É com imensa alegria que compartilho a entrevista que fiz com a zagueira Bagé para a edição impressa da France Football de Julho. A matéria é parte de um especial sobre o futebol brasileiro feito pelo jornalista Vincent Machenaud, a quem agradeço imensamente pelo convite e pela oportunidade de colaborar com umas das publicações mais relevantes sobre futebol no mundo.
Viva o Futebol Feminino! \o/
“É a realização de um sonho”, assim tem início a conversa com a zagueira e capitã da seleção brasileira, Daiane Menezes, sobre sua convocação para os Jogos de Londres.
Há poucos dias do início de uma das competições mais importantes para o futebol feminino brasileiro, a gaúcha natural da cidade de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, mostra maturidade, profissionalismo e fé no futuro da modalidade no Brasil.
Aos 29 anos, Daiane Bagé tem em seu currículo títulos nacionais e internacionais, e se emociona ao falar sobre a medalha de ouro do Pan-Americano de 2007: “Foi emocionante estar no Maracanã cheio para nos ver jogar. Não foi só a medalha de ouro, foi o fato de ter um dos maiores estádios de futebol do mundo repleto de pessoas torcendo pela seleção brasileira feminina. Nunca mais vou esquecer este momento.”
Em se tratando de Olimpíadas, está é a primeira participação da atleta nos Jogos. No início de 2012, recebeu proposta para jogar na Rússia, mas com Londres em foco, preferiu seguir no Brasil com mais chances de ser observada pelo técnico Jorge Barcellos. A escolha não poderia ter sido mais sensata. A convocação para integrar o elenco (e provavelmente continuar com a braçadeira de capitã) brasileiro aconteceu na sexta-feira, 30 de junho.

Se por um lado o anúncio das 18 atletas escolhidas para os Jogos Olímpicos não causou muita surpresa, por outro, a ausência de meninas que vem se destacando no cenário nacional repercutiu na comunidade do futebol feminino brasileiro: “Sabemos que a escolha do técnico nunca vai agradar a todos e sei como foi difícil para o Jorge Barcellos fazer os cortes e definir a equipe que defenderá o Brasil em Londres, de qualquer forma, este grupo sabe da responsabilidade e está focado para a competição, até porque para muitas o ciclo olímpico termina este ano, muitas não estarão no grupo de 2016.”
A atleta tem consciência da diferença estrutural e de preparação que o selecionado brasileiro enfrentará em Londres. Se tecnicamente as meninas do Brasil não deixam a desejar, este aspecto já não conta muito no universo futebolístico: “Se temos Marta que pode desequilibrar um jogo, as seleções da Europa e Ásia tem estrutura e disciplina tática. No Mundial da Alemanha foi possível ver o quanto o futebol feminino avançou por lá. França, Suécia, Alemanha, Japão, entre outas, estão muito qualificadas para levar o ouro. Nossa preparação para Londres está muito diferente das anteriores. Os treinos físicos estão intensos e nesta segunda etapa focaremos no jogo.”
Após a renúncia de Ricardo Teixeira e a demissão do até então supervisor da seleção feminina, Paulo Dutra, as coisas parecem estar mudando na CBF em se tratando da seleção feminina. José Maria Marín assumiu o cargo de presidente da entidade e o ex-presidente do Corinthians, Andres Sanchez, passou a cuidar das seleções. Segundo Daiane, a ordem é para que não falte nada às meninas e a diferença pode ser sentida na preparação para as Olimpíadas.
Tal preocupação da CBF em dar melhores condições e atenção às meninas da seleção, talvez tenha relação com o fato da cobrança por medalha em Jogos Olímpicos e pelas constantes críticas que a entidade recebe quando o assunto é futebol feminino, já que em termos de trabalho para uma maior exposição das meninas e cuidados específicos, deixou muito a desejar durante todo o mandato de Ricardo Teixeira.
Foram 26 dias de concentração, que segundo Daiane, foram muito intensos especialmente na parte física, visando a marcação: “Convém lembrar que no Mundial da Alemanha, na ocasião da eliminação diante dos EUA, os gols sofridos começaram de jogadas de linha de fundo com finalização de cabeça pela Wambach. Não que isso signifique que jogaremos defensivamente, aliás, acho que as pessoas se surpreenderão com nossa maneira de jogar nas Olimpíadas.”
Caso o Brasil não traga a medalha de ouro, Daiane acredita que o atual trabalho pelo futebol feminino na CBF será mantido: “Não faz sentido retroceder caso a medalha não venha. Temos as meninas da seleção Sub-20 e Sub-17 que disputarão os mundiais este ano e elas serão a seleção olímpica de 2016. Acredito que o trabalho e a atenção serão mantidos. A nova direção da CBF tem mostrado que está preocupada com todas as categorias.”
Na mesma direção, a presidenta Dilma Rousseff tem se manifestado pela estruturação do futebol feminino brasileiro. Mesmo com todo o alvoroço negativo gerado com o fim das Sereias da Vila, a mentalidade do brasileiro com relação a modalidade está mudando. O Ministro Aldo Rebelo criou a Comissão Geral do Futebol Feminino sob a coordenação da ex atleta da seleção Michael Jackson, e conhecê-la e saber de sua história no cenário do futebol feminino nacional, traz confiança a Daiane: “O Santos foi muito emblemático para o futebol feminino brasileiro, uma equipe com camisa, que fez com que muitas meninas se sentissem encorajadas a procurar um lugar para jogar futebol. O fim deste time teve um um aspecto negativo, entretanto fez com que várias pessoas começassem a pensar e se mobilizar pelo fortalecimento da modalidade no país. Conheço a Michael Jackson, sei da sua trajetória no futebol, de seu profissionalismo e de sua vontade em fazer o futebol feminino brasileiro realmente forte e estruturado. Confio que a nova geração de atletas terá o respaldo necessário para que cheguemos à excelência.”
Daiane pretende jogar por mais 4 ou 5 anos, tem sua formação futebolística com base na escola gaúcha de futebol, começou como volante e aos poucos foi se adaptando para sua atual função, na zaga, onde dá combates certeiros, mostra segurança e maturidade para liderar uma equipe. Caso receba alguma proposta do exterior após as Olimpíadas, diz que analisará com carinho.
A atleta está construindo sua vida em São José dos Campos onde acaba de comprar um apartamento, faz planos para quando encerrar sua carreira, desejando, inclusive em se manter no futebol feminino de alguma maneira. No atual estágio profissional em que se encontra, mantém a ela e à sua família com o dinheiro do futebol: “Como sempre me comportei e encarei o futebol como a profissão que queria seguir por amar fazer o que faço, hoje posso ajudar minha família que está muito longe. Vejo também o carinho que as pessoas tem por mim e o quanto isso me fortalece e me faz continuar fazendo o que faço. Claro que não são todas as meninas que jogam futebol que podem viver única e exclusivamente dele, mas tenho fé de que o este quadro se reverterá. É preciso que a modalidade seja estruturada para que todas as nossas meninas gozem do melhor que o esporte oferece”.
Nome: Daiane Menezes Rodrigues, mais conhecida como Bagé.
Nascimento: Bagé no Rio Grande do Sul em 15 de abril.
Signo: Áries
Cor: Vermelho
Música para relaxar: Música religiosa
Livro: Minutos de Sabedoria
Filme: Gigantes de Aço
Palavra de incentivo: Deus é fiel
Palavra que não gosta de ouvir: Desistir
Um ídolo no futebol: Todas as meninas do futebol feminino
@Lu_dCastro para o @LacodaChuteira do @lancenet