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O último gol de Osmar Santos

por Mauro Beting em 18.dez.2014 às 18:00h

- É bi do Brasil!!! Palmeiras é biiiiiiii…!!!

Velloso deu um chutão pra frente em direção à meta do tobogã. O árbitro Marcio Rezende de Freitas encerrou ali o jogo. Palmeiras 1 x 1 Corinthians. 18 de de dezembro de 1994, no Pacaembu. Finalíssima do Brasileirão. Marques abriu o placar logo no início, Rivaldo empatou, na narração da Rádio Globo que você pode acompanhar abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=TQX7waco5h8&src_vid=lkViK1lg_kg&feature=iv&annotation_id=annotation_446920

- É bi do Brasil!!!

Foi a última frase com bola rolando do Pai da Matéria.

A voz que dez anos antes embalava o grito brasileiro por Diretas-Já; a voz que 17 anos antes daquele dezembro de 1994 vibrara com o fim do jejum corintiano, em outubro de 1977, durante o jugo da ditadura militar; o Garotinho que, 20 anos antes, narrara o gol importante de Ronaldo no Dérbi – o do Palmeiras 1 x 0 Corinthians, no jogo decisivo do SP-74.

Eu estava com o saudoso Enio Rodrigues a alguns metros de Osmar. Eu comentava pela Rádio Gazeta. Minutos antes, começara a encaminhar a minha contratação pelo Sportv, onde estrearia um mês depois como comentarista, ao lado do saudoso Doutor Sócrates e de Carlos Fernando, na narração.

Não sabia ainda se eu acertaria com o Sportv naquele fim de tarde de 1994.

Ninguém sabia que uma manobra desastrada numa estrada vicinal, três dias depois, faria que um caminhão fosse atingido pelo carro de Osmar.

Ele nunca mais narrou.

Mas ele continua vivíssimo como sempre foi um dos maiores comunicadores do Brasil.

Uma história que, junto com o filho de Osmar, ainda em breve colocaremos em livro.

Uma história que não tem como descrever.

Osmar nunca mais pôde narrar. O Garrincha do rádio segue há 20 anos vencendo a limitação com a inteligência, o carisma, o humor, o talento.

Tudo aquilo que só um locutor que narra de Pelé a Ronaldo poderia fazer.

Um mito que nunca narrou uma defesa de São Marcos, uma ginga de Ronaldinho Gaúcho, um drible de Neymar, e é reverenciado por todos eles, e por todos os ouvintes órfãos da genialidade que ripa na chulipa.

Estou atrasado com o livro, por conta de outros projetos.

Mas quando ele estiver pronto, e logo estará, a satisfação de fazê-lo será a mesma de ver, no SP-15, a bola que rola com o nome de Gorduchinha.

Sacada genial da Penalty, da família querida de Osmar e da turma da TK-10.

Tive a honra de escrever algumas linhas na apresentação da bola este ano.

Hoje, confesso, adoraria ter mais inspiração para falar de Osmar.

Mas é que quando lembro aquela final do BR-94, aquele Palmeiras que se despedia de Evair, Sampaio e Zinho, negociados com o Japão, e Luxemburgo, acertado com o Flamengo para 1995, me dá a nostalgia e melancolia que tomava conta da noite que chegava no Pacaembu.

A gente sabia que a primeira Via Láctea da Parmalat estava acabando naquele 18 de dezembro de 1994.

Só não sabíamos que Luxa voltaria tão vem em 1996. Que Sampaio, Evair e Zinho voltariam ainda tão campeões depois pelo Verdão.

Eles voltaram.

O Palmeiras, nem sempre.

Mas o meu clube, ainda que não seja mais aquele, ainda é Palmeiras.

O Osmar não narrou mais.

Mas ele ainda é o Osmar que tantos admiram e veneram.

Um craque.

O que ele fez é eterno. O que ele ainda faz é para sempre.

 

P.S:

(O texto, publicado em março deste ano, é este:

 

Ripa na chulipa!

(Ou é xulipa. E que raios é chulipa?)

