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De: Nilton Santos. Para: Jefferson

por Mauro Beting em 22.out.2014 às 10:31h

 

fimdejogo.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jefferson,

não sei se você acredita.

Mas eu juro. Sou eu.

Nilton Santos.

Eles me chamavam de Enciclopédia. Apelido que o Waldir Amaral popularizou, lá por 1957.

(Sorte minha que eu apareci pro futebol antes do Garrincha e do Pelé. Você vai dizer que é falsa modéstia. Não é falsa. É apenas modéstia.)

Eu era assim desde a Ilha do Governador. Pergunte aos meus amigos botafoguenses. O Sandro Moreyra inventava e exagerava umas historinhas, é verdade – ou algumas mentirinhas… O Maneco Muller também dourava a pílula e a bola.

Mas eles sabem que sempre fui simples. Na minha. Tanto é que quase fui parar nas Laranjeiras. Quer dizer, fui pra lá. Mas quando vi aquela sede toda iluminada, os vitrais, toda aquela pompa, os sócios lá dentro dos salões, aquela gente chique, grã-fina, e ainda vi da rua os craques do Fluminense passeando pela sede, como o Ademir de Menezes, confesso que achei que ali não era meu lugar.

É verdade. Fiquei com minha chuteira debaixo do braço, peguei uma condução de volta pra Ilha do Governador e, naquele momento, desisti do meu sonho de ser profissional do futebol. Era 1946. O Maneco contava muito bem essa história, e está aqui, do meu lado, mandando um abração. Ele e o Sandro, que diz que você é um digno sucessor do Manga.

E eu concordo, Jefferson.

Naquela noite em que eu não fui treinar nas Laranjeiras, meu jeito tímido e meu espírito amador me deixaram longe do futebol. Mas eu, como nosso time, tenho estrela. E ela, graças a Deus, foi brilhar comigo em General Severiano.

O nosso Botafogo.

A nossa camisa. Aliás, só para lembrar pra muita gente, eu só joguei pelo Botafogo e com a camisa do Brasil. De 1948 a 1964. Dos meus 22 anos até os 39. E nunca beijei o escudo nem de uma e nem de outra. Não precisei. Ninguém precisa.

Basta honrar essa camisa. Basta dar tudo por ela. Basta jogar futebol.

Basta fazer tudo que não tem sido feito no Botafogo.

Não pelos seus companheiros, Jefferson. Alguns, de fato, não têm bola para jogar no nosso time. No máximo, jogariam lá no time do Flexeiras, da minha terra. E olhe lá.

Mas como cobrar deles se eles não são pagos?

Já os dirigentes do nosso Botafogo…

Além dos aviões, meus maiores adversários sempre foram os árbitros. Todos eles. Mas, hoje em dia, e nas últimas administrações, acho que os cartolas do nosso clube foram piores que os juízes.

Acredite.

E o pior é que parece inacreditável o que fizeram e o que estão fazendo com o nosso Botafogo.

Saudade do Carlito Rocha e do Biriba, nosso cachorrinho campeão em 1948. Hoje só parecem ter restado outros animais no clube. O seu Carlito que dava gemada pra nós depois dos treinos. Hoje, os caras dão uma ova pros jogadores! O Carlito tinha uma fábrica de tecido e ficou pobre de tanto dinheiro que deu pro Botafogo. Quantos dirigentes ficaram sem grana como ele? E quantos saíram do futebol com muito mais do que tinham?

É…

Como pode não pagar? Como pode exigir de quem não recebe?

Já ganhamos um Brasileirão com quase cinco meses de atraso. Mas não pode isso.

Aliás, eu também sou um pouco responsável por esse estado lastimável de coisas. Eu assinava contratos em branco com o clube. Falava que eles poderiam pagar o que quisessem para mim que estaria bom. E estava mesmo ótimo. Me pagavam pra jogar futebol no clube onde eu me sentia em casa!

Mas veja só o que foram fazendo comigo e com nossos companheiros, com nossos torcedores…

Dá pra dizer também com nosso país. Afinal, não pagamos para ninguém. Justo um clube com um crédito imortal no nosso futebol. Como pode?

Como deve…

E como devemos à nossa rica glória. E como estamos devendo Botafogo aos botafoguenses.

Não podemos mais ficar assim. Tenho conversado com a turma aqui de cima. Tem muito botafoguense nos céus. Muita gente boa. Mas sinto que a nossa galera vai ser menor a cada dia por aqui. Vai ter muito mais botafoguense indo pra outro lugar. Para o fogo eterno onde estão nos mandado mais uma vez.

