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Luxemburgo, ex-Flamengo. Não ex-futebol

por Mauro Beting em 26.mai.2015 às 8:41h

Ele fez mais do que se imaginava ao salvar o Flamengo que pedia para cair no BR-14 e levá-lo a um seguro 10º lugar. Na Copa do Brasil, só caiu diante do campeão Atlético Mineiro.

No RJ-15, foi bem até ser eliminado pelo futuro campeão Vasco, na semifinal. Mal começou o BR-15 e começou muito mal, com apenas um ponto conquistado contra o líder Sport.

Não estava bem, fato. E, por isso, em comum desacordo com a direção do clube, não é mais o treinador do Flamengo.

Como em 1991, 1995, 2010 a 2012, 2014-15, ele rendeu menos que o esperado no clube do coração e do berço como atleta.

Será que ainda será o maior vencedor brasileiro entre os treinadores?

Não sei. Nem ele que sabe muito pode responder, até por pouco conquistar nos últimos anos pelo muito que pode ganhar pela capacidade, competência e fome de vencer tanto quanto conquistar tudo que tiver pela frente, e todos que tiver ao lado.

Ele não é mais o mesmo. Ninguém é comparável a si próprio 20 anos depois.

Daí a ser jubilado, aposentado compulsoriamente como muita gente quer, é longa distância.

Por princípio, eu não aposento ninguém.

Por respeito, e por admiração, ainda menos um tipo como Luxemburgo.

Posso até não o contratar para meu clube. Certamente não pagaria o que ele ainda cobra.

Mas é obrigação entender que ele ainda pode bastante. Ainda mais com o desolador panorama técnico do futebol brasileiro. Técnico em todas as acepções.

Não é só pela história dele. Também pela história do próprio futebol.

Tomando dois exemplos de dois grandes e saudosos treinadores:

Oswaldo Brandão tinha 18 anos de carreira vencedora quando, dirigindo o Botafogo de Ribeirão Preto, levou 11 do Santos, 8 dos gols de Pelé. Caiu. Logo foi contratado pelo Corinthians. Dias depois enfrentou Pelé e companhia ilimitada mais uma vez. Levou de 7 a 4.

Por esses dias os muy amigos o chamavam de 18. Dezoitinho. 11 mais 7…

Acontece.

Alguns já achavam que ele não era o mesmo.

E assim foi ser campeão na Argentina pelo Independiente, campeão paulista pelo São Paulo, bi brasileiro e bi paulista pela Segunda Academia do Palmeiras, novamente treinador do Brasil, até ser campeão paulista pelo Corinthians, em 1977. Encerrando 22 anos sem títulos alvinegros.

E ele era “velho”…

Como parecia, para muita gente, Telê Santana, quando chegou ao São Paulo, em 1990, depois de fracassar pelo Palmeiras que seguia na fila sem títulos desde 1976.

No primeiro campeonato ele foi vice brasileiro. E diziam que ele seguia pé-frio – por conta das derrotas brasileiras nas Copas de 1982 e 1986.

No Brasileiro seguinte, ele ganhou. Ainda era pé gelado para os corações glaciais.

Paulista. Libertadores, Mundial, Paulista, Libertadores, Mundial, Conmebol, e quase tudo mais conquistado no Morumbi mudaram um pouco o discurso em relação ao treinador que tinha 22 anos de carreira quando chegou pela segunda vez ao São Paulo.

Ele que era “ultrapassado” ultrapassou Joreca, Feola e todos os treinadores vencedores do São Paulo. Para não dizer de todos os clubes do Brasil.

Era o velho Telê. “Ultrapassado” Telê.

Não sei se Luxemburgo vai merecer entrar nessa lista em alguns anos.

Mas o que ele já fez nos últimos 26 anos o coloca entre todos esses técnicos em 120 anos de futebol no Brasil.

