O voo do Vasco



Bruno Silva fez um dos gols contra a La U (Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco)

A corrida é decisiva e constante, sem hesitação. É retilínea, como muitas vezes o Vasco não é. O salto é impulsivo, meio torto, porém, eficiente. Como vez ou outra o time consegue ser. A bola entra mansa, debochada, vagarosa, como uma criança que corre arrastando os pés antes de bater o salve todos no pique.

É o gol da classificação.

A camisa, de tamanho quase infantil, deixa o corpo numa simples passada de mão. O rosto sério, concentrado, esconde a alegria do gol e demonstra a tensão dos últimos dias. Mas não é raiva, é alívio. Pikachu lança o manto branco no ar com a mesma velocidade e intensidade com que parte para o gol. E cai no chão, aos prantos.

No dia do abraço, o jogador recebe o carinho dos companheiros e de uma torcida que cada vez mais precisa se ver também abraçada. Afinal, todo amor requer reciprocidade.

O gol de Pikachu, da classificação do Vasco para a Sul-Americana, do alívio momentâneo de um clube que tem praticado cada vez mais a resiliência, foi daqueles abraços que surgem em meio ao caos.

A bola longa de Martin Silva pareceu parar o tempo por alguns instantes. Foram cinco segundos entre a batida e o primeiro quique no chão. Mais dois até a cabeçada de Yago. Outro dois até balançar as redes. Nove longos segundos que, em uma Libertadores, parecem dias.

Tempo suficiente para decidir uma classificação ou postar algo estúpido na internet. Depende de onde você se posiciona.

Não há jogador incriticável no mundo. Nem os craques o são. Aliás, uma das qualidades do grande jogador é exatamente dar a volta por cima, calar os críticos. Na bola, em campo. Jamais nas redes sociais.

Assim como fez Bruno Silva, que está longe de entrar no seleto grupo citado acima. Ainda assim, não perdeu a oportunidade recebida.

Com 30 anos de idade e vindo da modesta Ferroviária, o volante recebeu as primeiras críticas antes mesmo de vestir a camisa vascaína. Talvez até mesmo antes de assinar o contrato. Ainda assim, esteve lá, no gramado, em silêncio, respondendo as perguntas com futebol.

A questão nunca foi de quem é a culpa pelas derrotas, mas sim quem é capaz de transformá-las em vitórias. Com uma arrancada de 76 metros, iniciando e terminando a jogada do primeiro gol sobre a La U – vitória por 2 a 0 –, Bruno respondeu, ainda que indiretamente, a Wellington, autor da pergunta. Pode ter sido apenas um chute, mas foi certeiro.

Na verdade, certo mesmo seria se a bola de Wagner, no 2º tempo, tivesse entrado.

Caprichosa e teimosa, tocou a trave e a rede mas se recusou a entrar. Faria justiça àquele que carrega a 10 duas vezes às costas. E tem jogado por dois. Marca e ataca com a intensidade de um menino e a inteligência de um veterano.

Nem sempre foi assim, mas tem sido. Exatamente por ter superado as críticas.

Tal qual Breno, que distante da sombra de Anderson Martins, tem se mostrado, neste seu retorno, capaz de capitanear a defesa vascaína.

Enquanto uns voavam prematuramente para o Brasil, outros davam ao Vasco uma nova escala. E se a Sul-Americana ainda não é o voo que o Cruz-Maltino tanto sonha, ao menos é aquele que seu atual avião comporta.



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