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Flamengo 3 x 2 Atlético Mineiro – Brasileiro de 1980

por Mauro Beting em 31.out.2014 às 19:40h

ESTE TEXTO ESTÁ NO LIVRO “1981″, ESCRITO POR MIM E POR ANDRÉ ROCHA

 

Só a vitória daria título ao Flamengo que perdera o primeiro jogo por 1 a 0 para o Galo, no Mineirão.

Mas “só” vencer o Atlético não era fácil. “Tínhamos a obrigação de ganhar em casa. Eu enxergava o nervosismo em cada um de nós antes de entrar em campo”, conta o lateral-esquerdo rubro-negro Júnior.

O paulista José de Assis Aragão ganhou o sorteio para apitar o clássico jogado com 27 graus no outono carioca.

Maracanã com 154.550 pessoas ansiosas pelo retornos de Júlio César à ponta esquerda e, principalmente, de Zico. Toninho também voltou para a lateral direita, e Manguito substituiu Rondinelli, com o maxilar fraturado no Mineirão. A renda foi recorde: 19 milhões e 726 mil cruzeiros.

Aragão não deixou o vale-tudo do Mineirão se repetir. Com menos de 2 minutos, Tita entrou feio no lateral-esquerdo Jorge Valença; cartão amarelo. Se o árbitro começava melhor que Romualdo Arppi Filho no Mineirão para conter os ânimos, o Flamengo também era outro. Mais ofensivo e aceso.

Mas um erro de saída de bola de Carpegiani quase deu em gol de Palhinha. Nada que erro ainda maior de Osmar Guarnelli não iniciasse o lance do primeiro gol: o zagueiro atleticano se lançou ao ataque de modo atabalhoado e desnecessário. A bola quicou à frente dele até o desarme habitual de Andrade, que tocou rapidamente a Zico, que virou rápido às costas descobertas de Osmar e do lateral Orlando. Nunes recebeu como gostava, pela esquerda, e rolou na saída precipitada do goleiro João Leite, que estava fora da área se atirando aos pés do artilheiro que começava a fazer a fama de ser seminal na hora decisiva. A bola entrou mansa no meio do gol.

Aos 6 minutos, começava uma das mais sensacionais finais de Brasileirão. Na saída de bola, Toninho Cerezo avançou pela esquerda e criou o lance para Reinaldo, no meio de três, matar Raul e empatar. Enervando o Flamengo que errava passes e só acertava pancadas, como a segunda de Tita em Valença. Aragão não mostrou o amarelo, mas parava o jogo até por olhada feia.

O Galo era mais perigoso no contragolpe e tinha mais chances. Zico começou a recuar para tentar armar um time nervoso e que errava passes. Lento e dispersivo, Carpegiani não se achava, e o Flamengo se perdia. Júnior dava raça pela esquerda, mas o jogo não fluía. Em quatro minutos, dois cartões justos para Cerezo e Chicão, pendurando os marcadores atleticanos. O Flamengo melhorava. Éder recuava bastante para tentar lançar Pedrinho na direita nas costas de Júnior, que avançava muito para combinar com Júlio César as melhores jogadas pela esquerda.

Irreconhecível, Carpegiani errou feio e Júnior salvou a virada num bico de pé esquerdo, aos 31. Aos 35, outro erro dele quase deu em gol de Éder. “Bah! Não joguei nada aquele dia! Prefiro esquecer aquela partida. Fui horrível. Quase dei um de graça para eles. Um horror!”, lembra hoje Carpegiani.

Logo depois, a torcida começou a pedir Adílio para armar um Flamengo que perdera o pique. O Galo melhorava, mas era punido em duas faltas disciplinares.

A punição maior viria aos 44. Bola cruzada na área, Nunes dividiu com João Leite. O rebote sobrou para Júnior chutar, mais um rebote voltar para o lateral bater novamente para dentro da área. Na carambolada de pinball, quase caído, Zico dominou e mandou no ângulo de João Leite.

O Flamengo ainda comemorava o segundo gol quando quase cedeu outro empate. Reinaldo desperdiçou a chance. Logo depois, como era praxe na época, sem o acréscimo devido, o primeiro tempo acabou com o título aos pés rubro-negros.

SEGUNDO TEMPO

No vestiário, o técnico Claudio Coutinho  leu uma carta para a equipe: era de Rondinelli. Escrita no hospital, com o maxilar preso por arames e parafusos. O “Deus da Raça” exortava: “Vamos pra cabeça, companheiros!”

Foram de corpo e alma. E algumas armas. O segundo tempo começou com as chuteiras ensarilhadas. Aos 23 segundos, Júnior e Chicão entraram para rachar. O lateral deu um totó no atleticano caído e recebeu merecido amarelo. Era com o lateral e Júlio César que o Flamengo ganhava a maioria dos lances em cima de Silvestre, que substituíra o lesionado lateral-direito Orlando. Uma terceira falta disciplinar foi marcada contra Jorge Valença.

O excelente zagueiro-esquerdo Luisinho começava a puxar a perna direita. Aos 10, não teve como continuar. O titular da Seleção era sacado para a entrada do jovem lateral-direito Geraldo. Silvestre voltava para a zaga, pela esquerda. O Atlético já havia feito as duas alterações por lesão. E teria mais uma contusão para lamentar no minuto seguinte, quando Reinaldo sentiu fisgada na parte posterior da coxa direita numa corrida contra Marinho. O Maracanã celebrou como se o craque tivesse sido expulso. O médico Neylor Lasmar o fez voltar rapidamente para campo. Mas sem condição.

“Bichado” era o coro rubro-negro.