Não sei. Só sei que quem sabia era o Pai da Matéria. O Garotinho. O locutor das Diretas-Já. A voz que deu graça ao grito por democracia. O cara que revolucionou o rádio. A mente de craque que antevia as jogadas. O artista que bota agora nas telas o que pintou nos gramados como nenhum outro.

Ele é o Mané Garrincha do rádio. Osmar é o gênio da transmissão esportiva. Apresentador de TV e de rádio com a mesma categoria. Improviso de primeira classe. Criatividade de Pelé. Ninguém fez antes. Ninguém fará igual.

Osmar Santos. São Paulo. Marília. Palmeiras. Corinthians. Flamengo. Vasco. Grêmio. Internacional. Cruzeiro. Atlético. O time que for era mais equipe com Osmar. O gol que fosse era mais bonito com o Garotinho. A canelada era a pintura a óleo que ele agora faz.

Booooom!

Ótimo, Garotinho!

Ele é a mesma criança que fez da latinha a arma para virar o jogo, o rádio, até o Brasil que era fechado quando ele abria o microfone. E ficava mais aberto quando ele abria a mente privilegiada, o coração aberto para todas as cores e credos. Osmar botava poesia em cada lance. Humor em cada jogada. Amor pelo que fazia como ninguém. Ninguém mesmo.

O jogo do Osmar era outro. Podia até ser outro esporte mesmo. Era uma festa. Uma farra. Até quando a bola subia e sumia. Até quando o bagre tomava o lugar do craque. Ele brincava. Sacaneava. Zoava. E fazia as derrotas menos doídas. E narrava as vitórias mais gostosas.

Foi pela voz dele que, uma noite, eu ouvi meu nome “Mauro Alexandre” falado na Rádio Jovem Pan lamentando que “quase, quase” o meu Verdão chegava lá.

Foi pela voz dele, numa noite de sexta-feira, em casa, que ele disse que o Palmeiras ganharia do São Paulo, no dia seguinte. Perdemos por 3 a 1. Chorei pela derrota e eliminação no turno do Paulistão de 1977. E, também, pelo fato de o Osmar ter errado o que parecia certo. Ainda mais certo na voz dele.

Aprendi então que a voz dele podia errar um vaticínio. Como quis o destino que a voz dele no rádio se calasse em 1994. Mas não aqui dentro. A voz do Osmar sempre vai ter vez para todos. Vai sempre calar fundo em todos nós.

Por isso a Gorduchinha vai rolar bonita agora em vários campos do Brasil.

A Penalty abraçou a ideia e vai lançar um produto com a beleza que Osmar contava e encantava. Com a paixão com que ele narrou histórias que o futebol do Brasil e o Brasil do futebol apresentaram.

Gorduchinha Já!

Osmar sempre!

René Simões botafoguense

por Mauro Beting em 16.dez.2014 às 18:46h

Dos mais sérios e legais caras que conheci em 24 anos de jornalismo esportivo e 48 de vida.

Um professor que sabe se comunicar e que adora aprender.

Mas vai ser difícil ensinar no Botafogo que precisa se reestruturar como clube.

Já tem uma sinal positivo da possibilidade de volta ao Ato Trabalhista. Tem como reiniciar o pagamento das dívidas. Quanto ao time, ainda vai demorar. E não será em 2015.

Mas tem luz no fim do túnel. Que não seja solitária.

René é bom nome para começar a fazer o clube pensar. E repensar muitas coisas.

 

Oswaldo palmeirense

por Mauro Beting em 16.dez.2014 às 14:16h

Só ele dirigiu os quatro grandes cariocas e, agora, os quatro paulistas.

Não trabalhou no Rio Grande do Sul e, em Minas, discreta passagem pelo Cruzeiro.

Rara trajetória para um profissional que tem apenas 15 anos como treinador principal – e um Mundial de Clubes na galeria com menos de um ano na função.

Gosta de times ofensivos. Sabe trabalhar revelações. Vai da plácida calma de suas palavras às mais inesperadas manifestações contra cobranças.

Fala bem, e pouco. Quando fala mais alto, pode até perder a compostura.

