Só estava ainda mais só quando derrubado pra segunda.

Rafa viu tudo isso. E enxergou muito mais no hospital quando tudo que era vitória dele virava sucesso do Palmeiras. Até quando alguns palmeirenses deram mãos e espaço a ele na Academia. Quando ele podia sair do tratamento hospitalar para ganhar mais vida com mais Palmeiras.

Rafa venceu mais uma etapa. Não sei de qual dos tantos campeonatos que tão bem disputou. Só sei que a vitória do Rafa é definitiva. É algo que o futebol nos ensina. Não tem derrota definitiva. Mas tem vitória eterna.

Para o Rafa filho do meu amigo Sérgio que definitivamente abriu a mão, essa vitória é mais um 12 de junho de 1993. É mais uma daquelas para a gente contar aos netos. Como posso contar ao meu amigo Altit que o Rafa é como o nosso time. Campeão. Vencedor. Eterno. Definitivo

Luciano do Valle

por Mauro Beting em 19.abr.2014 às 20:13h

Fim de tarde à beira da praia em Porto de Galinhas. As pessoas reconhecem Luciano e acenam. Tiram fotos. Ele olha para mim com aquela piscada de olho longa que era toda dele. Responde assim à minha pergunta se não estava com saudade da correria paulistana:

- Toda vez que me bate uma vontade de voltar, penso neste horário, quase seis da tarde, na Marginal Tietê… Aí eu fico aqui mesmo, em Porto de Galinhas.

2003. Estávamos na TV Record. Já tinha trabalhado com Luciano de 1997 a 2001 na Band. Ele e Juca Silveira tinham me levado para lá. Onde estreei em Araçatuba. Corinthians em campo no SP-97. Depois da transmissão, me disse que narraria a Copa da França, em 1998. A Olimpíada de Sydney, em 2000. E penduraria o microfone que desde moleque era dele. E foi de poucos com tamanha qualidade, intensidade, paixão.

Eu tinha um tipo assim em casa. Eu sabia que agora tinha mais um ídolo. Mestre. Colega. Amigo. Do mesmo jeito.

Apenas ri do comentário do Luciano. Eu e Osvaldo Pascoal já tínhamos ouvido isso. Ouviríamos algumas vezes em Copas do Mundo e América. Do Brasil. Brasileiro. Série A e B. Estaduais. De todas as divisões. Libertadores. Mercosul. Sul-Americana. Campeonato Italiano. Espanhol. Liga dos Campeões. Mundial de Clubes. Futebol feminino.

Tudo isso eu comentei ao lado dele. Muito, mas muito mais ele fez. Pelo vôlei. Basquete. Indy. Tantos esportes. Esporte total. Narrador total. Empresário total. Apaixonado total. Brasileiro total. Aquele cara que um dia narrou numa noite de sábado, 21h45, em Porto Alegre, um jogo de série A e, logo depois, madrugada adentro na churrascaria de POA, mal dormiu e, 11 da manhã de domingo, depois de pouso em Araraquara, narrou segunda divisão paulista em Matão. Com o pique que o comentarista dele (eu) não tinha.

Coloco aqui algumas das tantas lembranças pessoais por ser Luciano aquele sujeito que há mais de 40 anos frequenta nossa casa na hora do lazer e prazer. Todos têm momentos de alegria e tristeza trazidos pela linda voz de Luciano. Ele é da família. Ele nos contou quando fomos campeões. Ele narrou quando perdemos. Ele nos confortou quando apenas empatamos nesta vida que ele tanto venceu. Também por saber virar algumas derrotas.

Ele não parou em 2000. Não parou naquela tarde de 2003. Nem quando voltou para a Band, em 2006. Quando mal conseguia superar problemas de saúde para levantar da cama. E ainda assim levantava a audiência só de falar gol. Cesta. Ponto. Recorde. Record. Band. Bandsports. Globo. SBT. As rádios onde começou. As televisões onde implantou equipes de esporte. Onde criou ou recriou esportes. Onde inventou narradores, comentaristas, apresentadores, repórteres. Onde foi tão generoso com quem começava. Onde foi tão competitivo com quem tentava ser igual a ele.

Não conseguiram.

Ou, se dessem certo, ouviriam dele o respeitoso silêncio. Luciano era elegante. Quando discordava, silenciava. Quando gostava, gritava como se fosse gol.

