A paciência seletiva de Zé Ricardo



Erazo voltou a ser titular, e Vasco voltou a ser goleado (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

“Partida irreconhecível do Vasco na Fonte Nova”.

Luiz Roberto, narrador da Globo, repetiu algumas vezes esta frase na transmissão de Bahia três, Vasco zero. Vou, respeitosamente, discordar do grande colega. Todos os erros cometidos pela equipe de Zé Ricardo são antigos e repetidos. Portanto, conhecidos. De domínio público, eu diria.

A fragilidade defensiva do lado esquerdo foi algo escancarado ainda na goleada sofrida para o Racing, por 4 a 0, na Argentina. Curiosamente, esta havia sido a última partida de Erazo como titular. Até esta quarta-feira. O equatoriano foi uma das novidades de Zé, e novamente o seu lado sofreu. Foi por lá que João Pedro iniciou a jogada do primeiro gol baiano, anotado por Zé Rafael.

Gol esse marcado em um dos inúmeros rebotes pegos pelo Tricolor no jogo. Outra antiga falha da equipe, que parece ter sempre um jogador a menos na entrada de sua área. Um erro de posicionamento de seus volantes, muitas vezes causado pela pouca participação de Wellington, principalmente na parte defensiva, o que sobrecarrega Desábato e a dupla de zaga.

Élton, Élber e Edigar Junio também criaram boas chances pelo lado de Henrique e Erazo. A preocupação do treinador, porém, desde antes da bola rolar, era o outro lado. Zé colocou Werley como lateral-direito e manteve Pikachu como meia. A ideia de fortalecer o lado na verdade teve o efeito de uma âncora no time, que não conseguiu sair jogando pelo flanco e se viu cada vez mais acoado.

A postura defensiva chamou ainda mais o Bahia para o seu campo, que avançou os laterais e volantes, dominando a intermediária ofensiva como se fosse um jogo de War. O Vasco transpirava medo, enquanto que o Bahia babava de fome.

E foi nesse embate de quem se encolhe e quem se impõe, que os donos da casa ampliaram o placar. Da maneira mais tradicional e previsível: no jogo aéreo. De irreconhecível, apenas a atuação de Desábato, destaque no ano e na goleada sobre o América Mineiro. É ele quem deixa Edigar Junio subir livre para fazer 2 a 0. Assim como seria ele quem perderia a bola para Zé Rafael servir Vinícius para marcar o terceiro.

Apesar do lado esquerdo exposto, do direito inutilizado e um buraco imenso entre a zaga e os volantes, por onde o Bahia concluiu suas principais jogadas, Zé Ricardo optou, com 30 minutos de jogo, sacar o garoto que havia dado o único chute da equipe em gol: Bruno Cosendey.

Assim como fez quando tirou Ricardo Graça do time, após a goleada sofrida em Sucre, para o Jorge Wilstermann, o treinador mostrou ter menos paciência com os jogadores vindos da base do que com os mais experientes. E olha que teimosia parece ser uma de suas marcas.

Zé insiste com nomes que não vêm bem, promove o retorno de Erazo, mantém Wellington, Paulão, mas desiste de Cosendey com a naturalidade de quem joga um papel de bala Juquinha pela janela do carro. Errado e precipitado, mas sem olhar para trás. E o mais interessante: o faz sem que a sua saída promova qualquer alteração na estrutura do time. Ou seja, foi uma troca individual, não tática.

O treinador trocou um meia por outro, mas manteve Werley plantado no fundo, Caio e Yago correndo atrás dos laterais, Henrique e Erazo sofrendo na esquerda, e Wellington e Desábato perdidos e inofensivos nos desarmes. Aliás, esse é outro velho problema do time de Zé Ricardo, que cerca muito e dá pouco combate.

Contra o Bahia, em certos momentos, os jogadores pareciam até constrangidos em chegar perto dos adversários. O lance de João Pedro, na jogada que originou a abertura do placar, passando por dois ‘marcadores’ sem ser ao menos desequilibrado, é um exemplo claro disso. De tanto recuar, o Vasco passa a ter medo também de fazer falta. É aí que surgem os espaços, o distanciamento, a falta de combatividade.

No Brasileiro, por exemplo, o Cruz-Maltino tem a penúltima pior média de roubos de bola – dez por partida -, segundo o Footstats. Ainda assim, zagueiros e volantes seguem intactos no esquema de Zé.

Contra o Bahia, apesar da supremacia tricolor, que atacou o tempo todo e teve 61% de posse de bola, o Vasco conseguiu apenas oito desarmes. Fruto de um time que se posiciona mal, recua demais, e, por isso, corre atrás do adversário. Erros que certamente não seriam corrigidos com a simples saída de Cosendey, que vinha atuando mais adiantado e não como volante.

Zé poderia ter tirado Erazo e retornado Werley e Pikachu para suas posições originais. Ou poderia ter colocado Cosendey na função que exercia no sub-20, de 2º volante, mas para isso teria que tirar Wellington. O treinador, entretanto, escolheu por sacar a peça mais nova, optando por permanecer com os erros já conhecidos.

Ou seja, de todos os problemas que a equipe tinha – e tem -, possivelmente o menor deles, contra o Bahia e no ano, fosse o desempenho de Bruno Cosendey. Mas foi, assim como Ricardo Graça, o primeiro a ser sacado, descartado. Silenciosamente estampado como culpado. Mais uma vez.

A teimosia de Zé Ricardo parece direcionada. A paciência, por sua vez, é seletiva. O difícil tem sido entender os critérios.

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