Jefferson, você é o número um da Seleção. Merecidamente. Todo grande time começa com um grande goleiro. Uma pessoa honrada como você. Persista! Defenda a gente mais um pouco dos adversários externos e, principalmente, dos internos. Justamente os piores.

Sei que a culpa de tudo que não tem em General Severiano não é só da turma que está lá agora. Quem passou também arrasou a terra e os cofres. Derrubou o clube como quase derrubaram o Engenhão! Sei que todo o futebol brasileiro tá uma draga. Uma droga mesmo. Meus parceiros Djalma Santos e Julinho Botelho estão desesperados com a Portuguesa. Não a da minha Ilha do Governador, mas a do Canindé.

O que fizeram com ela?

O que estão fazendo com a gente?

Sei que você é profissional, Jefferson. Sei que você tem contas a pagar. Diferente do nosso clube, você paga suas contas. Mas eu te peço, por favor: seja cada vez mais amador e ame cada vez mais o Botafogo. Pelo menos alguém tem de amar esse clube lá dentro. E jogar por ele. Não o jogar na vala comum. Na várzea na pior acepção.

Eu sei que fiz errado em dar um cheque em branco aos cartolas antigamente. Hoje não se pode dar nem bom dia. Mas eu imploro: continue nos defendendo. Dê crédito a quem só tem débito.

Dizem que da nossa vida aí embaixo não se leva nada. Mas eu te digo, amigo: eu também estou aqui entre tantos Santos não porque eu sou Nilton, mas porque eu sou Botafogo.

Amor e dedicação não se cobram. Damos. Por isso estou aqui. Por isso consigo passar esta mensagem. Os que não têm, os que não tiveram, esses vão pro lugar onde estão nos mandando.

Só pra terminar, mais uma historinha que aconteceu comigo: quando parei de jogar, em 1964, muita gente teve a ideia de fazer um jogo de despedida com a renda inteira da partida sendo doada para mim. O que pensaram os dirigentes do clube na época: “vai parecer que a gente não pagou direitinho a ele durante a carreira…” E foi o que aconteceu. Eles não deram a renda para mim.

Como você pode ver, Jefferson, o problema do nosso clube não é só da turma que está aí agora. Vem de longe…

Enfim, o pessoal do Botafogo tá mandando aquela força aqui de cima.

Deus mesmo diz que está mexendo uns pauzinhos.

E Ele jura por Ele mesmo que ainda acredita no Jobson.

Mas que Ele não tem o que fazer com as postagens do Sheik no Instagram.

Saudações.

Nilton.

Estrada para Santos e para os diabos

por Mauro Beting em 20.out.2014 às 14:03h

Rodrigo Vessoni, deste LANCE!, conta que, em média, desde 1988, morrem por ano 10 torcedores no Brasil.

Morrem nos estádios, proximidades, estações de ônibus, trens e metrôs, nas ruas.

E nas estradas. Como foi atropelado no domingo um torcedor que, com outros 150, preparou uma emboscada contra ônibus de uma torcida rival.

Numa rodovia onde passavam santistas e palmeirenses. E corintianos e são-paulinos. E gente que não gosta de futebol. Talvez gente que ainda gosta. Mas que não vai mais a campo para não morrer. Gente que talvez não saia mais à rua para não morrer numa briga de facões e facções. Paus e paus-mandados. Pais e filhos da mãe. Pedras e podres de todos os tipos.

É caso de polícia que até prende. É caso de justiça que solta. É coisa que vai muito além do campinho de jogo.

Portão fechado? Perda de mando? Eliminação?

Tem pena para barbaridade?

Eu tenho pena de quem só torce. Ainda a maioria. Ainda gente do bem que corre o risco de ser morta por quem está matando o futebol e a cidade. E a sociedade.

A falta de Rogério Ceni

por Mauro Beting em 20.out.2014 às 13:50h

Rogério Ceni mandou a bola no ângulo e fez um golaço contra o Bahia.

Dos mais bonitos dos 123 gols que o camisa 01 marcou na carreira. Apenas cinco a menos que um dos maiores camisas 10 do São Paulo – Raí.

Um daqueles gols que vale a pena rever e comentar. Para muitos jogadores seria dos mais bonitos da carreira.

Para Rogério foi mais um. Embora possa ser o último.