Por isso ele é e será sempre referência. Merece ter toda transmissão da Band a ele dedicada. Ao menos um gol de Luciano por jornada esportiva. Um dos estúdios da Band em SP merece o nome dele. O do Show do Esporte, por exemplo, precisa ser chamado estúdio Luciano do Valle. Para não dizer ao menos um estádio. Um ginásio. Uma praça esportiva.

Luciano era o esporte. Qualquer esporte. Ele conseguiria inventar o Beach Basket. Ele narraria futebol de botão na TV. Ele faria qualquer coisa. Por saber fazer de qualquer coisa algo.

Sem bordão. Apenas emoção.

A mesma que, depois daquela conversa em Porto de Galinhas, por outros tantos motivos, o levou de volta aos centros mais agitados. Luciano não conseguia viver pelos ares.

Foi nos ares que sentiu o coração de tantas paixões. Pouco antes da Copa que tanto ele queria ver no Brasil. Não do jeito que será. Até por ter perdido muito da graça sem Luciano. Outro craque que deixa um mundial órfão. Como foi a Copa-06 sem Fiori, que foi dias antes. Como Pedro Luiz, mestre e descobridor de Luciano, nos deixou horas depois da final de 1998.

Como Luciano do Valle deixa órfão o microfone da Band. Ainda bem que os queridos Teo José, Nivaldo Prieto, Ulisses Costa, Oliveira Andrade, Carlos Fernando, Heverton Guimarães podem dar conta do recado.

Mas é claro que Luciano é o primeiro e único. Foi ele que fez da emissora o que ela é até quando ela não quis ser.

Bandeirantes, o Canal do Esporte. Tudo na conta de Luciano.

Esporte, o Canal de Luciano do Valle.

O alambicado soberano

por Mauro Beting em 16.abr.2014 às 12:01h

Juvenal Juvêncio é alambicado.

(Se você acha que eu quero dizer alguma coisa, faça como faz o eterno presidente eterno do Soberano: beba sabedoria no dicionário.)

Ele é alambicado. Ninguém tem motivo para tanto. Mas ele fez muito como diretor e presidente do clube. Fez parte da grande equipe campeã da segunda metade dos anos 1980 tanto quanto armou o São Paulo que não se classificou para a elite do SP-91 (mas não foi rebaixado).

Quando retornou, como um dos donos do futebol, em 2002, ajudou a manter o craque-bandeira Rogério Ceni no Morumbi. Quando assumiu a presidência em substituição ao velho companheiro Marcelo Portugal Gouveia, manteve o Tricolor campeão. Bicampeão. Pela primeira vez tricampeão. Único no Brasileirão desde 1971.

Fez Cotia. Fez o espaço Visa. Quando a visão turva e deturpada de que só existe o clube dele na cidade, no pais, na Terra e na galáxia, fez com que adversários virassem inimigos. Coirmãos virassem cúmplices. O futebol virasse guerra de vaidades e vilanias.

Ele achou que o Morumbi ruiria. Que o CT desmontaria. Que Cotia não. Pacaembu não. Só ele sim. Soberano são-paulino. Só ele é sol. Rei do Morumbi. Soberano totalitário. Autoritário que esmaga oposição e sufoca situação.

Só ele. Juvenal Primeiro. E único.

Rasgou estatuto com a legalidade que o enorme apoio político costurado concedeu. Manchou o espírito democrático do clube ao estender e ampliar o próprio mandato. Desmandou com aliados. Alienou profissionais. Nomeou inomináveis. Perdeu amigos. E o muito que conquistou como um dos homens que mais entendem de futebol. E de cavalos.

Disse que não podia deixar o São Paulo em momento tão delicado. E apenas conseguiu perder de vez a Copa para Itaquera. Não cobriu e nem reformou o estádio. Quando descobriram o mal que é a dualibização do São Paulo e a mustafização tricolor era tarde. Outros presidentes vencedores também por terem ampliado seus poderes e seus mandatos.