O título carioca estava mais próximo. Eram apenas duas alterações pela regra de então. O Flamengo pareceu relaxar. Zico deu uma senhora bronca em Júlio César, que não voltou para marcar no meio, aos 14. O ponta entendeu o chamado:

 

- O Zico era assim. Por isso virou o que é. Ele queria ganhar totó, pingue-pongue. Tudo. Exigia dele e de todos. Quando estava feliz antes do jogo, sabíamos que teríamos bicho para gastar. Quando a coisa estava difícil, ele fazia qualquer coisa para mudar a sorte. Teve um jogo que ele não estava bem. Chegou no vestiário, trocou toda a roupa, e daí deslanchou. Em muitas cobranças de falta, assim que ele batia na bola, o Zico ficava narrando o lance, e fazia até barulho da torcida com o gol que, de fato, acabava saindo. Ele realmente cantava o jogo. Tinha razão quando dava bronca na gente. Ele sabia tudo de bola.

 

Ainda tinha muito jogo. E um senhor rival pela frente. Além de um Reinaldo que jogava mesmo com uma perna. Aos 20, Éder cruzou com efeito da esquerda, Marinho se atrapalhou ao subir, e Reinaldo bateu de bate-pronto para empatar e emudecer o Maracanã. Mas não Aragão. E nem Reinaldo. O árbitro paulista pediu para o artilheiro deixar o campo. Sem se saber o porquê, talvez pela celebração exagerada.

Adílio entrou aos 22, enfim, no lugar de Carpegiani, que reclamou com o próprio time – com razão: “Estava 2 a 1 pra nós… Não era para todo mundo se mandar para o ataque…”

O Galo respondia bem e só foi parado por um erro do bandeirinha gaúcho Carlos Rosa Martins, que anotou impedimento absurdo de Reinaldo, aos 23. O Flamengo foi dar a saída de jogo e Reinaldo se colocou à frente da bola, retardando o reinício. Ainda deu um bico nela. Como ele já estava amarelado, a expulsão foi correta.

Mas outras indisciplinas e jogadas mais violentas haviam passado batido. Só Reinaldo foi punido com rigor.

O treinador atleticano Procópio invadiu o campo gritando que era uma “covardia”. Ele também foi expulso. Não só ele: também o médico e o massagista atleticanos.

Reinaldo deixou o gramado com o braço direito erguido em protesto, marca registrada para celebrar seus tantos gols e ainda protestar contra a ditadura que, naquele 1980, começava a ser abrandada.

Depois de seis minutos de interrupção, o jogo recomeçou.

O Flamengo tinha um a mais em campo, mas não no placar. Precisava da vitória em 90 minutos. Só não podia dar os espaços que deu. Aos 30, Raul evitou a virada mineira, dividindo bola com Pedrinho na intermediária.

Nunes caía pelos flancos, mas ninguém aparecia na área. Nem Zico. Tita circulava mais e abria o corredor para Toninho. Adílio entrara bem. Júlio César partia para cima, e criava bons lances. O Maracanã seguia em silêncio e nervoso como o Flamengo. O lateral Geraldo errava quase tudo, mas Cerezo jogava por todos os atleticanos.

Só não conseguiu controlar outra inexplicável saída de Osmar para o ataque. O Galo com o placar nos pés, um jogador a menos, e o zagueiro partiu para o ataque, aos 36…

Tentou lançar Pedrinho na direita, mas perdeu a bola, já no campo rival. Júnior retomou e tocou para Andrade, que lançou Nunes aberto à esquerda, para cima de Silvestre, que teve de cobrir Osmar. O inexperiente Geraldo foi fazer a zaga central desguarnecida por Osmar. Nunes tentou cruzar a bola que bateu no peito de Silvestre. Voltou para o João Danado. Nunes fingiu que cruzaria de novo, saiu pela esquerda e bateu. João Leite caiu antes, sem esboçar reação.

Nunes de novo devolvia o placar ao Flamengo, e o título à Gávea.

Mas ainda havia jogo. Coutinho sacou Júlio César, que atuava na base do sacrifício, e colocou o lateral Carlos Alberto apenas para marcar Cerezo. Nunes ficou à frente. Tita, Zico e Adílio fizeram uma linha de três armadores, com Andrade e Carlos Alberto como volantes.

Para conquistar o seu primeiro Brasileiro, o Flamengo terminou o clássico no 4-2-3-1. Os números das grandes conquistas de 1981-82.

O jogo ficou ainda mais pegado. Não faltaram tapas e tocos não vistos pela arbitragem. Ou vistos até demais. Até uma bolada proposital de Chicão na cabeça de Aragão. Quando o árbitro foi pedir explicação, o volante, na cara de pau, disse que nada acontecera…

No minuto seguinte, Chicão também pediu desculpas a Tita, que fizera graça na lateral, dando balãozinho, e recebeu um chutão do atleticano. Enfim o vermelho esperado. Sem desculpas.

Palhinha foi em direção ao árbitro, pedindo (exigindo) a própria expulsão. Aragão estava com o braço erguido e nem precisou baixá-lo para expulsar o meia do Galo. Antes disso, Palhinha chutara a bola em direção ao árbitro. Mas errara o alvo.

Apenas aos 50 minutos o jogo recomeçou, com a célebre versão brasileira da canção mexicana “Cielito Lindo”, o “Ai, ai, ai, tá chegando a hora…”.

Mas quase chegou a hora do apocalipse, antecipando em 25 anos a Batalha dos Aflitos, da Série B, de 2005, entre Náutico e Grêmio.

O Galo tinha apenas oito atletas em campo, faltando segundos para o fim do jogo. Carlos Alberto recuou para Manguito, que deu mal a bola para trás para Raul. O goleiro teve de sair fora da área, foi driblado por Pedrinho, mas, Andrade, como já havia feito duas vezes no Mineirão, salvou de carrinho para evitar que oito atleticanos vencessem 11 rubro-negros no gramado, e mais 150 mil nas arquibancadas.

