O tango de uma nota só



Maxi López marcou contra o Fluminense (Foto: Marcelo de Jesus/Raw Image)

Me peguei tentado a escrever aqui que o Vasco é um samba de uma nota só, mas não seria justo com o tricolor Tom Jobim, compositor da música, tal referência. Ainda que seu filho, Paulo, seja vascaíno. Injusto não apenas pela derrota do Fluminense, que não agradaria o maestro, mas pelo abismo que separa o trabalho de Jobim e o de Valentim.

O de Alberto, se não fosse pelo tango solitário sussurrado por Maxi López, hoje sequer existiria. O Vasco é, portanto, um tango, sofrido e melancólico, de uma nota só, e não um samba, alegre por natureza.

Bola na lateral, e cruzamento para Maxi. Bola no meio, e pivô de Maxi. Chutão pra frente, e lá vai Maxi brigar com os zagueiros pelo alto. Me atrevo a dizer que, se fosse um pouco mais humilde, Valentim pediria para o argentino escalar e treinar o time também, tamanha a sua importância.

Não duvido, inclusive, que seja ele quem dirige o ônibus, para evitar que errem o caminho.

A sensação que se tem é que, durante uma semana, o Vasco treina chutes para Maxi López. E o argentino, como um gandula isolado, corre para tentar salvar as bolas arremessadas. O obelisco, como escrevi na semana passada, parece ter também a serventia de um para-raio. Foram 44 lançamentos do time em todo o jogo. Apenas 17 certos.

O Vasco depende de Maxi assim como o tango necessita do drama, da paixão.

A verdade é que o Vasco entrou no clássico mais sem gosto, mais ralo, que café requentado no microondas. Um turista estrangeiro, ou um desavisado qualquer, ao assistir o 1º tempo, com arquibancadas vazias, acharia se tratar de um amistoso de fim de ano, e não um encontro entre dois rivais que precisavam subir na tabela. Principalmente pela passividade vascaína.

Andrey, que deveria ser o homem do apego ao passe – como todo bom segundo volante -, o portador da precisão nos pés, era quem mais errava. Estatisticamente, foram seis – o dobro de Maranhão, seu companheiro, que também foi mal. Passionalmente, entretanto, pareceram mais erros que espaços nas arquibancadas, fosse por falta de opção ou de erro na tomada de decisão.

Com a bola saindo quadrada de trás, Fabrício manteve a constância nas atuações que faziam dele o terceiro reserva da lateral-esquerda no início do ano. Inexplicavelmente, o 10 de Valentim é o símbolo não apenas da teimosia do treinador, mas da incapacidade criativa da equipe. Mais por culpa do técnico, que cobra algo do jogador que ele não é capaz de dar, do que do próprio atleta, que em momento algum deixa de tentar.

Sem a posse, Pikachu e Marrony se tornaram inofensivos marcadores de laterais. E Maxi, o homem solitário em busca do milagre, enquanto Luiz Gustavo, Werley, Castán e Ramón lhe bombardeavam com bolas longas.

A vantagem de se colocar opções duvidosas em campo, entretanto, traz uma vantagem: dificilmente o treinador errará ao mudar. É como exagerar no sal ao fazer o almoço e servir sorvete na sobremesa: ninguém nem questiona o sabor, só querem trocar o paladar.

Thiago Galhardo, que obviamente não é um novo Juninho – nem sequer um Alex Oliveira -, mas é mais meia do que Fabrício – assim como Giovanni Augusto também é -, entrou no lugar do camisa 6 no início do 2º tempo. No primeiro lance, pisou na área, local onde seu antecessor sequer havia conhecido a cor da grama, e conseguiu um pênalti.

Maxi, que por tantas vezes viu a bola viajar pelo alto sem conseguir tocá-la, finalmente a teria parada, imóvel, como uma dama que aguarda o parceiro certo para a dança.

Thiago pediu, Pikachu implorou, mas Maxi, com a frieza de um cirurgião e a fome de um artilheiro, assumiu a responsabilidade.  Com a tranquilidade e a elegância de um tanguista, López caminhou para a bola como se pisasse num estádio qualquer, numa partida comum. Acelerou a passada no fim e bateu firme, mudando não o ritmo do seu tango, mas o do samba nas arquibancadas. Seu 5º gol nos últimos seis jogos.

O 1 a 0 achado em meio a mais uma péssima atuação, fez o Vasco se agarrar na defesa como uma criança com medo, que se apega na saia da mãe tentando se proteger dos bate-bolas no carnaval. O Fluminense bombardeou o gol de Martín, que voltou a fazer boa atuação. Foram 21 finalizações do Tricolor, uma delas no travessão e outras quatro parando em Silva.

Uma vitória que diz mais sobre as derrotas do Vasco do que sobre os seus triunfos no ano. Um time previsível e dependente de um único jogador. Assim como o tango, a equipe de Valentim não esconde sua preferência pelo drama.

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