O primeiro gol



Tiago Reis marcou seu primeiro gol como profissional (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

No álbum de infância, um remendo. No fim da última página, logo após o primeiro cacho de cabelo cortado, um retalho colado, ainda em branco, a espera de ser preenchido. Os espaços para as anotações da primeira papinha, do primeiro engatinhar e dos primeiros passos já foram preenchidos. Só resta um: a foto do primeiro gol.

Acoplado ao velho álbum dias após a primeira pelada do garoto, ainda miúdo, no campo barrento da rua ao lado, é o espaço dedicado ao fim do ciclo infantil, onde se sonha, e o início da vida adulta, onde se realiza. O pai sabia que o rebento vingaria. O menino, por sua vez, sonhava. Dormia com a bola e passeava de chuteiras.

Ver a rede balançar é o sonho de todo garoto que um dia chutou por entre traves de chinelo e teve que correr para pegar a bola de volta, às vezes sem ter tempo até para comemorar.

Não sei se é bem essa a história de Tiago Reis, mas é a de muitos garotos, em sua maioria plebeus.

Não há um torcedor sequer que não tenha sonhado um dia em marcar um gol como jogador profissional. O tento de Tiago Reis, o seu primeiro pela equipe principal do Vasco, contra o Resende, nesta quarta-feria, portanto, é o sonho de muitos, realizado por poucos. Por isso é tão especial.

O centroavante quis abraçar os pais após o gol, como revelou em entrevista pós-jogo. Na ausência física, correu para os companheiros, sua nova família. Desde os 14 anos longe dos braços dos parentes, vive a realidade do futebol que poucos contam. Nesta quarta, viveu também o sonho. Ou melhor: o início dele. E por mérito.

Enquanto uns têm um apresso excessivo pela bola, colando-a nos pés como chiclete, Tiago mostra, desde os juniores, uma vontade imensa de guardá-la no primeiro toque em seu local predileto: as redes. É um finalizador no mais amplo significado da palavra. Um definidor de jogos e jogadas. Há quem ache ser uma limitação, eu prefiro olhar como uma especialidade.

Ele sabe que a bola, antes de tudo, pertence ao gol, não a ele. E, por isso, a tenta levar para casa com o mínimo de toques possíveis.

Foram quatro tentativas do atacante em todo jogo, todas elas concluídas na direção do gol. Nenhuma para fora. Um faro natural de quem parece ter nascido para o ofício. Um talento para o gol mostrado pelo menino de Brasília desde os tempos de Goiás, quando marcou 46 vezes em uma mesma temporada, em 2016, pelo sub-17 do Esmeraldino. E que manteve no sub-20 vascaíno, balançando as redes em 21 oportunidades nos 25 jogos em que atuou desde a sua chegada ao clube, em agosto do ano passado.

Ninguém fez tantos gols pelo Vasco nestes sete meses, entre sub-20 e profissional. Por isso, ninguém merecia tanto uma chance quanto Tiago. E aproveitar oportunidades não parece ser um problema para o artilheiro, certeiro como o Big Ben.

Falcão, ídolo do Internacional, disse certa vez que o jogador morre duas vezes: a primeira delas, quando se aposenta dos gramados. Se isso for verdade, podemos dizer que ele também nasce em duas oportunidades. A última delas, no primeiro balançar das redes, quando o som volta a ensurdecer, o choro anuncia uma nova chegada e os braços dos pais não mais acolhem, mas se despedem da criança que se tornou adulto.

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