P.S.: Desde que treinou o Real Madrid, em 2005, e teve ótima pontuação contra o Barcelona que tinha Ronaldinho Gaúcho (melhor do mundo em 2004 e 2005), e acabaria campeão da Europa em 2006, Luxemburgo foi bicampeão paulista pelo Santos em 2006-07 (clube que não conquistava o estadual desde 1984), e foi semifinalista da Libertadores-07 e vice brasileiro em 2007.

Em 2008 conquistou o Paulista pelo Palmeiras (que não vencia desde 1996), e levou o clube à Libertadores. Foi demitido em 2009 no Brasileirão quando estava na zona de Libertadores.

No Santos, ainda em 2009, não fez grande coisa, a não ser segurar Neymar muitas vezes no banco. Em 2010, ganhou o Mineiro pelo Atlético, mas saiu com o time na zona de rebaixamento do BR-10. Salvaria o Flamengo do próprio rebaixamento ao chegar na Gávea, em 2010. Foi campeão invicto do RJ-11, mas não foi bem no BR-11. Caiu no começo de 2012, muito pelos problemas com Ronaldinho Gaúcho (como havia tido com Romário, em 1995).

No Grêmio, em 2012, levou o Tricolor à Libertadores e, mais uma vez, levou muita gente cara ao clube. O que também o levou pra fora de Porto Alegre, em 2013, pouco depois da eliminação nas oitavas da Libertadores. No Fluminense não trouxe ninguém. Mas saiu do clube na zona do rebaixamento.

Em 2014, fez o que fez no Flamengo. Não muito.

Mas não tão pouco como se detona o treinador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rodada 3 – É só o começo… Será?

por Mauro Beting em 25.mai.2015 às 13:52h

Você já ouviu e já leu – espero que não aqui… – que só está no começo o BR-15… E é só isso mesmo. Mas você já leu muito por aqui que o “campeonato é muito longo” é frase dita por 11 entre 10 rebaixados a cada campeonato.

Ainda não tem como saber se Sport e Goiás vão manter o ótimo nível inicial depois de três rodadas. Mas eu não imaginava esse começo consistente das equipes. Aliás, não apenas eu. Nem os torcedores imaginavam depois de um início ruim do rubro-negro, e um 2015 irregular do Goiás.

Do mesmo modo como Inter e Cruzeiro vão se recuperar, e vão jogar muito mais do que tem jogado.

É questão de tempo e de gols e de jogos.

Quanto a Sport e Goiás, não acho que repetirão o que aconteceu com o Criciúma em 2004: na primeira rodada do Brasileirão, venceu o Vasco, no Rio, por 1 a 0. Na segunda, empatou em casa com o São Paulo que estava na Libertadores. Na terceira rodada do BR-04, um baita empate por 2 a 2 com o então campeão brasileiro, o Cruzeiro, no Mineirão. Na quarta rodada, só pedreira, vitória em casa diante do Botafogo, por 1 a 0.

Um show até a quinta rodada, quando, no ABC, contra o São Caetano que havia acabado de ser campeão paulista, o time que estava na ponte do BR-04 perdeu feio por 5 a 0. E, desde então, perderia um lugar no G-4 e, ao final do Brasileirão, seria rebaixado, como o melhor entre os piores.

Não acho que será o caso de Sport e Goiás. Mas é o caso para todos os que lideram no começo de um campeonato muito difícil e completo.

Não tem ninguém tão ameaçado – ainda. E ninguém ainda contente.

 

 

 

 

 

O corintiano do aeroporto

por Mauro Beting em 22.mai.2015 às 14:37h

 

A história está contada nesta bela reportagem de María Martin, no El Pais:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/18/politica/1431970403_477260.html

Denis era adolescente quando cansou de brigar e apanhar da mãe e foi parar no aeroporto de Cumbica.