O Palmeiras é meio que tudo isso também – a não ser trabalhar com novos nomes, que Osvaldo terá bastante no elenco.

Se vai dar certo, porém, é outra história que o clube não tem sabido fazer.

Os nomes já certos e os que interessam são de nível acima dos últimos anos de nomes e números muito abaixo da média.

Mas ainda é tudo projeto. Planejamento que deve ser bom como o que Alexandre Mattos muito bem fez no Cruzeiro, e poderá repetir no Palmeiras em 2015. Até por dificilmente o Verdão errar tanto no ano que vem como errou nos últimos seis anos.

 

 

Doriva vascaíno

por Mauro Beting em 16.dez.2014 às 13:06h

Ele salvou o Ituano do rebaixamento nos últimos cinco minutos de carreira de Juninho Paulista, que um ano antes comprara o clube onde começara a carreira.

Foi em 2010. Nos últimos quatro jogos da primeira fase do Paulista de 2013, Doriva chegou para tentar salvar o clube do rebaixamento. E conseguiu o feito nos últimos segundos do jogo contra o Palmeiras.

Em 2014, com apenas três remanescentes do elenco quase rebaixado em 2013, Doriva tinha a única intenção de evitar a queda.

Eliminou o Corinthians na primeira fase, quando venceu o São Paulo no Morumbi. Superou o Palmeiras na semifinal. Ganhou nos pênaltis o título de 2014. sobre o Santos.

Não teve tempo no Furacão.

Se Eurico deixar trabalhar em São Januário, pode fazer um time compacto. Talvez competitivo.

Desde que consiga driblar as dificuldades financeiras e institucionais do Vasco.

Ele sabe como é jogar em time grande. Foi São Paulo, Galo e Seleção na carreira de volante voluntarioso.

Se será sucesso em São Januário não se sabe.

Como ainda menos se esperava o que ele fez em 2014. E mesmo 2013 e 2010 em Itu.

São Paulo Futebol Clube, 79 anos

por Mauro Beting em 16.dez.2014 às 11:59h

 

Uma reunião na rua 11 de Agosto refundou em 16 de dezembro de 1935 (Páscoa Tricolor) o clube que nasceu em 25 de janeiro de 1930 (Natal São-Paulino). É mesmo o Clube da Fé.

Parece meio difícil de entender. Mas parece próprio do futebol brasileiro. Tão brasileiro quanto é paulistano o São Paulo Futebol Clube: filho da fusão do futebol do C.A. Paulistano com a A.A. das Palmeiras. SPFC que herdou o DNA dos troféus do maior campeão do amadorismo paulista (1902-1932) – o Paulistano do Jardim América.

Tropa tricolor da elite que teve de cavar espaços no gramado e nos gabinetes contra Corinthians e Palestra-Palmeiras até conquistar o primeiro título desde o debut, em 1931. Aquele caneco da “moeda que caiu em pé” em 1943. Para não mais cair desde então.

Foi assim com a Máquina tricolor de Leônidas nos anos 1940. Não foi tanto nos anos 1950 de Canhoteiro, e não foi nada enquanto se construiu e se finalizou o Morumbi, entre 1957 e 1970. Quando o anel superior foi fechado no estádio nos últimos anos de Dias, começou um arco de conquistas sem comparação. Bi paulista em 1970-71 contra Santos de Pelé, Palmeiras de Da Guia e Corinthians de Rivellino. Vice brasileiro em 1971 e 1973. Vice na primeira Libertadores em 1974. Grande campeão paulista em 1975, brasileiro em 1977. Bi paulista em 1980-81 (e vice nacional em 1981).

Campeão paulista com o Muller Menudo de Cilinho em 1985 e 1987. Bi brasileiro em 1986 com Careca. Campeão paulista em 1989 já com Raí. Não caiu no SP-90. Mas teve vantagens regulamentares em 1991 e foi campeão paulista no mesmo ano em que foi tricampeão brasileiro. Com a base que seria campeã da Libertadores em 1992 e campeã do mundo no meio das finais que deram no bi paulista.