Manguito era uma das surpresas na final. E quase virou algoz:

- O Coutinho fazia um revezamento no banco. Sem o Rondinelli, o jogo final no Maracanã seria do Nelson. Na sexta-feira, eu estava tomando minha cerveja em casa quando me chamaram para ser titular na final contra o Atlético! Só faltou eu ler a Bíblia para me concentrar! Quase que entrego o ouro no fim do jogo. Mas, rapaz, aquela não era uma bola para mim, não. Não tinham de ter jogado ela comigo [risos]. Eu não sabia fazer isso!

Ainda faltavam mais dois minutos de acréscimo. Mas a arbitragem não apenas não coibia a batalha campal. Não se atentava ao relógio. Era praxe. O jogo acabou antes do tempo. Iniciava ali um novo tempo no futebol carioca, brasileiro, sul-americano e mundial.

Flamengo imenso campeão brasileiro de 1980.

Atlético Mineiro imenso vice-campeão.

Santos 2 x 3 Cruzeiro – Taça Brasil 1966

por Mauro Beting em 31.out.2014 às 19:02h

Piazza não conseguia reconhecer os companheiros celestes que entraram naquela noite no Pacaembu para fazer ainda mais história. Jogavam de branco os companheiros do capitão cruzeirense. As cores do adversário pentacampeão do Brasil. Mas estavam sujos da terra e da lama que castigara a grama do estádio paulistano.

O Santos de Pelé havia perdido a primeira batalha pelo hexa.

Foi 6 a 2 Cruzeiro, no jogo de ida da última Taça Brasil antes do Robertão, verdadeiro pai do Brasileirão. O que não tira o mérito e o peso histórico da competição que é mãe da Copa do Brasil, pelo regulamento e característica.

Ao final do jogo no Mineirão, cartolas santistas haviam sugerido aos cruzeirenses que ficassem por aqueles dias com a Taça Brasil. Até ao menos a desforra. Acharam desfeita os mineiros. Rechaçaram a oferta. Falaram que preferiam ficar em definitivo com o troféu no jogo de volta, em São Paulo.

Ou numa terceira partida que se desenhava no intervalo do segundo jogo, no molhado Pacaembu.

Fim de primeiro tempo: Pelé e Toninho Guerreiro. Santos 2 a 0. Não fosse Raul, o time mais experiente e técnico santista poderia ter devolvido os 5 a 0 da primeira etapa do primeiro jogo em BH. Quando a equipe rápida e rasteira do Cruzeiro jogou lindo e fez antologia. Algo mais difícil de se repetir em SP não apenas pela qualidade santista, que mudou de escalação e de futebol no segundo jogo. Também o gramado que já não era bom do Pacaembu ficou ainda pior com a chuva que inundou a região. Nos tempos em que o Santos mandava no mundo e São Pedro e São Paulo se entendiam nos céus…

Mas ali nos campos de Piratininga mais se via o bolão das Alterosas daquele trem azul. Embora, na primeira etapa, o Cruzeiro não viu a cor da bola. E mal via a própria cor do time. Piazza disse a Anderson Olivieri, no excelente “20 Jogos Eternos do Cruzeiro” (Maquinária Editora) que todo o time estava marrom de lama no segundo tempo.

Equipe que se superou e se jogou em campo e no barro também pelo sangue que borbulhava nas veias azuis depois do célebre e controvertido pedido dos diretores do Santos e/ou da FPF, para já discutir o local da terceira partida, no meio do segundo jogo…

No intervalo do jogo que vinha sendo todo santista, alguém teve a infeliz ideia de provocar o lado adversário. Como se acabando antes da hora a partida para um time azul que sabia fazer a hora, antecipando as flores cantadas de Geraldo Vandré.

O time técnico, dinâmico e extremamente jovem do Cruzeiro voltou diferente depois da provocação de alguns paulistas. Ou voltou a fazer o que havia feito no 6 a 2. Ou mesmo no amistoso no início de 1966: 4 a 3 Cruzeiro. Show de Dirceu Lopes e Tostão. Como havia sido no 6 a 2. Como voltaria a ser na segunda etapa da antologia celeste, no Pacaembu.

Ainda havia Santos na segunda etapa, ainda que sem Carlos Alberto na lateral, e com Mengálvio de vota ao meio-campo desde o início. Pelé escorregou e perdeu gol à frente de Raul, aos 3 minutos. Parecia mais do mesmo do primeiro tempo e dos últimos cinco campeonatos conquistados pelo time paulista. Até o pênalti a favor dos mineiros, que Tostão bateu no meio do gol para defesa do goleiro Claudio. Seguia 2 a 0. E seguia vivo o Santos.

Os jovens mineiros sentiriam o baque, imaginou-se.

Quem sentiu mais foram os beques alvinegros.

Sobretudo os laterais, que sofreram com a contundência e até mesmo o recuo de Natal e Hilton Oliveira para armar e liberar Dirceu Lopes e Tostão pra encostarem em Evaldo.

Falta pela ponta direita, sem muito ângulo. Uma pancada de canhota de Tostão que Cláudio não conseguiu defender, depois do desvio na barreira. 9 minutos. Santos 2 a 1.

Os homens de barro mal conseguiam ser identificados pelos próprios companheiros. Imagine pelos locutores, sobretudo pelos paulistas sem acesso às informações de outros times sem ser de SP e RJ. Ou mesmo sem o menor interesse em conhecer ou reconhecer os méritos de mineiros, gaúchos e outros brasileiros.

O fato é que os homens sujos foram limpando lances, fechando a própria área, e buscando o empate.

Dirceu Lopes foi mais uma vez o craque que definiu, com a ajuda do ótimo goleiro Claudio, que aceitou o tiro forte do meia-atacante celeste. 29 minutos. 2 a 2 contra o imenso Santos.