Dizem que faz 15 anos. Ele não sabe. Também por não saber ler. Só sabe ler as horas nos relógios digitais dos terminais onde vê o mundo sair e chegar. Embora onde ele mal saiba onde as pessoas vão ou vêm.

Como mal sabe como é São Paulo.

Ele dorme no aeroporto. Almoça arroz com feijão por ali. Vez e outra sobra um McLanche mais do que feliz no Mac. Toma banho por ali. As poucas coisas que tem são guardados por muitos funcionários que adoram o Denis.

Ou melhor:

O Corintiano – como ele é conhecido.

Não só por quase sempre andar com um casaco do Corinthians.

Mas, também, por quase sempre só falar do Timão que ele viu ganhar quase tudo nesse período. Até mesmo a indesejada Série B em 2008.

Isso ele sabe muito. Também por economizar o pouco que ganhava fazendo bicos para funcionários de Cumbica para conseguir comprar ingresso para ver o Corinthians dele no Pacaembu.

Não foram poucas vezes. Ele ia e voltava para dormir nas cadeiras do aeroporto como ainda faz todas as noites, com o surrado cobertor, e suada camisa alvinegra.

No Pacaembu ele ia.

Em Itaquera, que é próxima do aeroporto, ele ainda não conseguiu.

A Arena Corinthians é cara para o Corintiano de Cumbica. Quase tão cara como é o Allianz Parque para o palmeirense.

Para o apaixonado que tem onde dormir, o estádio, seja qual for, é a extensão do lar.

Para o Corintiano de Cumbica, o campo onde o Corinthians joga é o endereço mais certo que as cadeiras do terminal 2.

Se pedirem um comprovante de residência a Denis, ele vai dar o endereço da Arena Corinthians – ainda que ele não a conheça.

Não sei como será a vida dele daqui pra frente.

Mas sei que ele ainda vive não só pela solidariedade dos funcionários e amigos de Cumbica. Ele sobrevive por ser Corinthians.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coração corintiano do Zé

por Mauro Beting em 22.mai.2015 às 8:19h

José Costa é Zé como tantos, é Costa como muitos, é Corinthians como um bando.

Teve um câncer no cérebro em 2010. Não falava. Não enxergava. Não andava. Era tudo “não” para quem distribuiu chocolates na vida.

Podia até algumas vezes não ser um doce de pessoa. Mas ele era o doce. Vendia doce. Em espanhol, dava até para escrever que era 12. Como a Camisa da torcida do coração. E que coração. E que camisa.

Era tudo “não” para ele quando, em 2010, ainda teve infecção hospitalar. Teve embolia nos pulmões.

Teve quase tudo. Tinha menos de 0,5% de chances de sobreviver.

Desenganado? Engano nosso, erro dos médicos, acerto divino.

Em 4 de julho de 2012, menos de dois anos depois de ter menos de meio porcento de chance de sobreviver, estava tudo funcionando com seu José Costa. Principalmente o coração corintiano que bateu como nunca. Ou como sempre. Especialmente aquela voz que não sussurrava dois anos antes e que berrou a plenos e recuperados pulmões com o título que parecia tão impossível quanto a recuperação física dele. Sem nenhuma sequela. Com toda alegria pela Libertadores corintiana.

Quando Sheik fez 1 a 0 no Boca, no Pacaembu, seu Zé pôde celebrar com os filhos como o meu amigo Doloso. Quando Emerson que também é Sheik que também é Márcio que também foi o Zé que também foi todos os Corinthians fez o segundo gol, fazendo tudo mais fácil para quem era “sempre tudo mais difícil”, o pai do meu amigo teve mais uma prova de que nada está perdido quando se tem fé. Amor por um clube. Corinthians como time.

Naquela noite campeã, no 4 de julho da independência da América do Norte em 1776, e da conquista da América da Sul, em 2012, seu Zé fazia 84 anos. Em vez de velinhas, assoprou os gols do campeão invicto da Libertadores. Em vez de um bolo, ganhou duas bolas na meta do Boca.

