Vasco lucrou quase R$ 140 milhões com vendas em menos de dois anos; e não saiu do buraco



Paulinho foi a maior venda da história do Vasco (Foto: Jorge Rodrigues/Eleven)

Luan, Douglas Luiz, Mateus Vital, Matheus Índio e Paulinho. Cinco jovens revelados nas divisões de base do Vasco e que foram vendidos nos últimos dois anos sob o pretexto de organizar as contas do clube. Os jogadores foram embora, mas a situação financeira mudou muito pouco.

Somado, segundo o balanço divulgado no fim de abril deste ano, o quinteto rendeu aos cofres do Cruzmaltino cerca de R$ 117 milhões. Valor que deveria ser suficiente para arcar com 23 meses de salário do departamento de futebol, que tem uma folha que gira em torno dos 5 milhões. Ainda sobrariam R$ 2 milhões.

Mesmo vendendo suas principais promessas num espaço de menos de 18 meses, o Vasco segue convivendo com atrasos salariais, de FGTS e de direito de imagem, entre outros. Ao menos é o que alega o meia Wagner, que conseguiu na Justiça sua rescisão de contrato.

É claro que há outros gastos. Da mesma maneira que existem outras fontes de renda.

No período, além do lucro com vendas diretas de atletas oriundos da base – recebeu também mais R$ 2 milhões pela ida de Madson para o Grêmio -, o clube ainda obteve o direito de embolsar R$ 18,8 milhões pelo mecanismo de solidariedade em razão das transferências internacionais de Philippe Coutinho, Souza e Danilo –  os dois últimos, ainda sem previsão de pagamento.

Em 2018, só pela participação na Libertadores, recebeu mais R$ 8,5 milhões em direitos de transmissão. Fora patrocínios, marketing, bilheteria, premiações – Carioca, por exemplo -, outras cotas de TV, sócio-torcedor…

Ou seja, mesmo gerando um lucro de R$ 137,6 milhões apenas com negociações – quase 28 meses de salário -, diretas e indiretas, o Vasco foi incapaz de arcar com seus compromissos em dia. Isso porque, ainda segundo o balanço financeiro, o clube arrecadou mais R$ 135 milhões em outras receitas apenas em 2017 – R$ 96 milhões apenas das cotas de tv – e teve um custo salarial com o futebol de apenas R$ 72,5 milhões, quase a metade do total arrecadado somente com vendas de atletas.

Planilha de gasto do futebol do Vasco em 2017 (Fonte: Vasco)

Dinheiro não parece ser o pior dos problemas. A questão como ele é gerido, sim. Tem entrado, mesmo ceifando o elenco de seus melhores jogadores.

Outro fato curioso ao analisar os dados do balanço e o atual momento financeiro do clube é a dificuldade do Vasco em lucrar com outros jogadores da base. No documento divulgado no primeiro semestre, a atual diretoria citava a utilização dos jovens como uma forma de reduzir a folha salarial e gerar novos lucros. Porém, apesar das vendas já citadas, outros atletas deixaram o clube sem dar nenhum ganho aos cofres.

Apenas em 2018 foram oito empréstimos gratuitos: dos goleiros Jordi e Gabriel Félix, do zagueiro Jomar, do lateral Alan Cardoso, dos meias Guilherme Costa e Evander, e dos atacantes Paulo Vítor e Thalles. Nenhum reforço chegou em troca. Menos ainda algum dinheiro.

E estes atletas deram espaço no elenco para jogadores com salários mais altos e que não vêm correspondendo em campo, como são os casos de Leandro Castán, Oswaldo Henríquez, Fabrício, Rafael Galhardo, Bruno Silva, Giovanni Augusto, que sofre seguidas lesões, e Vinícius Araújo, entre outros. Lucas Perdomo, por exemplo, contratado após o Carioca, sequer entrou em campo e nem faz parte do grupo principal.

Além deles, o Vasco deixou de lucrar também com outros jogadores que saíram em definitivo. Nenê, por exemplo, tinha 100% dos seus direitos ligados ao clube e mesmo assim conseguiu rescindir amigavelmente. Em 2016, o meia havia renovado o seu contrato e recebido um aumento salarial exatamente para que sua cláusula rescisória fosse aumentada. Ou seja: por dois anos, o clube pagou mais visando uma negociação que no fim saiu de graça, ou que no máximo abateu dos valores devidos ao atleta e que já constam nos especificados à cima – salário, 13º, férias e etc.

Renato Kayser, Anderson Martins, Lorran e Kadu Fernandes também deixaram São Januário sem dar nenhum retorno financeiro. O atacante, aliás, um dos artilheiros da base vascaína, acertou em seguida com o Cruzeiro e hoje atua emprestado ao Atlético Goianiense, que briga pelo acesso na Série B. Kayser é o vice-goleador da equipe, 3ª colocada na competição, com cinco gols.

No fim, apesar da crise, o Vasco abriu mão de ativos que poderiam render dentro e fora de campo.

A questão é: mesmo com todas as dívidas já conhecidas e que se arrastam há anos, nunca o clube lucrou tanto com vendas de jogadores. Cinco meses após fazer sua maior venda da história – Paulinho, para o Bayer Leverkusen -, por um valor líquido capaz de arcar com quase um ano de despesas salariais, ou 25% do custo operacional de todo o clube na temporada – cerca de R$ 200 milhões em 2017 – o Vasco já se encontra com contas em atraso. E nem chegamos ao fim do ano. Parceladas ou não, como alegou o clube, são dívidas, valores que não foram pagos no período que deveriam.

Agora, em setembro, o presidente Alexandre Campello condiciona os pagamentos futuros – e também os passados – a um empréstimo de R$ 38 milhões. Uma nova dívida que provavelmente acarretará na saída de outra promessa em breve para o seu pagamento.

Mas afinal, o dinheiro das vendas – quase R$ 140 milhões – não era para arcar com os gastos deste período? Nenhuma dívida parece se encerrar por completo no clube, mesmo batendo recordes de vendas. O time enfraquece, mas o déficit só se fortalece.

Há um buraco negro que ninguém tampa.

‘Vendeu o almoço para comprar a janta’. Essa costuma ser uma frase dita em momentos de problemas financeiros. No caso do Vasco, a questão parece ser ainda mais complicada. O clube vende o almoço, a janta, parcela o café da manhã, mas fica devendo a refeição do dia anterior e segue com fome. E o pior: quando tem dinheiro pra comer, se alimenta mal.

VENDAS DO VASCO EM 2017/2018

Paulinho – R$ 56,6 milhões
Douglas Luiz – R$ 44 milhões
Philippe Coutinho* – R$ 15,5 milhões
Luan – R$ 10,2 milhões
Mateus Vital – R$ 5 milhões
Souza* – R$ 2,7 milhões
Madson – R$ 2 milhões
Matheus Índio – R$ 1 milhão
Danilo* – 600 mil
Total – R$ 137,6 milhões

* Valores pelo mecanismo de solidariedade da FIFA

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