O empate já dava o título para o Cruzeiro. O Peixe, com um time mais veloz e forte fisicamente que o do primeiro jogo, ainda tentou. Mas, no contragolpe, em lance pela esquerda, Tostão arrancou e tocou para trás. Natal entrou em diagonal e meteu a bota de direita. 44 minutos.

A rede pesada e molhada estufou. O que já era título virou vitória. Virada. Sinfonia celeste na meta da antiga Concha Acústica do Pacaembu.

3 a 2 Raposa.

Nove gols cruzeirenses contra o maior time do Brasil.

Ou ex-maior.

Já que chegava de Minas uma turma de ouro.

Para Nelson Rodrigues, bem Nelson, o novo “maior time do mundo”.

Para a bola pesada e também marrom, o time que conseguiu limpá-la e honrá-la como poucas vezes no Brasil.

Nascia uma estrela.

Ou melhor: a maior constelação mineira.

 

 

São Paulo 4 x 2 Emelec

por Mauro Beting em 31.out.2014 às 11:07h

Os 90 minutos no Morumbi foram a síntese do São Paulo desde aquela vitória contra o Internacional, no Beira-Rio. Uma equipe inconstante, com momentos de muita qualidade para criar e contragolpear, e instantes de penosa pane defensiva. Tudo isso na ótima que poderia ser excelente vitória contra o não mais que razoável time equatoriano.

O Tricolor goleou no primeiro tempo e parecia dar a impressão de que ampliaria na segunda etapa. Levou dois gols, quase sofreu o empate, para, então, numa bola parada, restabelecer o ordem natural das coisas. Menos do sistema defensivo.

Falhas pontuais que comprometem a estabilidade tricolor no BR-14, mas não na busca do bi da Copa Sul-Americana. Prêmio que veio da eliminação da Copa do Brasil. Conquista que marcaria a despedida de Rogério e também a de Kaká.

Se sou o São Paulo, e se sou são-paulino, eu iria em todos os jogos até o fim.

Flamengo 2 x 0 Atlético Mineiro

por Mauro Beting em 30.out.2014 às 8:52h

A expressão “deixaram chegar” quando o Flamengo vai chegando e conquistando espaços e títulos às vezes joga contra o rubro-negro. A torcida acredita ainda mais, o elenco sai do chão como se fosse um show de Ivete, a imprensa transborda e borra nas tintas e, algumas vezes, desanda. Perde inexplicavelmente como vinha vencendo inexplicavelmente.

Na semifinal da Copa do Brasil, o Galo chegou em melhor forma até que o Cruzeiro. Era favorito antes de a bola rolar no Maracanã.

Não foi. Como, em 1987, o Galo também era. Como, em 1980, era um timaço tão bom quanto o de Zico.

Não deu. Deu Flamengo. Vai dando Flamengo depois do ótimo 2 a 0. Enorme placar pela diferença entre as equipes. Reversível por tudo que o Galo tem feito desde o ano passado.

Mas ainda uma vantagem considerável, construída em um gol de cabeça e outro em jogada sensacional de Gabriel, aterrado de modo bizarro por Josué.

O Flamengo foi construindo o resultado com a consistência que o Galo foi perdendo. A dinâmica da equipe não foi a de jogos anteriores. A aposta em um meio-campo mais robusto empacou o time mineiro sem dar luz ao contragolpe.

Não foi nem de longe o melhor jogo possível do Galo. Mas ainda não está nada perdido e nem eliminado. Ainda tem como reverter em BH como superou o Corinthians, como tantas vezes acreditou o atleticano em 2013.

O problema é que “deixaram chegar”. Com e sem aspas.

P.S.: O Flamengo foi pentacampeão brasileiro superando os favoritos, em 1992.Foi hexa, em 2009, com uma arrancada impressionante. Dos poucos times do país que, quando chegam, atropelam até com menos time. E, quando tem um senhor time, é o maior que vi na vida em campos brasileiros, em 1981-82.
P.S: E quando vão reconhecer os méritos do “ultrapassado” Luxemburgo na retomada rubro-negra em 2014?

Cruzeiro 1 x 0 Santos

por Mauro Beting em 29.out.2014 às 21:41h

Willian trocou de lado com Everton Ribeiro naquela insana e sadia movimentação da Raposa. Julio Baptista saiu da área e também trocou com Ricardo Goulart, que passou o primeiro tempo às costas dos perdidos volantes santistas.

A bola chegou na ponta direita para um chute fraco e torto de Willian. Finalização que o Santos mal conseguiu dar na primeira etapa sem bola, sem posse, sem marcação, sem nada.

O rebote da zaga sobrou limpo. Se Willian chutara mal com o pé bom, com o canhoto fez lindo. Tirou de Aranha e abriu o placar que poderia ter sido melhor pela intensa meia hora inicial mineira. Quando o Santos não apenas se encolheu. Ficou pequeno.

Rildo mal pegava e na bola e só corria. Que corresse atrás de Maike, deixando Robinho pela direita. Ou solto por dentro, com Gabriel na função.

O Santos melhorou na segunda etapa. Em 10 minutos fez o que não havia feito em 45. Mas, aos 7, em lance em que Everton Ribeiro deu um pé a Egidio na lateral, David Braz bobeou e o lance acabou bonito até o gol de Ricardo Goulart. Absurdamente anulado por impedimento inexistente de Júlio Baptista.

Teve grande chance com Robinho. Teve até com Alisson. Quando quis jogo, equilibrou a partida. Chegou até a mandar em campo e impedir o contragolpe celeste.

Mas acabou sendo insuficiente. Como pareceu pouco e apertado o placar por aquilo que fez o Cruzeiro na primeira etapa.

Parece pouco para o melhor time brasileiro. Mas pode ser o suficiente.