Que presente ganhou seu Zé nos 84 anos. Que cereja no bolo seria no fim daquele ano o bi mundial, no Japão. Quando Guerrero e seu bando de São Jorge deu mais um motivo de alegria pro seu Zé que tanto sofrera nos 22 anos sem títulos. Que tanto esperara por um título nacional até o primeiro deles, em 1990. Que sabia, como poucos, o que era não acreditar mais e, depois, não acreditar como um dia pôde não acreditar.

Alguns disseram que o Homem não conseguiria pisar na lua. Quando pisou no satélite, acharam que era coisa de cinema. Muitos disseram que o Corinthians não faria a América. Que a Libertadores prenderia o coração corintiano para sempre. Mas o longa metragem que começou dia 4 e terminou em 5 de julho, trinta anos depois do Sarriá, sorriu para o corintiano. Quando Alessandro levantou o caneco, parecia coisa de cinema.

E foi. Em 3D. HD. D+. Foi obra de realismo fantástico para os fiéis de filmes em preto e branco não mais mudos – no máximo roucos. Um bando de loucos roucos pelo Brasil e pela América agora corintiana. Foi um filme de terror para infiéis multicoloridos. Os que não creem. Os que não sabem. Por vezes, nunca souberam.

Os infiéis podem já ter sido campeões. Bi. Tricampeões da América. Até podem não ter conquistado o continente. Muito menos o mundo. Mas torceram como nunca – ou como sempre – contra o sucesso do time de Tite. Um Timão com espírito de equipe. Um elenco com a alma do Corinthians.

Sócrates morreu no dia do penta brasileiro. Na noite da conquista da América, ele reviveu no calcanhar de Danilo para o gol de Emerson Sheik, o artilheiro dos jogos decisivos da Libertadores. Quando eram 23h13, o sonho marcou hora com a história. O segundo gol do Emerson que foi mais veloz que o Fittipaldi calou o Boca e liberou o berro dos maloqueiros não mais sofredores.

Acredite: campeão da Libertadores é o Corinthians. Não é ficção, não é o armagedon. É fato. É feito. É foda. É eles. Não “é nóis” que não sou deles. Sou dos tantos times que torceram contra e que perderam a piada pronta. Da imensa torcida que fez do Boca “o Brasil na Libertadores”. Como o próprio corintiano foi xeneize em 2000, 2001, 2003 e 2007. Porque o futebol é assim. É amar os seus e não gostar dos outros. Quando muitas vezes é preferir ver o outro perder a se ver vencedor. A desgraça alheia é mais saborosa que a própria fortuna.

É a graça do futebol. Esporte abençoado que não permitiu por 52 anos que um colosso como o Corinthians chegasse a uma decisão. Disputa maravilhosa que deixou tantas dores se transformarem na epopeia de Cássio, na romaria de Romarinho, na bola de Castán, Ralf, Paulinho e Danilo, nas histórias tão inverossímeis que parecem futebol. Parecem Corinthians.

Campeão invicto da Libertadores. Vencendo nas quartas o primeiro campeão sul-americano de clubes em 1948 – o Vasco. Vencendo nas semis o atual campeão continental – o Santos de Neymar. Vencendo na decisão o maior campeão deste século – o Boca de Riquelme. Não perdendo. Só vencendo. Só ganhando o que diziam que seria impossível. Que só aconteceria quando o mundo acabasse.

O planeta segue vivo, pulsando como o coração corintiano.  Coisa de outro mundo. Do lugar onde está cada corintiano. Olhando lá do espaço para a América e pensando com os botões da camisa preta e branca: “essa terra é nossa. Ali é Corinthians”.

Eles são de um bando louco por ti, América.

Esse é o texto que escrevi naquela madrugada no Pacaembu.

Esse é o texto que deixo pro seu Zé que nos deixou na virada de 21 para 22 de maio de 2015

Força, família.