Juvenal mandou bem por muito tempo. E tempo demais. Claro que mandou bem. Mas de tanto mandar. De tanto querer poder. De tanto ganhar esse poder, em vez de sair como deixou o clube (ainda que pudesse deixar ainda melhor ao final do mandando anterior), Juvenal vai sair mais como um personagem risível e histriônico que rende piadas mais que algo é alguém sério. Vai sair como uma caricatura. Criatura que também somos irresponsáveis na mídia por dar tanta trela e corda.

Juvenal mandou bem. Mas desmandou demais

Roubado é mais gostoso?

por Mauro Beting em 15.abr.2014 às 11:04h

Jornalista não pode ser previamente censurado. Mas precisa se conter previamente. Quem fala o que pensa na lata não pensa no que fala na latinha.

Na latrina comum, no balde marrom do lixo não reciclável – como o próprio pensamento (SIC) -, melhor deixar falar bobeira “compreensível” a transformar algoz em mártir da liberdade de expressão. Deixa falar. As palavras vão pelos ares contra os justiceiros da mídia.

Censura prévia nunca.

Mas alguns adoram cometer saídas em falso.

Felipe, ainda que zoado e gozado por rivais, é goleiro do Flamengo. Do mais popular do Brasil. Não está no boteco. Na arquibancada. Na firma. Certamente não está na escola ao dizer que:

- Roubado é mais gostoso.

Ainda mais em dias de intolerância. Violência. Virulência. De qualquer motivo para qualquer coisa.

De achar que a arbitragem errou por querer. De achar que está tudo vendido. Comprado. E do próprio clube. Pelo próprio Flamengo.

Mais gostoso é ser campeão. Vencedor. Ser Flamengo é mais gostoso, Felipe. Como ser Vasco. Corinthians. Palmeiras. Quem for.

O Flamengo de Zico. De tantos que foram campeões com muito mais gosto, graça e humor.

Pode ser um desabafo – infeliz. Pode ser tiração de sarro – infeliz.

Mas não pode. Um profissional não pode ser da várzea na pior acepção do termo.

Não é ser politicamente correto. É ser minimamente responsável . Para ser minimamente respeitável.

Flamengo 1 x 1 Vasco – Flamengo, 33 vezes campeão do Rio

por Mauro Beting em 13.abr.2014 às 19:23h

 

A bola veio do escanteio da ponta direita do gol à esquerda das cabines de TV do Maracanã. De onde, em 1978, Zico bateu correndo o corner para a chegada no segundo pau de um zagueiro-direito rubro-negro. Daquela vez, era o Deus da Raça do Flamengo – Rondinelli. Desta vez, o criticado Wallace de tantos erros na eliminação da Libertadores. Não era Erazo, que Erazo é humano, ainda mais humano quando cometeu o pênalti bem convertido por Douglas que ia dando o título ao Vasco pela primeira vez desde 2003. Merecido pelo jogo decisivo, não pela campanha em todo o RJ-14, que era do Flamengo. Por isso também era o empate. Por isso também foi o gol do título. O 33o. da história rubro-negra.

Mas Wallace não é Rondinelli – não é mesmo. A bola que entrou direto no ângulo direito de Leão em 1978 desta vez achou o travessão de Silva. O Vasco se salvava aos 45 minutos. Mas tinha rebote. Veio Nixon, que, em 1978, era sinônimo de renúncia e falcatrua – não necessariamente nessa ordem, e não apenas desde 1974. Mas Nixon não chegou. Quem apareceu primeiro foi Márcio Araújo. O volante de valor moral pelo que corre, pelo que rala, pelo que treina, pelo que se aplica. Mas não pelo que joga.

Márcio Araújo foi na bola e a tocou meta adentro. Um a um. Flamengo campeão. Vasco, vice.

Mas com ainda maior requinte de crueldade. Márcio Araújo estava impedido. Daqueles bem impedidos. Mas não vistos pela arbitragem. No mesmo ano em que um gol foi sonegado a  Douglas no Clássico dos Milhões, outro gol que nem polêmica tem de tão claro foi dado ao Flamengo.

O assistente não viu a banheira de Márcio Araújo. E os vascaínos nem reclamaram dela. Não sei se é cansaço, desespero por mais uma derrota, desatenção, não sei. Mas em um futebol onde se reclama de tudo, quem pode protestar é o torcedor que não viu os próprios atletas reclamarem do gol irregular.

Do gol campeão do Flamengo.

Do gol de Márcio Araújo.