E por isso também Ceni é o número um. Desde o primeiro gol, em Araras, em 1997, ele faz e celebra como se fosse nem o primeiro e nem o último. Mas o único.

Por isso ele vai além.

Rogério é único como deverá ser única a marca dele como artilheiro-goleiro.

Como goleiro-goleiro, no clube de Poy, Sérgio, Valdir Peres e Zetti, Rogério está entre esses bambas todos. Mas, como artilheiro, como ídolo, como são-paulino, como mito, Rogério está em um nível em que um golaço nem mais é tão festejado como deveria.

Ele banalizou o espetáculo. Na melhor acepção possível.

O problema, agora, será em algum tempo o tricolor olhar para a meta e não ver aquele magrelo de poucos cabelos fazendo das dele.

O problema, em breve, será uma falta de qualquer lugar ser marcada a favor do São Paulo e não se ver mais os olhos de todos os estádios voltados para aquela tradicional abaixada de cabeça e trote em direção à meta rival. Quando o são-paulino berra e os adversários temem. Ou tremem. Ou ambos.

Quando Rogério vem fazer o jogo de Ceni. E só dele.

O São Paulo terá outros ótimos cobradores de faltas. Também de pênaltis. Claro que terá.

Mas nunca mais uma falta próxima da área rival fará o torcedor tricolor olhar para a própria meta esperando a vinda do cobrador.

Outos clubes perderam seus ídolos. Craques. Mitos. Poucos com tanto tempo e tão corrida ficha prestada como a de Rogério.

Mas só o São Paulo sofrerá a perda de um gesto inconsciente ainda que tão consciente. A olhadinha pro próprio gol na expectativa de mais um gol de falta.

Nenhuma torcida na história do futebol teve tantas vezes essa sensação.

Não será fácil se acostumar.

Mas muito mais difícil foi criar esse sentimento. Quase uma certeza.

Lá vem Rogério!

Lá vai com ele uma história eterna.

Palmeiras 1 x 3 Santos – segue o seco

por Mauro Beting em 20.out.2014 às 13:09h

No geral, o Palmeiras tem mais vitórias que o Santos. Na Vila, acredite, o Palmeiras tem mais. No campo não tão neutro do Pacaembu, no clássico que deve ter a maior média de gols da história brasileira, o Santos tem uma vitória a mais pelos 3 a 1 construídos em quatro finalizações alvinegras.

Quando o Palmeiras criava mais, uma bela enfiada do cada vez melhor Lucas Lima para o redivivo Geuvânio abriu o placar. O Palmeiras ainda perderia mais um gol até o Santos bater rápido uma falta e a zaga verde se perder mais uma vez.

O terceiro do excelente Gabriel foi tão irregular quanto o sistema defensivo de Dorival Júnior. Ainda que impedido, um talento como Gabriel não pode pintar tão solto.

E, de fato, o termo é esse. Com Robinho, Lucas, Geuvânio e Gabriel está pintando mais um Santos incisivo e insinuante. Para ainda tentar brigar para estar entre os seis primeiros. Com a facilidade com que fez oito gols em 72 horas. No calor seco da São Paulo sem umidade e sem humildade no ar.

Ao Palmeiras cabe seguir jogando o que tem jogado do meio pra frente, com Valdivia inspirado e compenetrado, e Henrique perdendo e fazendo gols com a mesma naturalidade. Se errar menos atrás, pode se recuperar sem fazer tantas contas pela tabela complicadíssima que tem. Ou acabar se salvando mais pela mediocridade da concorrência.

Vitória 0 x 1 Cruzeiro – o bicampeão voltou?

por Mauro Beting em 20.out.2014 às 12:45h

Dedé foi trapalhão no Maracanã, contra o rubro-negro carioca. No Barradão, contra o baiano, não foi o mito que um dia foi chamado. E era mesmo um exagero. Mas foi o cara que se redimiu e colocou o Cruzeiro ainda mais vivo. Mais líder. Mas bi. Mais campeão.

O Vitória está naquele bolo de times que jogam para não cair. Vai sofrer até o final. E pode sofrer além. Fez difícil a vitória celeste tanto quanto a arbitragem, que não marcou pênalti de Luiz Gustavo em Everton Ribeiro.

O retorno do meia-atacante é um dos motivos da volta à vítória. E da manutenção da ponta que não foi ameaçada. Embora, até o final do campeonato, a diferença deve diminuir para os perseguidores. Mas vai se manter suficiente para mais uma conquista celeste.

