Valadares prova que é possível extrair mais do elenco do Vasco



Valadares mexeu na estrutura do time (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Quando Alberto Valentim deixou o comando técnico do Vasco, ninguém questionou os resultados. Eram sabidamente ruins desde o Brasileiro do ano passado. Ninguém levantou a mão para elogiar o futebol apresentado, a deficiência também era de conhecimento comum. Os que defendiam a permanência do treinador balançavam apenas uma dúvida no ar: será que é possível extrair mais desse elenco?

Em dois dias de treino e 90 minutos contra o badalado Santos de Sampaoli, que havia vencido a equipe de Valentim por 2 a 0 na Vila Belmiro com a naturalidade de um passeio à beira mar, Marcos Valadares provou que sim. E fez isso perdendo seus dois principais jogadores de defesa em apenas 25 minutos, como se o curto espaço de tempo e o próprio adversário já não fossem testes difíceis o suficiente.

As primeiras gotas de suor sequer haviam descido em São Januário e o Vasco já não tinha Leandro Castán, seu capitão, e Fernando Miguel, o segundo na hierarquia, em campo. Ainda tinha, porém, uma ideia de jogo voltada para a vitória, para o protagonismo, e não para a sobrevivência, como vinha tendo.

Não foi uma simples melhora da equipe ou uma atuação destacada ao acaso. Não foi um impulso coletivo após uma noite bem dormida. Foi o dedo claro e indefectível do treinador. E praticamente sem mexer nos nomes. De diferente para o jogo contra o Flamengo, apenas a volta de Maxi López, com Marrony indo para o lado e Yan Sasse para o banco.

A arrumação das peças, no entanto, é que foi outra. E é aí que estão os méritos de Valadares: soube cozinhar um prato novo com os ingredientes que já tinha.

Sem ter que colocar mais um zagueiro em campo, adotou uma linha de três, com Cáceres fechando a defesa ao lado de Werley e Castán. Mesmo lançando um centroavante de menor mobilidade – Maxi -, achou uma forma de aproximar os meias, com as subidas de Pikachu e Danilo Barcelos pelos lados, trazendo Lucas Santos e Marrony mais pra dentro, próximos do argentino.

O 4-2-3-1 de Valentim, quase imutável, espaçado em longitude e latitude, em 48 horas se tornou um 3-4-3, por vezes um 3-5-2, mas que não impedia a subida de Cáceres quando tinha a posse, passando a se posicionar num 4-4-2, com Marrony entrando na área e Pikachu dando cobertura ao lateral-zagueiro. Quando marcou mais baixo, chegou a se fechar num 4-5-1, para encurtar os espaços de infiltração e, provavelmente, descansar a equipe.

O Vasco, antes estático, engessado, de repente ganhou vida, movimento, variações de posicionamento e também de estratégias. Chegou a dar sinais até de futebol. A bola deixou de se concentrar nos pés apenas de Lucas Mineiro e dos laterais, circulando de forma mais democrática, passando pelos homens de frente com maior frequência. Tanto que Pikachu foi quem a teve por mais tempo, com 4,95% do total do Vasco, segundo o Footstats, e Maxi, até então apagado na temporada, o líder em assistências para finalização, com duas.

Era o City de Guardiola? É óbvio que não. Mas foi uma ideia nova, uma dinâmica diferente para um time que precisava de um resultado também distinto. E quase conseguiu.

Lucas Santos, com a inquietude que a juventude lhe permite, apertou a saída santista e a bola sobrou para Mineiro, mais adiantado, que serviu Maxi. De costas, o centroavante deixou Raul, que nunca tinha marcado um gol pelo Vasco e que havia finalizado apenas seis vezes em 13 jogos no Carioca, fazer 1 a 0.

Aos 31, quase que o mesmo Raul fez o segundo, em nova pressão no ataque. Eram os volantes vascaínos aproveitando a liberdade do novo esquema de Valadares. Era o Vasco se impondo dentro de sua casa, sendo mais agressivo sem ter que tirar um cabeça de área e colocar mais um meia de criação, ou entupir de atacantes para parecer mais ofensivo.

Pela primeira vez, deixou de ser Elifoot e pareceu xadrez.

A verdade é que o Vasco já havia sido eliminado na Vila Belmiro sob o comando de Valentim. Moralmente eliminado. O time que entrou em campo sob a batuta de Valadares, nesta quarta-feira, foi em busca de um resgate quase impossível, ainda que fosse da própria honra, e transformou o delírio em real em menos de 40 minutos.

O Vasco não abria 2 a 0 no 1º tempo sobre um time de Série A desde março de 2018, contra o Botafogo – vitória por 3 a 2 -, quando foi para o intervalo em vantagem com gols de Ríos e Riascos. Voltou a fazer quando Ricardo Graça aproveitou a sempre boa bola parada de Danilo Barcelos para ampliar contra o Peixe.

As baixas prematuras na equipe, no entanto, cobrariam seu preço. Enquanto Sampaoli lançou o rápido Soteldo pelo lado esquerdo de ataque, Valadares guardava sua única e última alteração para o momento mais oportuno. E foi dos pés do venezuelano que nasceu a jogada do gol de Jorge, aos 8 minutos da etapa final.

Enquanto o Vasco perdia pressão, o técnico argentino colocou Jean Lucas e passou a dominar o meio. Com apenas uma substituição por fazer, com apenas mais dois pulmões novos para colocar em campo, o jogo equilibrou.

Cansado, porém, o Vasco de Valadares era mais perigoso, vertical e decidido que o de Valentim.

Aos 45 minutos, os vascaínos explodiram em São Januário após verem a placa de seis minutos de acréscimos subir. Não por uma fé inerente ao torcedor, mas por terem visto, talvez pela primeira vez no ano, que seu time era capaz de chegar ao triunfo contra uma equipe da elite por mais de um gol de diferença.

Quando Ricardo Graça cabeceou novamente para o fundo das redes, aos 48 da etapa final, após cruzamento de Yan Sasse, não parecia ser mais um dos tantos milagres futebolísticos se realizando, mas sim a justiça sendo feita. Não seria justo, no entanto, que o tento saísse em impedimento.

Três minutos depois, Maxi López, até então garçom e pivô do time, teve a bola do jogo para marcar, mas bateu por cima – assim como Marrony já havia feito no meio do 2º tempo, sem goleiro -, de canhota.

O Vasco entrou (quase) desclassificado na Copa do Brasil e saiu esperançoso em relação ao Brasileiro. Não que uma boa partida, com uma nova proposta, sob o comando de um técnico que ainda não é o definitivo, o coloque imediatamente na parte de cima da tabela. Não é isso. Mas confirma a teoria de que o time poderia estar rendendo mais.

Rendeu.

Com reforços pontuais e o técnico certo, ainda que não seja o promissor Marcos Valadares, é possível um 2019 mais tranquilo – o que não quer dizer vitorioso ou surpreendente – do que foi 2018.

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