Lusa, a garota do Norte

por Mauro Beting em 29.out.2014 às 9:01h

(Este texto foi escrito sob a inspiração e execução em looping de “Girl From The North Country”, de Bob Dylan, com Johnny Cash)

 

Se você for pro Norte, me avisa e veja se ainda tem um time de futebol lá no Canindé.

Se você chegar na Marginal e enxergar um monte de camisas verdes e vermelhas, mande um abraço para cada uma. Abrace bem forte e nem diga o porquê.

Abrace.

Se você chegar lá e bandeiras estiverem tremulando, saiba que você está no lugar certo, mas com gente errada por perto. Não as que estão vibrando por nada que é tudo. Mas pelos errados e incertos que deixaram as coisas quebrarem em um mundo de quebradeiras econômicas e quebradas perdidas.

Se você for para o Norte da capital e enxergar uma arquibancada vazia, saiba que nunca foi assim. Não são muitos, mas parecem tantos. Serão cada vez menos, mas muito mais que muitos tantos.

Eles são fortes. Eles são de luta. Eles são Lusa.

Força a esses.

Forca àqueles!

Os que destorcem. Os que não torcem. Distorcem. Destronam. Detonam. Derrubam.

Os fortes são os que são Portuguesa sem saber como quando quanto com quem por quem porquê.

Quando você for para o Norte da cidade, talvez você encontre gente sem Oeste de Itápolis, sem Leste do Corinthians, sem Sul do São Paulo, sem Norte, bússola tonta, biruta besta, súmula adulterada.

Você vai ver no Canindé gente de verdade. Gente que está perdida, mas não vencida.

Muito menos vendida como os vendilhões do templo de segunda categoria e terceira divisão.

Você que vai pro Norte da capital vai ver gente que torce por um time que só sabe cair, só sabe sair.

Quando você chegar ao Canindé vazio de ideais e de gente, olhe bem. Você vai enxergar quem não está mais lá. Mas esteve lá para construir o estádio e o clube.

Gente que nem jogou por lá. Djalma Santos. Julinho. Ivair. Leivinha.

Estão todos lá em cada pedra perdida, em cada canto do campo de cimento amado.

Enéas está chateado com Badeco em um canto. Edu Marangon está lamentando com Jorginho. Zé Roberto e Rodrigo Fabbri  só olham para o gramado.

Quando você for pro Canindé, diga àquele senhor que vende caldo verde e uns docinhos com nomes engraçados que eles são deliciosos. Mesmo que não sejam mais. Ou nunca tenham sido.

Nem lembro mais se eu comi docinhos por lá.

Tremoço, sim.

E como comi!
A memória é seletiva. A Lusa que não foi ao escolher  quem a dirigiu e desgovernou e colidiu feio na Marginal.

Matando quem está dentro. Morrendo como no acidente de Dener.

Mas não é fatalidade. É fato. Foi mal feito. Foi desfeito. Fede. Apodrece.

Como o rio que não mais corre no Tietê. Morre por ali.

A Lusa não morreu. Mas vai matando.

Lembro a minha última visita ao Canindé para comentar algum jogo abaixo do nível da história do time de 1952, de 1955, de 1973, de 1985, de 1991, de 1995, de 1996, de 1998. O elevador parou de funcionar ao final da partida melancólica como um fado de Amália.

No mostrador de andar do último do elevador, tinha um ponto de interrogação.

O elevador não sabia onde estava. Para onde ia. Se estava. Se funcionava. Estava em dúvida. Dívida. Não sabia. Certamente não subiria mais. Provável que só descesse. E pra além do térreo. Pro segundo nível. Agora pra terceira.

Por quem a mandou das quintas do Pari pro quinto dos infernos.

Quem pariu o belzebu que pegue os lupas e os lanternas e vá viver e morrer nos idílios e llídios do fundo do tacho do STJD do capeta e dos capatazes incompetentes que foram além do poço. No fundo da fossa. Da vala comum onde enterraram nesse vale tudo gente que vale nada pela velhacaria que fez ou deixou fazer.

Não sei se é caso de polícia ou de incompetência.

Ou tudo ao mesmo tempo em dias de vacas macérrimas e burros acérrimos.

Só sei que eu peço pra quem for para o Norte nos próximos dias que prometem ser meses que deverão ser anos que abrace esses fortes.

Essa gente que não torce para ser campeã.

Torce para ser o que é – gente que gosta sem precisar de nada, nem de título, nem de vitória, nem de primeira, e, agora, nem de segunda.

É Lusa por ser Lusa. Basta.

Mas chega de tanta besta e de tanta bosta lá no Canindé.

Perdão pela palavra feia.

Mas tem mais coisa feia lá no Norte.

A queda da Portuguesa é mais que a derrota de um time e a derrocada de um clube.

É  perda de uma identidade. De uma referência de luta. De uma reverência de clube.

De uma gente que tanto batalha, que Aljubarrota, que ajuda, que arrebata, que abarrota. Que perde o rei em Alcácer-Quibir, mas não a majestade, não a realeza, não a riqueza.

Dias pobres e podres no Canindé.

Não sei quando volto lá.

Para você que for ao Norte da cidade, mande um abraço a todos.

Eles estão precisando.

E se você não achar ninguém na terra arrasada, saiba que ali vai sempre ter muito amor. Um carinho que quem tem sabe.

Se você for para alguma feira lá pelo Anhembi ou pelo Center Norte, perto de onde o vento bate forte lá no alto do estádio e das cabines do Canindé, tente lembrar a quem anda vive e revive e resiste por lá que algumas vezes eles não foram o meu verdadeiro amor.

Mas que eles são o verdadeiro amor por um clube.

Bravos da Lusa, um brinde de vinho.

Verde, claro.