Não é o melhor momento do time no BR-14. Mas como ninguém consegue chegar perto, o que se faz na Toca desde 2013 é mais que suficiente. E muito mais que justo

Internacional 1 x 2 Corinthians – Agora foi? Agora vai?

por Mauro Beting em 20.out.2014 às 9:30h

Pelo que jogou, pelo que criou e finalizou no Beira-Rio, era jogo para o Colorado vencer por 2 a 1. Ou mais.

Pelo que mais uma vez não quis jogar, ou não conseguiu jogar fora de casa pela pressão rival, era partida para mais uma vez o corintiano cobrar além do normal o treinador e o time.

O placar final acabou espetacular para os paulistas. E mais uma vez decepcionante para os gaúchos. O Inter, quando parece que vai, fica. O Timão, idem.

Até o final do BR-14, se fosse apostar no bolão, daria mais chances à turma de Mano que à patota de Abelão. Se é que se pode prever algo desses dois e de tantos times irregulares no campeonato.

O Inter bem que tentou. Se com Alan Patrick não foi bem pela esquerda do 4-2-3-1, com Valdivia melhorou na segunda etapa. Alex criou mais no jogo, D’Ale deveu em quase todo o tempo, e o Inter, ainda assim, finalizou 16 vezes, e ficou com a bola 61% do tempo.

Mano armou o Timão ora no velho 4-2-2-2 (com Renato Augusto na frente e Petros como meia) e até mesmo no 4-4-1-1, com Renato como meia, Petros e Jadson mais marcando que jogando pelos lados. O Corinthians chegou a primeira vez com Guerrero e fez um a zero numa assistência dele mesmo para ele mesmo no gol de chapa de canhota. O segundo gol também caiu do céu, na cabeça de Gil, no fim da primeira etapa. Cabeça de Gil que desviou a bola de Cássio e deu a chance para Nilmar diminuir no segundo tempo.

Mais não fez o Inter contra o Corinthians que finalizou só quatro vezes. Menos que no Mineirão. Mas com o acerto à frente que faltou. Com a zaga que funcionou melhor por ter Gil. E, também, pelo ataque colorado que perdeu gols com a mesma facilidade com que ambas as equipes perdem chances no BR-14.

E ainda assim as mantém vivas em termos de G-4 de um campeonato em que todos perdem. Ou pedem para não vencer.

Declaração de veto

por Mauro Beting em 17.out.2014 às 19:33h

Não sei quem vai ganhar a eleição. Só sei que ainda vai ter muita gente perdendo a amizade por uma mera troca de letras.

São todos farinhas não do mesmo saco, que já não tenho mais paciência para isso. Mas o pó que levanta e dá a volta por cima e para baixo do tapete é do mesmo tipo. A sujeira dos sujeitos ocultos, indeterminados ou com as impressões digitais devidamente reconhecidas é muito parecida. Só varia o balde onde será reciclada. Quando não vai mesmo para o marrom.

Infelizmente, junto com a imprensa da mesma cor que joga junto. Seja do Partido da Imprensa Golpista ou seja do Partido da Imprensa Governista, as coisas precisam mudar para que continuem as mesmas no chiqueiro dos PIGs. Ganhe a oposição ou a situação, vença a mídia que coloca venda nos olhos ou a que está à venda para o poder da ocasião, a situação vai continuar se opondo ao que se precisa para o brasileiro.

Mas é dever reconhecer: seja qual for a bandeira que o cidadão desfralde, ou qual a que ele não quer ver pela frente por fraudes, fraldas ou farsas, são inegáveis os avanços no país nos últimos 20 anos. Com PSDB e com PT. Mais ou menos com uns e outros, avançamos. Testemunho de quem já votou em tudo que está aí. E esteve lá.

Sim. O país avançou nos últimos 20 anos de FHC, Lula e Dilma. Com ambos os partidos e com a base aliada. Mais aliada que base. A do hay gobierno soy a favor! Seja qual for.

Não quero aqui declarar voto. Muito menos pedir voto. Ainda menos doutrinar. Patrulhar. Faça o que quiser com seu voto. Anule se quiser. Deixe em branco. Faça um churrasco. Viaje. Durma. Dance. Sapateie. Faça o que você está fazendo agora: enchendo o saco do outro. Convide para jogar aéciocrush ou dilmafarm. Grite “chupa petralha” ou “chupa privateiro” em caso não de vitória do seu candidato, mas de derrota do outro – e sempre lembrando que já volta duas casas quem usa qualquer um dos termos.

