Um clássico do tamanho de sua história



Ribamar fez o 4º gol do Vasco (Foto: André Melo Andrade/My Photo Press)

Um Flamengo x Vasco tão grande que precisou de um dia só pra si. Assim foi o encontro dessa quarta-feira.

Sem preliminares, jogos paralelos ou finais de reality shows – as pessoas adoram isso – pra dividir a atenção. Um duelo sem sombras ou coadjuvantes. Foi como se houvesse uma espécie de trégua para o clássico. Desde cedo.

Um dia tão deles que, antes mesmo da bola rolar, já era disputado nas ruas. Uma Guerra Fria travada por camisas que passeavam de um lado ao outro como um anúncio de espetáculo. Ali, na veste escolhida a dedo no dia anterior, já era possível ver as linhas posicionadas e, principalmente, a busca contante por superioridade numérica – como gostam de dizer os analistas. Cada doido já encontrava seu par.

Era o dia já vivendo a noite.

Já escrevi e repito para quem por aqui chega pela primeira vez: o Clássico dos Milhões começou naquele 29 de abril de 1923 e jamais terminou. É, desde então, uma linha corrente e inquebrantável que se estende por quase um século.

Flamengo x Vasco não é uma partida, é um estado de espírito.

Se discute um Clássico dos Milhões no fim de dezembro, durante a ceia de Natal, sem que se saiba sequer o calendário do próximo ano. Conta-se o placar de quantos vascaínos e rubro-negros estão presentes até num churrasco de confraternização da empresa, só por hobby.

No bar certo, com a camisa correta, é possível ganhar até um chopp grátis. Ou pagar mais caro por ele.

É o jogo pelo jogo, mesmo sem bola. É a rivalidade do cotidiano, não apenas do esporte. Algo que rompe inclusive a barreira do tempo.

O tento de Everton Ribeiro, após linda jogada de Reinier, por exemplo, não ocorreu aos 38 segundos da partida. Ele saiu na verdade aos 96 anos, 6 meses, 15 dias e mais algumas horas e minutos daquele pontapé inicial na Rua Paysandu.

Só isso explica a calma e a tranquilidade com que o time cruz-maltino absorveu o impacto e manteve a concentração na estratégia traçada mesmo atrás do placar. Foi como se o jogo estivesse sendo jogado há tempos e o tento não tivesse passado de uma mera virgula na história.

O Vasco, independente de resultado parcial, esteve consciente o tempo todo do que deveria fazer. Luxemburgo sabia que não bastava simplesmente espelhar sua equipe ao rubro-negro para que a mágica acontecesse. Com a mesma tática e formação, venceria o mais forte, o mais eficiente. E esse é, indiscutivelmente, o Flamengo. Era imprescindível, portanto, ganhar na estratégia.

Não se ataca o veneno com mais veneno, é preciso achar o antídoto.

O contraveneno armado pelo técnico foi espetar dois atacantes rápidos nos zagueiros, obrigando Willian Arão e Gérson, organizadores das ações rubro-negras, a ficarem mais presos para poderem fazer a cobertura. Assim como os laterais, que precisavam se preocupar ainda com os avanços de Raul e Marcos Jr. Era isso ou deixar no mano.

Para parar o rápido contra-ataque vascaíno, Gerson cometeu impressionantes nove faltas na partida. Muitas delas matando a transição ofensiva. Curiosamente, só foi receber o cartão amarelo já no fim do duelo, por reclamação.

A ideia de jogo de Luxa fez com que o Flamengo jogasse ainda mais no limite de suas linhas altas. O Vasco não avançou as suas, mas deixou duas minas plantadas como armadilha. Marrony e Rossi estiveram por diversas vezes no um contra um com seus marcadores. Foi assim, inclusive, que saíram os dois primeiros gols vascaínos.

O de empate começou na arrancada de Marrony, que passou para Rossi e entrou na área para completar após ajeitada de cabeça de Raul. Tudo em velocidade, aproveitando a subida de Rodrigo Caio. O da virada, em uma linda jogada de Pikachu pela direita em bola esticada por Raul.

Sobre esse lance, porém, é preciso de um parágrafo inteiro. Ou dois.

Lá na frente, quando uma criança se deparar com a súmula da partida informando que o lateral marcou, de pênalti, o segundo gol vascaíno, ela não terá a dimensão do que fez Yago, e sua camisa esvoaçante dois números acima do ideal, quando cercado por Pablo Marí e Gerson. Dois “gringos” no entorno do paraense que parecia se esconder, miúdo, por entre os braços e pernas que tentavam alcançá-lo.

Marí até agora não sabe se foi só bola ou um Pikachu inteiro que lhe passou por entre as ‘piernas’. Quando deu por si, Yago já estava sendo alvejado por Rodrigo Caio dentro da área em nova caneta vexatória. Cal.

Guarín pediu, Danilo conversou, um ou outro da torcida resmungou – e também quis bater –  mas o pequeno lateral, depois de embrulhar um lado esquerdo inteiro e coloca-lo no bolso, estava decidido que cobraria a penalidade. E quem o negaria a cobrança depois do que havia feito? Ela mesma, a bola, deve ter pedido pelo camisa 22, ainda apaixonada por ele tê-la feita desviar de tantas pernas no caminho.

O Vasco igualou na tática o que, hoje, é inviável na técnica.

Com Guarín fixo com Richard por dentro, Luxemburgo subiu também a altura de seu miolo de zaga. Quando pressionado, os dois entravam na área para ajudar no jogo aéreo, um dos pontos fortes da equipe de Jorge Jesus. E com sucesso. Dos 29 cruzamentos do time da Gávea, apenas 17,2% foram completados (5). A média da equipe é de R$ 24%, segundo dados do Footstats.

Mais recuado do que em seus outros jogos pelo Vasco, o colombiano foi também uma das armas de ligação do time. Dos seus pés saíram três lançamentos certos ligando contra-ataques, a maior marca entre os jogadores de linha ao lado do ótimo Ricardo Graça, que em momento algum deixou com que Castán fosse lembrado com saudade.

O gol contra de Danilo recolocou o Flamengo no jogo. O de Marcos Jr, no início do 2º tempo, em ótima jogada de Rossi e Pikachu pela direita – mas que iniciou em uma inversão do próprio Marcos Jr na esquerda, após impedir a saída com um carrinho -, mostrou que o caminho do gol ainda estava aberto para o Vasco.

Caminho esse que estava sinuoso para o Fla até uma rara falha defensiva da equipe de Luxemburgo na noite. Richard, até então bem postado na defesa, subiu ao ataque e teve chance de marcar após erro de Rafinha. Na sequência, a bola caiu nos pés do quase imparável Bruno Henrique, que só foi freado pelos abraços dos seus companheiros após o gol. Um dos poucos momentos de exposição do Vasco no duelo.

Quando Vitinho, em seu primeiro toque na bola, limpou Bruno César, em seu primeiro toque no solo, e cruzou para Bruno Henrique fazer 4 a 3, era o óbvio sendo escrito numa noite de exceções. Não fazia sentido. Um triunfo rubro-negro, naquele momento, era o anticlímax de um clássico até então excitante e imprevisível.

Faltava o ineditismo, a explosão improvável. O lance que tornaria o clássico único. E ele veio com Ribamar.

O artilheiro inesperado, tal qual Cocada, subiu aos 48 para decretar o primeiro 4 a 4 da história do Clássico dos Milhões. Para fechar a primeira partida entre Flamengo e Vasco com oito gols em todas as edições do Campeonato Brasileiro. Um clássico único, raro, que precisava de um dia só pra ele.



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