Os moinhos de vento do Vasco



Vasco parece enfrentar um adversário imaginário (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Encontrei um amigo tricolor logo de manhã que já profetizava: “É hoje que o Vasco enterra meu Fluminense, não é?”. Sorri sem saber o que dizer e lancei o inquestionável e enigmático: “Vamos ver”.

Mesmo sabendo que não existe clássico vencido de véspera, o desânimo do colega das Laranjeiras tinha motivos reais. Além da fase ruim do time, sem vencer há quatro jogos – agora cinco -, teria pela frente um rival que não era derrotado por ele há nove jogos: sete vitórias vascaínas e dois empates. Agora são dez.

O Vasco de Luxemburgo, no entanto, nas últimas rodadas parece enfrentar um adversário imaginário. A briga contra o rebaixamento, ainda tão falada por jogadores e comissão técnica – e parte da torcida também -, me lembra os combates de Dom Quixote com seus moinhos de vento, acreditando enfrentar um gigante.

Com medo de ser esmagado, criou uma luta imaginária em sua cabeça que o impede de combater sua batalha real. Já a algum tempo distante da zona de rebaixamento e com cada vez menos jogos a serem disputados – o que reduz as chances de queda -, o time abriu mão de sua pressão alta que vinha dando certo e passou a jogar mais recuado, assumindo novamente o papel de figurante, algo que parecia ter deixado para trás.

Por mais que o sonho de uma vaga na Libertadores não tenha passado de uma paixão inventada, como a Dulcinéa de De la Mancha, a chance de rebaixamento também é irreal.

Com o 17º colocado com 30 pontos após 29 jogos – número do início da rodada -, o Z4 tem a sua linha de corte mais baixa desde 2014, quando Botafogo, Bahia e Criciúma tinham a mesma pontuação neste período. No fim daquele Brasileiro, o Coritiba terminou na 17ª posição – primeiro na zona – com apenas 38 pontos.

Agora, restando ainda oito jogos, o Vasco já tem 39. Ainda assim, teima em olhar para o rebaixamento como se fosse um gigante a ser combatido. Não é. Assim como os moinhos de Dom Quixote, é apenas uma loucura recorrente de sua cabeça. Muito provavelmente resultado de suas experiências recentes.

E assim o Cruz-Maltino entrou em campo para encarar o Fluminense, como se enfrentasse um adversário direto – palavras inclusive de Pikachu ao fim do jogo. A equipe de Luxemburgo, como havia feito também contra Internacional, Ceará e Grêmio, marcou de sua intermediária para trás, demonstrando um medo irreconhecível em relação aos duelos, por exemplo, contra São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro, Internacional – em São Januário -, Botafogo, Goiás e alguns outros.

Ter a posse nunca foi uma característica do time de Luxa, é verdade, mas a marcação forte sim. Mesmo com o Tricolor tendo a bola 65,8% do tempo, os vascaínos conseguiram apenas 15 desarmes no clássico. A mesma marca obtida pela equipe de Marcão, que a teve de posse por 2/3 do jogo.

O Flu perdia e tentava recuperá-la. Já o Vasco parecia não precisar da bola para nada.

O recuo vascaíno, portanto, não está ligado apenas ao esquema escolhido ou a quantidade de volantes colocados em campo – como muitos acham – , mas sim a sua postura. Foi jogando com três volantes que o time conseguiu vencer os seus 10 jogos até agora. Com dois, no 4-2-3-1 de Alberto Valentim do início da temporada, não ganhou nenhuma no Brasileiro.

A questão é que seus volantes antes marcavam em cima e se aproximavam para concluir. Foi assim que Raul virou uma arma pela direita, que Andrey marcou contra o Internacional, e Marcos Júnior decidiu contra Goiás e Atlético Mineiro. Com Guarín fora de forma e Bruno Gomes atuando ao lado de Richard, ambos recuados, isso já não é possível, e o Vasco se limita as arrancadas de Rossi e Marrony pelos lados, isolados, sem a companhia sequer de um Sancho Pança.

Amedrontado por um fantasma que não mais existe, o Vasco recuou e abdicou de jogar contra o Flu, permitindo 17 finalizações ao rival – a primeira, com 14 segundos de jogo. Suas, na direção do gol, foram apenas duas, igualando a sua pior marca no campeonato.

Para quem acha que a luta do Vasco é apenas contra a queda, o 0 a 0 foi um bom resultado que o manteve distante do Z4. Mais um resultado confortável para não brigar por nada. Aos que conseguem enxergar moinhos ao invés de gigantes, no entanto, o empate não passou de mais uma chance perdida de se praticar o bom e velho futebol.



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