(Este texto foi escrito sob a inspiração e execução em looping de “Girl From The North Country”, de Bob Dylan, com Johnny Cash)

 

 

Força ao forte torcedor da Lusa. Forca aos fracos que a derrubaram

por Mauro Beting em 28.out.2014 às 20:18h

Atlético Mineiro 1 x 0 Flamengo – final do BR-80

por Mauro Beting em 28.out.2014 às 19:30h

TEXTO EXTRAÍDO DO MEU LIVRO E DE ANDRÉ ROCHA: 1981 (Maquinária Editora)

 

Flamengo e Atlético Mineiro tinham 32 pontos. A melhor campanha na fase decisiva do Brasileirão de 1980 dava a vantagem do empate aos cariocas. O equilíbrio matemático também era técnico. O Galo era bicampeão mineiro. Acabaria sendo hexa. Em 1980, tinha um time ainda mais qualificado e experiente que o de 1977, único vice-campeão brasileiro invicto.

 

João Leite era um senhor goleiro. Luisinho, o titular da zaga do Brasil de Telê Santana. Chicão mordia, Toninho Cerezo brilhava e Palhinha atacava num meio-campo de seleção. Reinaldo encantava no comando de um ataque municiado por Éder, ponta de mira calibrada e lançamentos de armador. Time pronto para vencer o Flamengo, como acabara com o então campeão brasileiro Inter, num retumbante 3 a 0, no Beira-Rio, na segunda partida da semifinal. “O time deles era excepcional, e mais experiente que o nosso”, afirma Júnior. “Muito técnico e rápido, também marcava muito. E tinha Cerezo, Éder e o Reinaldo, um centroavante completo. Inteligente, toque fácil, veloz… Se não tivesse tantos problemas físicos, ele seria comparável a Ronaldo e Romário. Com dezesseis anos já era craque”.

Cerca de 12 mil rubro-negros entre mais de 90 mil torcedores ocuparam parte da arquibancada na primeira decisão, no Mineirão. Um Atlético sem desfalques partiu para o ataque contra um “Flamengo brilhante”, na opinião do treinador atleticano Procópio Cardoso. Ainda que desfalcado de Zico e do ponta Júlio César.

 

Taticamente, as duas equipes jogavam no 4-2-1-3 da época (ou 4-3-3). Dois volantes que sabiam jogar, um meia-atacante que voltava para organizar o jogo, dois pontas enfiados, um centroavante. No Mineirão, Tita teve de fazer a função de Zico, armando com Reinaldo e o veloz e driblador Carlos Henrique pela ponta esquerda.

 

“Taticamente”, o árbitro paulista Romualdo Arppi Filho fez o de sempre: contemporizou a ponto de quase criar em conflito armado entre Rio e Minas, tamanha a violência entre as equipes. Com um minuto, Tita poderia ter sido expulso num carrinho por trás em Reinaldo. Nem cartão amarelo levou – ele era um dos quatro flamenguistas pendurados. Aos 13, Andrade tirou sangue da boca de Reinaldo, depois de trombada. E o jogo seguiu “normal”.

Quem batia (na bola) era Éder. Claudio Coutinho exigia uma barreira de dois rubro-negros nos escanteios a favor do Galo. Principalmente os batidos da direita, de canhota. Não era só na bola parada que o Atlético começara melhor. Muito recuado, jogando para não jogar, o Flamengo mais esfriava o jogo que outra coisa. Até porque o atleticano Reinaldo estava naquelas noites. Apanhava e respondia na bola, com lances sensacionais. O Galo começou a bater, também. O lateral Jorge Valença, um dos quatro pendurados atleticanos, entrou para rachar no ponta-direita Reinaldo. Arppi Filho fez que não era com ele.

O Flamengo acertava a marcação, e o Galo chegava apenas com bolas longas do volante Toninho Cerezo e de Éder, que recuava para armar para Reinaldo. Ele e Palhinha sofriam com Rondinelli. Liberado pelo árbitro (e pelo padrão da época permissivo com a violência), nada de cartão. O volante Chicão, o mais violento da época, sentia-se anda mais em casa e respondia no mesmo baixo nível de Rondinelli. Andrade se desdobrava na marcação e, com menos de meia hora, salvou duas das três chances de gol atleticanas num jogo marcado, brigado e batido.

SEGUNDO TEMPO

Na segunda etapa, Rondinelli e Tita tiveram bons lances. A partida estava mais equilibrada. Ouvia-se mais alto o grito de “Meeeeengo” até mais um exagero usual daquele time essencialmente técnico dar em gol adversário. Júnior perdeu a bola que recebera de Raul na entrada da area. Palhinha a retomou e encontrou Reinaldo livre para abrir o placar, aos 9 minutos.

O jogo ficou mais aberto. O Flamengo partiu para o ataque com Anselmo no lugar do ponta-esquerda Carlos Henrique. Aos 25, a terceira falta para cartão amarelo de Rondinelli e Arppi Filho… nada. No minuto seguinte, num lance confuso na área carioca, o Deus da Raça rubro-negra tombou. Saiu do gramado dizendo que iria à forra, e que havia sido chutado no chão por Palhinha.

 

Nelson entrou para compor a zaga. No lance seguinte, Pedrinho rolou pelo gramado alegando agressão no rosto. O esporte era outro no Mineirão. E mal praticado. Em nova quizomba na área, Jorge Valença foi em direção a Nunes e se atirou bisonhamente no gramado, como se atingido. Mais se jogava gente em campo que essa gente jogava bola. Não era o jogo digno para aquelas senhoras equipes. Éder deixou a perna no rubro-negro Reinaldo, que respondeu pisando no atleticano… A batalha campal não parava, e o árbitro deixava o pau comer.