Bi da Libertadores e do Mundo, em 1993, com uma Supercopa no meio do caminho. Vice da Libertadores em 1994 e campeão da Conmebol com os reservas dos reservas no Expressinho de Muricy. No time de Ceni. Na última conquista da Era Telê. Um vencedor como Feola, outro mítico campeão pelo Tricolor.

Sem Telê, sem o Morumbi sendo reforçado nas estruturas entre 1995 e 1996, o time sentiu. Em 1998, Raí voltou para ser campeão paulista no jogo final. Em 2000, Rogério fez o gol do título contra o Santos. Se a Copa do Brasil escapou, o Rio-São Paulo enfim foi conquistado, em 2001, na estreia de Kaká.

Em 2002, o Supercampeonato paulista era mais nome que importância. Bateu na trave na Sul-Americana e no Brasileiro de 2003. A volta para a Libertadores e para o tri em 2004 terminou na última volta do ponteiro em Manizales. A própria torcida chamava Luís Fabiano, Rogério e companhia de “pipoqueiros” do tetracolor: vermelho, preto e branco. E “amarelo”. (Só se fosse da cor do ouro do título paulista de 2005. Do tri da Libertadores. Do tri mundial no primeiro campeonato unificado pela Fifa).

Faltava ainda um tri de fato. E veio em 2008.

Tri brasileiro. Hexa brasileiro.

6-3-3!

Desde então, uma Copa Sul-Americana, em 2012. Pouco pelo tudo que é o o vice-campeão brasileiro em 2014.

Não vai ter Kaká em 2015. Ainda terá o craque-bandeira Ceni. Continua Muricy e o seu trabalho. Tem time. Tem elenco. Tem base. Tem torcida – cada vez mais. Tem estádio que precisa ser reformado – cada vez mais. Tem dívidas que precisam ser contornadas e egos que necessitam ser domados na direção.

Mas para um clube que precisou ser refundado, pelos problemas e dívidas acumuladas entre 1930 a 1935, e que quase não conseguiu se manter nos primeiros anos da refundação, os desafios de 2015 são fáceis de serem vencidos quando se tem fé no clube.

Não por acaso, o Clube da Fé.

Não é acaso que não haja desde 1935 um grande com tamanha média de conquistas como o São Paulo.

Um clube que muitos rivais não gostam – e com muita emoção e razão e também raiva.

Um clube que faz questão de ser “o mais querido” pelos são-paulinos, e não pelos adversários – muitas vezes inimigos.

Um clube diferente.

Um clube sem igual.

Pode não gostar. Pode até detestar. Mas tem de respeitar o time que mais pontos fez na história do Brasileirão. SPFC que não precisa de data redonda para celebrar. Até por ter nascido duas vezes. E ter feito quem é tricolor desde o berço um campeão.

 

Bi Mundial. Tite. Neto. BR-90

por Mauro Beting em 16.dez.2014 às 11:08h

Cássio. Cássio. Cássio. E mais Cássio. Funcionou como um relógio em Yokohama. Sem trocadilho. Foi uma muralha do Japão. Com trocadilho.

Chicão. Paulinho. Jorge Henrique. Paulinho. Danilo. Cahill do Chelsea. Guerrero corintiano. Gol. 1 a 0. Corinthians. Campeão. Bicampeão do mundo.

Para não se contestar mais 2000. Ou pelo menos menos… Para calar o grande bloco dos antis natos que diziam “nunca serão”.

E foram Libertadores. Invictos.

E foram pro Japão e tremeram o Estádio Internacional de Yokohama como haviam cantando o mantra no Maracanã de 2000. O do poderoso Timão mundial.

E agora volta Tite para o Parque São Jorge. Ou Itaquera que começava a ser construída há dois anos. Ou o Corinthians que voltava campeão do outro lado do mundo que era alvinegro de novo.

2012 teve o gol de Guerrero que não teve na final em 2000 no Rio. Teve as defesas de Cássio que Dida precisou fazer apenas na fase anterior contra o Real Madrid no Morumbi.

