A obra inacabada de Guarín



Guarín marcou três gols pelo Vasco em 2019 (Foto: Marcelo Gonçalves/Photo Premium)

Na era das séries e do streaming, o Vasco se mantém no embalo das novelas dos anos 90. Não há um movimento sequer no clube que não seja arrastado, cheio de altos e baixos e reviravoltas inesperadas. Do campo à política. A mais nova não é mexicana, mas sim colombiana: Freddy Guarín, que não sabe mais se vai ou se fica.

Principal nome do elenco, com experiência na Europa e em Copa do Mundo, o colombiano foi contratado no fim de setembro do ano passado. A ideia era ter uma referência da equipe. Alguém com carisma pra mobilizar a torcida e futebol pra alavancar o time. E logo isso se confirmou.

A verdade é que o meia já chegou praticamente como ídolo, num clube onde é cada vez mais raro se usar esse termo com convicção.

Mas o problema é que Guarín vem se transformando numa obra inacabada, dessas que a cada dia apresenta um problema novo. O projeto final segue sendo animador, uma melhora considerável no cenário. No entanto, sem previsão para estar pronto e com o custo aumentando, coloca em dúvida a viabilidade do projeto.

O colombiano chegou fora de forma, mas logo nas primeiras partidas deu sinais do que seria capaz. Com seis minutos contra o Botafogo e 45 contra o Inter – duas vitórias consecutivas do Cruz-Maltino -, já havia caído nas graças da torcida. Afinal, se acima do peso já era destaque, imagine bem?

O problema é que esse dia vem teimando em não chegar.

Guarín virou titular cedo demais e a equipe caiu de rendimento, apesar de suas boas participações individuais. Com a bola, era capaz desequilibrar jogos. Sem ela, desequilibrava o time. Técnico e físico não eram equivalentes.

Na tentativa de Vanderlei Luxemburgo em colocá-lo sem estar 100% entre os titulares, o Vasco passou quatro jogos sem vencer e viu sua chance de brigar pelo G8 reduzir. O time só voltou a triunfar contra o CSA, quando o camisa 13 iniciou no banco.

Sua melhor atuação provavelmente foi no 4 a 4 com o Flamengo, onde atuou mais recuado, tendo que percorrer um espaço menor e com a visão completa do campo. Usou e abusou dos lançamentos certeiros para iniciar contra-ataques e esteve sempre bem posicionado. Era a técnica e a experiência se sobressaindo ao físico.

Na reta final, já em melhores condições, voltou a jogar mais adiantado, marcando gols importantes contra Goiás – 1 a 1 – e Cruzeiro – 1 a 0. Definitivamente, Guarín estava nos braços da torcida vascaína. E com justiça.

Tecnicamente incontestável, bastava adequar o físico para se tornar um obelisco no meio-campo vascaíno. Em algum momento, esperava-se que Guarín atingisse essa condição. Mas veio o fim da temporada e, junto dela, dois meses de negociações para se conseguir a renovação.

Mais uma vez o colombiano chegou fora de forma, sem pré-temporada e com os campeonatos já rolando. Fez somente três partidas em 2020 e em nenhuma atuou os 90 minutos. O foco, porém, era o Brasileiro e as Copas – do Brasil e Sul-Americana. Teria tempo.

Mas veio a pandemia.

O futebol mundial parou, o Vasco parou e Guarín, claro, também parou. Ganhou ainda mais tempo.

O Vasco, porém, já voltou, treinou, mudou de técnico, jogou, ganhou, foi eliminado, parou novamente, e Guarín, nada. A preparação para o Brasileirão já começou e o colombiano segue sem treinar. Ramon testou um novo esquema, introduziu um novo modelo de jogo e nada da sua referência. É preciso encontrar outras, não dá pra esperar.

Um torcedor me mandou uma pergunta no Twitter: “Garone, como o Vasco pode ser escalado sem o Guarín?”. Não vejo sentido na pergunta. A questão é onde ele poderia entrar, caso fique. O Vasco sem Guarín é o Vasco que já vinha sendo na maioria das vezes.

Em nove meses em São Januário, Freddy Guarín ainda não conseguiu completar mil minutos em campo com a camisa cruz-maltina. Cano, que chegou este ano, já atuou em 1170 minutos.

São apenas 15 jogos – totalizando 954 minutos – e três gols marcados pelo colombiano. É muito pouco. Não dá para ser referência apenas fora de campo.

Aos 34 anos de idade, Guarín precisa decidir se completará a sua obra no Vasco ou se será apenas mais um projeto inacabado. O Vasco, peto dos seus 122, não pode se dar ao luxo de esperar por muito mais tempo.

Afinal, obra boa é obra pronta.



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