 

Chicão enfim recebeu o cartão dele, aos 34, ao levantar Tita, que partiu para o revide. Mas era apenas o segundo da série para o volante do Galo. Arppi sabia o que estava fazendo. “O jogo precisa ser apitado por um homem. O Romualdo só faz média” esbravejou o treinador atleticano ao microfone da TV Globo. Zagueiro viril nos anos 60, Procópio sabia o que dizia e o que fizera antes.

 

Aos 43, Anselmo perdeu a chance do empate. No minuto seguinte, Raul evitou que Reinaldo ampliasse, no duelo entre os melhores jogadores em campo. Um dos maiores duelos da história do Mineirão desde a inauguração do estádio, em 1965.

Raul que fora bandeira (amarela) do Cruzeiro onde pensou pendurar as luvas, em agosto de 1978. Desapontado por não ter sido convocado para o Mundial da Argentina por Coutinho, pediu ao presidente cruzeirense Felício Brandi para se aposentar. Foi de carro para Curitiba, para ficar na casa dos pais. Lá viu pela TV Globo o anúncio de que fora contratado pelo Flamengo. Em três minutos recebia o telefonema do presidente Márcio Braga, dizendo que comprara o passe dele do Cruzeiro.

 

- Eu não queria mais jogar. Já tinha 33 anos. Mas o presidente do Flamengo me convenceu dizendo que o clube iria excursionar pela Espanha… Aí eu gostei! Também porque não se pode recusar um convite do Flamengo, né? Nem com 50 anos de idade dava para recusar. Foi uma das melhores decisões da minha vida. Nesse time eu ganhava mais bicho que salário!

 

Andrade e Tita foram outros que se salvaram na justa derrota rubro-negra. Zico fizera mais falta que as tantas agressões vistas na batalha campal permitida pela arbitragem. “Vai ter forra no domingo”, prometia Tita, deixando o campo. Não só na bola insinuava o meia-atacante. O Galo também respondia duro. Mas sabia o que enfrentaria. “Vai ser muito difícil segurar o empate no Maracanã”, admitia o craque Toninho Cerezo. “O Flamengo é um grande time”.

 

E seria ainda maior e melhor.

Cruzeiro 6 x 2 Santos – Taça Brasil 1966

por Mauro Beting em 28.out.2014 às 17:57h

O Mineirão tinha pouco mais de um ano. Aquele timaço que se formava de azul, também.

Mas São Paulo e Rio, imprensa e clubes, só enxergavam Maracanã e Pacaembu. E o Morumbi ainda por acabar. E, claro, a Vila Belmiro pentacampeã da Taça Brasil.

Com pinta de hexa contra aquela turma imberbe de BH. Já se sabia que, nas Gerais, não havia time melhor que o daqueles jovens nomes. Um deles até já tinha disputado a Copa. Aos 19 anos, Tostão era o meia-atacante genial que conseguira um lugar entre os 22 do Mundial na Inglaterra. Até gol marcou.

Mas a Seleção foi logo despachada. Bagunça na organização. Prepotência na formação do grupo. Má preparação física. Bagunça tática. Um horror.

Diferente do Cruzeiro. E, claro, do penta Santos. Que tinha bi mundiais pelo Brasil e pelo Peixe como os veteranos Gilmar, Mauro, Zito, Pepe. O futuro capitão do tri Carlos Alberto. Tinha o goleador Toninho Guerreiro, que merecia estar no grupo de 1970. Tinha Lima. Tinha Dorval. Como tinha gente boa o Santos.

E tinha Pelé. Como se precisasse.

Mas, naquele dia ensolarado, depois de muita chuva em BH, como foi necessário Pelé ao Santos contra a constelação do Cruzeiro.

O Trem Azul atropelou o Santos, com mais de 90 mil cruzeirenses ainda se ajeitando no concreto quando Evaldo lançou Dirceu Lopes e Zé Carlos, o lateral santista, no desespero, fez contra. Eram apenas 40 segundos de jogo. Já era o grande penta do Brasil.

O Santos tratou de se acalmar e aquietar o jogo. Pelé tentou jogar. Mas Piazza não deixou. Desarmou o Rei e iniciou a tabela entre Dirceu Lopes e Evaldo que daria no gol do ponta-direita Natal, numa bomba indefensável.

Quatro minutos em Minas. 2 a 0 Cruzeiro.

20 minutos. Três.

Dirceu Lopes, o meia-atacante rápido, insinuante e técnico, bateu de fora da área e fez 3 a 0, depois de roubar a bola de Oberdan, sambar pros dois lados, e acabar com os sonhos paulistas.

Três!

Ou melhor. Ou Cruzeiro 4 a 0.

Dirceu Lopes aproveitou o rebote de um bombardeio cruzeirense e fez mais um, aos 39. Cortou um rival, jogos do pé excelente para o ótimo, e finalizou de canhota.

É jeito. Não é força. É Zeiro. Que Cruzeiro forte!

Quatro. Que virou 5 a 0 no primeiro tempo. Dirceu e seus companheiro tanto apanharam que Evaldo sofreu o pênalti de Oberdan que Tostão converteu.

5 a 0 no primeiro tempo.

O Mineirão nunca havia visto nada igual. Poucos estádios do mundo viram aquele Santos sofrer assim. Cinco gols no primeiro tempo contra uma equipe campeoníssima mundial é coisa para acontecer a cada mil anos.

(Ou 48, como se viu na seminal da Copa do Mundo de 2014).

Pelé saiu com os dedos abertos mostrando que cinco eram os títulos nacionais santistas. Mas ele sentia que não seriam seis canecos.

Ou só poderia ser muito mais no placar.

Segundo tempo, o Santos pedindo o juízo final do juiz. E perdendo o juízo. Pelé e Procópio, eternos desafetos, foram expulsos, aos 32, quando o placar já estava fechado. O Rei entrou para rachar Piazza. Por sorte não acertou. Mas Procópio veio pra cima e, nos xingamentos, saíram os dois.