Não importa se 2012 foi mais que 2000 e que ainda tenha gente e outras mentes que discutem se é de verão a versão oficial de 2000.

Não importa.

O que vale é que há dois anos o time que caíra cinco anos antes voltara com tudo. Com todos os Corinthians. O clube perdido em 2007 se achara a partir de 2008 e reencontrava vários caminhos para um caminhão de conquistas.

Não foi só o fenômeno Ronaldo. Foi esse fenomenal corintiano que não tolera um Tolima e quer incendiar o CT. Foi esse turbilhão alvinegro que depois esquece o fiasco e aquece o clube e quem o veste com o fogo todo-poderoso que leva à conquista do país. Da América. E a reconquista do planeta.

Apenas cinco anos depois de rebaixado pra segunda divisão nacional. Ninguém fez nada parecido. Nem o hoje aniversariante São Paulo, que não foi efetivamente “rebaixado” no Estadual de 1990.

Só o Corinthians sai do quase nada para o quase tudo.

Também por ser dos raros que fazem do nada algo. Ou mesmo se contenta e se Corinthians só por ser Corinthians Logo, contente.

E ainda mais com Tite.

É provável que não repita 2012.

Mas e dai? Poucos podem repetir uma campanha como aquela.

Ou melhor: muitos.

Eles.

Vocês, corintianos.

Parabéns pelo Tite, hoje.

Parabéns pelos dois anos, sempre.

E, eternamente dentro dos vossos corações, parabéns pelos 24 anos do Brasileiro de 1990.

O título de Neto e dos filhos da Fiel que abriu as portas da Zona Leste para o Brasil e para o mundo.

11 de dezembro de 1983 – A Terra é azul

por Mauro Beting em 11.dez.2014 às 15:13h

 

 

 

Renato. Mais que Renato Portaluppi ou Renato Gaúcho, o Renato do Grêmio. FOTO: http://www.futebolartpaper.com.br/2012/04/renato-gaucho-gremio-1983.html

 

 

 

O jogo começou em Porto Alegre no primeiro minuto de 11 de dezembro de 1983. Um minuto de silêncio foi prestado antes. Um dia de angústia de um minuto a outro. Não é figura de linguagem ou falta de fôlego. É fato.

 

Meio-dia, horário de Tóquio, era meia-noite de Brasília. Zero hora no Rio Grande do Sul. ZH no prelo esperando para manchetar que, 120 minutos depois, a “Terra é Azul”.

A ansiedade durou de 10 a 11 de dezembro da tarde-noite-madrugada que dura uma vida desde então. Contra um adversário da Alemanha da origem do Grêmio. Contra um rival que prioritariamente é azul. Mas que estava no estádio Nacional de Tóquio de camisa branca e calções vermelhos. Justo contra quem.

Contra 0 ex-lateral Espinosa no banco. Com o ex-colorado Mario Sergio contratado para aquele jogo. Com PC Caju também armando para a final do Mundial.

Ninguém queria Mario no Grêmio. Ninguém queria PC no time.

“Pistoleiros de aluguel”?

Craques.

Mas que não teriam sido campeões do mundo – como PC Show havia sido em 1970 pelo melhor do Brasil – se não fosse um Renato que o Brasil chama de Gaúcho e o Rio Grande do Sul de Portaluppi.

Mas que então era só Renato. Há 31 anos é o mundo tricolor.

O Hamburgo pressionava a bola que pipocava na área gremista no gramado castigado pelo inverno japonês. De León, o imenso capitão uruguaio, despachou do jeito que veio. China, ali pertinho, no Japão, cabeceou para trás antes que a Alemanha pudesse dar mais uma blitz. Subiu tudo o volante até tocar para trás, na coxa do lateral Paulo Roberto. Ele dominou e já deu um bico pra frente, como se estivesse acossado em Pelotas, chargeado em Caxias. Como se estivesse em alguma cancha gaúcha.

Era o que dava para fazer. Tinha de tirar a bola dali. E tinha que ter um peito como o de PC para amaciar a jaca que chegou. Tinha de ter o pé direito dele para achar no contragolpe o jovem camisa sete tricolor.