Incertas coisas só acontecem com o Rubro-Negro.

P.S.: Sim, no gol vascaíno no primeiro jogo, há como marcar falta em Felipe que foi chargeado por Everton Costa. Lance bem discutível depois de rever a jogada. Lance dificílimo de ser visto e marcado na velocidade do jogo.

Ituano bicampeão paulista – Aqui também é grande!

por Mauro Beting em 13.abr.2014 às 18:37h

 

O camisa 10 arrumou um belo chute e fez um golaço em bonita jogada da equipe rubro-negra da cidade onde tudo é grande. O primeiro do jogo decisivo em São Paulo. Mas ainda tinha mais tempo de luta. Um grande de história pela frente jogando em casa. Com a vantagem que foi pulverizada no final, com um gol de zagueiro-esquerdo-artilheiro que nasceu em outro clube enorme.

Foi assim que, em 2010, no último jogo da primeira fase do Paulista, aos 40 minutos da segunda etapa, no Canindé, o penta mundial Roque Júnior fez o terceiro dos 3 a 2 contra a Portuguesa que vencia o Ituano por 2 a 0 e rebaixava o time do camisa 10 Juninho Paulista para a Série A-2 estadual. Exatos 17 anos depois do outro pentacampeão do elenco ter deixado Itu para fazer bonita carreira que se encerrava naquela noite de abril paulistano. Com a virada que manteve o time dele (e por ele presidido desde 2009) na primeira divisão tão paulista quanto Juninho. Chorando no gramado em que se despedia da carreira sem deixar seu clube rebaixado, Juninho foi abraçado pelo companheiro de São Paulo, Seleção e Ituano. Doriva, seu treinador então. Gritando ao pequeno gigante que fora um senhor armador, o ex-volante do Brasil na Copa de 1998 berrava ao colega que também fora segundo volante no início da Copa de 2002. Juninho Paulista, Brasileiro e Mundial que era 100% Ituano:

- Você merece, cara! Você merece!

Claro que Juninho merecia toda aquela trajetória e glória de recuperação do time onde começou como profissional, onde iniciava uma gestão igualmente profissional. O que ele não merecia era mais sofrimento em 2011. Apenas três gols a mais que o primeiro dos rebaixados salvaram o Ituano de nova degola no Paulista. O time de Juninho quase caiu de novo em 2011.

Em 2012, menos sufoco. Em 2013, muito pior: aos 46 minutos da segunda etapa do último jogo da primeira fase do Paulista, só um gol contra o Palmeiras no Novelli Jr. salvaria o Ituano da queda iminente. Quando pintou um anjo Gabriel, Fernando, que chutou bola que o goleiro palmeirense rebateu e Marcão desempatou.

O Ituano de Juninho estava salvo pelo treinador Doriva, que chegara nas últimas quatro partidas para evitar o rebaixamento em 2013.

Este ano, desde a pré-temporada de mau futebol e piores resultados, o Ituano lutava para não cair. Entrou no Paulista de 2014 só para não ser rebaixado. Com apenas três remanescentes daquele elenco que quase caiu em 2013. Com o mesmo Doriva no banco. Com Juninho pagando as contas no caixa e segurando o tranco.

O Corinthians era favorito no grupo? Foi eliminado uma rodada antes. O São Paulo teria “amolecido”no Morumbi? Foi o Ituano que jogou grande e mereceu vencer pela primeira vez na história o adversário na casa tricolor. O Botafogo era favorito em Ribeirão Preto nas quartas-de-final? Foi eliminado nos pênaltis pelo ótimo goleiro Vagner, que defendeu um pênalti batido lá no alto. O Palmeiras era ainda mais favorito no Pacaembu? Foi eliminado no tempo normal. O Santos era ainda mais favorito em dois jogos em “campo neutro”?

Na primeira partida, o Ituano abriu o placar com um golaço depois de 1min08s de bola de pé em pé até o chute preciso de Cristian. O Santos perdeu o pênalti (e a bola dele) na cobrança de seu melhor jogador em 2013-14 – Cícero. E, no mais, o time de Itu foi melhor em campo. Mereceu mais que o 1 a 0 que poderia ser dois não fosse o gol perdido na segunda etapa por Rafael Silva, quando tinha o ótimo e chato Esquerdinha ao lado.

