Quando São Januário acorda



Bruno César decidiu o jogo (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Quem vê pela TV São Januário pulsando e vibrando numa tarde de sábado, com seu concreto servindo de sustentação para uma paixão centenária, nem imagina como o estádio acorda cedo, se arruma e aguarda os visitantes. Antes mesmo de Rodrigo Carvalhães de Miranda apitar o início do duelo, enquanto algumas bocas ainda saboreavam o gosto do café, nos arredores já apontavam os primeiros sinais de fumaça, num convidativo lacrimejar da carne sob o carvão. É o aviso de que é dia de jogo.

E dia de jogo em São Januário é dia de festa em São Cristóvão.

Marcado para as 11 horas da manhã, o clássico entre Vasco e Fluminense naturalmente se tornou o almoço em família do fim de semana, com mais de 20 mil torcedores lotando as arquibancadas. Nem mesmo o frio que tem feito no Rio de Janeiro – temperatura de verão em Petrópolis -, espantou o público. Também pudera: não há casaco que esquente mais do que um estádio lotado. Ou como diria um amigo meu: não há coração tão gelado que não se aqueça diante de um gol.

E o Vasco buscou esse gol desde o início da partida, pressionando a saída de bola tricolor como se quisesse montar ali, no campo adversário, o seu abrigo. Nos sete minutos iniciais, o Cruz-Maltino teve 67% de posse de bola contra apenas 33% do time de Fernando Diniz, acostumado a abraçar a bola como uma criança que segura o ursinho na hora de dormir, quase irretirável.

A postura do time em campo, amassando o Flu na defesa, fazendo Agenor trabalhar constantemente com os pés, manteve as arquibancadas acesas, tal qual as churrasqueiras das barriquinhas do lado de fora, que aguardavam seus clientes do café retornarem para o almoço. Faltava, no entanto, cobrar do arqueiro também atuações com as mãos. Nino e Bruno Silva, este último duas vezes, impediram as melhores chances vascaínas no 1º tempo.

Faltava pontaria.

O Fluminense, mais avesso ao chutão do que lutador de boxe, acabou terminando o jogo com 20 bolas longas, sua terceira maior marca neste Brasileirão. Antes, só o Santos de Sampaoli (21) e o Athletico de Tiago Nunes (41) haviam forçado mais situações como essa. Dessa vez, no entanto, apenas dois lançamentos foram concretizados, o pior volume da equipe das Laranjeiras em todo o campeonato.

Méritos de Luxemburgo, que se recusou a esperar o Fluminense em seu campo de defesa. Sem Rossi, principal homem de velocidade do Vasco para puxar o contra-ataque, o treinador optou por adiantar a marcação e recuperar a bola mais próxima da área. Funcionou, apesar de sair atrás no placar.

O gol de Pedro, já nos acréscimos da primeira etapa, fez o espetinho ingerido pelo vascaíno na porta de São Januário voltar até a garganta e por ali permanecer por alguns minutos. Era castigo demais para quem havia permitido apenas uma finalização até então.

O gol, esse suvenir irresistível para quem o marca e kriptonita de quem o sofre, fez o Vasco voltar mais manso no 2º tempo. A pressão ofensiva já não era tão eficiente e o canto já não era tão alto. Mas ainda assim estava lá.

Bastou Luxemburgo sacar Yan Sasse e Marquinho, duas das peças menos efetivas do time, e colocar Tiago Reis e Bruno César no gramado, para São Januário reacender. Primeiro, nas vaias. Depois, nos aplausos. E o Vasco mudou.

Não só pelas alterações naturais, de jogadores, mas também na estrutura. Antes no seu tradicional 4-3-3, variando para um 4-1-4-1 defensivo, com um centroavante móvel, a equipe passou a se posicionar num 4-2-3-1, com Bruno César pela direita, Valdívia centralizado, Marrony pela esquerda e Tiago mais à frente, fixo.

Na primeira bola de Bruno pela direita, falta de Digão, que recebeu o segundo amarelo e foi expulso. Era a deixa para São Januário explodir novamente. Na cobrança, Bruno levantou e Henríquez – impedido -, carimbou a trave.

Pouco tempo depois, em lance parecido, o gol. A bola, irônica que só ela, se recusou a entrar diretamente na cabeçada de Marrony, defendida por Agenor. Na sequência, desviou dos pés de Tiago Reis – outro jovem atacante, talvez inexperiente demais para aquele momento – e se lançou indiscreta e oferecida para a canhota de Leandro Castan, o capitão que retornava de lesão, como se procurasse, ali, o de maior patente para lhe empurrar para as redes.

São Januário, que por 35 minutos temeu uma tragédia futebolística, naquele momento se embebedou de uma certeza incontestável: aquele jogo viraria.

Todo torcedor é um sensitivo por natureza. Seja por memória física ou emocional. Ele pressente a vitória e a derrota. O empate, descartável que só ele, poucos preveem.

Portanto, quando a bola dançou pela pequena área e caiu nos pés de Castan, que empatou o jogo, estava claro ali que a virada era uma questão de tempo. A bola, quando não quer entrar, logo procura uma saída. Nesse caso, ela buscou o gol.

O Vasco, que já era melhor no 11 contra 11 perdendo, se tornou ainda mais superior com um a mais e o empate no placar.

Mas  a torcida virou antes mesmo do time.

Nas arquibancadas, o triunfo futuro vascaíno já era cantando e impulsionado por milhares de pessoas. Quando Pikachu recebeu de Bruno César – olha ele aí de novo -,já atuando na meia após a entrada de Cáceres na vaga de Valdívia, e Frazan foi expulso – ao meu ver de forma exagerada -, a ironia do gol já estava toda planejada.

Por meses, colegas da imprensa repetiram a informação de que o Vasco não marcava um gol de falta desde novembro de 2017, com Nenê, contra o Santos. Nem mesmo quando Danilo Barcelos marcou sobre o Volta Redonda e o mesmo Fluminense, esse dado sumiu de circulação. Valdívia ainda fez sobre o Foz do Iguaçu, num amistoso, e o gol na Vila Belmiro seguiu na pauta. Aparentemente, precisavam de um confronto direto para atualizar a planilha.

Bruno César, dono da 10 que um dia vestiu Nenê – estreante desta manhã -, fez questão de apagar qualquer passado numa cobrança perfeita, no ângulo. A plaquinha de “Eu já sabia” subiu mais rápido que o grito gol na Colina Histórica.

Festa de quem produziu muito mais em campo – 13×4 finalizações – e quem se preparou desde cedo para ser o palco dela.



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