A rara goleada(?) do Vasco



Raul e Marcos Júnior voltaram a atuar juntos (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

O olhar sonolento do Vasco, como se acabara de acordar, não vislumbrava um 3 a 0 para si após o apito final. Não que o time de Vanderlei Luxemburgo tenha jogado mal ou não fez por merecer a vitória deste domingo, sobre o CSA. Muito pelo contrário. A questão é que ela veio sem um grande esforço aparente, um rompante de agressividade ofensiva.

O placar foi construído de uma maneira quase que espontânea, casual. E o vascaíno não está habituado a isso.

O torcedor se acostumou a ver o time vencer por 1 a 0 de maneira sofrida, ajoelhado na frente da tv, fazendo promessas impagáveis aos 50 do 2º tempo, contra o lanterna, para colocar no bolso três pontinhos. Isso sem falar nos jogos onde dá carrinhos com a cabeça, colide em traves, e ainda assim sai derrotado ou apenas com o empate. Vencer por 3 a 0 sem precisar sequer realizar um pacto de sangue, um leilão da alma ou o empenho de um par de rins não faz parte da memória recente do cruz-maltino.

E não é modo de dizer.

O Vasco ainda não havia marcado três gols em um jogo desse Brasileiro. A última vez havia sido contra a Chapecoense, no ano passado, em São Januário, em grande atuação de Maxi López. Valdir Bigode era o técnico – interino. Fora de casa isso não acontecia desde o 4 a 1 no Vitória, no Barradão, em 2017.

Aliás, um 3 a 0 assim, redondinho, sem a empáfia da goleada sonora – 3 a 0 é goleada? – e nem o anticlímax de ceder um gol de honra, o Vasco não desenhava longe do Rio desde um encontro com o Náutico na Arena Pernambuco, em 2013. Um vascaíno de 10 anos de idade nem sabia como era essa sensação, veja só você.

Agora já sabe.

Eu disse no início do texto que o Vasco tinha um olhar preguiçoso, mole, e já explico. Não é que tenha faltado empenho ao time, não é isso. Ninguém vence por 3 a 0 entregar algo. A estratégia de Luxemburgo, porém, foi de paciência, cautela.

Sim, o Vasco teve apenas 37,4% de posse de bola. Teve também mais uma vez três volantes em campo, como muitos questionam. E novamente praticou o futebol reativo de costume. O que mudou então? Além das peças, a organização.

Luxemburgo precisou dar dois passos atrás para estancar a sangria de quatro jogos sem vitória. Retornou ao 4-3-3 bem definido, com Raul saindo em velocidade pela direita, dando apoio para Rossi e Pikachu, e Marcos Júnior pela esquerda, um pouco mais por dentro, deixando o corredor para o ponta – dessa vez, Felipe Ferreira.

Foi assim que o Vasco se tornou competitivo apesar das limitações. Assim também que deixou de ser lanterna para virar postulante a uma vaga na Libertadores – chegou a estar a 4 pontos de um possível G8 -, ainda que hoje a realidade seja a Sul-Americana.

Mais especificamente sobre este domingo, foi desta maneira, com os avanços de Raul pela direita, que o Cruz-Maltino abriu o placar, num golaço do volante. E assim que fechou, num toque contra de Carlinhos após batida do camisa 31, após infiltração na área. Jogadas que se tornaram raras nas últimas rodadas.

Não é um esquema inovador, não é bonito, mas vinha sendo eficiente até o momento em que Vanderlei decidiu impôr Guarín ao time.

Com o colombiano entre os titulares em jogos recentes, Luxa optou por jogar com dois volantes mais fixos – Richard e Bruno Gomes – perdendo exatamente essa aproximação pelos lados, isolando Rossi e Marrony. Um impacto muito grande para uma equipe que precisa atuar o tempo todo no ‘erro zero’, já que tem dificuldades para propôr o ataque quando sai atrás.

Por isso também a importância de ser eficiente na bola parada.

Sem Danilo Barcelos, que havia perdido a posição para Henrique na lateral-esquerda, uma das poucas armas ofensivas deixou de existir. Titular neste domingo – já havia sido contra o Palmeiras também -, deu a sua 6ª assistência no ano – Henríquez, de cabeça, marcou – e tornou o principal garçom da equipe na temporada, empatado com Rossi.

Voltar ao básico foi o grande mérito do treinador no triunfo vascaíno deste fim de semana.

Talvez pra você um 3 a 0 não possa ser chamado de goleada. Já conheci pessoas que não consideravam nem o 4 a 1 (que tipo de infiel é esse?). Agora, para esse Vasco, constantemente econômico, onde os gols são mais escassos do que o otimismo – são apenas 65 em 56 partidas oficiais -, certamente é.

A raridade do feito prova isso.



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