Na segunda partida, o time de Itu fez o antijogo até o pênalti que aconteceu em Cícero e foi bem cobrado por ele. Ainda que, na origem do lance, o santista estava impedido depois do chute bizarro de Leandro Damião.

Na etapa final do campeonato, o Ituano mostrou o que foi nos 180 minutos. Fez o jogo de toque de bola e valentia (na bola) e foi melhor que o rival – que havia sido o melhor time do SP-14. Merecia a vantagem que não teve antes dos pênaltis que foram virados pelo time de Itu.

Anderson Salles, ex-santista, bandeira de outras quase quedas, bateu para Aranha defender. Rildo mandou na trave a quarta cobrança santista. Neto bateu o último chute do SP-14 para a defesa eterna de Vagner.

O Ituano que não se rebaixa se ergueu contra fatos, feitos, desfeitas, desafetos, favoritos, favorecimentos. O time de Itu saiu da UTI dos últimos anos para ganhar mais um Paulista onde os grandes não tiveram vez. Em 2002, eles não jogaram mesmo. Agora, até jogaram.

Mas ninguém foi maior que Itu. E é sério.

Democracia Corinthiana e do Brasil

por Mauro Beting em 11.abr.2014 às 10:14h

Foi muito além do Parque São Jorge.

Não apenas pelo muito que jogou aquele time bicampeão paulista em 1982-83. Mas pelo que ajudou alviverdes, tricolores, outros pretos e brancos, rubro-negros, celestes, colorados, roxos de paixão e de hematomas de anos de chumbo e ferro de ditadura. Amarelos da esperança das Diretas-Já, em 1984. Verde-amarelos cidadãos democratas. Todas as cores dessa aquarela foram pretas e brancas como nunca como naquele Corinthians Paulista que, a partir de 1982, foi o mais brasileiro mesmo por ter dado o pontapé inicial na democracia do Brasil a partir de 1985.

Não aquela dos sonhos, das utopias. Também por aquele timaço do Timão não ter conquistado mais coisas. Tinha o grande Flamengo de Zico, em 1982-83. O competente Fluminense de 1983-84. Poderiam Sócrates, Zenon, Casagrande, Wladimir, Zé Maria e grande elenco ter conquistado muito mais coisas e causas. Poderia aquele elenco ter plantado muito mais do que plantou não só no Parque. Uma administração mais arejada e antenada. Mais aberta, ainda que com erros, exageros, imprecisões. Mas um ponto de partida para novos jogos e lutas.

Assim como nos palanques animados por Osmar Santos. Diretas-Já que juntavam no grito por democracia todas as espécies e sopas de letrinhas. Alhos, bugalhos e bagulhos misturados fazendo barulho pelas praças. Saco de gatos, ratos e todo o tipo de bichos, dos escrotos e escroques aos craques que jogavam pelos bagres, gente que era tratada como bicho que rugia pelas ruas que berravam pela mudança urgente:

- Vote para presidente!

A democracia alvinegra também conseguia fazer jogar junto personalidades distintas, profissionais distintos, craques distintos, gente distinta. Corajosa. Até os que pensavam diferente. Como um craque como Leão, bicampeão essencial em 1983. Gente que acertou, pessoal que errou. Mas tudo junto e misturado. Tudo por todos. Gente que fez errado depois, dentro e fora do clube, como um de seus mentores. Gente até que se perdeu dentro e fora de campo. Mas tudo gente que ganhou independente do placar. Fez história.

Esse timaço deu muito certo por ser muito bom, dos melhores da história corintiana. Não tivessem essas feras todas, abutres, urubus e outros iriam fazer horrores. Dom Mario Travaglini fez ótimo meio-campo no banco. A direção segurou as pontas. Serviram de escudo para o bombardeio do CCC – Comando de Caça aos Corintianos (democráticos). Tinha muita gente jogando contra dentro do clube. Muita gente detonando de fora para dentro com catapultas de azedume, de manchetes frias como as notas, de um conservadorismo tacanho de tão de antanho, de quem queria preservar garrotes como queria perpetuar empregos. Gente do poder constituído que era contra só por ser ideia nova. Gente velha que ainda está constituída no poder por ser velhaca de tantas batalhas.