A bela meia azulada estava como sempre pouco acima do tornozelo no uniforme do camisa sete. A panturrilha, as varizes, as caneleiras que não eram obrigatórias, tudo explica o jeito de desleixo de Renato. O que não se podia explicar no Hamburgo era o espaço que ele teve para partir desde o meio-campo.

Ele vai que vai e não vai com a bola. Ele então vai. Passa pelo marcador. Pode cruzar para o 9 Tarciso, que tantas vezes havia sido o 7 tricolor. Mas ela prefere cortar para dentro. Era a fome. Era o forte. Quase foi o chão. Perdeu o equilíbrio no gramado fofo. Quase ficou estatelado. Mas o caro é estrelado.

Ele seguiu em frente, foi pra cima, passou como um panzer pelo zagueiro, e ficou com a bola próxima ao pé ótimo, o direito.

Tarciso ainda estava na área, como centroavante que estava em campo. Tinha um zagueiro sobre ele. Não era o caso de cruzamento.

Como talvez não fosse o momento de Renato arriscar direto o chute que passou entre a perna esquerda do goleiro do Hamburgo e a trave esquerda.

Se Stein defende, e era bola defensável, talvez Tarciso reclamasse. Mario e PC, mais ainda. O tricolor pelo Brasil e pelo mundo que ainda estava empatado, também.

Mas era Renato. Foi Grêmio.

1 a 0, aos 37 minutos.

Renato distribuiu beijos na celebração e deu um pescoção em Espinosa, que fumava o milésimo cigarro enquanto era estrangulado pelo amigo.

Schroeder empatou, aos 40 do segundo tempo.

Prorrogação. Tudo igual. Mesmo.

Três minutos. O volante Bonamigo estava em campo. O atacante Caio também. A bola chegou a ele, na ponta esquerda, vinda de De León, naqueles bate-rebates carambolas que, quase sempre, acabam nos pés do Grêmio – desde então, ao menos.

O Grêmio vencera o BR-81. Vice-campeão nacional perdendo apenas para o imenso Flamengo, em 1982. Por isso disputara e vencera a Libertadores de 1983. Mudando o status no Brasil e na América. Era preciso respeitar ainda mais aquele clube gaúcho. Não era só o Inter poderoso tri brasileiro nos anos 1970.

Também tinha o Grêmio, que não era favorito, e venceu o Brasileiro de 1981.

Não era favorito, e ganhou a Libertadores de 1983.

No Mundial era uma incógnita. Mas havia Renato para decifrar o enigma, a esfinge, os inimigos, os ingratos.

Renato foi o Grêmio.

Caio havia roubado bonito a bola do rival e a perdera de modo bisonho. Mas ela voltou a ele, fora de posição. Caio a tomou pela esquerda e buscou Tarciso, que não conseguiu cabecear direita a bola que acabou desviada pela zaga alemã justo no pé bom de Renato.

O ponta estava de lado para a meta. Tinha de cortar para a canhota. Foi o que fez até o tiro seco de esquerda, no contrapé de Stein.

2 a 1. Três minutos da prorrogação. 93 minutos oficiais.

Grêmio 2 x 1 Mundo. Hamburgo. Inter. Brasil. Todos.

No apito final, Renato ajoelhou, colocou as mãos no rosto, e chorou.

Demorou para que algum gremista celebrasse junto com o autor da façanha. O primeiro a se aproximar de Renato foi um dos rivais que tanto tentaram anulá-lo em campo. Só conseguiram, no final, trocar de camisa com o 7 tricolor.

Quando todo o gremista gostaria de trocar de lugar com o alemão para poder abraçar e agradecer.

Renato fizera o Grêmio campeão do mundo.

Renato ainda faz de todo dia um pouco o 11 de dezembro gremista.

Ele não jogou pelos 11. Mas fez o que poucos na história do Grêmio e do futebol conseguiram.

Ele foi o nome do campeão mundial de 1983.

Ele é o ídolo em 111 anos de Grêmio.

