O tango de Cano e Benítez



Cano marcou o gol da vitória do Vasco com passe de Benítez (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

“Acordate de este amigo que ha de jugarse el pellejo. P’ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión”.

Esse é um trecho do tango Mano a mano, de Carlos Gardel, que traduzido é mais ou menos assim: “lembre-se deste amigo que estará disposto a se jogar no couro para te ajudar no que for possível quando chegar a ocasião”. Uma espécie de premonição do famoso cantor argentino para o que aconteceria em São Januário neste domingo. Ao menos na forma com que o placar seria construído.

O gol da vitória vascaína nasceu exatamente de uma dobradinha entre hermanos.

Cano e Benítez são parceiros fora de campo. Compartilham, além da nacionalidade, churrascos, passeios e a alegria de estarem juntos no Brasil. Em campo, se completam.

Enquanto Germán é o típico finalizador, de poucos toques e muitos gols, Martín é exatamente o oposto. É um meiocampista quase onipresente. E o gol que definiu a vitória cruzmaltina sobre o Furacão é o exemplo perfeito disso.

Fazendo valer as frases de Gardel, a ocasião apareceu, Benítez se lançou ao couro e seu amigo, Cano, às redes. Mas a construção foi ainda mais bonita que o fim.

O meia corria pra pressionar Richard quando viu Talles ganhar a jogada. De primeira, numa fração de segundos, Bastos deu a bola no argentino ainda próximo da meia lua defensiva. Começava ali uma arrancada mortal.

Foram oito tapas de pé direito até entregar a bola para Pikachu e fazer a ultrapassagem. De uma área à outra em dez segundos e nove toques apenas.

Como num tango, onde um conduz e o outro acompanha, Cano seguiu seu companheiro de perto. E a cada toque na bola, como num passo de dança, uma olhada de Benítez para os lados, procurando o amigo ou alguém capaz de encontrá-lo. Não há tango sem par, os argentinos sabem disso.

Lucas Halter acompanhou o centroavante enquanto pôde, mas precisou sair do compasso quando Martín recebeu já perto da pequena área. Era a hora do movimento final.

Como um bom 10 argentino, desses que misturam talento e disposição, Benítez não pensou duas vezes e deslizou com os dois pés para impedir a antecipação de Halter. Se não era possível ser mais rápido – depois de percorrer o campo todo – e nem ter pernas mais longas, restou ao argentino ser mais esperto. Da cartola, o meia encontrou uma assistência de carrinho. O mais puro suco de raça e inteligência.

Cano, sozinho, teve menos trabalho que um boêmio no domingo. Estava completo o tango, no encontro dos dois companheiros naquilo que compartilham melhor: a bola.

O artilheiro é um simplificador de jogadas, alguém que define o lance com um simples toque, seja para marcar um gol ou inverter uma jogada. São 5 bolas na rede em apenas 11 finalizações no Campeonato Brasileiro. Já o meia é o motor do time, líder de desarmes (14), de interceptações (10) e de passes decisivos (10).

Cano e Benítez se completam.

Defensivamente, não faltou nada ao Vasco. Fernando Miguel, Marcelo Alves, Miranda e Neto Borges, principalmente, impediram o empate. No ataque, do pouco que o Vasco lá esteve, mais uma vez prevaleceu o talento argentino.

Ainda que o sofrimento, típico do tango, tenha durado até o apito final.

* Com números do Sofascore



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