A democracia deu muito certo. Um exemplo para tantos. Um urro de rebeldia em todos os campos. Como o rock que em 1982 invadia todas as praias com a Blitz. Depois Barão Vermelho. Paralamas do Sucesso. Titãs. Ira! Gritos na multidão de uma geração que jogou junto com os democratas corintianos.

Gente que revê e se emociona com o trabalho de Pedro Asbeg:

“Democracia em preto e branco”.

O filme que ele dirigiu e está lançado.

Sou suspeito para falar do diretor. Pedro é muito amigo de meu primo Thiago, ovelha alvinegra dos palmeirenses Zioni. Meu primo que ia comigo torcer pelo Corinthians dele que, naqueles anos, sempre nos vencia.

Sou ainda mais suspeito por admirar o trabalho do pai dele. José Carlos Asbeg dirigiu “1958 – O Ano Em Que o Mundo Descobriu o Brasil”, admirável documentário que narra o que o Brasil fez em 1958 na Suécia. E o que os suecos e outros rivais viram daquele Brasil de todos os tempos e campos.

Pedro Asbeg também montou “Cidadão Boilesen”, corajoso documentário sobre anos de chumbo e choques, ferro e pau-de-arara.

Agora, o rubro-negro dirige o documentário que mostra a força da democracia, de palavras e pensatas, jogo de bola e de cena. A força do jovem e da música. Trabalho de fôlego, raça e talento de pesquisa, produção e edição. Forte como a locução de Rita Lee. Tocante como as palavras de Casagrande. Arrepiante como ouvir e ver novamente o querido Sócrates, doutor honoris causa de futebol e política.

Sou ainda mais suspeito por falar algumas frases no filme. E ainda mais suspeito por ser dos poucos não-corintianos em uma obra que, graças a Deus, vai muito além do Parque São Jorge.

Eu era jovem e ingênuo em 1982. Sou menos jovem e ainda meio ingênuo. Mas sei que o Brasil melhorou, ainda que não seja aquele. Como aquele time era para ter vencido muito mais. Mas certas conquistas não se contam. São vividas.

Feliz por ter vivido aquilo. Ainda mais feliz por reviver aquele tempo em um trabalho que vai durar como aquele time e aqueles caras.

Pena que outros não deram sequência à obra dos democratas em preto e branco. Pena que uma obra como esta do Asbeg não terá sequência. Não teve uma Democracia em qualquer clube parte 2.

Se não precisamos fora de campo lutar pela democracia que a classe de 1982 conseguiu, que ao menos consigamos virar o jogo nos clubes. Todos eles.

San Lorenzo 3 x 0 Botafogo

por Mauro Beting em 10.abr.2014 às 10:04h

Sem o Engenhão, o Botafogo ficou com ainda menos dinheiro. Sem Seedorf, ficou com ainda menos qualidade em campo e ascendência fora dele. Sem Oswaldo de Oliveira, ficou sem experiência para lidar com as carências.

Sem mais uns 17 Jeffersons, não teve como fazer milagres. Sem marcação eficiente nas laterais, especialmente na esquerda, a zaga que já não estava bem ficou pior.

Sem as melhores escolhas na cabeça da área, o time não marcou e não saiu para o jogo. Com Lodeiro em fase discutível, sem o melhor de Jorge Wagner, e com o pior de Ferreyra, só os gols iniciais de Wallyson foram pouco. Quase nada. Nada mesmo.

De bonito, de lindo mesmo, só o que o torcedor fez pelo clube no Maracanã.

Mas o que o clube tem feito pelo torcedor do Botafogo?

Que a lanterna no grupo ilumine algo além do fim do túnel.

Flamengo 2 x 3 León

por Mauro Beting em 09.abr.2014 às 22:07h

Isto é futebol

É Leo Moura avançar como se fosse atacante como tantas vezes deu certo, perder a bola, o centroavante Alecsandro estar na cobertura dele na lateral e anotar falta desnecessária. Infração que levou o bom time do León à zaga rubro-negra, André Santos tanto fazer um pênalti quanto não marcar o rival, e o Flamengo fazer o torcedor sofrer mais uma vez.

É Leo Moura criar do nada uma falta desnecessária contra o time mexicano e fazer André Santos se redimir da falha do primeiro gol. É, dois minutos depois o mesmo rubro-negro empurrar Boselli pelas costas, dando maior impulsão para o atacante ganhar de Samir na cabeça.

