Um Vasco que não deixa saudades



Maxi e Marrony impediram a derrota do Vasco (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Os jogadores vascaínos desembarcaram em Petrolina, Pernambuco, que fica a cerca de 5 km de Juazeiro, na Bahia, como se fossem os próprios frades capuchinhos que ajudaram no desenvolvimento daquela região, tamanho o furor em cima da delegação. E com justiça: uma saudade de décadas não pode ser guardada no peito sem que haja dor. E com isso, consequentemente, ardor.

O Vasco pisou na Bahia pela primeira vez em 1931, com Jaguaré, Brilhante, Molla, Fausto, o Maravilha Negra, e Russinho, e acabou derrotado por 6 a 5 pela Seleção Baiana diante de aproximadamente 15 mil torcedores. Três semanas depois venceria o Barcelona, na Espanha, por 3 a 1, deixando por lá o goleiro e o meia, primeiros brasileiros a vestirem a camisa da equipe catalã. Era o início da expansão vascaína pelo Brasil e pelo mundo, o que explica a multidão presente no aeroporto na chegada do grupo.

O Cruz-Maltino, porém, só foi chegar a Juazeiro 46 anos depois de Fausto e companhia. Foram duas partidas em janeiro de 77, duas exibições de gala – 5 a 1 e 6 a 0 sobre a seleção local – sob o comando do técnico Orlando Fantoni – que foi jogador do clube em 37 -, e a despedida da cidade sem sequer deixar um bilhete na cômoda. Primeiros e únicos jogos do clube no município. Até hoje.

Em Petrolina, onde foi recebido, jogou apenas em 1985 – ano de estreia de Romário -, quando venceu o Náutico por 2 a 1. Do time que atuou nesta quarta-feira, contra o Juazeirense, apenas Fernando Miguel e Maxi López eram nascidos quando Roberto Dinamite e Mauricinho fizeram os gols da vitória vascaína – Manguinha descontou. Curiosamente, dois dos principais destaques da partida.

Nem todo reencontro, porém, é animador.

O Vasco de 2019 está muito distante daquele que esteve em Juazeiro em 77, e que venceu o Carioca pouco tempo depois com uma defesa que ficaria conhecida como Barreira do Inferno. O espaço antes ocupado por Orlando Lelé, Abel Braga, Geraldo e Marco Antônio – aniversariante do dia -, hoje tem Cáceres, Werley, Castán e Danilo Barcelos. Um quarteto bem mais discreto, e que nesta noite, pelos adversário, se fosse apelidado, seria chamado de Pedacinho de Céu, tamanha sutileza com que se apresentou em campo.

Time do Vasco campeão em 77 (Foto: Reprodução)

Falo da defesa pela referência ao termo recebido em 77 pelo setor, mas o time todo, de 2019, entrou em campo como se excursionasse pela região, como fez em outras épocas. Com a diferença que antes goleava, hoje, mal se esgoelou em campo. Foi passivo, como não poderia ser. Como nunca foi a Barreira. Quem esperava um Vasco agressivo – no bom sentido – e imponente, como foi sua torcida na recepção, não o encontrou.

Com quatro minutos de partida Fernando Miguel já havia trabalhado mais que Mazarópi em meses com Lelé, Abel, Geraldo e Marco Antônio à sua frente. Desde o início o Vasco demonstrou um desinteresse nocivo pela bola. Entre lançamentos tentados e rebatidas defensivas – chutões, em sua grande maioria – foram 49, segundo dados do Footstats, só no 1º tempo. Isso com 55% de posse de bola. Ou seja, ela passou mais tempo voando do que no chão, o que igualou as duas equipes.

Ora, o diferencial do Vasco para qualquer equipe de divisão inferior está – ou deveria estar – principalmente na sua qualidade com a bola rolando. É possível equiparar o jogo taticamente, já cansamos de ver, mas tecnicamente, a vantagem deveria ser dos cariocas. O Vasco aceitou o anti-jogo – imposto, em parte, também, pelo gramado ruim – e pagou por isso. Quando jogou, saiu na frente.

Maxi deixou o marcador subir sozinho, ignorou a bola aérea e o duelo físico, pegando a sobra livre no meio-campo. Em seu primeiro toque na partida, driblou um adversário e virou o jogo para a direita. Dali, no chão, Andrey, Raul e Bruno César triangularam e o meia serviu bem o paraguaio na linha de fundo que cruzou para Marrony. O garoto passou de volta para Maxi, que finalizou prensado. Na volta, o argentino só deu um tapa para Yan Sasse abrir o placar.

De pé em pé, como se toda irregularidade do gramado tivesse desaparecido por um breve momento. Por 15 segundos o Vasco decidiu jogar futebol. O que prova que era possível, apesar de não ser fácil. Depois parou novamente, como se a saudade do torcedor já tivesse sido saciada com apenas um gol. Um erro. E que tem sido habitual.

Independente de adversário, o Vasco tem jogado pelo mínimo. Das cinco partidas que venceu no Carioca, quatro foram por 1 a 0. Duas através de pênaltis. Magro e sofrido. Só um triunfo mais elástico: contra o Volta Redonda, quando abriu 2 a 0, cedeu o empate e teve que acelerar para fazer 5 a 2. Algo parecido com o que ocorreu contra o Juazeirense nesta quarta-feira. O time pressiona até marcar, depois torce para o relógio correr por ele.

Precisou o time baiano empatar – na força de Balotelli – e virar – na infantilidade de Castán – para o Cruz-Maltino botar a bola no chão e buscar o ataque de forma mais vertical. O campo, no entanto, não era como o de São Januário, onde bateu o Voltaço, o que aumentou a dificuldade. Explica mas não justifica. Alberto Valentim já está a tempo suficiente no comando do elenco para apresentar mais do que o time mostrou. Não dá para culpar sempre o calor, o gramado, o desgaste, o entrosamento…

Em algum momento o time precisará jogar sem poréns. Já são cinco meses de trabalho, com pré-temporada.

O gol de Maxi López, após linda jogada individual de Marrony, que culminou no pênalti cobrado pelo argentino, impediu o que seria um dos maiores vexames do clube na competição. O Vasco correu o risco – real – de ser eliminado na 1ª fase da Copa do Brasil. Além da perda desportiva, óbvia, deixaria ainda de embolsar R$ 1,2 milhões só pela participação na próxima fase. Esse seria o prejuízo mínimo, já que a premiação vai subindo de acordo com os avanços, podendo chegar a R$ 70 milhões para o campeão.

Os vascaínos de Juazeiro, Petrolina e região viram mais Vasco nos sorrisos no desembarque – deles próprios e dos jogadores surpresos – do que em campo. A camisa, a cruz e a história ainda são as mesmas, mas a postura em campo foi bem diferente da última impressão que o clube havia deixado na cidade. A torcida merecia mais.

Quem quis matar as saudades do que viu em 77, voltou para casa ainda mais nostálgico. E, por muito pouco, não retornou arrependido.

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