Ygor Catatau e as pequenas histórias



Catatau decretou a vitória do Vasco por 3 a 2 (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Eu entendo quem gosta de futebol por conta dos elementos táticos envolvidos, pelo ar de xadrez que o esporte carrega. Entendo também aquele que gosta pelo espetáculo, pelos gestos técnicos, um bonito drible ou um belo gol. Compreendo até quem é um aficionado por números. Eu mesmo tenho comigo um pouco de cada uma dessas peças, e quem acompanha o meu trabalho sabe que gosto de usá-las nos meus textos e vídeos.

Mas o que me faz mesmo acordar cedo para escrever – ou simplesmente não dormir à noite, como agora – são as pequenas histórias. Essas sim, a alma da bola.

O que torna o futebol mágico, imprevisível, capaz de traçar novas linhas a cada dia, é a sua virtude democrática. Todo o resto é adereço. A função do futebol na sociedade não é simplesmente entreter, é mudar vidas.

É por isso que há 100 anos muitos clubes trocaram as regatas pelo campo. Para remar é necessário um barco. E quem tem um barco? Ninguém. Ou quase ninguém.

Para jogar bola, não. Qualquer pedra e um pouco de imaginação já servia.

E lá foi o povo adorar seu novo esporte. Parou de aplaudir o que jamais poderia fazer e iniciou uma paixão onde ele não só sonhava ser parte, como era possível. Sua participação, inclusive, era fundamental.

E foi o Vasco quem escancarou essa porta, na década de 20, com os Camisas Negras. Nada mais justo do que mantê-la aberta.

O que me faz escrever novamente sobre Ygor Catatau.

Há oito anos, Catatau tomava conta de carros no Leblon, junto de seu pai, que até hoje trabalha por lá. Já contei um pouco dessa história aqui. Na mesma época, Kalou vencia a Liga dos Campeões com o Chelsea.

Nesse domingo, os dois se encontraram. E não foi como se desenhava há uma década, com Salomon vindo visitar o Rio e o menino ajudando o pai. Foi como iguais, num nivelamento que só o campo de futebol permite.

O marfinense foi a grande arma de Paulo Autuori para mudar o Botafogo na 2ª etapa – o Vasco vencia por 1 a 0, gol de Ribamar. Já Catatau foi a solução de Ramon para amenizar o impacto da entrada do experiente jogador em cima de Pikachu, que já havia resultado no gol de empate, anotado por Matheus Babi, outro nome formado num pequeno do Rio.

Várias pequenas histórias sendo contadas ao mesmo tempo nesse pequeno ecossistema chamado futebol.

Quando o Vasco ainda comemorava o gol de Cano, após lindo cruzamento de Benítez – já escrevi sobre a dupla aqui também recentemente -, a história de Catatau ganhou o capítulo que sempre sonhou escrever. Um sonho que talvez tenha sonhado de forma tímida, acanhada, com o receio de ser tachado de maluco. E qual sonhador não é?

Hoje, com 13 anos, tem garoto que já é chamado de craque. Ygor, nessa idade, sequer havia pisado numa escolinha de futebol. E demorou ainda mais tempo pra chegar num clube. Catatau chegou na base do Madureira já no sub-20.

Vencer as barreiras da vida foi a sua primeira vitória. Se tornar jogador profissional foi o seu maior golaço. Se consagrar num clássico é apenas um detalhe de sua pequena história. Pequena para os outros, grande para si.

A batida certeira de esquerda mostra que Catatau tem recursos além do físico. Já as lágrimas do garoto após o tento confirmam o que muitos já sabiam: as pequenas histórias também guardam grandes vitórias.



MaisRecentes

Juninho marca seus primeiros pontos no Troféu Ademir Menezes



Continue Lendo

A síndrome de Cosme e Damião



Continue Lendo

Pragmatismo vascaíno



Continue Lendo