É Alecsandro dar de peixinho de canela (ou o contrário) e empatar um jogo sensacional onde a rara bola pelo alto ganha pelo Flamengo foi a cabeçada de Samir em Alecsandro.

Um segundo tempo ainda melhor, mais emocionante, com ataques e contragolpes à base apenas de adrenalina.

Podia dar Flamengo, mas deu León. O que não estava nos planos era o Bolívar fazer o que fez e não só em La Paz.

Também no Maracanã, quando o Flamengo tinha a vitórias aos pés e cedeu o empate.

O que o levou a se abrir contra o León e perder pelos erros defensivos tão similares aos do time mexicano.

Mas sem a mesma criatividade e força para se classificar. Um Flamengo que de velho decepciona em casa.

Pelas bodas do profeta, Silvio Luiz

por Mauro Beting em 09.abr.2014 às 9:02h

O Risadaria é um dos maiores festivais de humor do planeta. Obra do amigo, colega e afilhado Paulo Bonfá. Melhor ainda por ser contemporânea à melhor safra do Brasil na área. Com Adnet, Porchat e Duvivier. Rima que parece linha média da seleção da França. Mas tem muito de Monty Phython, de O Planeta Diário, SNL, Family Guy e tantas coisas que fazem minha vida melhor e mais feliz.

Como ouvir há 36 anos Silvio Luiz. Como ser colega e amigo de Rádio Bandeirantes, Band e Bandsports há 15 anos. Como ser companheiro de Pro Evolution Soccer há quatro anos. E gravando o quinto a partir do fim do mês.

Um gênio. Vocês todos sabem. Um amigo querido e generoso comigo e família. Saibam.

Um cara que teve operação complicada que o fez ficar quase um mês sem conseguir falar. Imaginem Silvio Luiz abrindo a boca e nada saindo. Imagine você nessa situação.

Eu vi o Silvio assim. Eu, como todos, não o ouvi naquele período, há 14 anos. Eu, como quase todos, imaginávamos que não daria mais para ele fazer na TV o que só ele viu. Falou. Criou. Bolou. Encantou.

Eu tive o privilégio de fazer na cabine de off da Band algumas “transmissões” na longa recuperação. Jogos que não iam ao ar. Como mal saía pelos ares a voz forte, marcante, inteligente e instigante dele. Era um fiapo. Nem um sopro. Muito menos de esperança.

Silvio batalhando para narrar. Ou fazer aquilo que só ele faz. Algo diferente de todos. Inimitável. E a voz não saía. O gol, então, que nunca é “gol” para esta lenda “legendadora de imagens”, mal dava para entender.

Não “”foi-foi-foi-foi-foi ele”, torcida brasileira. Não era o Silvio Luiz ali ao meu lado. Era alguém tentando copiá-lo como se fosse o Carioca do Pânico, o mais perfeito imitador (como também é de tantos outros).

Mas eu não sabia de nada. Ali era o verdadeiro Silvio Luiz. O cara que realmente fez tudo em televisão no Brasil. O cara que não inaugurou a Tupi. Mas tem idade e capacidade para ter inventado as ondas eletromagnéticas.

Tenho amigos de quem ele não gosta. Tenho amigos que não gostam dele. Eu, graças a Deus, tenho esses amigos que mostram que ninguém é perfeito. Especialmente aqueles que brincam com nossos problemas e limitações.

Silvio é um deles. Sabe que essa vida é uma zona. Brinca com ela a sério. Às vezes briga demais com a vida.

Mas o que fica é o que é eterno. É tudo que ele já fez no gramado, como repórter de campo. Lá dentro, como árbitro. Aqui fora, na cabine, como locutor. Ou loucutor.

O cara que atende celular na transmissão. O cara que chega para mim e fala para eu narrar o jogo que ele nunca vira aqueles times jogando na vida. O cara que fica descalço no meu programa e acaba com ele, literalmente, deitado de bruços. O cara que tem tanta história que parece brincadeira.

E é.

Por isso foi o homenageado especial do Risadaria.

Como diria o Bonfá, “tirem as crianças da sala”.

Só deixem o Silvio. A única criança sub-90 que eu conheço.