Valorizar a base não é apenas vender mais caro, mas manter por mais tempo



Lucas Santos tem apenas 4 jogos como profissional (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Nenhum clube brasileiro hoje sobrevive sem uma venda ou outra de jogador. É inevitável que, em algum momento, quem é acima da média se transfira para o exterior. Até mesmo os mais medianos possuem mercado em países emergentes. Porém, apesar de indispensável, a negociação pode muito bem ser adiável. E não só pode como deve, principalmente quando se trata claramente de um jogador fora da curva.

A necessidade e a ânsia de fazer caixa com jovens promessas muitas vezes tem antecipado a saída de atletas por valores baixos e antes de sua completa maturação. Foi o que esteve próximo de acontecer com Lucas Santos, no Vasco, por exemplo. Destaque do time na Copa São Paulo de Juniores, o meia-atacante esteve perto de deixar São Januário rumo ao CSKA, da Rússia, por cerca de R$ 20 milhões. Muito dinheiro pra mim, pra você, mas que no clube não cobriria mais que três meses de buraco. Ou até menos.

A questão é que pensamos no valor bruto como lucro, e não é. Além das porcentagens e comissões que se perdem no meio do caminho – em excesso, aliás -, pouco se fala do valor investido na formação do atleta. Veja bem, até chegar aos profissionais, o jogador passou por um longo processo de desenvolvimento que gera um alto custo para o clube, com estrutura e profissionais. E para se formar um bom jogador, que será negociado mais à frente, outros 50 ficam pelo caminho. Esse um, na verdade, paga ainda o custo dos outros, que não darão nenhum lucro posterior.

O retorno, portanto, não pode ser apenas financeiro.

O primeiro ganho que ele pode dar é a anulação da necessidade de se contratar um outro jogador para a posição. É a velha história de colher o que plantou, ao invés de ter que ir jantar fora. Quem come em casa gasta menos.

Se você vende o seu produto antes de utilizá-lo por um período satisfatório, gera automaticamente a urgência de se comprar outro para o seu lugar. Com o agravante de que, na maioria das vezes, o salário da reposição é superior ao do garoto vendido. Ou seja, gera um ganho momentâneo alto, mas também um custo mensal maior na sequência.

Isso sem falar na perda técnica.

Recentemente li em uma matéria que o ápice da valorização de um jogador seria entre 22 e 23 anos. É quando acontece, em média, a sua negociação mais alta. Das últimas vendas do Vasco, no entanto, apenas o zagueiro Luan, que teve 60% do seus direitos econômicos comprados pelo Palmeiras por R$ 10,2 milhões, segundo balanço do próprio Cruzmaltino, saiu nesta faixa etária. Todos os outros saíram antes dos 20 anos, como foram os casos de Evander, Mateus Vital, Matheus Índio, Douglas Luiz, Paulinho e Danilo.

Isso sem falar em Philippe Coutinho, vendido por R$ 10 milhões para a Inter de Milão em 2008 e que dez anos depois custou R$ 622 milhões ao Barcelona.

Qualquer um que tenha casa para cuidar sabe que quando não é possível aumentar a renda mensal é necessário, primeiramente, aprender a economizar. É como vender o Play Station pra pagar a fatura do cartão de crédito mas continuar gastando desenfreadamente porque ainda tem limite. No mês seguinte a conta volta, com juros, e o videogame já não está mais lá.

Os clubes não devem porque não venderam um jogador, eles têm dívidas porque contratam de forma desorganizada e exacerbada, muitas vezes para suprir as próprias vendas que fizeram.

O Vasco hoje tem 46 atletas em seu plantel profissional, muitos deles pouco aproveitados e com salários altos. Até os que recebem menos, após um ano, já se torna significativo. Um jogador com salário de R$ 50 mil – baixo para os padrões atuais -, por exemplo, custa cerca de R$ 800 mil no ano, levando em conta 13º, férias e fundo de garantia. Isso quando não tem luvas diluídas no contrato e outros pagamentos, como direito de imagem. Multiplica-se isso por dez jogadores, numa conta otimista, e temos aí o valor da venda de Evander, quase o dobro de Vital ou 40% que seria de Lucas Santos.

Isso no bruto, sem descontar os custos de dez anos de formação destes jogadores.

Vendas são inevitáveis, infelizmente. Mas a redução dessa necessidade passa pela valorização do ganho técnico do atleta e não apenas do financeiro direto. É a sua utilização mais prolongada que evita rodízios desnecessários de contratações que só geram mais custos e incertezas.

Quando a venda de um significa a contratação de outros cinco até que se ache o substituto, a negociação deixa de ser lucrativa e passa a ser onerosa. É o que tem acontecido ao longo dos anos em diversos clubes, inclusive no Vasco.

A permanência de Lucas Santos, de 19 anos, em São Januário, que tem nos profissionais do clube apenas 69 minutos disputados, dá a entender que essa bola de neve está, ao menos, tentando ser freada pela diretoria vascaína. Por quanto tempo essa sensação será mantida, não sabemos, mas em algum momento é preciso tentar para impedir a avalanche.

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