Ele é mesmo um campeão.

 

 

River Plate 0 x 1 Cruzeiro

por Mauro Beting em 22.mai.2015 às 7:40h

O Cruzeiro começou em Núñez como se fosse o fim da América. Marcou a saída de bola, castigou a saúde portenha, suou sangue na frente. 

Não deu gol, mas deu gás pra segurar o natural crescimento do River, que se tocou, trocou bola, driblou, e foi acossando Fábio. 

Mas era Fábio. E voltou a ser Cruzeiro. Na segunda etapa, mais pressão platina, mais Cruzeiro se segurando até a estocada decisiva. 

Um lateral vadio, bola subido e caindo dividida e distraída, até uma sobra que Gabriel Xavier finalizou, a bola bateu no goleiro, e Marquinhos coroou mais uma partida taticamente irrepreensível, fisicamente inexcedível, tecnicamente precisa.

É o Marquinhos. Mas pode ser o Cruzeiro de Marcelo. Qualquer um. 

Mas Marquinhos é um tanto mais. 

No BR-08 foi revelação. Pelo Vitória anotou e assinou gols de gabarito  improvável para aquelas pernas de gambito. No Palmeiras e no Flamengo não rolou. Parecia não ter corpo. Parecia miragem o futebol de 2008. 

Voltou pro Vitória com gosto de derrota no Sudeste maravilha. Voltou em 2014 como revanche para Minas. 

Na boa, na muda, falou pela bola. Calou críticas e cavou lugar no time em 2015. Vai cevando o corpo e semeando a classificação contra um rival ainda vivo por ser River. 

Mas que vai ter de se superar como Marquinhos para ser semifinalista da Libertadores. 

Zé do Rádio

por Mauro Beting em 21.mai.2015 às 19:14h

Ele amava o Sport e o rádio.

E, por isso, quase que detestava tudo que não fosse Sport. Ou a favor do Sport.

Por isso exagerava. Por isso o coração transplantado não aguentou.

(Ou vai  ver que o coração não era rubro-negro…).

Zé do Rádio era uma figura não só na Ilha do Retiro, Recife e Pernambuco.

Era um dos mais famosos torcedores do Brasil.

Quem mais?

E, como quem o conheceu, e tive o prazer de fazê-lo antes de uma decisão do Sport, também o torcedor assumidamente mais “chato” do planeta.

Virou até Boneco de Olinda – e, não, mesmo pela paixão pelo rádio e pelo futebol, mesmo pela malice explícita, ele não era o Milton Neves pernambucano…

Não vai ter outro torcedor para virar o que foi o Zé. O cara que importunava até a medula o treinador adversário do Sport. Com o seu radião no ouvido e pescoço, um GE de 1961 com oito faixas, ele apoquentava os rivais cornetando o jogo e até a transmissão do rádio.

Era o torcedor por excelência. Sem compromisso com nada. Ou melhor: com tudo. Com o time dele. Com o Sport.

Era o esporte dele. Aumentar o volume do que vinha pelo éter e ele mesmo aumentar a chiadeira, o choro, a comoção, o grito de gol.

Zé morreu. Mas o rádio segue ligado.

Obrigado, seu mala.

Valeu.

Cruzeiro vive tempo de lutas – Por Anderson Olivieri

por Mauro Beting em 21.mai.2015 às 13:39h

ESCREVE ANDERSON OLIVIERI

A arte encanta, e a guerra vencida enobrece. É isso que revelam os 94 anos de conquistas e vitórias do nosso Cruzeiro. Pois, a bem da verdade, se há páginas que arrebatam pela beleza e magia – como as escritas em 1966, 1976, 1992, 2003, 2013 e 2014 -, há outras que criam mártires merecedores da glória da fulguração eterna no panteão dos heróis, como as grafadas a duras penas pelo Cruzeiro de 1987, 1991, 1996, 1997 e 2000.