Toninho foi Guerreiro e fez dois gols em quatro minutos, em passes de Pelé e Dorval. Até que 5 a 2 aos 10 minutos era pouco pro penta. Mas não o suficiente para os insaciáveis cruzeirenses.

Dirceu Lopes fez o gol mais fácil do dia. Como se fosse fácil fazer um gol no Santos. Imagine seis. Pegou um rebote de Gilmar depois de nova bobeada de Oberdan e marcou de canhota.

Não é fácil. Mas se você escala Raul, Piazza, Zé Carlos, Dirceu Lopes, Tostão e Evaldo, tudo fica menos difícil.

De deixar prostrado o rival. E calado o próprio torcedor.

Quem esteve lá diz que o Mineirão estava quieto no intervalo. Nem o torcedor celeste acreditava nos 5 a 0 do time que comia e goleava quieto.

Mas ali ele via não o ocaso do Santos, que ainda ganharia muito mais até o final dos anos 60. Mas veria no Brasil uma nova constelação no céu. Estrelado como nunca se vira antes.

 

E se Garrincha chegasse hoje a General Severiano

por Mauro Beting em 28.out.2014 às 10:10h

Treino do Botafogo nesta terça-feira. Alguns diretores aparecem e ficam meio escondidos da imprensa e, principalmente, do elenco e comissão técnica.

- E aí, chefe. Tudo bem?
- Meu amigo, olha só. Só não estou pior que eu poderia ser aquela tal de Barbie Fitness.
- Noooossa. Ela conseguiu. Nem aquele cara da Veja faria pior.
- Acho que estudaram na mesma faculdade de Jornalismo…
- Eu até voto como ela. Mas não dá pra falar essas coisas. E ainda voltar pra se explicar e falar ainda pior…
- E depois a imprensa fica falando mal da gente… Ninguém deu bola pra baita vitória em Manaus! Quando vão falar bem de nós e mal deles?
- Chefe, mas tem uma coisa também. Fica difícil elogiar quando os jornalistas chegam ao treino e se deparam com umas coisas e uns caras que só no Botafogo mesmo… Olha só aquele coiso ali com o colete dos reservas! O que é isso? Pegadinha? Quem deixou os caras do Pânico entrarem aqui? Sacanagem de paulista!
- Quem? Só treina se for de graça ou daquele empresário nosso amigo. Aliás, já falei pra me avisarem dessas coisas. Tem que falar primeiro comigo!
- Aquele troço ali na ponta direita. Como é que pode? Parece personagem do Senhor dos Anéis! Ou vai ver que é sacanagem do programa do Mion!
- Calma que eu já vou saber o que é. Aqui ninguém chega de qualquer jeito é joga.
- Isso. Não é mais assim!
- Nunca foi! Falei para você não ficar falando assim!
- OK, chefe. Mas eu não acredito que o Mancini vai botar pra jogar esse cara. Ele é muito bonzinho. Não pode. Defender os jogadores em tudo eu até tolero. Mas quem disse que esse troll é jogador? Ponta direita?! Com aquele joelho todo torto? Como pode!
- Esse cara só joga se o empresário dele pagar para ele jogar!
- Quando eu falo que essa é a solução você diz que eu estou exagerando..
- Olha só. Ele pegou na bola e partiu pra cima do lateral e.. Meteu uma caneta.
(Silêncio)
- Queria ver ele fazendo isso no Nilton Santos.
- É…
- Nem em sonho!
- Caneta na Enciclopédia?
- Só se ele fosse de outro mundo!
- Jamais. Imagine se fosse o Rildo na lateral esquerda!
- Marinho Chagas então!
- Jamais!
(Chega um dos auxiliares técnicos. Mal abre a boca e os cartolas já querem saber quem é aquele ponta direita. Ou pior: o que é aquilo)
- De onde veio esse Curupira?
- Então, era isso que eu vinha falar. Tá aqui a ficha dele. É de Pau Grande.
- Hahahaha! Não quero saber. E o cara tem que ter um mesmo desse tamanho pra chegar aqui e vir jogar com a gente do nada. Quem trouxe ele? Qual o empresário?
- Isso não sei. Sei que tem 19 anos. Não teve base. Joga lá em Petrópolis.
- Sem base? Tô fora.
- Chefe, o Nilton Santos começou aqui com 22 anos..:
- Mas você acha que isso vai acontecer de novo? E com o Botafogo? Um cara que vem de Petrópolis com 19 anos e que é bom?
- Ué? O Jobson taí de novo na área. Por que não dar uma chance pra esse monstro aí?
- Mas esse vale a pena esperar e ter paciência! Jobson é Fogo!
- E como.
- agora imagina se eu ponho um cara tosco como esse em campo? Aí que os caras não me perdoam.
- Olha, patrão, o moleque parece bom mesmo. Meio maluco, mas é bom de bola.
- Olha lá. Deu mais uma finta pela direita. Agora parou na frente do lateral. O que ele quer? Vai levar porrada assim!
- Xiii. Zoou de novo. Limpou o lateral e parou de novo.
- Assim não pode! Muito irresponsável. Parece um aleijado e fica brincando em campo? Aqui o futebol é sério. Profissional. Não tem essa não. Fala lá pro Mancini tirar esse cara do treino. Aqui ele não vai jogar!!! Precisa respeitar os companheiros e nossa camisa. Aqui é um clube sério, com uma gestão profissional. Não tem espaço para amador. Aqui não é várzea!
- Chefe, a propósito. Precisamos acertar umas situações, umas paradas aí…
- Depois a gente fala disso. O Botafogo não é um circo de aberrações!

(Assim poderia ter sido o primeiro dia de Garrincha se ele tivesse nascido em 28 de outubro de 1995, e não de 1933.
Assim não pode ser o Botafogo de 2014).