Faça o que quiser. Mas jamais se esqueça: o voto é secreto. Fique com o seu que eu fico com o meu.

Falando como rosna um desses pitbulls com cara de chihuahua que são, como todo cão, fidelíssimos aos donos, “faça qualquer m. na urna. Até mesmo votar”.

Vote num número ou no outro, vote na mulher ou no homem, vote contra um ou contra o outro, faça o que bem entender. Ou o que você não entende muito. Ou, como eu, não queira mesmo entender muito.

Mas cobre a autoridade eleita como cobramos o cartola de nosso clube e o treinador do nosso time. Cobre os agentes políticos como exigimos garra e bola de nossos jogadores.

Seriamos um país muito melhor se fôssemos tão exigentes como cidadãos como somos intolerantes como torcedores.

O problema é que nesta eleição foi criada uma horda de eleitores organizados. Uma talibancada que ataca nas redes sociais, achaca nos comentários, encharca os piquás com a torcida incondicional, compartilha textos de boçais de blogs, curte textos de bestas de blagues.

E que torce por candidatos e partidos como se fossem craques e clubes. Blogueiros de clubes dos portais da web são mais equilibrados que alguns jornalistas, economistas, advogados e remunerados liberais que precisam mais de internação que de internet.

Uma coisa é torcer por um time horroroso que defende o nosso clube. Outra é votar incondicionalmente em um candidato ou legenda que não é boa e ainda a defender como se fosse a nossa bandeira. Torcedor de clube detona cartola corrupto, treinador burro, boleiro chineleiro e bagrecéfalo. Partidário defende o indefensável beirando a cumplicidade do

Há 23 anos participo de mesas redondas futebolísticas de todos os tipos e níveis. Muitas delas eu discordei do caminho do, digamos, “debate”.

Mas, agora, pelo que vemos pelas multiplataformas de mídia, ou pior, da míRdia, vemos que os jornalistas esportivos foram redimidos pelos coleguinhas que tratam do jornalismo político. O clubismo e bairrismo que infesta a mídia esportiva é pinto perto da granja armada por rottweilers, rola-bostas, abutres, papagaios, antas, asnos, burros e outros bichos.

E aqui apenas escalo muitos dos animais usados por outros para “debater” ideias à esquerda e à direita. Com uma defesa de posicionamentos que, de fato, é apenas um ataque a dos outros.

O Fla-Flu eleitoral é tão baixo na mídia sem modos e nas redes antissociais que é risível a crítica à baixaria real entre os candidatos. A eleição conspurcada de 1989 é quase um pleito de grêmio acadêmico perto do MMA e dos mimimis da campanha.

É sempre salutar se debater política.

Assunto sério mesmo quando os atores nem sempre são. Mas parece que, de um lado e de outro, a “festa da democracia” é uma farsa ditatorial. Não se debate. Apenas se bate sem dó.

Quem vota na situação é “petralha”, “esquerda caviar” , “bolivariano” ou mesmo “terrorista”, “bandido” e “golpista”. Quem vota na oposição é “coxinha”, homofóbico”, “privateiro”, “preconceituoso”, “torturador”, “bandido”, “golpista” e mais um monte de epítetos que “cabem” para todos os lados. Com ou sem razão. Com ou sem o menor pudor. E sem graça. Sem conteúdo. Sem nível.

Aécio e o PSDB não são o que detonam Dilma e o PT e o PT e Dilma não são o que demonizam PSDB e Aécio. O país não está tão ruim nos últimos 20 anos. E não vai ficar tão pior nos próximos quatro. Ganhe quem vencer. O vale-tudo eleitoral dos candidatos e dos partidários não enriquece o debate. Esvazia. Cria um clima de pavor que não se justifica. O Brasil não vai virar Cuba, Venezula, Coreia do Norte, Albânia, Valhala, Suíça, Mônaco, EUA, Patópolis, Gothan City ou Tucanistão. Perca quem perder, vai continuar sendo o Brasil. Nem o pesadelo de Regina Duarte nem o paraíso de Zé de Abreu. Certamente um país melhor nos últimos 20 anos em muitos pontos. E pontos ganhos por PSDB e PT. Juntos e separados. E também solidários nos pontos e índices perdidos por indiciados de todos os lados da moeda suja.

