O que mudou e o que precisa mudar no Vasco de Sá Pinto



Talles não tem feito bons jogos (Foto: Celso Pupo/Vasco)

Trocar o treinador é a estratégia mais comum entre os dirigentes brasileiros quando enfrentam uma fase ruim. É a resposta mais rápida que se pode dar ao torcedor, junto do aviso de “eu tentei”. Porém, não necessariamente essa mudança significa uma evolução. Principalmente imediata. O Vasco atual é uma prova disso.

O Vasco de Sá Pinto tem uma ideia de jogo completamente diferente da de Ramon Menezes, seu antecessor. Não faz um jogo posicional, com saída de pé em pé desde o goleiro e com pontas abertos para dar amplitude. É uma equipe de mais força física, ligação direta e briga pela segunda bola.

É um time que conta com o apoio dos laterais por fora, enquanto que com Ramon, Henrique ficava junto dos zagueiros e Pikachu formava a linha mais à frente, por dentro. Com o corredor feito por Neto Borges e Léo Matos, Talles e Benítez ficam mais livres para criar pelo meio.

Na teoria, um outro Vasco. Na prática, um time com as mesmas deficiências. Mas, por quê?

A questão nunca foi apenas se o time joga com mais posse ou menos posse, se é posicional ou funcional, se marca em linha baixa ou alta, se ataca por dentro ou por fora, no 4-4-2 ou no 4-3-3… Tudo isso é válido, desde que bem treinado e executado. Para treinar, precisa tempo. E pra executar, precisa de peças. Duas coisas que faltam ao Vasco.

Para atacar com transições a equipe tem que ter organização e velocidade. Sá Pinto, além de não ter tempo para trabalhar os movimentos – e é provável que não tenha em 2020 – , não possui peças com essa virtude. Leo Gil e Andrey são dois volantes que aceleram o jogo através do passe, não conduzindo. Para funcionar, precisam de opções mais à frente.

Benítez não vem bem fisicamente, conviveu com lesões musculares nos últimos meses, ainda assim, é o ponto de esperança do vascaíno. Já Talles Magno tem tido dificuldades para carregar a bola, tanto que é segundo jogador com mais desarmes sofridos no Campeonato Brasileiro, com 42. O Vasco empaca na primeira linha de marcação, muito antes de chegar em Cano.

No banco, com características de velocidade, outros garotos como Talles: Lucas Santos, Gabriel Pec e Vinícius. O mais ‘experiente’ é Ygor Catatau, de 25 anos, mas que nunca disputou uma Série A. O colombiano Gustavo Torres, que estreou nesse fim de semana, pode ser uma opção, mas é um jogador mais físico, de jogo aéreo – 8 dos seus 12 gols pelo Atlético Nacional foram de cabeça -, do que técnico.

A outra opção ao jogo de transição é trabalhar a bola de pé em pé até encontrar os espaços, algo que Ramon tentava. Pra isso, no entanto, precisa de movimentação e jogadores capazes de dar um passe mais vertical. Mais uma vez, a única peça é Benítez. Carlinhos é quem mais se aproxima do argentino em relação à característica. Ou seja, num elenco de 40 atletas, apenas dois possuem essa capacidade. É muito pouco.

O Vasco conseguiu apenas 8 finalizações em gol nos três jogos de Brasileiro com Sá Pinto. Pouquíssimas chances claras geradas. Contra o Palmeiras, nesse domingo, apenas uma, com Cano. Passe exatamente de Benítez.

Atacar é mais difícil do que defender. Sem atletas com essas qualidades, torna-se praticamente impossível.

Então, ainda que se defenda bem, a bola morre sem chegar ao ataque e retorna para o adversário, que pressiona até encontrar uma falha defensiva para marcar. Exatamente como foi neste domingo, contra o Palmeiras.

O Vasco permitiu poucas finalizações ao Palmeiras, mas muitas ações ofensivas. Assim como nos jogos com Corinthians, Goiás e Caracas, cedeu ao adversário poucos espaços por baixo – com exceção aos contra-ataques. Por outro lado, com linhas muito baixas e sem pressão na bola, permitiu um número alto de levantamentos na área e bolas longas atacando a última linha.

O pênalti cometido por Neto Borges em Lucas Lima ilustra bem isso.

A jogada foi iniciada por Gustavo Scarpa na intermediária, livre, com tempo pra levantar a cabeça e escolher a melhor opção na entrada da área. O espaço inicial foi dado no meio-campo, como já havia sido permitido antes, numa boa chegada de Rony. Aliás, como foi permitido durante toda a partida, tanto que os paulistas tiveram 62% de posse na 1ª etapa.

Somados, Miranda, Castán e Ricardo Graça precisaram fazer 13 cortes, 7 interceptações, 3 desarmes e ainda ganharam 9 bolas aéreas. Neto e Léo Matos, quem fechavam a linha de cinco, também tiveram trabalho. O lateral-esquerdo foi o líder de desarmes da equipe, com cinco, seguido de perto por Léo, com três. Borges ainda precisou disputar 19 duelos pelo chão, ganhando 14 deles. Matos, outros 15, vencendo 7.

Ou seja, a linha defensiva do Vasco teve trabalho. Por quê? Porque não houve pressão no meio-campo, permitindo as tentativas de passe por dentro e por fora do Palmeiras. Bastou um erro individual para ir para a marca da cal e definir o jogo.

Incapaz de criar, a equipe de Sá Pinto não esboçou nenhum pressão com cara de que faria o gol. Nem mesmo quando passou a jogar com um a mais, após a lesão de Felipe Melo – Palmeiras já havia feito cinco alterações. Nem mesmo no chuveirinho, que é uma característica dos times do técnico português.

O Vasco mudou a sua forma de jogar com o novo treinador, mas não evoluiu. Continua no mesmo patamar que estava antes, igualando agora a sua pior série sem vitórias na história do Campeonato Brasileiro. É claro que Sá Pinto precisa de tempo, mas será que o Vasco terá? O calendário mostra que não.

O efeito “fato novo” não funcionou.

Pra quem achava que o obstáculo estava apenas no técnico, hoje é cada vez mais claro que o problema do clube é muito mais profundo…



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