O pênalti debochado e o camisa 9 receoso



De pênalti, Pikachu fez o gol do clássico (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

O Vasco venceu o Fluminense, neste sábado, por 1 a 0, com gol de Yago Pikachu, de pênalti. Poderia ter saído de tantas outras formas, inclusive pelos pés tricolores, que mais atacaram durante toda a partida – e foi bem defendida pelo cruz-maltino. O tento, porém, decidiu sair de forma irônica.

Há, pra mim, um deboche natural em todo pênalti batido no meio do gol. Até mesmo os sem cavadinha. Disse debochado, e acrescento: é uma cobrança esnobe. Isso porque ela não foge do goleiro, muito pelo contrário! Ela vai na direção dele, oferecida, como se duvidasse da sua existência. Ela o ignora, com a arrogância de um adolescente mal criado. E o faz sair da frente sem sequer pedir licença.

No caso de Pikachu, com um agravante: a chute saiu a meia altura, ao nível dos olhos do arqueiro, para que ele soubesse que ela poderia ser sua, ter morrido em seus braços, se não fosse tão apressado. É como se ela, a bola, tivesse um salvo-conduto para o gol. Um passaporte especial que lhe dá entrada em qualquer trave, inclusive na do Mané.

Ou talvez seja isso, o estádio.

No campo que leva o nome de Garrincha, a bola é livre para ser feliz – apesar da areia no gramado muitas vezes me desmentir. Na marca da cal, ela vê as traves como pernas a serem transpostas com leveza, doçura, e o meio, uma passagem improvável e vexaminosa, como no mais belo drible, limpo, central, ignorando também qualquer outro movimento. Ela simplesmente segue a sua trajetória, e os outros, que a tentem acompanhar.

Na contramão disso, surge o artilheiro estéril. Se no pênalti de Pikachu a bola desconheceu qualquer existência ou obstáculo, o goleador tímido, aquele que quase se constrange ao balançar as redes em público, como se fosse algum ato libidinoso e proibido, parece enxergar monstros e fantasmas entre ele e o gol. Assim foi Ribamar, a quem me referi em um texto sobre a sua chegada a São Januário, como um artilheiro semi-eunuco.

Veja bem, não acho Ribamar mau jogador, e já disse aqui em outras oportunidades. É alto, forte, jovem, rápido, combativo, tem um bom pivô, mas não sabe fazer gols. É um churrasqueiro especialista em drumet, mas que queima a picanha. Um crime para um centroavante – e para um churrasqueiro. E o que fez nesta noite, no clássico, foi um atentado.

Ora, um camisa 9 pode pecar em diversos aspectos, inclusive na pontaria. Ele pode ter dificuldades até para amarrar as chuteiras, se for caso, não há problema algum. Porém, de forma alguma, ele pode demonstrar acanhamento ou excesso de zelo na frente do gol. Ribamar foi além: refugou sem goleiro, numa atitude totalmente contrária a natureza da bola, que viu as redes tão perto e tão longe.

Ela, implorou pelo chute. Ele, pela vaia.

Um artilheiro há de ter, antes de tudo, o egoísmo do mérito. Tem que querer, mais que ninguém, a glória do gol. Assim como quis Maxi López, já nos acréscimos, quando tinha Andrey melhor posicionado. Ali, ao menos, havia uma melhor opção, a de Ribamar não. Era ele só ele e o gol, até que veio o medo da consagração.

Por sorte, a bola ainda tem outros pés que a levam até o gol.

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