Até aqui, não há poesia nem sinfonia no futebol do Cruzeiro de 2015. Isso já é cantado – ou reclamado, melhor dizendo – em verso e prosa pelo torcedor celeste. A mídia, sempre tão implacável com a Raposa, sobretudo a mineira, também sobe o tom na hora de bradar “cadê o futebol?”. Até dirigentes do clube, provavelmente preocupados com o que há de ser de nós, aliam-se ao discurso e dão declarações de que a bola ainda não está rolando redonda como nos anos anteriores. Querem arte.

Mas o Cruzeiro quer guerra. Pelo menos foi o que ficou claro na quarta-feira passada. No Mineirão, ergueu-se como um bramido a súplica de um grupo que abdica a fama de poetas ou maestros do futebol. A eles, basta a glória dos guerreiros dos gramados. Mais do que um mero “chuááá” da bola escorrendo pela rede de Rogério Ceni, o chute de Gabriel Xavier representou a rogação por alforria dos que não querem ser cobrados por futebol refinado, toque de bola envolvente, jogadas plásticas. Dos que abrem mão de entrar na história celeste como os artistas de 1966, 2003 e 2013/14. Eles escolheram ser como os valentes de 1997 e 2000. E ponto.

Não os cobremos mais, portanto, por espetáculos. Sejamos a voz que impulsiona o tiro fatal, como fomos com Elivélton em 97 e Geovanni em 2000.  Tudo bem que para o torcedor o triunfo sem sofrimento, aquele famoso “venceu com os pés nas costas”, é muito mais bem-vindo, e até mais saudável. Diminui, entre outros inconvenientes, o risco de arritmia cardíaca. Não se tem notícia, por exemplo, de cruzeirense que tenha partido para a vida eterna nas regiões celestiais durante os Brasileiros de 2003, 2013 e 2014. Foram três títulos conquistados como que na calmaria de uma pescaria, saboreadas na sobriedade de uma degustação de vinhos entre amigos. Mas, repito, há tempo de encantar e de lutar; tempo de arte e de guerra.

Vivemos tempos de peleja. O enredo do confronto contra o São Paulo é a prova viva disso. Os 90 minutos impecáveis da equipe destacam-se essencialmente pela postura combativa dos jogadores. Afora a jogada do gol, originada de uma enfiada de bola magistral de William, nenhuma beleza estonteante se viu. Foi pura entrega, transpiração pura. O que implicou em classificação dura. Mas honrada, bucólica, superlativa, daquelas que transformam, em frações de segundos, contestáveis profissionais em super-heróis. Vou ser redundante, porque todo cruzeirense já exprimiu isto nos últimos dias, mas que noite histórica aquela de 13 de maio!

Do passado para o presente. Hoje é noite de nova batalha. Mais uma dessa guerra complexa – em que guaranis derrubam “championsleaguers” – chamada Libertadores. Se um palpite posso arriscar, digo que é dia de repeteco. Um bravio Cruzeiro se apresentará nos campos portenhos, honrando heróis do passado que, vazios de refino, suaram, lutaram, pelejaram… E venceram. Não acredito que aquilo que se viu na última quarta-feira foi ato isolado, único, com início e fim em si mesmo. Minha fé é intensa de que a tônica, daqui para frente, será aquela, de guerra.

E, portanto, não os reneguemos. Porque bem-aventurados foram os dias em que Dirceu Lopes nos impressionou; Tostão nos arrebatou; Joãozinho nos alegrou; Alex nos maravilhou; Everton Ribeiro nos emocionou. Mas como há indescritível alegria na conquista inesperada resultada de peleja vencida.

As primeiras letras de uma nova página heroica já foram escritas há uma semana. Com seus respectivos heróis laureados inclusive, sendo Fábio o maior deles. Quem sabe em agosto, com caligrafia dourada, não os gravamos como mártires da nossa história? Espaço há em nosso panteão.