O 11 de dezembro é o que é pelo 7 do Grêmio. Renato. Não é Renato Portaluppi e nem Renato Gaúcho.

É Renato do Grêmio.

Perguntem em Hamburgo, Tóquio ou na Azenha tricolor.

É Renato do Grêmio.

É neste dia, 31 anos depois, que até quem não é Grêmio sabe que, naquela madrugada, adoraria ter sido um pouco Renato. Um muito Grêmio.

Vasco 2015

por Mauro Beting em 11.dez.2014 às 11:27h

Marquinhos Santos é mais um bom treinador que pode fazer coisas boas se derem a ele o que não se dá em São Januário e em nenhuma terra ou campo das terras de Santa Cruz.

Tempo.

Aquilo que um dia já foi dinheiro. E, por tabela, elenco. E, claro, também paciência.

Algo que Joel não teve no Vasco. Dono de pífia campanha na B, como deve ter dito meu caro xará e colega da ESPN.

Será sempre pouco um gigante da Colina não vencer uma segunda divisão. E nem vice ser. E, não fosse a treta com o América Mineiro, seria ainda pior.

Poderia ter feito mais em São Januário o venerando ex-zagueiro tosco que já ganhou Brasileiro, Mercosul e estadual no Vasco?

Difícil. Não por ele, que sempre será “ultrapassado” e “boleirão” para nós, reles mortais ou teóricos. Mas pelo pouco de time e de jogadores que tinha.

Milagres, só em propaganda de xampu.

Respeito sempre Joel. Sempre.

Mas é preciso muito mais para o Vasco.

Saúde, Fluminense

por Mauro Beting em 10.dez.2014 às 16:41h

Depois de Palmeiras-Parmalat, Fluminense-Unimed foi a maior parceria do futebol brasileiro.

Em anos, não se discute. Foram 15.

Em títulos, pegou um clube na C e levou a dois títulos da série A. Uma Copa do Brasil. Um vice de Libertadores.

Estaduais foram menos que os esperados – três.

Mas o resultado final é excelente.

Fred, Conca, Deco, Thiago Neves, Washington, Dodô, Diego Cavalieri, Thiago Silva, Wellington Nen, Emerson Sheik, Roger, Cícero, Gabriel, Arouca, Marcelo, Carlos Alberto, Romário, Muricy Ramalho, Abel Braga  são alguns que só chegaram às Laranjeiras ou só permaneceram por bom tempo no clube por conta do dinheiro injetado pelo torcedor-patrocinador-parceiro.

Não é o melhor modelo de negócio. Muitas vezes as bolas foram trocadas. O presidente da Unimed, opa, do Fluminense, ou dos dois, ou nenhum dos dois, não se entendiam.

O que é normal em qualquer arquibancada. Não pode ser tão normal assim nos gabinetes com canetas e cofres.

Mas o saldo é positivo para a história do clube. Canecos e craques sempre ficam. E nem teriam chegado, repito, se fossem outros os nomes na bela camisa tricolor. Isso, claro, se nesse tempo todo houvesse outros nomes patrocinando – e sem contar o muito investido na formação e manutenção do elenco.

O Flu não está viúvo da Unimed.

Mas, como quase sempre acontece, está solteiro. E não sabe para onde ir. Ou como fazer para alguém chegar perto.

Não serão fáceis os próximos meses tricolores. Como não serão da maioria das cores do futebol do Brasil.

 

 

 

Dorival do Palmeiras

por Mauro Beting em 10.dez.2014 às 11:21h

Ele fez o que pôde com um elenco fraco e frio.

Ele não acertou o time que nem o tio Dudu ajeitaria se estivesse em campo.

Se não repetiu escalações e alternava entre times ofensivos demais e/ou defensivos demais, ainda conseguiu dar uma azeitada nos placares que não vieram também por falta de sorte.

Além da reconhecida incapacidade técnica de muitos.

Teimou ao não dar mais chances aos argentinos. Teimou com nomes que nem no Brasil da dona Lúcia dariam certo.

Mas fez o que se torcia. Não caiu com um time que implorou para ser derrubado