Os Camisas Negras e o negro sem camisa



Marrony fez o gol da vitória vascaína (Foto: Marcelo Gonçalves/Photo Premium)

O Vasco atual carrega consigo uma dificuldade imensa de se olhar no espelho e reconhecer a si próprio. Sob uma lente turva, vê-se desfigurado a cada dia, indistinguível até para quem o viu crescer.Há, porém, ainda, uma fagulha que dá vida ao clube. O reflexo mostra o rosto, sem identidade, mas o segredo está na alma que o retrato não revela. Por mais que a chama pareça cada vez mais branda e opaca, em certos momentos ela inflama pelas mãos de quem a ama. Foi o que aconteceu em São Januário nesta segunda-feira.

No dia em que estreou uma nova camisa em homenagem aos Camisas Negras, o Cruzmaltino cometeu a deselegância de entrar em campo sem nenhum jogador originalmente de suas entranhas. Digo deselegância e não desrespeito porque não é uma obrigação do treinador usar a base, é claro. Entretanto, é uma questão de pertencimento, de personalidade. Eu diria até de sobrevivência.

Não ter um filho seu em campo é, no mínimo, simbólico.

O time de Alberto Valentim era, antes de qualquer detalhe técnico, um anti-Vasco. Um Vasco sem raiz, montado sob a frágil sorte da aposta. Uma equipe importada a esmo, sem vínculo ou marca de nascença.

E no Vasco, como é sabido, não basta ser mais time, tem que ser, acima de tudo, mais Vasco.

Era como se vestissem ali onze quaisquer, com o pretexto de que a camisa faria o resto. Ora, sou desses que acreditam em milagres, em ações divinas no campo de futebol, mas é necessário uma fagulha para que ele desperte. É necessário ter a alma irascível descrita por Platão, irracional e passional. Não apenas irracional, como foi o Vasco de Valentim.

O Vasco, que contra o Flamengo fez de seu meio-campo improvável a grande obra de criação de seu treinador, num processo quase que de alquimia, dessa vez, frente ao Bahia, errou na dose, transformando o remédio em veneno. Transformando não, revertendo. A escolha de Alberto por um meio mais ofensivo e menos combativo seguiu a linha oposta a do clássico. O time, que carregara um quê de rinha de galo contra o rival, desta vez se mostrou mais manso que hater de internet em público.

Com um minuto, Gilberto já aparecia com a liberdade de um golfinho na área para tentar de letra. Dois minutos depois, era a vez de Paulinho. Aos cinco, o centroavante voltaria a aparecer na pequena área, desta vez parando em milagre de Martín Silva. Aos sete, idem.

Foram cinco finalizações do Bahia em apenas sete minutos, num autêntico ataque contra defesa, onde por ataque se entendia todo o Bahia e por defesa somente Martín, que em noite de Nelson – goleiro do Camisas Negras -, voltou a ter atuação destacada. Não fosse o uruguaio, a derrota vascaína teria chegado mais rápida que os contra-ataques adversários.

O gol de Pikachu, de pênalti, na única conclusão do time em todo o 1º tempo, mostrava um placar mais enganoso que aperto de mão com as pontas dos dedos. Era o Bahia quem jogava – com um a menos, após a expulsão do goleiro Douglas no lance que originou o gol – , mas o Vasco que vencia. Até os 47, quando Gilberto finalmente bateu Silva, empatando o jogo.

Era tudo, menos o Vasco em campo. Sem uniforme, um qualquer.

Um inadvertido acreditaria que era o Bahia quem jogava com um a mais, tamanha a facilidade tricolor em romper as linhas cruz-maltinas, sem demonstrar sequer algum tipo de preocupação. Até mesmo Gregore, o volante-volante do time, pisou sem medo na área de Martín, numa demonstração clara de falta de imposição vascaína.

Em 90 minutos – fora os acréscimos -, a equipe roubou não mais que três bolas – seu pior desempenho no campeonato. Uma marca tão discreta que o termo certo talvez nem seja roubar, mas sim tomar por empréstimo, tendo em vista que o time devolveu a redonda gratuitamente em 39 passes errados durante o duelo. Um juros altíssimo, eu diria.

Há, porém, como já dito, uma fagulha de Vasco ainda viva.

Negro, jovem, humilde e recrutado no interior do Rio – chegou de Volta Redonda -, Marrony é tudo pelo o que o Vasco sempre lutou, desde os Camisas Negras. E quando o clube volta a olhar para a sua origem, quando ele abraça a si próprio e as causas que o formam, ele imediatamente reacende a chama que o faz especial.

Foi dele o gol da vitória, na maior homenagem que os Camisas Negras poderiam receber: a certeza de que a luta valeu a pena.

A história, meus amigos, não é apenas algo que ficou no passado, mas sim a essência do nosso presente. E nesse Vasco, desta segunda, ninguém era tão camisa negra quanto Marrony. Ainda que jogasse de branco ou até mesmo com o peito desnudo, como saiu para comemorar.

Aliás, houve quem contestasse sua comemoração, em razão do cartão amarelo recebido. Ora, se até o vascaíno que jamais chutou uma bola no rala coco viu sua camisa voar com a rapidez de um grito de gol, não seria o garoto, em seu primeiro tento profissional, que sairia para a corrida da consagração com seu corpo amarrado às leis inúteis do futebol. Se não fosse televisionado, talvez nem os shorts permaneceriam.

No futebol, inclusive, a única regra para o gol deveria ser uma multa imposta aos que não o fazem. No mais, que se adote uma imunidade artilheira. Impulsionado por 120 anos de tradição, Marrony subiu mais alto que a marcação adversária e tão forte quanto a paixão que emanava das arquibancadas. Com a cabeça que faltava o time, recolocou o Vasco no caminho antes perdido: o da vitória.

Ali, no garoto negro que vive o sonho de outros tantos, é onde mora a alma vascaína, o seu âmago. É onde o Vasco, ainda que com o rosto desfigurado, se faz alma. E vence, até quando não merece no presente, pela semente que plantou no passado.

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