O sonho de Thalles



Thalles marcou os gols do acesso (Foto: Alex Carvalho/AGIF)

Thalles marcou os gols do acesso (Foto: Alex Carvalho/AGIF)

Eu nunca fui o Thalles. Mas hoje eu quis ser.

Passei dos 21 anos – já tenho 31 – sem jamais ter vestido a camisa do meu clube de coração em um jogo. Nem treino. Quem dirá em partida decisiva…

Só em uma peneira no Vale do Cuiabá, em Petrópolis – local destruído durante as chuvas em 2011 na região -, em 98 ou 99, sob o comando de Vivinho. E olhe lá. E valeu a vida.

De resto, só arquibancada.

Mas sonhei, muitas vezes. Certeza que você também, independente da camisa que imaginou vestir.

O pé que encerrava todo cruzamento faceiro era o meu. Quem nunca desistia das bolas era eu. Sonho até hoje com isso. Muitas vezes acordado. Me recuso quase sempre a acordar. Ou deixar a bola passar.

E o gol sempre vem, em meus sonhos, no momento mais difícil. No fim do jogo, na decisão, em um clássico, no recorde de público… Amar algo é sempre imaginar o ápice, nunca o meio.

Thalles também sonhou. E realizou.

Poderia ter sido eu ou você, mas foi ele. Talvez um dos únicos vascaínos de alma no gramado. Mesmo que contestado – inclusive por mim.

Foi no seu pé esquerdo que o rebote de Éverson caiu. O pior possível, o único improvável. Bateu direito, firme, como imaginara na infância. Como viu diversas vezes seu ídolo Edmundo fazer. Agora, realizou como homem.

O Maracanã, ainda que parecendo apenas um clichê de ‘Black Mirror’, mais um reflexo exagerado do que uma realidade concreta, segue escolhendo seus heróis. Ele olha na alma de quem merece o título. Não elege por número da camisa ou sorriso mais solto.

O Maraca gosta de quem tem o choro livre, abençoa a pedra mais bruta. Mas que brota.

Abraça Cocadas e Carvoeiros sem distinção de sabor. E mantém a gostosa tradição.

Thalles chegou ao Vasco aos 11 anos e foi decisivo aos 21, no dia em que o futebol do clube comemorava 101. Carregava consigo um pouco do sonho de cada um que torce pelo clube. Aqueles 56 mil que representavam milhões.

Fez o segundo logo com o que diziam lhe faltar: a cabeça. Aquela mesma que foi batizada pela dona Guiomar e o seu Ubiracy. Pais que fizeram de tudo para lhe encher a barriga na infância e o cobram para diminuir hoje.

Thalles é tão humano em campo quanto o Vasco. Passível de erro, mas passional. Nunca passivo. Foi assim neste sábado, onde a arquibancada era só coração e quase nada razão.

Só um louco para esquecer o sofrimento de meses. Só 56 mil doidos para apoiar uma paixão de anos. De sonhos.

A lucidez é a fraqueza dos desalmados. Felizes daqueles que aderem à loucura num gigante de concreto. Ser maluco é a desculpa dos felizes. Ainda que seja necessário conhecer o sofrimento para isso.

O Vasco subiu. Quase como um drone camuflado carregando a camisa, sem alma ou sentimento. Se apegou aos poucos momentos de humanidade para trazer para si mais de 50 mil cruz-maltinos no Maracanã.

Torcedores que foram aplaudir a cruz, não carregá-la. Mas a empurraram.

Para cima.



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