Ganhe quem vencer a eleição, parte da mídia já perdeu de goleada. Aquela que insulta e depois reclama que é perseguida. Aquela que luta pela democracia desde que coincida com o que pensa. Se é que se pensa.

A imprensa que milita virou milícia. A imprensa que patrulha virou milico.

O mico que afasta amigos e afugenta a imprensa da imparcialidade, isenção, independência e objetividade. Afasta da busca da melhor versão possível dos fatos. Da noção mais equilibrada e plural. Do jornalismo.

Uma coisa é tomar partido e ter opinião formada. Outra é deformar fatos e partir para a ignorância embutida na virulência.

Tem muito jornalista culto curto de propósitos. Tem muito prepotente cheio do jornalismo.

Eu declaro meu voto e adesivo para o meu carro:

“Mantenha distância: imprensa”.

É o que farei na eleição.

Vote em quem quiser.

E vete quem quer brigar pelo seu voto.

Santos 5 x 0 Botafogo

por Mauro Beting em 17.out.2014 às 9:26h

No primeiro gol do Santos contra o Botafogo, Pelé tocou para Dorval na ponta direita. Quase sem ângulo, o camisa sete santista venceu o goleiro Manga. Um a zero, aos 25 minutos. No primeiro gol paulista, Mena avançou pela esquerda depois de boa enfiada de Lucas Lima e cruzou para o camisa dez santista desviar e abrir o placar: Gabriel, 1 a 0 Santos contra o Botafogo do goleiro Andrey, aos 5 minutos de jogo.

O segundo gol aconteceu em falha do goleiro do Botafogo: aos 40, Pepe chutou de longe e Manga aceitou; aos 9 minutos, Andrey saiu mal e David Braz completou de cabeça a cobrança de escanteio.

Belo gol o terceiro: Pelé e Coutinho tabelam como sempre, Pelé dá ao camisa nove a bola para empurrar na saída de Manga. Três a zero, aos 9 do segundo tempo. Aos 29, Lucas Lima arranca livre desde o meio-campo, passa como quer pelo goleiro e faz bonito gol.

O quarto gol foi o mais espetacular, na arrancada sensacional de Pelé e Coutinho, com o camisa nove retribuindo a gentileza real do outro gol para o Rei marcar mais um, aos 29. O segundo gol de Pelé no  jogo. O segundo gol de David Braz contra o Botafogo: aos 17, aproveitou rebote de grande defesa de Andrey em tiro à queima-luvas do camisa 10 Gabriel para fazer o segundo gol dele na noite santista.

O último gol dos 5 a 0 foi muito bonito: Pelé, em nova grande tabela com Coutinho, que Joel tentou salvar, mas não conseguiu, aos 34. Gol chorado de Geuvânio, que saiu driblando desde a ponta direita, a bola espirrou para Gabriel chutar em Bolatti e, no rebote, o jovem santista marcar o último belo gol da noite, aos 23 minutos.

Só  não teve mais um golaço de Pelé, depois de uma sequência de chapéus, que Manga fez mais uma excepcional defesa – como Andrey também fez algumas evitando um resultado ainda maior santista. Botafoguenses aplaudiram o Rei e os súditos em atuação mágica.

5 a 0 Santos, no Pacaembu, na noite de 16 de outubro de 2014, pelas quartas-de-final da Copa do Brasil.

5 a 0 Santos, no Maracanã, na noite de 3 de abril de 1963, jogo decisivo da Taça Brasil.

Não comparo o Santos de Gabriel, Lucas Lima e Geuvânio ao Santos de Gilmar, Mauro, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Não é o mesmo Santos. Nunca será. Mas jogou muito bem.

Como também não comparo o Botafogo atual com o de Manga, Rildo, Nilton Santos, Garrincha, Quarentinha, Amarildo, Zagallo e Jairzinho.

Não é o mesmo Botafogo. Nunca foi tão pouco Botafogo. Dentro e fora de campo.

 

Eles ainda acreditam – Galo 4 x 1 Timão

por Mauro Beting em 16.out.2014 às 9:51h

Quatro minutos no Mineirão. Jemerson bobeou e Guerrero fez um gol do Peru. Que atacante. Que fase. Que jogo!

Embora em melhor fase, o Galo precisaria do espírito da classe de 2013 para fazer 4 gols e se classificar. Até a torcida parecia descrente no time que desafiou e venceu o inacreditável na Libertadores.

