O presente de aniversário do Vasco



Cano marcou seu 3º gol no Brasileiro (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Nem o vascaíno mais otimista poderia imaginar que o Vasco chegaria no dia do seu aniversário de 122 anos como líder do Campeonato Brasileiro. Mais que isso: é líder, com um jogo a menos, o melhor ataque, a melhor defesa, o melhor saldo de gols e dois de seus jogadores no topo da artilharia. Qualquer um que apareça agora com uma cartolina sobre a cabeça dizendo “Eu já sabia” pode ser definido como sarcástico.

Existe um caminho longo entre desejo e certeza, entre vontade e realidade. E o torcedor do Vasco sabia – e sabe – das dificuldades. Aliás, mais do que qualquer um que não seja cruzmaltino. O vascaíno vive o Vasco. Exatamente por isso merece celebrar o bom momento.

O futebol não é um esporte onde se aguarda o fim sentado, imóvel, como num filme qualquer da Sessão da Tarde. A grande graça está exatamente na trajetória, nos sentimentos envolvidos na caminhada. Ainda mais nos pontos corridos, onde a vitória do início vale tanto quanto a do fim.

Quem não entende isso, essa simbiose entre time e torcida, talvez não entenda o que é o futebol.

Há oito anos que o Vasco não começava a competição com três vitórias consecutivas. Há oito anos que o Vasco não entrava no G4. Há oito anos que o Vasco não terminava uma rodada na liderança.

Há oito anos, 10 dos 16 vascaínos que entraram em campo na vitória por 3 a 0 sobre o Ceará, nessa quinta-feira, ainda não eram profissionais. Há oito anos, Talles Magno e Bruno Gomes sequer poderiam assistir Detona Ralph sozinhos no cinema.

Oito anos, pra quem tem 60, é pouco. Para os que tem 18, é uma outra vida.

Oito anos é muito tempo. Tanto tempo, que não faz sentido o torcedor esperar mais um pouco para estampar um sorriso no rosto.

Li algumas pessoas dizendo que o Vasco não tem jogado bem, e é verdade. Mas qual time está?

O Atlético de Sampaoli, intenso e agressivo, mas cheio de buracos defensivos? O Flamengo, que ainda não se achou com Domènec? O Palmeiras de Luxemburgo, criticado mesmo sendo campeão paulista? O São Paulo de Diniz, que perdeu em São Januário não faz uma semana? Ou o Santos, que vem perdendo jogadores?

Lá na frente, o cenário pode mudar. É até provável que aconteça. Mas o momento atual é simples: ninguém encanta. Logo, o mais eficiente se sobressai. E ninguém tem sido mais eficiente que o Vasco. Sofre pouco na defesa e é efetivo no ataque.

A liderança do Vasco não veio ao acaso, faz parte de um contexto. Faz parte, inclusive, dessas gratas surpresas que o futebol proporciona. Vasco líder com gol do Ribamar?! Fellipe Bastos artilheiro?! Apesar do folclore, tem a mão de Ramon.

Antes de colocar o atacante em campo, o áudio da transmissão de tv captou o treinador passando as orientações para o jogador e fazendo uma espécie de premonição: “Vai por ali que você vai fazer o gol”. Não se sabe com precisão onde seria o “ali”, mas certo é que o gol saiu.

Tão certeiro quanto a chegada de Fellipe Bastos para finalizar, uma das características dessa equipe. Assim como é característica a pressão alta, que resultou no primeiro gol, anotado por Cano. Mais uma vez um tento originando de um desarme de Benítez e com uma assistência de Andrey, tal qual contra o Tricolor Paulista.

Se há repetição, não é ao acaso.

Não é novidade para ninguém que o elenco do Vasco é limitado e que o clube tem vários problemas internos que afloram principalmente em ano eleitoral. Exatamente por isso o trabalho de Ramon merece elogios. Ser líder com tantos problemas deveria contar mais, certo?

São cinco jogos e cinco vitórias desde a estreia do técnico, que assumiu no lugar de Abel Braga. Tem como ser melhor? Sempre tem. Mas se o argumento de que treinadores precisam de tempo para estruturar suas equipes serve para quem perde, por que não serviria para os que vencem? Por que o processo com Ramon, que tem um grupo mais limitado, inclusive com desfalques, deveria ser mais rápido do que de seus concorrentes?

O Vasco tem muitas deficiências, é verdade, e esteve muito longe de fazer um grande jogo contra o Ceará – assim como contra o São Paulo. Tem sofrido demais quando pressionado na saída de bola. Sem Vinícius e Pikachu, perdeu sua válvula de escape em velocidade pela direita. Falta aproximação em todas as fases do jogo. E ainda assim, venceu. Três vezes seguidas.

No ano passado, esse mesmo Vasco foi melhor que o Cruzeiro no Mineirão e acabou derrotado. Foi melhor que o Grêmio no Sul e sofreu uma virada no fim. Foi superior à Chapecoense e cedeu o empate. E assim é o futebol.

A questão a ser debatida, hoje, não é se o Vasco tem fôlego pra chegar primeiro ao topo, mas o quanto de ar ele conquistou em apenas três jogos para ter um caminho mais tranquilo do que teve nos últimos anos. E esse mérito me parece indiscutível.

Estar na liderança do Campeonato Brasileiro no dia do seu aniversário é simbólico. Para o clube e para a sua torcida. Estar novamente no topo é o presente que há tempos sonha o torcedor. Agora, uma realidade.



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