O dilema do Vasco de Abel Braga



Raul não começou bem em 2020 (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Tenho me visto num dilema constante por aqui em 2020: como achar um destaque novo num time que faz tudo sempre igual? Analisar o Vasco diariamente se tornou um processo de criatividade, quase inventivo. E olha que faço isso há 12 anos. Uma criação, aliás, que inexiste na equipe de Abel Braga.

Ambos, portanto, vivemos dilemas.

Após a vitória sobre o ABC, na última quinta-feira, fiz uma coluna para o site Torcedores – onde também escrevo – mostrando que entre o que Abel Braga pensa sobre o jogo e o que é o elenco é capaz de fazer há um abismo. Um espaço, eu diria, inalcançável nesse momento.

Eu já havia avisado em outro texto, inclusive, lá no início: Abel tenta fazer limonadas com cerejas. E realmente é bem isso.

Nesse domingo, contra o Volta Redonda, isso ficou ainda mais claro. O Vasco teve mais posse (58,3%), mais finalizações (15×13) e nem por isso foi mais perigoso que o adversário. Isso, aliás, aconteceu em oito dos dez jogos com os titulares até agora em 2020.

Por quê? Porque ter a posse, no caso dos cruz-maltinos, é um risco.

Luxemburgo detectou isso assim que chegou ao clube em 2019. Deu a bola ao adversário e tratou apenas de contra-atacar. Por que é o seu estilo de jogo? Não, porque era o que dava pra fazer com o grupo que tem.

Abel, por sua vez, ainda vive o dilema da mudança.

O técnico quer ter a posse para trabalhar com calma em busca do gol. É característica antiga dos seus times. A posse sempre é bem-vinda, mas falta de objetividade sempre foi uma crítica. Isso com elencos superiores ao do Vasco atual, imagina com menos qualidade.

Marrony, Vinícius, Raul, Juninho e Pikachu são jogadores de aceleração. Cano é um finalizador, não um construtor. Marcos Júnior, o mais próximo de um meia de criação nessa equipe, parece não ter estreado ainda em 2020. Com exceção e Andrey, ninguém pisa na bola, levanta a cabeça e enxerga o jogo.

Limões e cerejas.

Por isso, quanto menor o tempo com a bola, menor a chance do Vasco errar e se desorganizar. Foi assim, aliás, que triunfou contra o ABC: cinco passes desde o desarme de Andrey e o tento de Germán Cano. No Carioca, segundo o Footstas, o time precisa dar em média 627 toques antes de estufar as redes, a 2ª pior marca do campeonato.

Sem Rossi, líder do time em dribles, assistências, desarmes e finalizações no último Brasileiro, hoje no Bahia, o Vasco não consegue ser rápido o suficiente para dar verticalidade ao ataque. Sem meias de criação, escassos no elenco, e Talles Magno, machucado, também não é capaz de envolver e quebrar linhas defensivas fechadas. O que força as conclusões precipitadas.

Contra o Voltaço, 10 dos 15 chutes foram de fora da área. Apenas dois certos. E não foi uma exceção.

No Carioca, são 54 tentativas de longe em apenas sete partidas – o clássico com o Flamengo não teve scout -, a maior marca do campeonato. Dessas, no entanto, apenas dez foram na direção do gol (18,5%). Ninguém errou tanto quanto o Vasco nesse fundamento. E sem infiltração, é uma das poucas armas da equipe.

Abel não abre mão da posse de bola. O Vasco não tem dinheiro na mão pra brincar de bola. Alguém vai ter que abrir mão de algo. Ou então terão que largar a mão um do outro.

O dilema do clube, nesse momento, é claro: ou Abel muda, ou muda o Vasco.



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