ESCREVEU ANDERSON OLIVIERI

Torcer e distorcer 

por Mauro Beting em 21.mai.2015 às 8:47h

Encontrei Edu Dracena, amigo de longa data, nos estúdios do Fox Sports. Falamos da fase corintiana, do que havia acontecido contra o Guaraní. Conheço o Edu desde a estreia pelo Bugre. Comentei aquele jogo pela Band, em 1999. O presidente Beto Zini queria que ele fosse chamado de Eduardo Luís. Não teve jeito e nem jogo. Virou Edu Dracena. E dos bons zagueiros que tivemos por aqui.

O papo foi curto. Tinha programa logo depois. E eu tinha de cumprimentar o outro convidado. Antes de abraçá-lo, fiz o que milhões gostariam de fazer: me atirei no chão, estiquei o braço esquerdo, e fiz que espalmei o pênalti decisivo contra o maior rival, na semifinal do SP-15.

Ainda pedi licença pro parceiro Edu Dracena, que só podia rir da cena bizarra do comentarista vestido de paletó e gravata estirado no corredor da emissora aos pés de Fernando Prass.

O colega Felipe Abreu tirou a foto que rendeu milhares de curtidas nas redes sociais.

Não era a intenção. Nem a zoeira. Era a apenas alegria de um torcedor como qualquer outro. Afinal é por isso que vim parar aqui. Embora não seja por isso que sou pago.

E é apenas uma celebração ao meu time. Ponto. Nada desrespeitosa. Apenas feliz. Assim foi entendida por muitos.

No Facebook, porém, um comentário respondi. De um conhecido inteligente e respeitoso:

“Pobre Palmeiras… Se apequenou mesmo. Antes comemorava títulos, agora comemora pênaltis defendidos e eliminações dos rivais. Dá pena ver uma camisa tão pesada comemorando migalhas…”

Respondi:

- Brincadeira não tem hora, dia, título, vitória, eliminação. Agora criamos o comentarista de brincadeira. Estamos mesmo perdidos. Ou você só torce pelo seu time quando ganha e quando é campeão? Ninguém mais pode brincar? E, quando alguém brinca, tem que discutir se é importante ou não? Se alguém não entende um clássico não vai entender o futebol. Se alguém desconsidera vitória sobre o rival não gosta de esporte, só de vitória. O Corinthians quase parou São Paulo quando acabou com o tabu sem vitórias contra Pelé, em 1968… Uma das maiores vitórias alvinegras foi colocar 70 mil corintianos no Maracanã, em 1976. Isso é “migalha”? Não. É futebol. Em 2000, o Palmeiras também não ganhou a Libertadores, e é inesquecível o pênalti de Marcelinho. Em 1971, uma das maiores vitórias corintianas sobre o Palmeiras foi a virada de 4 a 3 no Paulista. E não  ganhou nada, e nem o vice. Pro Juca Kfouri é a maior vitória corintiana sobre o rival. E daí? Ficou menos Timão por isso? Ficou menos Verdão por aquilo? Não. É futebol. É muito mais. ”

É isso. E nisso concordamos os dois.

Futebol é mais que resultado. E os resultados do Palmeiras têm sido pouco futebol e muito pouco Palmeiras.

Nisso todos concordamos.

Assumidamente ou não.

Aqui e em qualquer lugar não quero doutrinar ninguém a respeito de como torcer.  Nem quero ser patrulhado ou partilhado por isso.

Quero só aproveitar o que há de melhor no esporte e na vida: a brincadeira sadia. Aturar a zoeira na boa. Gozar o amigo, e somente o amigo, na melhor.

Respeitar o rival sempre. E não ficar medindo alegria dos outros. Cada um sabe os motivos de ser feliz. Ou, às vezes, não sabemos. Apenas somos. E assim é ainda melhor.

