Promessa cumprida



Vasco voltou a vencer no Brasileiro (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Vasco e Paraná prometiam, antes mesmo da bola rolar, fazer um dos jogos menos atraentes deste início de Brasileirão. Dito e feito. O embate entre a pior defesa e o pior ataque do ano cumpriu com maestria a expectativa. Para alguns, talvez até tenha superado. A cena de Riascos sendo chutado pela bola representa bem o ritmo do confronto.

O lindo lançamento de Andrey para Pikachu marcar o gol único da partida, surgiu como um espasmo involuntário de futebol em meio ao silêncio técnico que assolou São Januário. Não fosse esse lance, e só ele, poderíamos dizer que qualquer outro esporte foi disputado naquele espaço. Ou talvez nem esporte fosse.

É bem verdade que a equipe de Zé Ricardo entrou desfalcada de 12 jogadores. Ou 14, não sei. Talvez ninguém saiba. O Departamento Médico do Vasco se tornou um daqueles carros de gincana, que não param de sair pessoas de dentro, onde fica sempre a dúvida se são as mesmas voltando por uma passagem secreta ou se realmente há essa quantidade exagerada de passageiros.

O DM vascaíno se tornou um grandessíssimo coração de mãe.

A preparação física, entretanto, não é uma dádiva divina, um acontecimento aleatório, mas sim um trabalho de responsabilidade exatamente da comissão técnica comandada pelo treinador. Ou seja, ausências por lesões não podem ser justificativas. Muito pelo contrário. É mais uma pergunta que segue sem resposta no clube.

Mas voltemos ao futebol. Ou ao pouco que tivemos dele. O gol. Mais especificamente a Andrey, o homem do passe.

Já escrevi algumas vezes sobre a dificuldade das pessoas em elogiar. Inclusive – ou principalmente -, os jornalistas. É como se sentissem presos ao elogiado, como se uma palavra positiva sobre uma boa atuação unisse eternamente os laços dos dois, e nenhum tom pudesse ser mudado posteriormente. Acho que é por isso também que as ruas só carregam nomes de pessoas falecidas. Têm que esperar a obra completa.

Com a crítica, porém, não há a mesma prudência. Ela flui com a naturalidade de um rio em tempo de cheia.

Eu penso diferente. Prefiro elogiar os grandes momentos, ainda que sejam fugazes, exatamente para criticar com a mesma tranquilidade durante as fases ruins. Temos o hábito de apontar o dedo ao primeiro erro, de rotular de início. E um destes exemplos, ao meu ver, é Andrey.

Bastaram alguns – poucos – jogos discretos, abaixo do que se esperava pelo o que havia feito na base, para que alguns tachassem o garoto de medíocre, mediano. Não é. E ainda que fosse, Zé tem hoje para a posição nomes que estão abaixo desta linha média imaginária. Ou no limite dela. Ser mediano, neste caso, já seria uma vantagem. No mínimo, um termo de igualdade.

A bola para o gol de Pikachu, entretanto, é de quem é acima. De quem enxerga além, longe. E não apenas olha, conclui com eficiência essa ligação. Uma coisa é ver a passagem do companheiro, a outra é encontrá-lo, livre, em velocidade, no ponto certo. Alguns, nem no videogame.

Mas Andrey achou.

Pressionado pelos dois homens mais adiantados, o volante encontrou Yago às costas dos quatro mais recuados. O lançamento ignorou completamente todo um time, que assistiu sem reação o voo rápido da bola passando por suas cabeças com se guiado por controle remoto. Andrey colocou a bola entre eles e a última barreira que separava o artilheiro da rede. Pikachu chegou no tempo exato para dar esperança ao goleiro, mas certeza à torcida.

O chapéu antes de estufar as redes foi mais que necessário, foi uma obrigação pelo passe recebido. Afinal, não se embrulha um presente tão bonito com uma simples caixa de papelão ou um saco plástico de mercado. O laço não é somente um adereço, um enfeite, ele faz parte do mimo.

E apesar do vazio técnico em campo, nivelado talvez pelo vácuo das bombas dos postos de gasolina do país, o Vasco teve outras chances de ampliar – assim como o Paraná de empatar. Riascos e Pikachu, porém, foram de uma generosidade comovente, quase que angelical, frente ao gol. Algo que jamais um artilheiro deve ter.

Em duas jogadas pela direita, uma no início e outra no fim do 2º tempo, os vascaínos saíram na cara do goleiro. Num daqueles lances em que ou consagra o arqueiro – Fernando Miguel que o diga – ou glorifica o atacante. Os dois, porém, preferiram canonizar a zaga com passes errados para o meio, na contramão do gol.

Giovanni Augusto ainda perderia um pênalti que sequer deveria ter batido, num péssimo momento escolhido para ganhar moral com a torcida. O 1 a 0 magro e frágil quase se tornou um 1 a 1 forte e rejuvenescedor para os paranaenses.

Jogo ruim se perde até na reprise da madrugada. Por isso ninguém assiste de novo. E Giovanni já tem experiência suficiente para saber disso.

O Vasco deixou o campo comemorando os três pontos. Justo. Era o mínimo que se esperava contra o último colocado, e diante de seu torcedor.

O mínimo, porém, nem sempre será o suficiente. Já passou da hora da equipe dar seu máximo.



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