O Galo foi fazendo um jogo daqueles de 2013. E o Timão foi mais uma vez jogando muito menos que na campanha de 2012. Encolhido, foi dando o campo que o Galo foi carpindo e ganhando na marra. Também pela intensa troca de posições do volante Datolo que é meia. De Guilherme, Luan e Carlos que mais uma vez se mexeram por toda a frente como se fossem atacantes.

E por Diego Tardelli que jogou muito na manhã de sábado em Pequim, jogou bem na manhã de terça em Cingapura, e voou em campo na noite de quarta com emoções de primeira.

O Corinthians até que não cometeu aqueles erros e receios tão criticáveis da equipe desde o final dos tempos de Tite e de quase todos os tempos de Mano. Não foi o alvinegro paulista que se encolheu. Ele foi sendo dominado.

E tomou o empate aos 22 sem Luan precisar relar a cabeleira no cruzamento de Guilherme. E levou a virada com o mesmo Guilherme batendo livre de fora a bola que bateu em Felipe (que só apareceu nessa hora) e tirou o Cássio que garantiu um placar apertado no primeiro tempo.

E, logo no reinício, segurou outra estocada mineira, quando Maicosuel (substituto do lesionado Luan) só não fez gol por Cássio ser grande. Galo que só não ampliou aos 15 com o excelente Carlos que a trave não deixou.

Mas o Corinthians começou a deixar além da conta. Luciano entrou para ser amuleto no lugar do excelente Malcom. E não conseguiu atacar e nem cercar. O Galo não deixava. O atleticano não deixou.

Mano não deixava nem Marcos Rocha bater lateral. Segurou o atleticano de modo bizarro. Mas o time dele não conseguiu segurar o rival. Até chegou algumas vezes bem no contragolpe. Mas todo o time parecia mais desfusorado que Tardelli e seus companheiros.

Diego saiu pregado. Mas o caixão rival começou a ser fechado. Em seguida, em belo lance, aos 29, Guilherme fez o 3 a 1 mais que merecido.

Mano apostou em Elias e Danilo, que na primeira bola quase fez o que sempre decisivo armador faz – não fosse Victor.

Mas o Galo afogou quem viesse com o grito e a garra da galera.

Depois do terceiro gol, parecia um grito só. Mas o time não estava só. Era uma massa uniforme com camisa branca. Era o Galo vingador.

Foi Edcarlos aos 42. De ombro. Meio sem jeito. Mas com todo o jeito de Galo. Depois de um escanteio tolo cedido por Fagner, a bola castigou Guerrero que jogou a bola contra Edcarlos e contra a rede de Cássio.

Um jogaço a favor do futebol. E que merecia ter como último lance Marcos Rocha batendo do meio-campo e Fagner salvando sobre a linha de meta uma jogada em que Cássio, como o time dele, já parecia haver desistido antes da hora.

Mais que mais uma derrota de um Corinthians que não quis ganhar de mais, foi muito mais uma grande virada e goleada de um Galo fortíssimo, que celebrou a vitória como Mano havia comemorado em Itaquera.

Um jogo para ficar gravado na TV e na memória atleticana.

Democracia em Preto e Branco – O filme em cartaz em SP

por Mauro Beting em 14.out.2014 às 12:11h

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DEMOCRACIA CORINTHIANA E DO BRASIL

O filme que vai passar nos cinemas de SP por dois dias. E poderá passar ainda mais se mais gente for ver uma obra digna da história.

Uma história que foi muito além do Parque São Jorge.

Não apenas pelo muito que jogou aquele time bicampeão paulista em 1982-83. Mas pelo que ajudou alviverdes, tricolores, outros pretos e brancos, rubro-negros, celestes, colorados, roxos de paixão e de hematomas de anos de chumbo e ferro de ditadura. Amarelos da esperança das Diretas-Já, em 1984. Verde-amarelos cidadãos democratas. Todas as cores dessa aquarela foram pretas e brancas como nunca como naquele Corinthians Paulista que, a partir de 1982, foi o mais brasileiro mesmo por ter dado o pontapé inicial na democracia do Brasil a partir de 1985.

Não aquela dos sonhos, das utopias. Também por aquele timaço do Timão não ter conquistado mais coisas. Tinha o grande Flamengo de Zico, em 1982-83. O competente Fluminense de 1983-84. Poderiam Sócrates, Zenon, Casagrande, Wladimir, Zé Maria e grande elenco ter conquistado muito mais coisas e causas. Poderia aquele elenco ter plantado muito mais do que plantou não só no Parque. Uma administração mais arejada e antenada. Mais aberta, ainda que com erros, exageros, imprecisões. Mas um ponto de partida para novos jogos e lutas.

