O lado certo



Vasco é campeão da Taça Guanabara 2019 (Foto: Alexandre Loureiro/Eleven)

Escrevi aqui, certa vez, que um estádio vazio é um coração que não pulsa, um órgão que perde completamente a sua função. Numa final, não dá para romancear: é uma imbecilidade. É a ignorância de quem acha que torcedor é um mero consumidor de um produto, um adereço qualquer de fundo, e não parte fundamental do espetáculo.

O que se faz de casa, no sofá da sala, é assistir ao jogo. Torcer, em sua plenitude, é um ato que somente é possível no estádio. Tirar isso de uma decisão é amputar o futebol. Proteger o torcedor é colocá-lo dentro do estádio, com segurança e futebol, não mantê-lo do lado de fora, com bombas e tiros.

O lado certo da torcida, seja ela vascaína ou tricolor, não é o Sul ou o Norte, é o de dentro. Este sim por direito. De todos.

Foram 30 minutos de um Maracanã melancolicamente silencioso em seu interior e barulhento, truculento, do lado de fora. Pela pequenez de dirigentes que se apegam a batalhas irrelevantes, a lado que não o certo, transformaram mais um domingo no Rio de Janeiro que deveria ser de futebol em caso de polícia, de Justiça e injustiça.

Na estreia do Vasco no Estadual, disse aqui que o ano começava na primeira vaia. Nesse domingo, o start da torcida foi ainda mais significativo: a partida só começou quando se ouviu o primeiro grito vindo das arquibancadas. Não se sabia, até então, se o que ocorria no Maracanã era uma decisão de Taça Guanabara ou uma aula coletiva de yoga, tamanho o silêncio no estádio.

A entrada da torcida foi vagarosa mas barulhenta. Cada um que colocava os pés nas arquibancadas soltava o grito como se marcasse seu próprio gol. No Brasil é assim, ter o direito respeitado, ainda que parcialmente, é motivo para comemorar. Isso porque o natural é a falta de respeito.

Conforme os torcedores preenchiam as arquibancadas – vascaínos em sua esmagadora maioria – , o Maracanã ganhava alma e brilho. O jogo, idem.

Os times voltaram do intervalo com uma atmosfera completamente diferente de quando entraram. Antes silencioso como um mosteiro, o Maracanã passou a pulsar com se antecipasse o Carnaval. Extinguiu-se, ali, no grito, o clima de amistoso instaurado no duelo.

O Fluminense girava a bola como um pescador puxa a isca na água. Nem tão devagar ao ponto de não ser atrativa e nem tão rápida que não fosse capaz de ser alcançada. Esperava o momento certo de fisgar o bacalhau. Corre-se o risco sempre, porém, de se voltar com o anzol vazio. Foi o que ocorreu.

Na virada, Alberto Valentim tirou Bruno César, colocou Rossi pela direita, centralizou Pikachu e adiantou Lucas Mineiro para tentar pressionar a saída de bola tricolor. Durante 71,9% do tempo a bola esteve nos pés de um jogador do Flu. O Vasco seguiu sem ela, mas mudou a sua postura nesse momento.

E se o técnico foi o responsável pelas mudanças de posicionamento, foi o torcedor o incumbido de dar coração ao time.

Veja bem, o vascaíno não foi convidado a ir ao Maracanã. Muito pelo contrário. Ele foi orientado a ficar em casa como se fosse um abajur qualquer, sem alma. Inclusive os que compraram ingressos. Em seguida, foram proibidos de ir. Inclusive os que compraram ingressos. Os que lá entraram, precisaram primeiro fugir das bombas e dos tiros da polícia, como se fossem indesejados no local, numa inversão completa de função. Da polícia, que agride ao invés de proteger, e da torcida, que é expulsa e não acolhida.

Não sairiam de lá, portanto, sem a vitória.

Aos 29 minutos, impacientes com a posse do Tricolor, embalaram a corrida de Rossi até o goleiro Rodolfo. O raro chutão do goleiro mostrou o caminho da vitória ao Vasco. Pouco tempo depois, em pressão de Maxi López, Digão mandou para a lateral. Ali, no empurrão do seu torcedor, o Cruzmaltino passou a incomodar a saída do Flu cada vez mais próximo de seu gol.

Sentindo o momento do time, Valentim lançou Ribamar no lugar de Raul e fortaleceu a parede ofensiva que seria responsável por impedir os avanços da equipe de Fernando Diniz ainda em seu campo. E o efeito foi rápido. Um minuto depois, aos 34, Rossi desarmou Marlon e sofreu falta.

Danilo Barcelos bateu de esquerda, no canto direito do gol que fica no lado Sul. A bola ainda desviou da canhota de Marrony e tocou o chão e o teto da rede antes de ouvir o grito do torcedor. Vários lados de uma mesma bola que gira sem canto mas cheia de encantos. Uma bola que não tem lado, apesar das curvas que faz. E que, por causa de sua torcida, não se curva à pequenez de quem a chuta por maldade, fora do campo, não por gentileza, dentro dele.

O lado que importa não é o da direita ou o da esquerda, mas o certo. E esse lado é o qual se olha primeiramente para as pessoas. Por esse, porém, poucos brigam. Principalmente no futebol, infelizmente.

Por muito pouco não tivemos uma volta olímpica solitária, uma taça erguida para ninguém, um gol de final silencioso. Em resumo, um jogo sem alma.

E isso só não ocorreu porque quase 30 mil vascaínos se recusaram a ficar em casa num dia de final. Pra eles, o lado que mais importa é ao lado do clube que amam.

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