O táxi de Madureira



Nenê fez o gol da vitória, mas Vasco não teve boa atuação (Foto: Wagner Meier/Lancepress)

Nenê fez o gol da vitória, mas Vasco não teve boa atuação (Foto: Wagner Meier/Lancepress)

Meu avô passou mais de dez anos dirigindo táxis em Madureira. Na época, não haviam ubers, clubbers ou bloopers. Apenas oba-obas, clubes e ‘blondes’. Da segunda opção vinha seu ganha pão.

O carro de vô David passava constantemente à frente das sedes dos clubes cariocas em busca de algum jogador-passageiro que elevasse a importância do se velho fusca. Não tinha selfie para registrar o momento, por isso um autógrafo era tão único e valioso. O prendia no vidro junto com a foto de seus filhos.

Oswaldo Cruz era o ponto fixo. Onde se apresentava no contraponto do prolixo.

Vô era vascaíno, descendente de alemão e apaixonado por Madureira, desde os tempos em que Lelé, Isaías e Jair da Rosa Pinto faziam frente a Ipojucan, Sabará e Ademir. Os ‘Três Patetas’. Três paletas que pintaram as três cores do Madura para sempre na história do futebol.

Mas quando o Cruz-Maltino recebeu o Tricolor Suburbano neste sábado, em São Januário, nem (vô) David, nem Golias. O que se viu foi uma pequenez incomum aos donos da casa. Aos visitantes, uma imposição não vista desde os tempos em que o carro de vovô tinha placa amarela.

Vasco e Madureira fizeram um jogo chato. Tanto quanto pegar corrida curta, diria meu avô. Ainda que jamais as recusasse. Ele sabia quantos quilômetros precisava rodar para sustentar a família e entendia que nem sempre eles vinham todos num ligar de carro. Era necessário dias, horas, rodagem.

O time de Jorginho parece ter esquecido disso. Cumpriu sua quilometragem e hoje roda despreocupado pelo Estadual mostrando muito pouco e se contentando com ainda menos. Cobra bandeira dois e entrega de bandeja um ‘ora pois’.

O Vasco parece ter parado no ponto e desligado o celular à espera da corrida perfeita. Abandonou o meio, olha o fim, mas esquece que tudo faz parte do todo. O estado também passa por Madureira, Volta Redonda e Bangu. E a torcida quer, antes de tudo, ver o time. Independente de adversário.

Toda corrida tem seu destino. Ainda que se olhe sempre para o fim, a distância a percorrer também tem que ser proveitosa. Quem paga, paga pela viagem, não apenas pela chegada.



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