Assim como nos palanques animados por Osmar Santos. Diretas-Já que juntavam no grito por democracia todas as espécies e sopas de letrinhas. Alhos, bugalhos e bagulhos misturados fazendo barulho pelas praças. Saco de gatos, ratos e todo o tipo de bichos, dos escrotos e escroques aos craques que jogavam pelos bagres, gente que era tratada como bicho que rugia pelas ruas que berravam pela mudança urgente:

- Vote para presidente!

A democracia alvinegra também conseguia fazer jogar junto personalidades distintas, profissionais distintos, craques distintos, gente distinta. Corajosa. Até os que pensavam diferente. Como um craque como Leão, bicampeão essencial em 1983. Gente que acertou, pessoal que errou. Mas tudo junto e misturado. Tudo por todos. Gente que fez errado depois, dentro e fora do clube, como um de seus mentores. Gente até que se perdeu dentro e fora de campo. Mas tudo gente que ganhou independente do placar. Fez história.

Esse timaço deu muito certo por ser muito bom, dos melhores da história corintiana. Não tivessem essas feras todas, abutres, urubus e outros iriam fazer horrores. Dom Mario Travaglini fez ótimo meio-campo no banco. A direção segurou as pontas. Serviram de escudo para o bombardeio do CCC – Comando de Caça aos Corintianos (democráticos). Tinha muita gente jogando contra dentro do clube. Muita gente detonando de fora para dentro com catapultas de azedume, de manchetes frias como as notas, de um conservadorismo tacanho de tão de antanho, de quem queria preservar garrotes como queria perpetuar empregos. Gente do poder constituído que era contra só por ser ideia nova. Gente velha que ainda está constituída no poder por ser velhaca de tantas batalhas.

A democracia deu muito certo. Um exemplo para tantos. Um urro de rebeldia em todos os campos. Como o rock que em 1982 invadia todas as praias com a Blitz. Depois Barão Vermelho. Paralamas do Sucesso. Titãs. Ira! Gritos na multidão de uma geração que jogou junto com os democratas corintianos.

Gente que revê e se emociona com o trabalho de Pedro Asbeg:

“Democracia em preto e branco”.

O filme que ele dirigiu e está lançado.

Sou suspeito para falar do diretor. Pedro é muito amigo de meu primo Thiago, ovelha alvinegra dos palmeirenses Zioni. Meu primo que ia comigo torcer pelo Corinthians dele que, naqueles anos, sempre nos vencia.

Sou ainda mais suspeito por admirar o trabalho do pai dele. José Carlos Asbeg dirigiu “1958 – O Ano Em Que o Mundo Descobriu o Brasil”, admirável documentário que narra o que o Brasil fez em 1958 na Suécia. E o que os suecos e outros rivais viram daquele Brasil de todos os tempos e campos.

Pedro Asbeg também montou “Cidadão Boilesen”, corajoso documentário sobre anos de chumbo e choques, ferro e pau-de-arara.

Agora, o rubro-negro dirige o documentário que mostra a força da democracia, de palavras e pensatas, jogo de bola e de cena. A força do jovem e da música. Trabalho de fôlego, raça e talento de pesquisa, produção e edição. Forte como a locução de Rita Lee. Tocante como as palavras de Casagrande. Arrepiante como ouvir e ver novamente o querido Sócrates, doutor honoris causa de futebol e política.

Sou ainda mais suspeito por falar algumas frases no filme. E ainda mais suspeito por ser dos poucos não-corintianos em uma obra que, graças a Deus, vai muito além do Parque São Jorge.

Eu era jovem e ingênuo em 1982. Sou menos jovem e ainda meio ingênuo. Mas sei que o Brasil melhorou, ainda que não seja aquele. Como aquele time era para ter vencido muito mais. Mas certas conquistas não se contam. São vividas.

Feliz por ter vivido aquilo. Ainda mais feliz por reviver aquele tempo em um trabalho que vai durar como aquele time e aqueles caras.

Pena que outros não deram sequência à obra dos democratas em preto e branco. Pena que uma obra como esta do Asbeg não terá sequência. Não teve uma Democracia em qualquer clube parte 2.

Se não precisamos fora de campo lutar pela democracia que a classe de 1982 conseguiu, que ao menos consigamos virar o jogo nos clubes. Todos eles.