Santa Fé 1 x 0 Internacional

por Mauro Beting em 20.mai.2015 às 23:52h

 

Classe de 2010

O Inter bicampeão da América não parecia capaz de ser mais uma vez campeão da Libertadores no início da campanha em 2010. Nem na fase de grupos. Ainda que tenha passado invicto, não enfrentou nenhum rival de qualidade, nem mesmo de história na competição. Deportivo Quito, Cerro do Uruguai, e Emelec (laterna) não inspiraram cuidados ao time de Jorge Fossati que, também, não causava suspiros no colorado.

Nas oitavas-de-final, o Banfield do jovem James Rodríguez abriu os trabalhos vencendo por 3 a 1, na Argentina. Na volta, no Beira-Rio, Alecsandro e Walter fizeram os gols gaúchos. Somado ao golaço do lateral Kleber, na ida, em Buenos Aires, o gol geográfico, o gol qualificado, classificou o Inter. Mas não encheu de esperanças o torcedor.

Nas quartas, Sorondo fez o gol da vitória no Beira-Rio contra o então campeão Estudiantes de La Plata. Na volta, o time argentino fazia a farra e a festa na vitória por 2 a 0 até levar no último minuto o gol de Giuliano. Mais um gol fora que valeu tudo para o Inter.

Só não conseguiu garantir o emprego do treinador uruguaio. Durante a Copa de 2010, Celso Roth foi anunciado como substituto. A corneta soou forte no Beira-Rio e nas tribunas de imprensa. Como se fosse um Diego Aguirre ao chegar ao clube em 2015… Mas o Inter e o treinador se superaram depois do Mundial. Venceram o São Paulo vice de 2006 com gol de Giuliano na ida. Na volta, um gol de Alecsandro, no Morumbi, mais uma vez calou o Tricolor paulista que venceria por 2 a 1. Mas perderia a vaga pelo gol tomado em casa.

Inter na final. E já garantido no Mundial pela classificação do mexicano Chivas. Faltava garantir mais um título. O que veio em cinco minutos de virada no México, com gols de Giuliano e Bolívar. Um futuro gremista e um filho de ex-gremista.

O título estava nos pés colorados. Nem o gol inicial dos mexicanos em Porto Alegre parecia capaz de tirar a festa que o predestinado Sobis empatou, que a esperança Leandro Damião virou, e Giuliano fechou a conta que nem o tardio gol rival estragaria.

Era Roth campeão da América. Inter bicampeão. Pavimentando e inspirando a campanha de 2015. Time que começou a pegar no breu quando Nilmar voltou a decidir. Quando as tantas trocas de Aguirre começaram a dar tão certo quanto os lances e tiros de Valdivia. E as defesas de Alisson. E os gols impressionantes perdidos pelos colombianos – como o desperdiçado por Nilmar, aos 34 finais. Tão fundamentais quanto as traves do El Campín na segunda etapa em que o Santa Fé cresceu, chegou nas bolas paradas, e fez o merecido gol com o ótimo lateral Mosquera, na única desatenção de Juan, na bateria antiaérea montada por Aguirre no fim de jogo – e de gás, também, esvaído na altitude.

Cabe ao Inter, agora, fazer o que a história recente tem determinado à camisa vermelha.

Ricardo Drubscky, ex-Fluminense

por Mauro Beting em 20.mai.2015 às 13:24h

Cinco vitórias e três derrotas.

Nenhum empate em dois meses nas Laranjeiras, substituindo o não menos competente Cristovão Borges, que não conseguiu bons resultados e bom futebol com um elenco limitado e que perdeu gente importante com a saída da Unimed do clube.

Não era fácil a tarefa de Ricardo. E ficou mais difícil com lesões, com algumas escolhas e mexidas infelizes dele, e impaciência característica dos cartolas, e com a impertinência com gente que é, digamos, “teórica” como o professor.

Não deu.

E não sei quem vai dar no Fluminense.