O perigoso flerte do Vasco



Fernando Miguel não conseguiu parar a bola de Everaldo (Foto: Rodrigo Coca/Corinthians)

O vascaíno mais otimista se apega à melhora no desempenho do time na partida contra o Corinthians para vislumbrar um futuro melhor. Com razão. A equipe, na estreia do técnico Ricardo Sá Pinto, sem seus dois melhores jogadores – Benítez e Cano – teve 63% de posse de bola, finalizou mais vezes que o adversário (17×12), sendo o dobro no alvo (8×4). Não foi uma atuação de gala, mas foi superior ao habitual.

O pessimista, claro, olha para o resultado: uma nova derrota, dessa vez em casa, por 2 a 1, para um adversário direto na briga na parte de baixo. São cinco jogos sem pontuar no Brasileiro, a pior marca desde 2015. Com o agravante do velho roteiro conhecido: gol sem querer nos minutos finais. Quem lembra dos duelos contra Coritiba e Figueirense, em 2015, deve ter sentido um arrepio na espinha quando viu a bola de Everaldo entrar.

Não há ponto certo ou errado no olhar. Os dois, a sua maneira, têm razão. O problema aqui é que um diz respeito ao futuro e o outro ao presente. E o futuro, como sabemos, é sempre incerto.

Oscilando entre um e outro, o que mais me chama a atenção é o flerte incontrolável do Vasco com a zona de rebaixamento. É aí que desempenho e placar se cruzam: na incapacidade de vencer mesmo quando é superior. É como se um – o resultado – anulasse o outro – desempenho. Não dá pra separar um do outro.

Nos jogos mais difíceis, o Vasco sucumbiu naturalmente. Nos duelos em que foi melhor, também.

O jogo contra o Corinthians não foi uma exceção.

O mesmo ocorreu contra o Coritiba, quando praticamente doou um gol de pênalti no fim quando vinha melhor na partida. No clássico com o Flamengo, apesar do contexto diferente em relação ao nível técnico, também não conseguiu se manter à frente do placar, mesmo com uma boa exibição. Sequer segurou um empate. Assim como quando saiu na frente contra Atlético Goianiense e Bragantino, em São Januário, e cedeu a virada e o empate, respectivamente, em sequência.

O Vasco quando sai atrás não reage e quando larga na frente não sustenta. A lista de times que podem, ao menos na teoria, ser vencidos pelo Vasco é cada vez mais menor. E os jogadores parecem sentir isso. Os pontos deixados pelo caminho são cada vez mais difíceis de recuperar. Mesmo com uma leve melhora de desempenho.

Além da limitação técnica do elenco que já é conhecida, o Vasco se mostra cada vez mais frágil psicologicamente. E esse é um agravante perigoso. A espiral da queda é uma velha conhecida do clube.

Nada atrai mais uma derrota do que um semblante frustrado, uma cabeça baixa aos 20 minutos do 1º tempo. Tem sido algo comum entre os vascaínos. Tanto que a confiança foi tema de algumas entrevistas de Sá Pinto nos seus poucos dias em São Januário. Mais até do que a parte técnica ou tática.

O pior momento do Cruz-Maltino no jogo desta quarta-feira foi logo após sofrer o primeiro gol. Ao invés de buscar o empate rápido, a equipe se encolheu. Foi o único momento da partida onde os corintianos tiveram mais posse e conseguiram pressionar, inclusive botando uma bola na trave. Poderia ter matado o jogo, como fizeram Atlético Mineiro, Bahia e Internacional.

Castan, capitão do time, que deveria ser exemplo pela experiência, tomou o cartão amarelo que o suspendeu do próximo confronto minutos depois do 1 a 0. Andrey também esteve perto de receber. Cayo Tenório e Henrique “cortaram” bolas para dentro da própria área, numa clara demonstração de insegurança. Confundem vontade e raça com desorganização e afobamento.

A equipe é tão instável, que Leo Gil, estreante da noite, precisou de apenas 37 minutos em campo para se tornar uma ilha de lucidez em meio ao mar de decisões precipitadas que é o time. Não é apenas qualidade técnica – e o argentino mostrou que tem muita -, mas também equilíbrio. O próprio Sá Pinto também falou sobre isso após o jogo, em coletiva.

É claro que o problema do Vasco não é apenas a estrutura emocional, mas é também. E parece estar atrelado diretamente ao desempenho individual e coletivo do time, principalmente quando sofre gols. O time é incapaz de dar uma resposta positiva.

Se o volume ofensivo do time contra o Corinthians, mesmo sem Benítez e Cano, teve uma melhora – muito por conta da boa atuação de Carlinhos -, a conclusão das jogadas continuou ruim. E não me refiro apenas às finalizações, mas ao todo. O chute precipitado de Parede quase no fim da partida, quando o placar ainda estava 1 a 1, quando Talles estava livre pela direita, ilustra bem isso. As tomadas de decisões são quase sempre equivocadas, impulsivas.

Defensivamente, os mesmos problemas recorrentes. Principalmente na marcação pelos lados – gol de Everaldo – e na recomposição defensiva, quase sempre lenta – gol de Mantuan e os dois do Internacional no fim de semana. Então, não dá pra colocar apenas na conta do azar.

Sá Pinto terá muito trabalho pela frente.

Mais do que encaixar o seu 4-2-3-1, já implantado na estreia, e a pressão pós-perda, que não funcionou, terá que restaurar a confiança de um Vasco cada vez mais cabisbaixo. Um time cada vez mais derrotado de véspera.



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